A BATALHA DE CDIS
CHRISTIAN JACQ

SRIE RAMSS
vol. 1
U Filho da Luz
Vol. 2
O Templo de Milhes de Anos
	Vol. 3
A Batalha de Kdesh
Vol. 4
A Dama de Abou Simbel
Vol. 5
Sob a Accia do Ucidente

3  EDIO
Traduo
Maria D. Alexandre
BERTRAND BRASIL

Todos os direitos reservados pela
BCD UNIO DE EDITORAS S.A.
Av. Rio Branco, 99 - 20 andar - Centro
20040-004 - Rio de Janeiro - lJ
Tel.: (021 ) 263-2082 - Fax: (021 ) 263-6 ) 12
No  permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por
quaisquer meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.
Atendemos pe% Reembolso Postal.
MAPA DO EGITO
MAPA DO ANTIGO ORIENTE PRXIMO
ou Novo Imprio
1
U cavalo de Danio galopava pela pista superaque-
cida que levava  Manso do Leo, um pequeno povoado da Sria do
Sul, fundado pelo ilustre tra Sethi. Filho de pai egpcio e de me
sria, Danio dedicara-se  honrosa profisso de mensageiro, especia-
lizando-se na entrega de mensagens urgentes. A administrao egpcia
fornecia-lhe o cavalo, a alimentao e o vesturio; Danio tinha direito
a uma moradia oficial em Sil, cidade fronteira do Nordeste, e
alojava-se gratuitamente nos postos dos correios. Em suma, uma bela
vida, viagens constantes e o encontro com srias pouco esquivas,
desejosas de casar com um funcionrio que fugia correndo logo que
a relao comeava a assumir um carter mais srio.
Danio, cujos pais haviam descoberto a verdadeira vocao graas
ao astrlogo da aldeia, no suportava ficar preso, nem mesmo nos
braos da mais deliciosa amante. Nada era mais importante para ele
do que um espao e uma pista poeirenta para percorrer.
Escrupuloso e metdico, o mensageiro era muito considerado
pelos seus superiores. Desde o incio de sua carreira, nunca perdera
uma nica mensagem, e muitas vezes ultrapassara os horrios obriga-
trios para satisfazer um expedidor apressado. Distribuir as mensa-
gens o mais depressa possvel era o seu sacerdcio.
Quando da subida de Ramss ao trono, depois da morte de
Sethi, Danio receara, como muitos egpcios, que o jovem fara fosse
um cabo-de-guerra e que lanasse o seu exrcito  conquista da sia,
na esperana de reconstituir um imenso imprio, tendo o Egito como
centro. Durante os quatro primeiros anos do seu reinado, o intrpido
Ramss ampliara o templo cle I.uxor, terminara a gigantesca sala de
RAMSS
colunas de Karnak, iniciara a construo do seu templo de milhes
de anos na margem oeste de Tebas e construra sua nova capital no
Delta, Pi-Ramss; no modificara em nada a poltica externa do pai,
que consistia em manter um pacto de no-agresso com os hititas, os
temveis guerreiros da Anatlia. Estes pareciam ter desistido de atacar
o Egito e respeitavam o seu protetorado da Sria do Sul.
O futuro se apresentaria sorridente, se a correspondncia mili-
tar entre Pi-Ramss e as fortalezas do Caminho de Horus no tivesse
aumentado em propores fora do normal.
Danio interrogara seus superiores e questionara alguns oficiais;
ningum sabia de nada, mas falava-se de problemas na Sria do Norte
e at na provncia de Amurru,* sob o domnio egpcio.
Era evidente que a finalidade da correspondncia que Danio
transportava era orientar os comandantes das fortalezas do Caminho
de Horus, a linha de fortificaes do Nordeste, para logo ficarem em
estado de alerta.
Graas  vigorosa ao de Sethi, Cana,** Amurru e a Sria do
Sul formavam uma vasta zona de proteo ao Egito de uma possvel
,invaso. E verdade que era necessrio vigiar constantemente os
prncipes dessas regies agitadas e, muitas vezes, cham-los  razo;
O ouro da Nbia rapidamente acalmava as idias de traio que
renasciam em cada mudana de estao. A presena de tropas egpeias
e as paradas militares associadas a grandes festas, como a das colheitas,
eram outros meios eficazes para manter uma frgil paz.
Por diversas vezes, no passado, as fortalezas do Caminho de
Horus tinham fechado as suas portas e interditado a qualquer estran-
geiro a passagem pela fronteira; os hititas nunca as atacaram, e o receio
de violentos combates desvanecera-se.
Danio continuava, portanto, otimista; os hititas conheciam o
F.r.
valor do exrcito egpcio, e os egpcios receavam a violncia e a
crueldade dos anatlios. Os dois pases, que se arriscavam a sair
arrasados de um conflito direto, tinham interesse em manter-se nas
suas posies, contentando-se com desafios verbais.
* Correspondente ao Lbano atual.
** Cana englobava a Palestina e a Fencia. 
Ramss, mergulhado num programa de grandes feitos, no tinha
qualquer inteno de provocar um conflito.
Danio passou a galope em frente  estela que marcava o limite
da propriedade agrcola pertencente  Manso do Leo. Subitamente,
fez o cavalo estacar e deu meia-volta. LIm detalhe estranho havia-lhe
chamado a ateno.
O mensageiro apeou, ento, em frente  estela.
Indignado, constatou que o arco estava parcialmente danificado
e vrios hierglifos haviam sido martelados. A inscrio mgica,
tornada ilegvel, deixara de proteger o local. O responsvel por aquela
destruio seria severamente punido; deteriorar uma pedra viva era
crime passvel de pena de morte.
Sem dvida alguma, o mensageiro era a primeira testemunha
daquele drama, e se apressaria em relatar ao governador militar da
regio, que, assim que soubesse da catstrofe, redigiria um relatrio
detalhado para o fara.
LIm muro de tijolos rodeava a construo: de ambos os lados da


porta de acesso, duas esfinges deitadas. O mensageiro imobilizou-se,
estupefato: a maior parte do muro estava destr uda, e as duas esfinges
jaziam cadas de lado, partidas.
A Manso do Leo fora atacada.
Nenhum som provinha do povoado, geralmente animado
pelos exerccios dos soldados, treinamento dos cavaleiros, discus-
ses na praa central, perto da fonte, gritos de crianas, zurrar dos
burros... O estranho silncio apertou a garganta do mensageiro.
Com a saliva queimando-lhe a boca, destampou seu cantil e bebeu
um grande gole.
A curiosidade sobreps-se ao medo. Deveria voltar e alertar a
guarnio mais prxima, mas quis saber mais. Danio conhecia quase
todos os moradores da Manso do Leo - do governador ao
estalajadeiro; alguns eram amigos seus.
O cavalo relinchou e empinou; o mensageiro acalmou-o, acari-
ciando-lhe o pescoo, mas o animal recusou-se a avanar.
Foi a p que Danio entrou no povoado silencioso.
Sacos de trigo rasgados, jarros quebrados: nada restava das
reservas de alimentos e de bebida.
10 RAMSS
As pequenas casas de dois andares estavam em runas; nenhuma
escapara  violncia do inimigo, possudo de uma fria de destruio
que nem sequer poupara a moradia do governador.
Nem uma s parede do pequeno templo ficara de p. A esttua
divina fora partida com golpes de maa e decapitada.
E sempre aquele pesado e opressivo silncio.
Cadveres de burros nos poos. Na praa central, restos de uma
fogueira onde mveis e papiros haviam sido queimados.
E o cheirol
LIm odor viscoso, acre, nojento, invadiu-lhe as narinas e o
atraiu para o matadouro, situado no extremo norte do povoado,
sob um largo prtico ao abrigo do sol. Era ali que se esquartejavam
os bois mortos, coziam-se os pedaos de carne num grnde caldei-
ro e se assavam as aves no espeto. m lugar barulhento onde o
mensageiro sempre almoava, depois de distribuir sua correspon-
dncia.
Quando os viu, Danio conteve a respirao.
Estavam todos ali: soldados, mercadores, artesos, velhos, mu-
lheres, crianas, bebs. Todos degolados, empilhados uns sobre os
outros. O governador fora empalado, e os trs oficiais do destaca-
mento, enforcados na viga que suportava o teto da forca improvisada.
Numa coluna de madeira, uma inscrio em caracteres hititas:
"Vitria do exrcito do poderoso soberano do Hatti, Muwattali.
Assim perecero todos os seus inimigos."
Os hititas... Como de hbito, haviam efetuado um ataque
violento, no poupando nenhum dos seus adversrios; dessa vez,
porm, tinham sado da sua zona de influncia para atacar prximo
da fronteira nordeste do Egito.
O pnico apossou-se do mensageiro. E se o comando hitita ainda
estivesse por aquelas paragens?
Danio recuou, incapaz de afastar o olhar do horrvel espetculo.
Como era possvel ser to cruel e massacrar assim seres humanos,
deixando-os sem sepultura?
Com a cabea como que pegando fogo, Danio dirigiu-se para a
porta das esfinges.
Seu cavalo havia desaparecido.
A Batalha de Kadesh 11
Angustiado, o mensageiro perscrutou o horizonte, receando ver
ressurgirem os soldados hititas. Ento, l embaixo, no sop da colina,
percebeu uma nuvem de poeira.
Carros. .. Carros que vinham na sua direo!
Louco de terror, Danio correu at perder o flego.
2
Pi-Ramss, a nova capital do Egito criada por Ram-
ss no corao do Delta, j estava com mais de cem mil habitantes.
Envolvida por dois braos do Nilo, as guas de Ra e as guas de Avaris,
gozava de um clima agradvel, mesmo no vero; era atravessada por
numerosos canais, possua um lago que permitia deliciosos passeios
de barco e onde pequenos tanques cheios de peixes proporcionavam
belos exemplares aos amadores da pesca.


Bem abastecida por todo tipo de suprimentos provenientes dos
luxuriantes campos que a circundavam, Pi-Ramss recebera o apelido
de "a cidade de turquesa", devido  onipresena dos mosaicos azuis
polidos, de uma luminosidade excepeional, que enfeitavam as facha-
das das casas.
Na verdade, estranha cidade: aliava um mundo harmonioso e
calmo a uma cidade guerreira, dotada de quatro grandes casernas e
de uma manufatura de armas situada perto do palcio. H alguns
meses os operrios trabalhavam noite e dia, fabricando carros, arma-
duras, espadas, lanas, escudos e pontas de flechas. No centro da
fbrica, uma grande oficina de fundio dispunha de uma seo
especializada no trabalho do bronze.
LIm carro de combate, simultaneamente slido e leve, acabava
de sair da fbrica. Encontrava-se ainda no topo da rampa que conduzia
ao grande ptio com prtico onde ficavam enfileirados veculos do
mesmo tipo, quando o contramestre bateu nas costas do marceneiro
que examinava os acabamentos.
-Vejal L embaixo, no fim da rampa...  ele!
- Ele quem?
14 RAMSS
O arteso olhou.
Sim, era realmente ele, o fara, o senhor do Alto e Baixo Egito,
o Filho da Luz, Ramss.
Com vinte e seis anos, o sucessor de Sethi reinava h quatro anos
e se beneficiava do amor e da admirao do seu povo. Atltico, com mais
de um metro e oitenta, rosto alongado e emoldurado por uma magnfica
cabeleira louro-veneziana, testa alta e desanuviada, arcadas superciliares
salientes e sobrancelhas grossas, nariz longo, fino e um pouco aquilino,
olhar luminoso e profundo, orelhas redondas e finamente desenhadas,
lbios carnudos, queixo acentuado, Ramss possua uma fora que al-
guns no hesitavam em qualificar de sobrenatural.
Preparado intensivamente para o exerccio do poder por um pai
que o iniciara na funo de rei por meio de duras provas, Ramss
herdara a autoridade irradiante de Sethi, seu glorioso predecessor
Mesmo quando no envergava os trajes rituais, sua simples presena
impunha respeito.
O rei subiu a rampa e examinou o carro. Petrificados, o contra-
mestre e o marceneiro receavam sua opinio. Todavia, se o Fara em
pessoa inspecionava aquela fbrica sem aviso, isso provava p interesse
que dedicava  qualidade das armas que ali eram produzidas.
Ramss no se contentou com uma anlise superficial. Observou
cada uma das peas de madeira, experimentou a direo e verificou
a solidez das rodas.
f~  -Belo trabalho -considerou -mas seria necessrio verificar
a robustez deste carro no terreno.
-lsso est previsto, Majestade -afirmou o contramestre. -
Em caso de avaria, o condutor do carro nos indica a pea defeituosa
e procedemos a uma reparao imediata.
- Os incidentes so numerosos?
- No, Majestade, e a fbrica aproveita para retificar os erros
e melhorar o material.
- No se descuide desse esforo.
-Majestade... Posso lhe fazer uma pergunta?
- Estou ouvindo.
- A guerra. . . est prxima?
- Est com medo?
A Batalha de Kades 1 S
- Fabricamos armas, mas receamos um conffito. Quantos
egpcios morrero, quantas mulheres ficaro vivas, quantas crianas
ficaro sem pai? Que os deuses nos poupem de tal conflito!
- Que eles o ouaml Mas qual ser o nosso dever se o Egito
for ameaado?
O contramestre baixou a cabea.
- O Egito  a nossa me, o nosso passado e o nosso futuro -
recordou-lhe Ramss. - E toda me se d generosamente;  uma
oferenda a cada instante... Poderemos responder com ingratido,
egosmo e covardia?
- Ns queremos viver, Majestade!
- Se for necessrio, o Fara dar a sua vida para que o Egito
viva. Trabalhe em paz, contramestre.


Como a sua capital era radiantel Pi-Ramss era um sonho
realizado, um momento de felicidade que o tempo reforava dia aps
dia. O antigo lugar de Avaris, cidade maldita dos invasores vindos da
sia, fora transformado numa cidade encantadora e elegante, onde
as accias e os sicmoros ofereciam a sua sombra tanto aos ricos
quanto aos humildes.
O rei gostava de passear pelo campo de abundante vegetao,
percorrido por veredas ladeadas de ffores e de canais propcios aos
banhos; saboreava com prazer uma ma com sabor a mel, apreciava
uma cebola doce, percorria o longo olival que fornecia um azeite to
abundante quanto a areia na margem, respirava o perfume que emanava
dos jardins. O passeio do monarca terminava no porto interior, de
atividade crescente, rodeado por armazns onde se acumulavam as
riquezas da cidade, metais preciosos, madeiras raras, reservas de trigo.
Nas ltimas semanas, Ramss no deambulava nem pelo campo
nem pelas ruas da sua cidade de turquesa, passando antes a maior
parte do tempo nas casernas, em companhia dos oficiais superiores
e dos soldados de cavalaria e infantaria, que apreciavam as condies
de alojamento nas novas instalaes.
Os membros de carreira do exrcito, do qual faziam parte
numerosos mercenrios, alegravam-se com o seu soldo e com a
16 RAMSS
qualidade da alimentao. Entretanto, muitos queixavam-se do treino
intensivo e lamentavam ter-se alistado alguns anos antes, quando a
paz parecia garantida. Passar do exerccio, mesmo rigoroso, ao com-
bate contra os hititas no agradava a ningum, nem mesmo aos pro-
fissionais mais aguerridos. Todos receavam a crueldade dos guerreiros
anatlios, que ainda no tinham sofrido nenhuma derrota.
Ramss sentira o medo insinuar-se pouco a pouco nos espritos
e tentava lutar contra o mal, visitando sucessivamente as diversas
casernas e assistindo s manobras das diferentes tropas do exrcito.
O rei devia mostrar-se sereno e manter a confiana no seio das tropas,
quando a angstialhe roa a alma.
	Como podia ser feliz naquela cidade de onde Moiss, o seu
	amigo de infncia, fugira depois de ter dirgido as equipes de fabri-
	cantes de tijolos hebreus que tinham edificado palcios, villas e casas?
	 verdade que Moiss estava sendo acusado pelo assassinato de um
	egpcio, Sary, o cunhado do rei. Mas Ramss continuava a duvidar,
	pois Sary, seu antigo preceptor, conspirara contra ele e comportara-se
	de forma ignbil para com os operrios colocados sob as suas ordens.
	No teria Moiss cado numa cilada?
Quando no pensava no seu amigo desaparecido e serrpre
inatingvel, o rei passava longas horas em companhia do irmo mais
velho, Chenar, ministro dos Negcios Estrangeiros, e de Acha, o chefe
dos seus servios de espionagem. Chenar tentara tudo para impedir
o irmo mais novo de se tornar Fara, mas os seus fracassos pareciam
t-lo feito cair em si e levava a sua tarefa muito a srio. Acha, diplomata
inteligente e brilhante, era um dos camaradas de universidade de
Ramss e de Moiss, e gozava de toda a confiana do rei.
Todos os dias os trs homens examinavam as mensagens prove-
nientes da Sria e tentavam apreciar a situao com lucidez.
At que ponto o Egito poderia tolerar o avano hitita?
Ramss estava obeecado pelo grande mapa do Oriente Prximo
e da sia exposto no seu gabinete. Ao norte, o reino do Hatti,* com
a sua capital, Hattusa, no corao do planalto da Anatlia. Mais ao
sul, a vasta Sria, estendendo-se ao longo do Mediterrneo e atraves-
* A Turquia.
A Batalha de Kadesh 17
sada pelo rio Oronte. Principal praa forte do pas: Kadesh, sob o
domnio hitita. Ao sul, a provncia de Amurru e os portos de Biblos,
Tiro e Sidon, sob o domnio egpcio, e Cana, cujos prncipes eram
fiis ao Fara.
Oitocentos quilmetros separavam Pi-Ramss, a capital egpeia,
de Hattusa, a residncia de Muwattali, o soberano hitita. Devido 
existncia de um declive que ia da fronteira nordeste at a Sria central,
as Duas Terras pareciam ao abrigo de qualquer tentativa de invaso.
Mas os hititas no se contentavam com o stotus quo imposto por
Sethi. Saindo do seu territrio, os guerreiros anatlios tinham aberto
uma brecha na direo de Damasco, a principal cidade da Sria.
Pelo menos era essa a convico de Acha, com base nos relatrios


dos agentes de informaes. Ramss exigia certeza antes de se colocar
 cabea do seu exrcito, com a firme inteno de empurrar o adver-
srio para o norte. Nem Chenar nem Acha se atreviam a formular
uma opinio decisiva; era ao fara, somente ao fara, que cmpetia
pesar a sua deciso e agir.
Impulsivo, Ramss tivera vontade de contra-atacar desde o
momento em que soubera do avano hitita; mas a preparao de suas
tropas, a maior parte transferida de Mnfis para Pi-Ramss, exigiria
ainda vrias semanas, ou mesmo vrios meses. Essa demora, que o rei
suportava com alguma impacincia, talvez tivesse permitido evitar um
conflito intil: h quase dez dias que no chegava nenhuma notcia
alarmante proveniente da Sria central.
Ramss dirigiu-se para o viveiro do palcio, onde viviam, bem
cuidados, colibris, gaios, melharucos, poupas, abibes, bem como uma
multiplicidade de outras aves que gozavam da sombra dos sicmoros
e da gua dos lagos cobertos de ltus azuis.
Enquanto caminhava, estava convencido de que encontraria
nele, dedilhando no seu alade as notas de uma antiga melodia,
Nefertari, a grande esposa real, o seu doce amor, a nica mulher que
preenchia o seu corao. Embora no fosse de linhagem nobre, era a
mais bela das belas do palcio, e a sua voz, doce como mel, jamais
pronunciava palavras inteis.
Embora a jovem Nefertari estivesse destinada a uma existncia
consagrada  meditao como sacerdotisa reclusa num templo da
18 RAMSS
provncia, o prncipe Ramss apaixonara-se perdidamente por ela.
Nem um nem outro supunham que, unidos, formassem o casal real,
encarregado dos destinos do Egito.
Com cabelos negros brilhantes, olhos verde-azulados, aprecian-
do o silncio e o recolhimento, Nefertari conquistara a corte. Discreta
e eficaz, secundava Ramss e realizava o milagre de harmonizar a
rainha com a esposa.
Meritamon, a filha que dera ao rei, era parecida com ela.
Nefertari no poderia ter mais filhos, mas esse sofrimento parecia
deslizar sobre ela como um vento de primavera. O amor que construa
h nove anos com Ramss parecia-lhe uma das fontes de felicidade
do seu povo.
Ramss contemplou-a sem que ela o visse. Dialogava com uma
poupa, que esvoaava ao seu redor, soltava algumas notas divertidas e
pousava no antebrao da rainha.
- Est perto de mim, no  verdade?
Ele avanou. Como de costume, ela sentira a sua presena e o
seu pensamento.
- Hoje os pssaros esto nervosos - notou a rainha. -
Aproxima-se uma tempestade.
- O que se comenta no palcio?
-As pessoas atordoam-se, riem da covardia do inimigo, gabam
o poder das nossas armas, anunciam futuros casamentos, tentam
adivinhar eventuais nomeaes.
- E o que se diz do rei?
- Que se parece cada vez mais com o pai e que saber proteger
o pas da desgraa.
- Se os cortesos pudessem dizer a verdade. . .
Ramss tomou Nefertari nos braos e esta pousou-lhe a cabea
no ombro.
-Ms notcias?
- Tudo parece calmo.
- Cessaram as incurses hititas?
-Acha no recebeu qualquer mensagem alarmante.
- Estaremos prestes a entrar em combate?
- Nenhum dos nossos soldados tem pressa em enfrentar os
A Batalha de Kadesh 19
guerreiros anatlios. Os veteranos consideram que no temos qual-
quer chance de venc-los.
-  essa a sua opinio?
-Travar uma guerra dessa envergadura exige uma experincia
que no possuo. At mesmo o meu pai renunciara a entrar num
conflito to arriscado.
- Se os hititas modificaram a sua atitude  porque consideram
ter a vitria ao seu alcance. No passado, as rainhas do Egito lutaram


com todas as suas foras para manterem a independncia do seu pas.
Embora a violncia me horrorize, estarei a seu lado se o conflito for
a nica soluo.
De repente, o viveiro foi palco de uma ruidosa agitao.
A poupa foi empoleirar-se no ramo mais alto de um sicmoro
,
e os outros pssaros esvoaaram em todas as direes.
Ramss e Nefertari ergueram os olhos e viram um pombo-cor-
reio, num vo pesado; esgotado, parecia procurar em vo o seu ponto
de chegada. O rei estendeu os braos, num gesto de acolhimento. O
pombo pousou na frente do monarca.
Na pata direita estava preso um pequeno papiro enrolado, com
alguns centmetros de comprimento. Escrito em hierglifos mins-
culos, mas legveis, o texto era assinado por um escriba do exrcito.
 medida que ia lendo, Ramss tinha a sensao de que uma
espada penetrava a sua carne.
-Voc tinha razo -disse a Nefertari. -Havia uma ameaa
de tempestade.. . e esta acaba de se desencadear.
3
A grande sala de audincias de Pi-Ramss era uma
das maravilhas do Egito. Chegava-se l por uma escadaria monumen-
tal, adornada com figuras de inimigos vencidos. Elas encarnavam as
foras do mal, constantemente renascidas, que apenas o Fara podia
submeter a Mat, a lei da harmonia, de quem a rainha era o rosto
VlVU.
Em redor da porta de acesso, os nomes de coroao do monarca,
pintados em azul sobre fundo branco e colocados em placas ovais
evocando o cosmos, o reino do Fara, filho do criador e seu repre-
sentante na terra. Quem franqueava o limiar do domnio de Ramss
descobria, maravilhado, a sua serena beleza.
O cho era formado por mosaicos de terracota envernizados e
coloridos, sobre os quais estavam desenhadas figuras de lagos e jardins
floridos. Havia um pato pousado numa lagoa verde-azulada e um
peixe boulti deslizando por entre os ltus brancos. Nas paredes, um
deslumbrante paleta de verde plido, vermelho profundo, azul-claro,
amarelo-ouro e branco dava vida aos pssaros que esvoaavam sobre
os pntanos. E o olhar deixava-se prender pelos frisos florais repre-
sentando ltus, papoulas e margaridas.
Para muitos, a obra-prima da sala, que cantava a perfeio de
uma natureza controlada, era o rosto de uma jovem meditando em
frente a um macio de malvas-rosas. A semelhana com Nefertari era
to flagrante que ningum duvidava da homenagem prestada pelo
soberano  esposa.
Ao subir a escadaria para o seu trono de ouro, cujo ltimo degrau
estava decorado com um leo que cravava as mandbulas sobre o
22 RAMSS
inimigo vindo das trevas, Ramss concedeu um breve olhar s rosas
,
importadas da Sria do Sul, o protetorado egpcio cujos espinhos
espetavam-se em seu corao.
A corte em peso fez silncio.
Estavam presentes os ministros e os seus assessores, os ritualis-
tas, os escribas reais, os magos e seus peritos em cincias sagradas, os
responsveis pelas oferendas quotidianas, os guardas dos segredos, as
grandes damas designadas para as funes oficiais, e muitos outros
que Romeu, o intendente do palcio, jovial mas escrupuloso, havia
deixado entrar.
Era raro Ramss convocar uma assistncia to numerosa, que de
imediato se faria eco do teor do discurso, que rapidamente seria
conhecido em todo o pas. Todos retiveram a respirao, receando
ouvi-lo anunciar um desastre.
O rei estava com a dupla coroa, unio do vermelho e do branco,
do Baixo e do Alto Egito, e smbolo da indispensvel unidade do pas.
Sobre o peito, o cetro do poder, o sehhem, que representava o domnio
do Fara sobre os elementos e as foras vitais.
- LIm comando hitita destruiu a Manso do Leo, povoado
criado por meu pai. Os brbaros massacraram todos os habitantes,
incluindo mulheres, crianas e bebs.
Ergueu-se um murmrio de indignao. Nenhum soldado de
qualquer exrcito tinha o direito de agir assim.


-Foi um mensageiro que descobriu essa infmia -continuou
o rei. - Totalmente em pnico, foi recolhido por uma das nossas
patrulhas, que imediatamente mandou me comunicar a informao.
A este massacre, os hititas acrescentaram a destruio do santurio
do povoado e a profanao da estela de Sethi.
Transtornado, um velho formoso, encarregado de velar pelos
arquivos do palcio e com o ttulo de "chefe dos segredos", destacou-se
do grupo dos cortesos e inclinou-se perante o Fara.
-Majestade, possumos a prova de que os hititas so realmente
os autores do crime?
- Eis aqui a prova: "Vitria do exrcito do poderoso soberano
do Hatti, Muwattali. Assim perecero todos os seus inimigos." Infor-
mo-lhes igualmente que os prncipes de Amurru e da Palestina
A Batalha de Kadesh 23
acabam de aliar-se aos hititas. Residncias egpeias foram arrasadas
,
e os sobreviventes refugiaram-se nas nossas fortalezas.
- Ento, Majestade, . . .
- A guerra.
O gabinete de Ramss era amplo e luminoso. As janelas, com a
moldura formada por mosaicos envernizados azuis e brancos, permi-
tiam ao rei saborear a perfeio de cada estao e inebriar-se com o
perfume de mil e uma flores. Em mesinhas douradas, ramos de lrios.
Sobre uma longa mesa de madeira de accia encontravam-se os
papiros desenrolados. lVum canto do compartimento, uma esttua de
diorito representava Sethi, sentado em seu trono, com os olhos
erguidos para o Alm.
Ramss formara um pequeno conselho, limitado a Ameni, o seu
amigo e fiel secretrio particular, ao seu irmo mais velho Chenar e
a Acha.
De tez plida, mos longas e magras, pequeno, franzino, magro
e quase calvo aos vinte e quatro anos, Ameni dedicara a sua existncia
a servir Ramss. Inapto para qualquer prtica desportiva, com costas
frgeis, Ameni era um trabalhador infatigvel. Passava dias e noites
em seu gabinete e dormia pouco; em compensao, em uma hora
assimilava mais assuntos do que toda a sua equipe de escribas, apesar
de altamente qualificada. Porta-sandlias de Ramss, Ameni poderia
ascender a qualquer posto ministerial, mas preferia ficar na sombra
do Fara.
-Os magos fizeram o que era necessrio -informou ele. -
Fabricaram estatuetas de cera com imagens dos asiticos e dos hititas,
e lanaram-nas ao fogo. Alm disso, inscreveram os seus nomes em
vasos e taas de terracota e quebraram-nos. Pedi que procedessem
todos os dias ao mesmo ritual at a partida do nosso exrcito.
O irmo mais velho de Ramss, Chenar, encolheu os ombros.
Atarracado e volumoso, tinha uma cara de lua cheia e bochechas
dilatadas. Os lbios eram grossos e gulosos, os olhos pequenos e
castanhos, a voz melosa e hesitante, e cortara um colar de barba que
tinha deixado crescer como forma de luto por seu pai Sethi.
24 RAMSS
-  melhor no contarmos com a sua magia - recomendou.
- Eu, ministro dos Negcios Estrangeiros, proponho que sejam
demitidos os nossos embaixadores na Sria, em Amurru e na Palesti-
na. So uns insetos que foram incapazes de ver a teia de aranha que
os hititas teceram nos seus protetorados.
- Isso j foi feito - revelou Ameni.
- Podiam ter-me informado - respondeu Chenar, aborrecido.
- Est feito, e isso  o essencial.
Indiferente  competio de oratria, Ramss colocou o indica-
dor num ponto exato do grande mapa desenrolado em cima da mesa
de accia.
- As guarnies da fronteira de Noroeste encontram-se em
estado de alerta?
- Sim, Majestade - respondeu Acha. - Nenhum lbio a
atravessar.
Filho nico de uma famlia nobre e rica, Acha era um aristocrata
por excelncia. Elegante, requintado, rbitro da moda, rosto longo e
fino, olhos vivos, expresso um tanto desdenhosa, falava vrias lnguas
estrangeiras, e as relaes internacionais apaixonavam-no.
- As nossas patrulhas controlam a zona costeira lbia e a zona


. desrtica a oeste do Delta. As fortalezas esto em estado de alerta e
podero conter sem dificuldade um ataque que parece improvvel.
Nenhum guerreiro  capaz, na situao atual, de coligar as tribos lbias.
- Hiptese ou certeza?
- Certeza.
- Finalmente uma informao tranqilizadora!
-  a nica, Majestade. Os meus agentes acabam de tzer-me
chegar s mos os pedidos de socorro dos consultores de Megiddo,
ponto de chegada das caravanas de Damasco e dos portos fencios,
destino de numerosos barcos de mercadores. As incurses hititas e a
desestabilizao da regio j esto afetando as transaes comerciais.
Se no interviermos rapidamente, os hititas nos isolaro dos nossos
aliados antes de os aniquilarem. Ento, o mundo que Sethi e os seus
antepassados construram ser destrudo.
- Pensa que no tenho conscincia disso, Acha?
A Batalha de Kadesh 25
- Alguma vez se tornou verdadeiramente conscincia de um
perigo de morte, Majestade?
- Ser que foram realmente utilizados todos os recursos da
diplomacia? - perguntou Ameni.
- A populao de um povoado foi massacrada - recordou
Ramss. - Depois de semelhante horror, qual a diplomacia que se
poderia usar?
-A guerra far milhares de mortos.
- Ser que Ameni prope uma capitulao? - interrogou
Chenar, com expresso zombeteira.
O secretrio particular do rei fechou os punhos.
- Retire imediatamente o que disse, Chenar
- Estar finalmente disposto a lutar, Ameni?
- Basta! - cortou Ramss. - Guardem as energias para
defender o Egito. Chenar, voc  a favor de uma interveno militar
imediata e direta?
- Estou em dvida. .. No seria melhor aguardar, ao mesmo
tempo reforando as nossas defesas?
- A administrao no est preparada - afirmou Ameni. -
Partir em campanha de forma improvisada nos conduziria  catstrofe.
- Quanto mais demorarmos - considerou Acha - mais a
revolta se espalhar em Cana.  preciso sufoc-la rapidamente para
restabelecer uma zona de proteo entre ns e os hititas. Caso con-
trrio, eles instalaro uma base avanada para preparar uma invaso.
-O Fara no deve arriscar a sua vida de forma irresponsvel
-exclamou Ameni, irritado.
-Est me acusando de leviandade? -perguntou Acha, glacial.
- Voc no conhece o estado real das nossas tropas! O seu
equipamento ainda  insuficiente, mesmo com a fbrica de armamen-
tos em pleno funcionamento.
- Sejam quais forem as nossas dificuldades,  necessrio
restabelecer sem demora a ordem nos nossos protetorados. Disso
depende a sobrevivncia do Egito.
Chenar evitou intrometer-se no debate entre os dois amigos.
Ramss, que confiava tanto em Ameni quanto em Acha, ouvira-os
com grande ateno.
26 RAMSS
- Saiam - ordenou.
Sozinho, o rei olhou o sol, esse criador de luz de quem ele
nascera.
Filho da luz, tinha d capacidade de contemplar o astro de dia,
frente a frente, sem queimar os olhos.
"Privilegie em todos os seres o seu brilho e o seu gnio"
,
recomendara Sethi, "procure em cada um aquilo que  insubstituvel.
Entretanto, estar s para tomar decises. Ame o Egito mais do que
a si prprio, e o caminho se abrir  sua frente."
Ramss ficou refletindo a respeito das intenes dos trs ho-
mens. Chenar, indeciso, pretendia sobretudo no desagradar; Ameni
desejava preservar o pas como um santurio e recusava a realidade
exterior; Acha tinha uma viso global da situao e no tentava
disfarar-lhe a gravidade.
' Outros pensamentos vieram perturbar o rei: Moiss teria sido
apanhado na tempestade? Encarregado de o encontrar, Acha no


descobrira qualquer pista. Seus informantes permaneciam mudos. Se
o hebreu conseguira sair do Egito, ter-se-ia dirigido para a Lbia, para
os principados de Edom e Moab, para Cana ou a Sria. Num perodo
tranqilo, um informante j o teria descoberto. Atualmente, se
Moiss ainda estivesse vivo, s com muita sorte se poderia saber onde
se escondia.
Ramss saiu do palcio e dirigiu-se  residncia dos seus gene-
rais. A sua nica preocupao agora era a de acelerar a preparao do
exrcito.
4
Chenar correu os dois ferrolhos de madeira que
fechavam a porta do gabinete do Ministrio dos Negcios Estrangei-
ros e depois olhou pelas janelas para se assegurar de que no havia
ningum no ptio interior Cautelosamente, ordenara ao guarda da
antecmara que se afastasse e se postasse no final do corredor
- Ningum pode nos ouvir - disse a Acha.
- No teria sido mais prudente conversarmos do outro lado?
- Devemos dar a impresso de trabalhar dia e noite para a
segurana do pas. Ramss ordenou que os funcionrios ausentes que
no apresentassem um motivo justo fossem despedidos imediata-
mente. Estamos em guerra, meu caro Acha!
-Ainda no.
- evidente que a deciso do rei est tomadal Voc conseguiu
convenc-lo.
- Espero que sim, mas tenhamos calma. Ramss s vezes 
imprevisvel.
-A nossa jogada foi perfeita. O meu irmo acreditou que eu
estava hesitante e que no me atrevia a tomar posio com medo de
lhe desagradar Voc, pelo contrrio, cortante e incisivo, deu maior
relevncia  minha falta de iniciativa. Como poder Ramss desconfiar
da nossa aliana?
Satisfeito, Chenar encheu duas taas com um vinho branco da
cidade de Ima, famosa pelos seus vinhedos.
O gabinete do ministro dos Negci9s Estrangeiros, ao contrrio
do de Ramss, no era um modelo de sobriedade. Cadeiras com panos
decorados com ltus, almofdas espalhafatosas, mesinhas com ps de
2g RAMSS
bronze, paredes enfeitadas com pinturas representando cenas de caa
aos pssaros nos pntanos e, sobretudo, uma profuso de vasos exticos
provenientes da L.bia, Sria, Babilnia, Creta, Rodes, Grcia e sia.
Chenar adorava-os; pagara uma quantia exorbitante pela maior parte
daquelas peas nicas, mas a sua paixo era tanta, que enchia cada vez
mais com aquelas maravilhas as suas villas de Tebas, Mnfis e Pi-Ramss.
A criao da nova capital, que lhe doera como uma insuportvel
vitria de Ramss, tornara-se afinal uma bno. Chenar aproxima-
va-se assim daqueles que haviam decidido coloc-lo no poder, os
hititas, bem como dos centros de produo desses vasos incompar-
veis. V-los, acarici-los, recordar a sua origem exata proporcionava-
lhe um prazer inefvel.
- Ameni me inquieta - confessou Acha. - No lhe falta
sutileza e...
- Ameni  um imbecil e um fraco que vegeta  sombra de
Ramss. O seu servilismo tapa-lhe os olhos e os ouvidos.
- No entanto, criticou a minha atitude.
- Esse escribazinho julga que o Egito est s no mundo, que
' pode proteger-se atrs de suas fortalezas, fechar as fronteiras e impe-
dir assim que qualquer inimigo o invada. Antimilitarista ferrenho, est
convencido de que nos fecharmos sobre ns mesmos  a nica
hiptese de paz. Portanto, era inevitvel ele confrontar-se com voc,
mas acabar por nos ser til.
- Ameni  o conselheiro mais prximo de Ramss - ob-
jetou Acha.
-Em perodo de paz,  verdade; mas os hititas declararam-nos
guerra, e a sua explanao foi absolutamente convincente. E est
a
esquecendo a rainha-me Touya e a grande esposa real Nefertaril
- Ser que elas apreciam a guerra?
- Odeiam-na, mas as rainhas do Egito sempre lutaram com o
maior erntusiasmo pela salvaguarda das Duas Terras, e muitas vezes
tomando iniciativas formidveis. Foram as grandes damas de Tebas


que reorganizaram o exrcito e fizeram-no expulsar os invasores
hicsos do Delta. Touya, a minha venervel me, e Nefertari, essa
feiticeira que subjuga a corte, no fugiro  regra. Havero de incitar
Ramss a passar  ofensiva.
A Batalha de Kadesh 29
-Que o seu otimismo seja justificado!
Acha molhou os lbios no espesso vinho  base de frutas; Chenar
esvaziou avidamente a sua taa. Embora envergasse tnicas caras, no
conseguia ser to elegante como o diplomata.
- Claro que , meu caro! Voc no  o chefe da nossa rede de
espionagem, um dos amigos de infncia de Ramss e o nico homem
a quem ele d ouvidos em matria de poltica estrangeiral
Acha concordou com um gesto de cabea.
- Aproximamo-nos do nosso objetivo - continuou Chenar,
exaltado. - Ou Ramss morrer em combate, ou ser vencido;
desonrado, ser obrigado a renunciar ao poder. Em ambos os casos,
surgirei como o nico capaz de negociar com os hititas e salvar o Egito
do desastre.
- Ser necessrio, porm, comprar essa paz -lembrou Acha.
-No esqueci o nosso plano. Cobrirei de ouro os prncipes de
Cana e de Amurru, oferecerei presentes fabulosos ao imperador dos
hititas e cumprirei promessas no menos fabulosasl Talvez o Egito
fique empobrecido durante algum tempo, mas eu reinarei. Todos
rapidamente esquecero Ramss. A estupidez e a submisso do povo,
que detesta hoje o que adorava ontem, eis a arma que utilizarei.
- Ser que renunciou  idia de um imenso imprio, do
corao da frica aos planaltos da Anatlia?
Chenar fez um ar de sonhador.
- verdade que lhe falei disso, mas do ponto de vista comercial. . .
Quando voltar a paz, criaremos novos portos de mercadorias, investire-
mos nas rotas das caravanas e estabeleceremos laos econmicos com
os hititas. A essa altura, o Egito ser demasiado pequeno para mim.
- E se seu imprio fosse tambm. . . poltico?
- No estou compreendendo.
-Muwattali governa os hititas com punho de ferro, mas a corte
de Hattusa fervilha de intrigas. Dois personagens, um bastante co-
nhecido, ri-Techup, e outro discreto, Hattusil, sacerdote da deusa
Ishtar, so considerados provveis sucessores. Se Muwattali morresse
durante um combate, um ou outro assumiria o poder. Ora, os dois
homens detestam-se, e os seus adeptos esto prontos para o combate.
Chenar acariciou a ponta do queixo.
30 RAMSS
-Na sua opinio, sero mais do que simples querelas de palcio?
- Muito mais. O reino hitita est ameaado de desmembra-
mento. - Se se partisse em vrios pedaos, teria que surgir um
salvador para reunific-los sob a sua bandeira... e anexar esses
territrios s provncias egpeias. Que imprio, Acha, que imenso
imprio! Babilnia, Assria, Chipre, Rodes, a Grcia e as terras do
norte seriam meus futuros protetorados!
O jovem diplomata sorriu.
- Os faras sempre tiveram falta de ambio porque se preo-
cupavam apenas com a felicidade do seu povo e a prosperidade do
Egito. Voc, Chenar,  de outra estirpe. Por isso Ramss deve ser
eliminado de qualquer maneira.
' Chenar no se sentia rnmo um traidor, pois, se a doena no tivesse
enfraquecido a mente de Sethi, teria sido ele, o filho mais velho, a quem
o fara morto teria oferecido o ti-ono. Vtima de uma injustia, Chenar
lutaria para reaver aquilo que por direito lhe pertencia.
Com olhar inquisidor, fitou Acha.
-  claro que voc no falou tudo a Ramss.
- Claro que no; mas a quantidade de mensagens que recebo
por intermdio dos meus agentes est  disposio do rei a qualquer
hora. Esto registradas e classificadas neste ministrio e nenhuma
pode ser subtrada ou destruda, com risco de despertar a ateno e
provocar suspeitas de fraude.
- Ramss j fez alguma inspeo?
-At agora nenhuma, mas estamos s vsperas de um conflito.
Devo, portanto, tomar precaues e no me expor a um controle
inesperado da sua parte.
- Como o far?


- Pelo que j lhe disse e repito: no falta nenhum relatrio c:
nenhum deles est incompleto.
- Nesse caso, Ramss sabe de tudo o que se passa!
Acha passou suavemente o dedo pela borda da taa de alabastro.
- A espionagem  uma arte difcil, Chenar; o fato em si 
importante, mas a sua interpretao mais ainda. A minha tarefa
consiste em fazer a sntese dos fatos e em seguida interpret-los para
o rei, o que o far desencadear a sua ao. Na presente situao, no
A Batalha de Kadesh 31
poder censurar-me por fraqueza ou indeciso: insisti para que ele
organizasse o mais rapidamente possvel uma contra-ofensiva.
-Assim est fazendo o jogo dele e no o dos hititas!
- Apenas est considerando o fato em si - retorquiu Acha. -
E ser assim que Ramss tambm reagir. Quem ousar censur-lo?
- Explique-se.
- A transferncia das tropas de Mnfis para Pi-Ramss suscitou
uma grande quantidade de problemas administrativos que esto longe
de se resolverem. Ao incitar Ramss a apressar-se, obteremos uma
primeira vantagem: um handicap intransponvel para os nossos soldados
,
que esto mal equipados, em qualidade e em quantidade.
- E as outras vantagens?
- O prprio terreno e a dimenso do abandono dos nossos
aliados. Sem o ocultar a Ramss, no chamei a ateno para a vastido
do incndio. A selvageria dos ataques hititas e o massacre da Manso
do Leo aterrorizaram os prncipes de Cana e de Amurru, bem como
os governadores dos postos costeiros. Sethi mantinha os guerreiros
hititas na base do respeito; no  o caso de Ramss. A maioria dos
potentados locais, receando por sua vez serem aniquilados, preferiro
ficar sob a proteo de Muwattali.
- Esto convencidos de que Ramss no vir em seu auxMio e
decidiram ser os primeiros agressores do Egito, para satisfazerem o
seu novo senhor, o imperador do Hatti... No  assim?
-  uma interpretao dos fatos.
- E . . . a sua?
- A minha possui alguns pormenores suplementares. O silncio
de algumas das nossas praas fortes significar que o inimigo se apossou
delas? Se isso for verdade, Ramss esbarrar com uma resistncia muito
mais dura do que o previsto. Alm disso,  provvel que os hititas tenham
entregue grande quantidade de armas aos revoltosos.
Os lbios de Chenar tornaram-se gulosos.
- Maravilhosas surpresas em perspectiva para os batalhes
egpcios! Ramss poderia ser vencido logo na primeira batalha, antes
mesmo de enfrentar os hititas!
-  uma hiptese que no devemos descartar - considerou
Acha.
5
Ao fim de um dia extenuante, a rainha-me Touya
repousava no jardim do palcio. Celebrara o ritual da madrugada
numa capela da deusa Hathor, o sol feminino, depois resolvera
problemas de protocolo, concedera entrevista a alguns cortesos
chorosos e recebera o ministro da Agricultura, a pedido de Ramss,
antes de conversar com Nefertari, a grande esposa real.
Magra, com grandes olhos amendoados severos e penetrantes,
nariz fino e reto, queixo quase quadrado, Touya era uma autoridade
moral incontestvel. Com uma peruca de madeixas onduladas que
ocultava as orelhas e a nuca, trajava um longo vestido de linho com
plissado admirvel. No pescoo, um colar de ametistas de seis voltas
nos pulsos, pulseiras de ouro. Fosse qual fosse a hora, a apresentao
de Touya era sempre impecvel.
A cada dia sentia mais a falta de Sethi. O passar do tempo tornava
mais cruel a ausncia do fara morto, e a viva ansiava por conhecer
a ltima passagem, aquela que lhe permitiria reunir-se ao amado es-
poso.
No entanto, o casal real dava-lhe muitas alegrias: Ramss tinha
o estofo de um grande monarca, e Nefertari, o de uma grande rainha.
Tais como Sethi e ela, ambos amavam apaixonadamente o pas e
sacrificar-lhe-iam a vida se o destino assim o exigisse.
Quando Ramss caminhou em sua direo, Touya compreen-
deu imediatamente que o filho acabava de tomar uma sria deciso.


O rei deu o brao  me e avanaram alguns passos por uma alia
arenosa, entre duas filas de tamarindos em llor. O ar estava quente
e perfumado.
34 RAMSS
-O vero ser implacvel -disse ela. -Felizmente, escolheu
um bom ministro da Agricultura. Os diques sero consolidados, c as
bacias de reteno das guas de irrigao, ampliadas. A cheia dever
ser boa, e as colheitas, abundantes.
- O meu reinado bem que poderia ser longo e tliz.
- E por que no h de ser? Os deuses lhe so favorveis, e a
prpria natureza oferece-lhe os seus favores.
-A guerra ser inevitvel.
- Eu sei, meu filho. A sua deciso  correta.
- Precisava da sua aprovao.
-No, Ramss; sabendo-se que Nefertari compartilha dos seus
pensamentos, o casal real encontra-se preparado para agir.
- O meu pai havia feito um trato de no-agresso om os hititas.
- E os hititas pareciam ter feito um trato de no combaterem
o Egito. Se houvessem quebrado esse trato, Sethi teria lanado de
imediato uma ofensiva.
- Os nossos soldados no esto preparados.
- em medo, no  verdade?
- Quem poder censur-los?
- - Voc.
- Os veteranos espalham histrias terrveis a respeito dos
hititas.
- Seriam elas capazes de assustar o fara?
- O tempo necessrio para dissipar as miragens. . .
-Elas s se dissiparo no campo de batalha, quando a coragem
salvar as Duas Terras.
Meba, o ex-ministro dos Negcios Estrangeiros, detestava Ram-
ss. Convencido de que o rei o expulsara do posto sem razo,
aguardava apenas a ocasio para se vingar. Assim como vrios mem-
bros da corte, apostava no fi-acasso do jovem fara que, depois de
quatro anos de sucesso, sucumbiria  provao.
Em companhia de uma dezena de notveis, o rico e mundano
Meba, de rosto largo e ar marcial, trocava algumas frases fteis sobre
a alta sociedade de Pi-Ramss. As iguarias eram timas, e as mulheres,
A Batalha de Kadesh 35
estupendas; era preciso aproveitar o tempo, aguardando a chegada de
Chenar.
LIm servial murmurou algumas palavras ao ouvido de Meba. O
diplomata ergueu-se imediatamente.
- Meus amigos, o rei est chegando; est nos dando a honra
de sua presena.
As mos de Meba tremiam. Ramss no tinha o hbito de
aparecer assim numa recepo particular.
Todos os presentes se curvaram em eonjunto.
- E muita honra, Majestade! Quer sentar-se?
- No  necessrio. Vim apenas anunciar-lhe a guerra.
- A guerra...
- Durante os seus divertimentos, ter por acaso ouvido falar
da presena dos nossos inimigos s portas do Egito?
-  a nossa principal preocupao - garantiu Meba.
-Os nossos soldados receiam que o conflito se torne inevitvel
-declarou um experiente escriba. - Sabem que tero de marchar
debaixo de sol, pesadamente carregados, e seguir por caminhos
difceis. No podero beber o que tiverem vontade, pois a gua ser
racionada. Mesmo que as pernas fraquejem, tero que continuar a
andar, esquecer as costas em fogo e o estmago a dar voltas. Repousar
no acampamento? Esperana v, levando-se em conta as tareEs a
realizar antes de poderem se estender em sua esteira. Em caso
de alerta, tero que levantar-se s pressas, com os olhos embaados
de sono. A alimentao? Medocre. Os cuidados? Quase nenhum. E
o que dizer das flechas e dos dardos do inimigo, do perigo constante,
da morte que os rondar?
- Bela retrica de letrado - constatou Ramss. - Tambm
eu conheo esse antigo texto de cor. Mas hoje no se trata de litera-
tura.
- Temos contiana no valor do seu exrcito, Majestade -


proclamou Meba - e sabemos que vencer, sejam quais forem os
sofrimentos a suportar.
- Comoventes palavras, mas no me bastam. Conheo a sua
coragem e a dos nobres aqui presentes, e sinto-me orgulhoso por
receber, neste momento, os seus alistamentos voluntrios.
36 RAMSS
- Majestade... O nosso exrcito profissional deveria bastar
para cumprir a tarefal
- Ele precisa de homens de qualidade para enquadrarem seus
jovens recrutas. No compete aos nobres e aos ricos darem o exem-
plo? Todos esto sendo esperados na caserna principal a partir de
amanh bem cedo.
		A cidade de turquesa estava em ebulio. Transformada em base
		militar, em posto de comando dos carros, em local de reunio dos
		regimentos de infantaria e em zona de ancoradouro da frota de guerra,
		assistia s manobras e aos treinos de manh  noite. Delegando
		poderes a Nefertari, Touya e Ameni na conduo dos assuntos inter-
		nos do Estado, Ramss passava os dias na fbrica de armas e nas
		casernas.
		A presena do monarca transmitia segurana e entusiasmo; verifi-
		cava a qualidade das lanas, das espadas e dos escudos, passava em revista
	'	os novos recrutas, conversava tanto com os oficiais superiores quanto
		com os soldados, prometendo a todos um soldo proporcional  sua
	,
		bravura. Os mercenrios tinham certeza de receberem timas recom-
		pensas se conduzissem o Egito  vitria.
		O rei dava especial ateno ao trato com os cavalos, pois da boa
		condio fi'sica dos animais dependeria, praticamente, a sorte da
		batalha. No centro de cada cavalaria construda sobre pavimentos de
		pedras atravessados por valas, um reservatrio de gua servia simul-
		taneamente para saciar a sede dos animais e manter a limpeza. Ramss
		inspecionava diariamente diferentes estbulos, examinava os cavalos
	a
		e castigava severamente as negligncias.
		O exrcito reunido em Pi-Ramss comeava a funcionar como
		um grande corpo reg'ido por uma cabea para a qual apelavam em
		todas as circunstncias. Disponvel, atuando com rapidez, o rei no
		permitia qualquer falha e cortava de imediato os litgios. Estabeleceu-
		se, assim, uma slida confiana. Cada soldado sentia que as ordens
		eram dadas com razo e que as tropas formavam uma verdadeira
		mquina de guerra.
		Ver to de perto o fara, poder s vezes falar-lhe eram privilgios
A Batalha de Kadesh 37
que espantavam os soldados, graduados ou no. Muitos cortesos
gostariam de se beneficiar de tal privilgio. Esta atitude do rei dava
aos seus homens uma estranha energia, uma nova fora. No entanto,
Ramss permanecia distante e inacessvel. Continuava a ser o Fara,
o ser nirn e animado de uma outra vida.
Quando o soberano viu Ameni entrar na caserna, onde, outrora,
quando prncipe, o arrancara das mos de carrascos, ficou meio
espantado, pois o seu fiel secretrio sentia averso por aquele tipo de
lugn:
-Veio manejar a espada ou a lana?
- O nosso poeta chegou a Pi-Ramss e deseja v-lo.
- Instalou-o bem?
- Numa moradia idntica  de Mnfis.
Sentado ao p de um limoeiro, a sua rvore favorita, Homero
saboreava um vinho perfumado, temperado com anis e coentros, e
fumava folhas de salva colocadas numa grossa concha de caracol, que
funcionava como fornilho de cachimbo. Com a pele untada de azeite,
cumprimentou o rei com voz mal-humorada.
- Permanea sentado, Homero.
- Ainda sou capaz de me inclinar perante o senhor das Duas
Terras.
Ramss sentou-se num banco dobrvel, ao lado do poeta grego.
Heitor, o seu gato preto rajado de branco, saltou para os joelhos do
monarca. Comeou a ronronar logo que este lhe fez as primeiras
carcias.
- O meu vinho lhe agrada, Majestade?
-  um pouco spero, mas o seu perfume  delicioso. Como


tem passado?
-Os meus ossos doem, a minha viso continua a diminuir, mas
o clima atenua os meus males.
- Esta moradia lhe agrada?
-  perfeita. Meu cozinheiro, a criada e o jardineiro acompanha-
ram-me; so timas pessoas que sabem mimar-me sem importunar Tal
como eu, estavam curiosos para conhecer a sua nova capital.
38 RAMSS
- No estaria mais tranqilo em Mnfis?
- J no acontece nada em Mnfisl  aqui que se joga a sorte
do mundo. Quem melhor qualificado seno um poeta para perceb-
lo? Oua isto: Apolo descer do cu, cheio de clera. Avanar, semelhante 
noite, e lanar as suas armas. Oseu arco de prata emitir um som aterrador,
e as suas flechas trespassaro os guerreiros. Inmeras fogueiras se acendero
para queimar os mortos. Quem poder escapar d morte?
- So versos de sua Iloda?
- Sim; mas ser que falam realmente do passado? Sua cidade
de turquesa, povoada de jardins e espelhos d'gua, est se transfor-
mando em campo militar!
- No tive outra opo, Homero.
- A guerra  a vergonha da humanidade, e a prova de que esta
 uma raa degenerada, manipulada por foras invisveis. Cada verso
 da Ilodo  um exorcismo destinado a extirpar a violncia do corao
dos homens, mas a minha magia parece-me por vezes bem irrisria.
- No entanto, dever continuar escrevendo e eu deverei con-
tinuar governando, mesmo que o meu reino se transforme num
campo de batalha.
- Ser a sua primeira grande guerra, no  verdade? Ser
mesmo a grande guerra. ..
-Assusta-me tanto quanto a voc, mas no tenho direito nem
tempo para sentir medo.
-  inevitvel?
- .
-Que Apolo guie o seu brao, Ramss, e c!ue a morte seja sua
aliada.
6
De estatura mdia, olhos castanhos e vivos, queixo
ornado por uma barbicha cortada em bico, Raia tornara-se o merca-
dor srio mais rico do Egito. Instalado h bastante tempo no pas,
possua diversos estabelecimentos em Tebas, Mnfis e Pi-Ramss.
Vendia conservas de carne de primeira qualidade e vasos de luxo
importados da Sria e da sia. Sua clientela, rica e requintada, no
hesitava em pagar um preo elevado pelas obras-primas de artesos
estrangeiros, expostas nos banquetes e recepes para deslumbrar os
convidados.
Corts e discreto, Raia gozava de excelente reputao. Graas
ao rpido desenvolvimento do seu negcio, adquirira uma dezena de
barcos e trezentos burros, que lhe permitiam transportar rapidamen-
te alimentos e objetos de uma cidade para outra. Contando com
inmeros amigos na administrao, no exrcito e na guarda palaciana,
Raia era um dos fornecedores da corte e da nobreza.
Ningum suspeitava que o amvel mercador era um espio a
servio dos hititas, que recebia as suas mensagens cifradas, dissimu-
ladas no interior de determinados vasos marcados com um sinal que
permitia distingui-los, e que fazia chegar at eles as informaes por
intermdio de um dos seus agentes da Sria do Sul. O principal
inimigo do Fara era assim informado de maneira precisa sobre a
evoluo da situao poltica no Egito, do estado de esprito da
populao e das capacidades econmicas e militares das Duas Terras.
Quando Raia se apresentou ao intendente da suntuosa residn-
cia de Chenar, o servial do irmo mais velho de Ramss pareceu
aborrecido.
RAMSS
40
- O meu senhor est muito ocupado.  impossvel incomod-lo.
- Ns tnhamos um encontro marcado - lembrou Raia.
- Lamento muito.
-Bem, ento avise-o da minha presena e diga-lhe que gostaria
de lhe mostrar um vaso excepeional, uma pea nica devido ao talento
" de um arteso que acaba de pr fim  sua carreira.


O intendente hesitou. Conhecendo a paixo de Chenar pelas
peas de coleo exticas, decidiu inform-lo, mesmo correndo O
' risco de importun-lo.
Quinze minutos depois, Raia viu uma jovem saindo um tanto
maquiada demais, com os cabelos ao vento e uma tatuagem no ombro
esquerdo nu. Com certeza, uma das encantadoras hspedes estrangeiras
da mais luxuosa casa de cerveja de Pi-Ramss.
- O meu senhor est  sua espera - disse o intendente.
Raia atravessou um magnfico jardim cujo centro era ocupado
or um amplo lago sombreado por palmeiras.
P
- Com rosto fatigado, Chenar descansava em uma espreguiadeira.
- LIma jovem agradvel, mas esgotante. .. Cerveja, Raia?
- Agradeo-lhe.
- H muitas damas na corte que s pensam em casar comigo,
mas esse tipo de loucura no me seduz. Mas quando eu reinar, ser
ento o momento de arranjar uma esposa conveniente. Por enquanto,
aprecio prazeres variados. E voc, Raia. . . Ainda no est debaixo da
asa de uma mulher?
- Que os deuses me guardem, senhor! O comrcio no me
deixa tempo livre.
- Segundo o meu intendente, voc me reservou um achado
excelente.
De um saco de pano entulhado de retalhos, o mercador retirou
lentamente um minsculo vaso de prfiro, cuja asa era um corpo de
gazela, e as laterais exibiam cenas de caa.
Chenar acariciou o objeto, perscrutando cada detalhe. Ergueu-
se e girou em volta dele, fascinado.
- Que maravilha. . . que maravilha migualavel!
- E por um preo mdico.
- Diga ao meu intendente que lhe pague.
A Batalha de Kadesh 41
O irmo mais velho de Ramss disse-lhe isso em voz baixa.
- E quanto ao valor da mensagem dos meus amigos hititas?
-Ah, senhor! Mais do que nunca esto decididos a apoi-lo e
j o consideram o sucessor de Ramss.
Por um lado, Chenar servia-se de Acha para enganar Ramss;
por outro, preparava o seu futuro por intermdio de Raia, o emissrio
dos hititas. Acha ignorava o verdadeiro papel de Raia, e este o de Acha.
Chenar era o nico dono do jogo, deslocava os pees a bel-prazer e
mantinha separaes estanques entre os seus aliados ocultos.
A nica incgnita importante eram os hititas.
Encaixando as informaes obtidas por Acha e tambm as que
Raia lhe levava, Chenar formaria uma opinio slida sem ter corrido
riscos desnecessrios.
- Qual  a dimenso da ofensiva, Raia?
- Comandos hititas realizaram incurses assassinas na Sria
Central, na Sria do Sul, na costa fencia e na provncia de Amurru
para assustar as populaes. A melhor proeza desses comandos foi a
destruio da Manso do Leo e da estela de Sethi. A ao chocou de
tal forma, que provocou inesperadas alteraes de alianas.
-A Fencia e a Palestina esto sob o controle hitita?
-Melhor ainda: revoltaram-se contra Ramss! Seus prncipes
pegaram em armas e ocupam as praas fortes de onde expulsaram os
soldados egpcios. O Fara ignora que vai esbarrar com uma sucesso
de cortinas defensivas que esgotaro as suas foras. Logo que as perdas
de Ramss forem bastante elevadas, o exrcito hitita lhe cair em cima
para aniquil-lo. Ser a sua oportunidade, Chenar; voc subir ao
trono do Egito e estabelecer uma aliana duradoura com o vencedor.
As previses de Raia diferiam sensivelmente das de Acha, mas
nos dois casos Chenar se tornaria Fara no lugar do irmo, morto ou
vencido. Mas, no primeiro caso, se tornaria vassalo dos hititas,
enquanto, no segundo, tomaria todo o seu imprio. Tudo dependeria
da amplitude da derrota de Ramss e das baixas que infligiria ao
exrcito hitita. A margem de manobra era apertada,  verdade, mas
o xito revelava-se possvel, com um objetivo prioritrio: apoderar-se
do poder no Egito. A partir dessa base, seriam possveis outras
conqwstas.
42 RAMSS
- Como esto reagindo as cidades comerciais?


- Como sempre, pendem para o lado do mais forte. Alep,
Damasco, Palmira e os portos fencios j esqueceram o Egito para se
inclinarem perante Muwattali, o imperador de Hatti.
- Isso no  inquietante para a prosperidade da economia
egpeia?
- Pelo contrrio! Os hititas so os melhores guerreiros da sia
e do Oriente, mas pssimos comerciantes. Confiam no senhor para
' reorganizar o intercmbio internacional... e receber os lucros que
lhes sero devidos. Sou um mercador, no esquea, e tenho inteno
de continuar no Egito e enriquecer. Os hititas nos traro a estabilidade
de que temos necessidade.
			- Ser o meu ministro das Finanas, Raia.
	_		-Se os deuses nos forem favorveis, faremos fortuna. A guerra
		durar apenas algum tempo; o essencial  ficarmos ao largo e recolher
		os frutos que carem da rvore.
			A cerveja estava deliciosa, e a sombra, refrescante.
			-A atitude de Ramss me inquieta -confessou Chenar
			O mercador srio franziu o cenho.
			- O que fez o Fara?
			- Est constantemente presente em todas as casernas e im-
		pregna nos seus soldados uma energia que nunca conseguiriam ter.
		Se continuar assim, acabaro por considerar-se invencveis!
			- E o que mais?
			-A fbrica de armas funciona dia e noite.
			Raia coou a barbicha.
- No  grave... O atraso deles em relao aos hititas 
bastante grande para ser recuperado. Quanto  influncia de Ram-
ss, desaparecer aps o primeiro confronto. Quando os egpcios
se encontrarem frente a frente com os hititas, a debandada ser
eral.
g
- No est subestimando muito as nossas tropas?
- Se tivesse assistido a um ataque hitita, no censuraria nin-
gum por morrer de medo.
- LIm homem, pelo menos, no sentir o menor pavor.
- Ramss?
A liatalha de Kadesh 43
		- Estou me referindo ao chefe da sua guarda pessoal, um
	gigante sardo chamado Serramanna.  um antigo pirata que conquis-
	tou a confiana de Ramss.
		- A sua reputao j me chegou aos ouvidos. Por que ele
	incomoda?
		-Porque Ramss o colocou  frente de um regimento de elite
		,
	composto em grande parte por mercenrios. Esse Serramanna pode
	tornar-se um exemplo incmodo e suscitar atos de herosmo.
		- Pirata e mercenrio. .. Fcil de subornar.
		-A  que voc se engana! Tomou-se de amizade por Ramss
	e vela por ele com uma fidelidade canina. E o amor de um co no
	se compra.
		- Pode ser eliminado.
		-J pensei nisso, meu caro Raia, mas  melhor desistir de uma
	interveno brutal. Serramanna  um sujeito violento e muito des-
	confiado. Seria capaz de se desembaraar de eventuais agressores. E
	um crime faria Ramss desconfiar.
		- O que pretende ento?
		-LIma outra forma de pr Serramanna de fora. Nemvoc nem
	eu devemos estar implicados.
		- Sou um homem prudente, senhor, e entrevejo uma soluo. . .
		- Insisto: esse sardo tem o instinto de um animal selvagem.
		-Vou livr-lo dele.
		-Para Ramss, seria um golpe muito duro. Para voc, uma bela
recompensa.
O mercador srio esfregou as mos.
-Tenho mais uma boa notcia a lhe dar, senhor Chenar. Sabe
como as tropas egpeias estacionadas no estrangeiro se comunicam
oom Pi-Ramss?
- Por mensageiros a cavalo, sinais pticos e pombos-correios.
- Nas zonas infestadas de revoltosos, apenas os pombos-cor-
reios podem ser utilizados. Ora, o principal criador desses preciosos


animais no se parece nada com Serramanna. Embora trabalhe para
o exrcito, no resistiu  corrupo. Para mim ser, portanto, fcil
fazer com que se destruam as mensagens, interceptem-nas ou subs-
RAMSS
44
tituam-nas por outras. O suficiente para desorganizar os servios de
informaes egpcios  vontade. . .
- Magnfica perspectiva, Raia. Mas no se esquea de me
arranjar outros vasos como este.
Serramanna encarava essa guerra com m vontade.
Ao abandonar a profisso de pirata para se tornar chefe da guarda
pessoal de Ramss, o gigante sardo aprendera a apreciar o Egito, a
sua moradia oficial e as egpeias com quem passava horas de prazer.
Nenofar, a sua mais recente amante, ultrapassava as precedentes.
Durante o seu ltimo embate amoroso, conseguira esgot-lo, a ele,
um sardo!
Na realidade, maldita guerra que o afstaria de tantas alegrias,
mesmo no sendo nenhuma obrigao velar pela segurana de Ramss!
Quantas vezes o monarca ignorara seus conselhos de prudncia! Mas era
um grande rei, e Serramanna o admirava. Se fosse preciso matar hititas
para salvar o reino de Ramss, ele mataria. E esperava cortar com a sua
prpria espada o pescoo de Muwattali, cujos soldados chamavam de o
"grande chefe". O sardo escarneceu: um "grande chefe"  frente de um
bando de brbaros e de assassinos! Cumprida sua misso, Serramanna
perfumaria o bigode retorcido em espiral e logo conquistaria outras
Nenofar.
Quando Ramss o nomeara responsvel pelo corpo de elite do
exrcito egpcio encarregado de misses perigosas, Serramanna experi-
mentou um desses sentimentos de orgulho que restituem o vigor cla
juventude. Visto que o senhor das Duas Terras o honrava com tal
confiana, o sardo lhe demonstraria, com as armas na mo, que ele no
se enganara, pois o treino que impunha aos homens sob seu comando
j eliminara os fanfarres e os glutes; ficaria apenas com os verdadeiros
guerreiros, aqueles capazes de se baterem, mesmo na desvantagem de
um contra dez e de suportarem, sem um gemido, quaisquer ferimentos.
46 RAMSS
			Ningum sabia a data da partida das tropas, mas o instinto de
		Serramanna pressentia-a prxima. Os soldados andavam nervosos nas
		casernas. No palcio, as reunies do estado-maior sucediam-se em
		ritmo intenso. Ramss encontrava-se muitas vezes com Acha, o chefe
		dos servios de espionagem.
			As ms notcias eram transmitidas de boca em boca; a revolta
		espalhava-se cada vez mais, e alguns notveis fiis ao Egito haviam sido
		executados na Fencia e na Palestina. Mas as mensagens trazidas pelos
		pombos-correios do exrcito provavam que as fortalezas resistiam e
		conseguiam conter os ataques inimigos.
			Sendo assim, pacificar Cana no apresentaria grandes dificul-
	:	dades; Ramss provavelmente decidiria continuar na direo norte,
		na rota das provncias de Amurru e Sria. Depois, haveria o inevitvel
		confronto com o exrcito hitita, cujos comandos, segundo os infor-
		mantes, haviam se retirado da Sria do Sul.
			Serramanna no temia os hititas. Apesar da sua reputao de
		massacradores, o sardo sentia uma nsia enorme por enfrentar esses
		brbaros, matar-lhes o maior nmero possvel e v-los debandar, aos
		gritos.
	'		Antes de entrar em combate, cuja lembrana os egpcios guar-
		dariam na memria, o sardo tinha uma misso a cumprir
			Saindo do palcio, bastou Serramanna fazer um curto trajeto
		para chegar ao bairro das oficinas, perto dos armazns. Reinava uma
		intensa atividade no labirinto de ruelas que levavam aos estabeleci-
		mentos de marceneiros, alfaiates e fabricantes de sandlias. LIm
		pouco mais longe, na direo do porto, ficavam as modestas casas dos
		oleiros hebreus.
			A chegada do gigante espalhou a inquietao entre os operrios
		e suas famlias. Desde a fuga de Moiss, os hebreus haviam perdido
		um chefe exemplar que os defendia de qualquer tipo de autoritarismo
		e lhes devolvera um orgulho h muito esquecido. O aparecimento do
		sardo, de reputao bem conhecida, no pressagiava nada de bom.
			Serramanna agarrou pelo saiote um garoto que fugia.
			- Pare de espernear, menino! Onde vive Abner, o oleiro?


			- No sei.
	(r)		- No me irrite.
A Batalha de Kadesh 47
O garoto levou a ameaa a srio e falou sem nada omitir, che-
gando mesmo a conduzir o sardo at o domicffio de Abner, que se
escondera em um canto da sala de entrada envolvido em um manto
sobre todo o corpo.
-Uamos -ordenou Serramanna.
- Recuso-mel
- De que tem medo, amigo?
- No fiz nada de mal.
- Ento no tem de que ter medo.
-Deixe-me em paz, eu lhe suplicol
- O rei quer v-lo.
Como Abner se encolhia cada vez mais, o sardo foi obrigado a
levant-lo com uma s mo e sent-lo no lombo de um burro que
,
em passo seguro e tranqilo, retomou o caminho do palcio de
Pi-Ramss.
Abner estava aterroriado.
Prostrado perante Ramss, no se atrevia a erguer os olhos.
- O inqurito sobre o drama no me satisfaz - declarou o
rei. - Quero saber aquilo que realmente se passou; e voc sabe,
Abner.
-Majestade, no passo de um simples oleiro...
- Moiss  acusado de ter matado Sary, o marido de minha
irm. Se for provado que cometeu realmente esse crime, dever ser
castigado com a maior severidade. Mas por que teria ele agido assim?
Abner esperava que ningum se interessasse pelo seu verdadeiro
papel naquele caso; esquecera, porm, da amizade que ligava o fara
a Moiss.
-Moiss deve ter enlouquecido.
--- No brinque comigo, Abner
-Majestade!
-. Sary no gostava de voc.
- So mexericos, s mexericos. . .
- Engana-se, Abner, so testemunhos! Agora levante-se.
4g RAMSS
Comeando a tremer, o hebreu hesitou. Mantinha a cabea
baixa, incapaz de suportar o olhar de Ramss.
- Voc  um covarde, Abner?
- Sou um simples oleiro que deseja viver em paz, Majestade.
Eis o que sou.
. - Os sbios no acreditam no acaso. Por que razo est envol-
vido na tragdia?
Abner pretendia continuar mentindo, mas a voz do fara ani-
quilava as suas defesas.
-Moiss. . . Moiss era o chefe dos oleiros. Todoslhe devamos
obedincia, mas a sua autoridade incomodava Sary
- Sary o maltratou?
Abner balbuciou algumas palavras incompreensveis.
- Fale claramente - exigiu o rei.
' - Sary. . . Sary no era um homem bom, Majestade.
-Tenho conscincia de que era mesmo velhaco e cruel.
A declarao de Ramss acalmou Abner.
- Sary ameaou-me - confessou o hebreu. - Obrigou-me
a entregar-lhe parte dos meus ganhos.
' - Chantagem. . . Por que lhe fez a vontade?
-Tinha medo, Majestade, muito medo! Sar teria me batido
y ,
demitido. . .
- Por que no apresentou queixa?
- Sary tinha muitos conhecimentos na guarda. Ningum ou-
sava opor-se a ele.
- Ningum, exceto Moiss!
- Para seu mal, Majestade, para seu mal. . .
- LIm mal ao qual voc no era estranho, Abner.
O hebreu desejou enfiar-se num buraco para escapar da inteli-
gncia do soberano, que o penetrava como uma verruma perfurando
um vaso.


- Desabafou com Moiss, no  verdade?
-Moiss sempre foi bom e corajoso...
- Quero a verdade, Abner!
- Sim, Majestade, desabafei com ele.
- Como reagiu?
A Batalha de Kadesh 49
-Aceitou defender-me.
- De que maneira?
- Ordenando a Sary que no me importunasse mais, supo-
nho... Moiss no era de falar muito.
- Fatos, Abner, quero apenas fatos.
- Estava descansando em minha casa quando Sary a invadiu,
dominado por violenta clera. "Co hebreu", berrara ele, "atreva-se
a falarl" Bateu-me, protegi a face com as mos e tentei escapar. Moiss
entrou e atracou-se com Sary Sary morreu. . . Se Moiss no tivesse
intervindo, o morto seria eu.
-Em suma: trata-se de um caso de legtima defesa! Com o seu
testemunho, Abner, Moiss poderia ter sido absolvido por um tribu-
nal e recuperado o seu lugar entre os egpcios.
- Eu no sabia, eu. . .
- Por que se calou, Abner?
- Estava com medo!
-De quem, se Sary estava morto? Haver outro contramestre
perseguindo-o?
-No, no...
- O que o assusta?
-Ajustia, a guarda...
- Mentir  uma falta grave, Abner Mas talvez no acredite na
existncia da balana do outro mundo, aquela que pesar os nossos atos.
O hebreu mordeu os lbios.
- Manteve-se em silncio - continuou Ramss - porque
receava que os investigadores chegassem at voc. Auxiliar Moiss, o
homem que lhe salvou a vida, no interessava a voc.
- Majestade!
- Eis a verdade, Abner: voc queria permanecer na sombra
porque tambm  um chantagista. Serramanna soube fazer soltar a lngua
dos oleiros principiantes que voc explora sem remorsos.
O hebreu ajoelhou-se em frente ao rei.
-Ajudo-os a arranjar trabalho, Majestade. . .  uma retribuio
justa.
-Voc no passa de um canalha, Abner, mas o seu valor a meus
,' olhos  imenso, pois poder inocentar Moiss e justificar o seu gesto.
50 RAMSS
-Vossa Majestade vai... vai me perdoar?
- Serramanna o levar perante um juiz, que tomar o seu
depoimento. Sob juramento, descrever os fatos sem omitir um nico
detalhe. Que eu nunca mais oua falar de voc, Abner.
8
O Calvo, dignitrio da Casa da Vida de Helipolis,
estava encarregado de verificar a qualidade dos alimentos trazidos por
agricultores e pescadores. Escrupuloso, mesmo brincalho, examina-
va cada fruto, cada legume, cada peixe. Os vendedores receavam-no,
mas o estimavam, pois pagava o preo justo; entretanto, nngum
podia tornar-se seu fornecedor fixo, pois no caa na rotina nem
concedia quaisquer privilgios. Para ele, o que interessava era a per-
feio dos alimentos que seriam consagrados pelo ritual e oferecidos
aos deuses antes de serem redistribudos aos humanos.
Feita a escolha, o Calvo orientava as suas compras para as
cozinhas da Casa da Vida, cujo nome, "o lugar puro", traduzia o
permanente cuidado com a higiene. O sacerdote fazia, com freqn-
cia, inspees inesperadas, por vezes seguidas de pesadas punies.
Naquela manh, dirigiu-se  despensa de peixes secos e salgados.
O ferrolho de madeira da porta, cujo mecanismo somente ele e
o encarregado da despensa conheciam, fora serrado.
Apreensivo, empurrou a porta.
O silncio e a penumbra habituais.
Avanou, inquieto, mas no detectou nenhuma presena insli-
ta. LIm pouco mais calmo, parou na frente de cada pote; as etiquetas
identificavam o nome e o nmero de peixes em conserva, e a data da
salga.
Junto da porta, um espao vazio.
Ficou estupefato: haviam roubado um pote.
52 RAMSS
                Pertencer  Casa da rainha era uma honra com a qual sonhavam
                todas as damas da corte. Mas Nefertari dava mais ateno  compe-
                tncia e  seriedade do que  fortuna ou posio social. Tal qual
                Ramss quando formara seu governo, ela provocara muitas surpresas
                ao escolher jovens de origem humilde para as funes de cabeleireira,
                tecel ou criada de quarto.
                Fora atribuda a uma linda morena nascida em um dos arredores
                populares de Mnfis a invejada funo de roupeira da grande esposa
                real. Essa funo consistia, particularmente, em cuidar das indumen-
                trias preferidas de Nefertari que, apesar da enormidade do seu
        -        guarda-roupa, sentia predileo particular por vestidos antigos e por
                um velho xale que gostava de usar no fim do dia, por recear a friagem
                do poente, como tambm recordava, sonhadora, ter-se agasalhado
                com ele na noite do seu primeiro encontro com o prncipe Ramss,
                o simultaneamente fogoso e delicado jovem que mantivera  distncia
                durante tanto tempo, antes de admitir a sua prpria paixo por ele.
                Tanto quanto os outros empregados da Casa da rainha, a rou-
                peira sentia pela soberana uma verdadeira venerao. Nefertari sabia
                governar com graa e dar ordens com um sorriso; nenhuma tarefa lhe
                parecia demasiado humilde para ser negligenciada e no aceitava
                atrasos injustificados nem mentiras. Quando surgia um problema,
                gostava de ser ela prpria a falar com a serva faltosa e ouvir suas
                explicaes. Amiga e confidente de Touya, a rainha-me, e de Nefer-
                tari, a grande esposa real, soubera conquistar-lhes os coraes.
                A roupeira perfumava-lhe as roupas com essncias requintadas
                provenientes do laboratrio do palcio, tendo o cuidado de no fazer
                qualquer prega no momento de guardar as roupas nas arcas de
                madeira e nos armrios. Quando comeou a anoitecer, ela foi buscar
                o velho xale com que a rainha gostava de cobrir os ombros enquanto
                celebrava os ltimos rituais do dia.
                O sangue fugiu-lhe do rosto.
                O xale no estava no lugar!
A Batalha de Kadesh 53
"Impossvel", pensou, "enganei-me de arca." Comeou a pro-
curar em outras arcas, depois nos armrios.
Foi intil.
A roupeira interrogou as criadas de quarto, a cabeleireira da
rainha, as lavadeiras... Nenhuma sabia de nada.
O xale preferido de Nefertari havia sido roubado.
O conselho de guerra estava reunido na sala de audincias do
palcio de Pi-Ramss. Os generais que comandavam os quatro exr-
citos atenderam prontamente  convocao do rei, chefe supremo das
tropas. Ameni tomava notas e depois redigiria um relatrio.
Os generais eram escribas de idade avanada, principalmente
#
letrados, possuidores de grandes domnios e bons administradores.
Dois deles haviam combatido os hititas sob as ordens de Sethi, mas
o alistamento fora breve e de pouca importncia. Na realidade,
nenhum daqueles oficiais superiores entrara num conflito de grandes
propores; por isso, quanto mais se aproximava a guerra, pior se
sentiam.
- Como est nosso armamento?
- Bom, Majestade.
-A produo?
-Em plena atividade. De acordo com suas instrues, os bnus
dos ferreiros e dos fabricantes de flechas foram duplicados. Mas
precisamos de mais espadas e punhais para o combate corpo a corpo.
- Os carros?
- Dentro de algumas semanas estaro em nmero suficiente.
- Os cavalos?
- Muito bem tratados. Os animais partiro em excelentes
condies fsicas.
- O moral dos homensl
- A  que est o problema, Majestade - confessou o mais
novo dos generais. - A sua presena  benfica, mas continuam a
correr mil e uma histrias sobre a crueldade e a invencibilidade dos
hititas. Apesar dos constantes desmentidos, essas histrias estpidas
deixam marcas nos espritos.
54 RAMSS
- Mesmo nos dos meus generais?
-No, Majestade, claro que no... Mas subsistem dvidas em
relao a alguns pontos.
- Quais?
- Bem... O inimigo ser realmente superior em nmero?
- Comearemos por restabelecer a ordem em Cana.
- Os hititas j se encontram l?
- No, o exrcito deles no se aventurou to longe de suas
bases. Somente os comandos espalharam a perturbao antes de
retornarem para a Anatlia. Convenceram os reizinhos locais a trair-
nos para provocarem conElitos que desgastassem as nossas foras. No
o conseguiro. A rpida reconquista das nossas provncias dar aos
soldados o entusiasmo necessrio para continuarem em direo norte
e conseguirem uma grande vitria.
-Alguns esto inquietos... pelas nossas fortalezas.
-No h motivo para isso. H dois dias chegou ao palcio uma
: dezena de pombos-correios trazendo mensagens reconfortantes. Ne-
nhuma fortaleza caiu nas mos do adversrio; dispem dos vveres e
das armas necessrios para resistirem a eventuais assaltos at a nossa
chegada. Temos, no entanto, de apressar-nos; j demoramos demais.
 O desejo formulado por Ramss tinha o valor de uma ordem.
Os generais curvaram-se e regressaram s suas casernas, com a firme
inteno de acelerar os preparativos da partida.
- Incompetentes! - resmungou Ameni, pousando delicada-
mente o junco talhado de que se servia para escrever.
- Severo julgamento - considerou Ramss.
- Olhe para eles: so medrosos, aferrados a uma vida fcil! At
agora passaram mais tempo refestelando-se nos jardins de suas villas
do que enfrentando um campo de batalha. Como se comportaro na
frente dos hititas, cuja nica razo de viver  a guerra? Os seus generais
j estaro mortos ou em fuga.
- Sugere a substituio de todos?
- No h mais tempo; e mesmo que houvesse, de que adian-
taria? Todos os seus oficiais superiores so da mesma laia.
- Desejaria que o Egito se abstivesse de qualquer interveno
militar?
A Batalha de Kadesh 55
,
- Seria um erro mortal. . . E necessrio reagir, tem razo, mas a
situao  clara: a nossa capacidade de vencer depende de voc, e
somente de voc.
Ramss recebeu o amigo Acha tarde da noite. O rei e o chefe
dos servios de espionagem s concediam a si prprios raros momen-
tos de descanso; na capital, a tenso era cada vez mais perceptvel.
Em uma das janelas do gabinete do fara, os dois homens
contemplaram o cu noturno, cuja alma era formada por milhares de
#
estrelas.
- Novidades, Acha?
- A situao est bloqueada: de um lado, os revoltosos; do
outro, as nossas fortalezas. Os guerreiros aguardam a sua interveno.
- Fervo de impacincia, mas no tenho o direito de arriscar a
vida dos meus soldados. Falta de preparo, material insuficiente...
Adormecemos durante muito tempo sob uma paz ilusria. O desper-
tar  brutal, mas salutar.
                - Que os deuses o ouam.
                - Duvida do seu auxi'lio?
                - Estaremos  altura dos acontecimentos?
                - Os que combaterem sob as minhas ordens defendero O
        Egito com o risco da prpria vida. Se os hititas alcanassem os seus
        objetivos, seria o reino das trevas.
                - J pensou que pode morrer?
                - Nefertari assegurar a regncia e, se necessrio, reinar.
                - Como a noite est bela. . . Por que os homens s pensam em
        matar-se uns aos outros?
                - Eu havia sonhado com um reinado tranqilo. O destino,
        porm, decidiu de outra forma, e no lhe fugirei.
                - Isso poder ser-lhe hostil, Ramss.
                - J no tem confiana em mim?
                -Talvez eu tenha medo, como todos.
                -Descobriu algulna pista de Moiss?
                -At agora, nada. Parece ter mesmo desaparecido.
                - No, Acha.
56 RAMSS
- Por que tem tanta certeza?
- Porque voc no fez nenhuma investigao.
O jovem diplomata no perdeu a calma.
- Recusou-se a enviar os seus agentes na pista de Moiss -
continuou Ramss - porque no deseja a sua priso nem a sua
condenao  morte.
- Moiss no  nosso amigo? Se o trouxer de volta ao Egito,
ser fatalmente condenado  pena mxima.
- No, Acha.
- Voc, o fara, no pode violar a lei!
-No tenho a mnima inteno disso. Moiss poder viver livre
no Egito porque a justia o absolver.
- Mas. . . Ele no matou Sary?
- Em legtima defesa, segundo um depoimento devidamente
registrado.
- Que notcia fabulosa!
- Procure Moiss e o encontre.
-No ser fcil... Levando em conta as atuais agitaes, talvez
esteja escondido num lugar inacessvel.
- Encontre-o, Acha.
9
Com ar zangado, Serramanna entrou no bairro dos
oleiros. Quatro jovens hebreus vindos do Mdio Egito no haviam
hesitado em acusar Abner de chantagem e extorso. Graas a ele,
haviam conseguido um lugar, mas a que preol
Os investigadores conduziram o inqurito de forma deplorvel.
Sary era um personagem pouco recomendvel, mas, ainda assim,
influente, e Moiss um homem bastante incmodo; a morte do
primeiro e o desaparecimento do segundo no ofereciam vantagens?
Talvez preciosos indcios tivessem sido negligenciados. O sardo
fizera inmeras perguntas por todo o bairro antes de forar de novo
a porta de Abner
O oleiro consultava uma tabuleta coberta de nmeros enquanto
saboreava po temperado com alho. Quando viu Serramanna, escon-
deu a tabuleta por baixo da roupa.
- Ento, Abner, continua fazendo contas?
 Sou inocente!
- Se recomear o seu negociozinho, ter de se haver comigo.
-- O rei me protege!
- Nem sonhe com isso!
O sardo agarrou uma cebola doce e trincou-a.
- No tem nada para beber?
- Sim, na arca. . .
#
Serramanna levantou a tampa.
-- Pelo deus Bs, aqui tem o suficiente para celebrar uma bela
festa da bebedeira! nforas de vinho e de cerveja.. . A sua profisso
rende bem, Abner.
58 RAMSS
                - So... presentes.
                -  muito bom ser assim apreciado.
                - O que est querendo de mim? J dei o meu depoimento!
                - E mais forte do que eu: eu gosto de sua companhia.
                - Disse tudo o que sabia.
                - No acredito. No tempo em que era pirata, eu prprio
        interrogava os meus prisioneiros; havia muitos cue no se lembravam
        do lugar onde tinham escondido suas riquezas. A fora de persuaso,
        acabavam sempre por se recordar.
                - No tenho fortuna!
                - O seu dinheiro no me interessa.
                Abner pareceu fcar mais calmo. Enquanto o sardo abria uma
        nfora de cerveja, o hebreu fez deslizar a tabuleta para debaixo de
        uma esteira.
- O que escreveu nesse pedao de madeira, Abner?
- Nada, nada. . .
-As quantias que extorquiu dos seus irmos hebreus, aposto.
Bela prova para um tribunal!
Assustado, o oleiro no protestou.
-Podemos entender-nos, amigo; eu no sou guarda nem juiz.
- O que. . . O que est querendo propor?
- Estou interessado em Moiss e no em voc. (',onhecia-o
bem, no  verdade?
- No mais do que qualquer outro. . .
- No minta, Abner. Queria obter a sua proteo e por isso O
espionou para saber que tipo de homem ele era, como se comportava,
com quem se relacionava...
- Passava o tempo todo trabalhando.
- Com quem se encontrava?
- Com os responsveis pelos canteiros de obras, os oper-
rios, os...
- E depois do trabalho?
-Conversava muitas vezes com os chefes de cl hebreus.
- De que falavam?
-Somos um povo orgulhoso e descontado. . . 'lmos por vezes
anseios de independncia. Aos olhos de uma minoria de exaltados,
A Batalha de Kadesh 59
Moiss surgia como um guia. Terminada a construo de Pi-Ramss,
essa loucura seria rapidamente esquecida.
- LIm dos operrios que voc "protegia" falou-me da visita de
um curioso personagem com quem Moiss teria conversado um longo
tempo, a ss, na sua casa oficial.
-  verdade... Ningum conhecia o homem. Disseram que
era um arquiteto vindo do Sul para dar conselhos tcnicos a Moiss,
mas nunca apareceu num dos canteiros.
- Descreva-o.
- Cerca de sessenta anos, alto, magro, com cara de ave de
rapina, nariz proeminente, mas do rosto salientes, lbios muito
finos e queixo pontudo.
- E sua roupa?
- LIma tnica ordinria. . . LIm arquiteto se vestiria melhor.
Sou capaz de jurar que aquele homem tentava passar despercebido.
S falou com Moiss.
- Seria um hebreu?
- Tenho certeza que no.
- Quantas vezes veio a Pi-Ramss?
- LImas duas vezes.
- Depois da fuga de Moiss, algum tornou a v-lo?
- No.
Serramanna, cheio de sede, esvaziou uma nfora de cerveja
doce.
- Espero que no me tenha ocultado nada, Abner, porque, do
contrrio, os meus nervos poderiam fazer-me perder o controle.
- Disse-lhe tudo que sabia acerca do homem!
- No lhe peo que se torne honesto, porque seria pedir
#
demais; procure pelo menos fazer com que eu o esquea.
- Quer. . . outra nfora como a que acabou de beber?
O sardo apertou o nariz do hebreu entre o polegar e o indicador.
- E se eu o arrancasse, para lhe castigar?
A dor foi tanta que Abner desmaiou.
Serramanna deu de ombros, saiu da casa do oleiro e seguiu em
deo do palcio, mergulhado em seus pensamentos.
As investigaes haviam sido muito proveitosas.
60 RAMSS
Moiss conspirava. Tencionava encabear um partido hebreu,
certamente para exigir mais benefcios em favor do seu povo ou
talvez uma cidade autnoma no Delta. E se o homem misterioso
fosse um estrangeiro que tivesse vindo propor aos hebreus um
auxlio externo? Nesse caso, talvez Moiss fosse tambm culpado
de alta traio.
Ramss nunca aceitaria dar ouvidos a semelhantes suposies.
Antes de formul-las, para depois avisar ao rei contra aquele que
acreditava ser seu amigo, Serramanna tinha que obter provas.
O sardo comeava a mexer no braseiro.
                        Iset a Bela, a segunda esposa de Ramss e me do seu filho Kha,
                dispunha de instalaes suntuosas em Pi-Ramss, no recinto do
        '        palcio. Embora no houvesse atritos em seu relacionamento com
                Nefertari, preferia viver em Mnfis e deleitar-se em banquetes nos
                uais a sua beleza era adulada.
                q
                        Olhos verdes, nariz pequeno e reto, lbios finos, graciosa, viva e
                alegre, Iset a Bela estava condenada a uma existncia luxuosa e vazia.
                Apesar da juventude, vivia apenas de recordaes. Fora a primeira
                amante de Ramss, amara-o e amda o amava com a mesma loucura
                e paixo, mas sem desejo de lucar para reconquist-lo. LIm dia, em
                certo momento, odiara esse rei d quem as divindades haviam conce-
                dido todos os dons; no possua tambm o dom de seduzi-la, mesmo
                quando seu corao pertencia a Nefertari?
                        Se pelo menos a grande esposa real fosse feia, estpida e
                odiosa. . . Mas a prpria Iset sucumbira ao seu fascnio e a reconhecia
                como uma criatura extraordinria, uma rainha  altura de Ramss.
                        "Que estranho destino", pensava a jovem, "ver o homem que
                amamos nos braos de outra . admitir que essa situao cruel 
                justa e boa."
                        Se Ramss aparecesse, Iset a Bela no lhe faria qualquer censura.
                Oferecer-se-ia com o mesmo deslumbramento dos seus primeiros
                encontros, numa cabana de juncos perdida no campo. Fosse Ramss
                pastor ou pescador, a fora do seu desejo a teria arrastado para ele da
                mesma forma.
A Batalha de Kadesh 61
Iset no tinha qualquer pretenso ao poder; teria sido mesmo
incapaz de assumir as funes de rainha do Egito e de Ezer face s
obrigaes que assoberbavam Nefertari. Inveja e cime no faziam
parte de sua natureza. Iset a Bela agradecia s potncias celestes por
lhe concederem uma felicidade incomparvel: a de amar Ramss.
Aquele dia de vero seria um dia feliz.
Iset a Bela brincava com o filho Kha, de nove anos, e com a filha
de Nefertari, Meritamon, que em breve celebraria o quarto anivers-
rio. As duas crianas entendiam-se maravilhosamente; a paixo de
Kha pela leitura e a escrita no diminura, e ainda ensinava  irm o
desenho dos hierglifos, chegando mesmo a guiar-lhe a mozinha
trmula. Hoje, a lio era sobre o desenho de pssaros, que exigia
destreza e preciso.
-Venham tomar banho, a gua est deliciosa.
- Prefiro estudar - respondeu Kha.
-Tambm deve saber nadar
- Isso no me interessa.
- Talvez a sua irm queira descansar um pouquinho.
A filha de Ramss e Nefertari era to bonita quanto a me.
Hesitou, receando desagradar a um e outro. Gostava de nadar, mas
no queria contrariar Kha, que sabia tantos segredos!
-Voc me d licena de entrar na gua? -perguntou, ansiosa.
Kha refletiu.
- Est bem, mas no demore muito. Tem que tentar o desenho
do filhote de codorniz; a cabea no est corretamente redonda.
#
Meritamon correu para Iset a Bela, que se sentia feliz com a
confiana que Nefertari depositava nela, permitindo-lhe participar da
educao da filha.
A jovem e a menina entraram na gua fresca e pura do lago, 
sombra de um sicmoro. Sim, aquele seria um dia feliz.
10
Em Mnfis, o calor tornara-se sufocante. O vento
norte havia cado, e seus jatos ardentes ressecavam a garganta dos
homens e dos animais. Grossos panos foram estendidos entre os
telhados das casas para manter as ruelas  sombra. Os transportadores
de gua no sabiam para onde se voltar.
Na sua confortvel villa, o mago Ofir no sofria com o calor.
Aberiuras dispostas no topo das paredes asseguravam a circulao do
ar. O local era calmo, repousante e propcio ao recolhimento indis-
pensvel para a realizao de seus malefcios.
Ofir sentia-se invadido por uma espcie de exultao. Em geral,
o lbio praticava a sua cincia com frieza, quase com indiferena. Mas
nunca empreendera uma tarefa to difcil, e a sua dimenso o excitava.
' Ele, o filho de um conselheiro lbio de Akhenaton, teria a sua vingana.
f
Seu ilustre convidado, Chenar, o irmo mais velho de Ramss e
ministro dos Negcios Estrangeiros, chegou no meio da tarde, quan-
do as ruas da cidade, tanto as grandes como as pequenas, estavam
desertas. Chenar tivera o cuidado de se deslocar num carro que
pertencia ao seu aliado Meba; um servial mudo conduzia o veculo.
O mago cumprimentou Chenar com deferncia. Este, tal como
no encontro anterior, sentiu-se pouco  vontade, pois o lbio com
cara de ave de rapina possua um olhar glacial. Com os olhos de um
verde sombrio, o nariz proeminente e os lbios muito finos, parecia
mais um demnio do que um homem. No entanto, sua voz e suas
atitudes estavam envoltas em doura e, por momentos, tinha-se a
impresso de se estar diante de um velho sacerdote de palavras
 serenas.
64 RAMSS
- Por que essa chamada fora de hora, Ofir No aprecio nada
este tipo de procedimento.
- Porque continuo a trabalhar pela nossa causa, senhor. No
ficar desiludido.
-Assim espero, para o seu bem.
- Se fizer a gentileza de seguir-me. . . As senhoras nos esperam.
Chenar oferecera aquela moradia ao mago para que nela prati-
casse tranqilamente a feitiaria e deste modo favorecesse-lhe a
subida ao poder  claro que o irmo mais velho de Ramss tomara
a precauo de colocar a casa em nome de sua irm Dolente. Que
aliados preciosos para explorar... Acha, o amigo de infncia do rei e
conspirador de talento, o mercador srio Raia, espio hitita hbil entre
todos, e agora Ofir, mago que lhe fora apresentado pelo ingnuo
Meba, ex-ministro dos Negcios Estrangeiros, cujo lugar lhe tomara
fazendo-o crer que a iniciativa do seu afastamento partira de Ramss.
Ofir encarnava um mundo estranho e perigoso de que Chenar
desconfiava, mas cujo poder de fazer o mal no era bom de se
desdenhar
Ofir afirmava ser a cabea pensante de um projeto poltico que
consistia em fazer reviver a heresia de Akhenaton -a instaurao do
A
culto do deus nico, Aton, como religio de estado - para em
seguida colocar no trono do Egito uma obscura descendente do rei
louco. Chenar dera a entender a Ofir que aprovava a expanso da sua
seita, cuja mensagem podia seduzir Moiss. Por isso, o feiticeiro
entrara em contato com o hebreu, a fim delhe provar que tinham um
ideal em comum.
Chenar imaginava que uma oposio interna, mesmo mnima,
seria um transtorno a mais para Ramss. Quando subisse ao trono,
ficaria livre de todos os seus incmodos aliados, porque para um
homem de poder no deve existir passado.
Infelizmente, Moiss cometera um assassinato e fugira. Sem o
apoio dos hebreus, Ofir no tinha qualquer chance de reunir um
nmero suficiente de partidrios de Aton para desestabilizar Ramss.
 certo que o mago provara a sua competncia, dificultando o parto
de Nefertari e pondo em perigo a sua existncia e a da filha, Merita-
#
mon. Mas ambas continuavam vivas. Embora a rainha nunca mais
A Batalha de Kadesh 65
pudesse dar  luz outra criana, a verdade  que a magia da casa real
vencera a do lbio.
Ofir estava se tornando intil, mesmo incmodo; assim, ao
receber a sua mensagem pedindo-lhe que viesse com urgncia a
Mnfis, Chenar estava pensando em elimin-lo.
- O nosso convidado chegou - anunciou Ofir s duas mu-
lheres sentadas na penumbra, de mos dadas.
A primeira era Dolente, sua irm, uma morena perpetuamente
cansada; a segunda, Lita, uma loura volumosa que Ofir apresentava
rnmo neta de Akhenaton. Chenar considerava-a uma retardada men-
tal, submetida  vontade do mago negro.
-A minha querida irm est bem?
- Estou feliz por v-lo, Chenar. A sua presena prova que
estamos no bom caminho.
Dolente e Sary, seu marido, haviam esperado em vo que Ramss
Ihes concedesse uma posio privilegiada na corte. Desiludidos,
conspiraram contra o rei. Fora necessria a interveno de Touya, a
rainha-me, e de Nefertari, a grande esposa real, para que Ramss se
mostrasse clemente depois de descoberta a trama. Sary, o antigo
preceptor de Ramss, fora rebaixado  posio de contramestre;
despeitado e enfurecido, descarregara todo o seu dio sobre os oleiros
hebreus.  fora de injustias e infmias, provocara a clera de Moiss
e atrara a sua prpria morte. Quanto a Dolente, cara sob o fascnio
de Ofir e de Lita. A flcida mulher morena estava inteiramente
dedicada a Aton, o deus nico, e militava pelo regresso do seu culto
: e pela queda de Ramss, o fara mpio.
O dio de Dolente interessava a Chenar, que lhe prometera um
lugar de primeira linha no futuro Estado; de uma forma ou de outra,
utilizaria a fora negativa da irm contra o irmo. Quando a loucura
da irm se tornasse insuportvel, Chenar a exilaria.
-Tem tido notcias de Moiss? -perguntou Dolente.
- Desapareceu - respondeu Chenar. - Os seus irmos
hebreus com certeza o assassinaram e o enterraram no deserto.
- Perdemos um aliado precioso - reconheceu Ofir - mas a
vontade do deus nico cumprir-se-. No somos cada vez mais
numerosos?
66 RAMSS
-  necessrio prudncia - aconselhou Chenar.
-Aton nos ajudar! -afirmou Dolente, exaltada.
-No perdi de vista o meu projeto inicial -atirmou o mago.
- Tenho que enfraquecer as defesas mgicas de Ramss, o nico e
verdadeiro obstculo que est bloqueando o nosso caminho.
- bom lembrar que o seu primeiro trabalho no foi coroado
de xito - lembrou Chenar.
- Reconhea-lhe, no entanto, uma certa eEiccia.
- Com resultado insuficiente.
-Admito, senhor Chenar. Foi por isso que decidi utilizar uma
tcnica diferente.
- Aquela?
Com a mo direita, o mago lbio apontou um pote com uma
etiqueta.
- Quer l-la?
-Helipolis, Casa do Vido. Quatro peixes: tainhas. Conservas
- No so conservas comuns: so alimentos destinados s
oferendas, escolhidos com cuidado e j carregados de magia. Dispo-
nho tambm desta pea de vesturio.
Ofir brandiu um xale.
- Eu juraria. . .
- Sim, senhor Chenar,  realmente o xale da grande esposa
real, Nefertari.
- Foi. . . roubado?
- Os meus partidrios so numerosos, como j lhe disse.
Chenar estava espantado. De que cumplicidade teria se beneti-
ciado o mago?
-Reunir estes dois elementos, a comida e o xale que tocou no
corpo da rainha, era indispensvel para poder avanar. Graas a eles
e  sua determinao, conseguiremos restaurar o culto de Aton. Lita
dever reinar: ela ser a rainha, e o senhor, o Fara.
#
Lita ergueu para Chenar um olhar deslumbrado e confiante. A
jovem era muito atraente e daria uma amante bastante aceitvel.
- Falta Ramss. . .
-Ele  apenas um homem -declarou Ofir -e no resistir
a trabalhos violentos e repetidos. Mas, para venc-lo, preciso de aj uda.
A Batalha de Kadesh 67
-Tem a minha! -exclamou Dolente, apertando com mais fora
as mos de Lita, cujos olhos exorbitados no desgrudavam do lbio.
- Qual  o seu plano? - interrogou Chenar.
Ofir cruzou os braos sobre o peito.
-A sua ajuda me  igualmente indispensvel, senhor Chenar.
- Eu? Mas. . .
- Ns quatro desejamos a morte do casal real; ns quatro
simbolizamos as direes do espao, os limites do tempo, o mundo
inteiro. Se uma dessas quatro foras faltar, o sortilgio ser inoperante.
- No sou mago!
- Bastar a sua boa vontade.
-Aceite -suplicou Dolente.
- O que terei de fazer?
- LIm simples gesto - precisou Ofir - que contribuir para
derrubar Ramss.
-Comecemos, ento.
O mago abriu o pote e tirou dele os quatro peixes salgados e
secos. Como que alucinada, Lita empurrou Dolente e deitou-se de
costas. Ofir colocou-lhe sobre o peito o xale de Nefertari.
-Agarre um dos peixes pelo rabo -ordenou a Dolente.
A volumosa morena de formas llcidas obedeceu. Do bolso da
tnica, Ofir retirou uma minscula figurinha com a efgie de Ramss,
e enfiou-a na boca da tainha.
- O segundo peixe, Dolente.
O mago recomeou a operao.
No final, quatro peixes engoliram quatro figurinhas de Ramss.
- Ou o rei morrer na guerra - profetizou Ofir - ou cair
na armadilha quelhe armaremos  chegada. Ficar para sempre
separado da rainha.
Ofir passou para um pequeno compartimento, seguido por
Dolente, com os braos estendidos, transportando os quatro peixes,
e por Chenar, cuja esperana de prejudicar Ramss dominava-lhe o
medo.
No meio do quarto, um braseiro.
- Lance os peixes ao fogo, senhor; assim a sua vontade se
.,
cumpnra.
68 RAMSS
                Chenar no hesitou.
                        Quando o quarto peixe encarquilhou-se, um berro o sobressal-
                tou. O trio correu, ento,  sala de estar
                        O xale de Nefertari inflamara-se sozinho, queimando a loura
                Lita, a ponto de faz-la desmaiar.
                        Ofir retirou-lhe a pea do peito; a chama extinguiu-se.
                        -Quando o xale estiver inteiramente consumido -explicou
                Ofir -Ramss e Nefertari sero dominados por demnios infemais .
                        - Lita ter de sofrer mais ainda? - inquietou-se Dolente.
                        - Lita aceitou o sacrifcio. Dever permanecer consciente
        `        durante toda a experincia. Cuide dela, Dolente; logo que a quei-
                madura estiver curada, recomearemos, at a destruio completa
                do xale. Ser preciso tempo, senhor Chenar, mas haveremos de
                conseguir.
11
Responsvel por todo o corpo mdico do Norte e
do Sul, e mdico-chefe do palcio, o doutor Pariamakhu era um
qinquagenrio ativo, de mos longas, finas e bem cuidadas. Rico e
casado com uma nobre de Mnfis, e pai de trs belos filhos, podia
gabar-se de ter concludo uma carreira perfeita que lhe conquistara
a estima geral.
No entanto, naquela manh de vero, o doutor Pariamakhu
aguardava na antecmara e mal conseguia dominar a raiva. Ramss,
que nunca estivera doente, fazia-o esperar, ele, um ilustre terapeuta,
h mais de duas horas.
Finalmente, um camareiro veio busc-lo e o conduziu  entrada
#
do gabinete do monarca.
-Majestade, sou seu humilde servidor, mas...
- Como vai, caro doutor?
-Majestade, estou muito inquieto! Murmura-se na corte que
est pensando em me designar para trabalhar como mdico do
exrcito que vai partir para o Norte.
- No seria uma grande honra?
- Com certeza, Majestade, mas no serei mais til no palcio?
-Talvez eu deva levar isso em considerao.
Pariamakhu no escondeu uma pontada de angstia.
-Majestade... Posso saber que deciso tomou?
- Pensando bem, voc tem razo. A sua presena no palcio 
indispensvel. . .
O terapeuta mal conteve um suspiro de alvio.
70 RAMSS
- Tenho a mxima confiana nos meus auxiliares, Majestade.
Seja qual for o que escolher, ele lhe dar inteira satisfao.
-A minha escolha j est feita. Creio que conhece o meu amigv
Setaou, no  verdade?
LIm homem atarracado, sem peruca, mal barbeado, de cabea
quadrada, olhar agressivo, envergando uma tnica de pele de antlope
com mltiplos bolsos, avanou para o ilustre mdico, que recuou um
passo.
- Sinto-me feliz por conhec-lo, doutor! Admito que a minha
carreira no  brilhante, mas as serpentes so minhas amigas. Quer
acariciar a vbora que capturei ontem  noite?
O mdico recuou mais um passo. Estupefato, voltou-se para o rei.
- Majestade, as condies exigidas para dirigir um servio
mdico...
- Doutor, voc deve manter-se permanentemente vigilante
durante a minha ausncia. Considero-o pessoalmente responsvel
pela sade da famlia real.
Setaou mergulhou a mo num dos bolsos. Receando que de l
retirasse um rptil, Pariamakhu saudou rapidamente o monarca e
desapareceu do recinto.
- Durante quanto tempo vai estar rodeado por semelhantes
idiotas? - perguntou o encantador de serpentes.
- No seja to severo; ele, s vezes, consegue curar os seus
doentes. A propsito... Aceita ser o responsvel pelos servios
mdicos do exrcito?
- O posto no me interessa, mas no tenho o direito de
deix-lo partir sozinho.
LIm pote de peixes secos da Casa da Vida de Helipolis e o
xale da rainha Nefertari... Dois roubos, um nico culpado! Serra-
manna tinha certeza de t-lo identificado: s podia ser Romeu, o
intendente do palcio. O sardo desconfiava dele h muito tempo.
Aquele sujeitinho metido a besta traa o rei e estava, mesmo,
tentando assassin-lo.
Ramss escolhera mal o seu intendente.
A Batalba de Kadesh 71
O sardo no podia falar ao rei nem de Moiss nem de Romeu
sem se arriscar a desencadear uma reao violenta, que no levaria 
priso do crpula do intendente nem  quebra da amizade que o
soberano dedicava ao hebreu. A quem podia dirigir-se seno a Amenil
O secretrio particular de Ramss, que era lcido e desconfiado,
aceitaria ouvi-lo.
Serramanna passou entre os dois soldados que guardavam a
porta do corredor que conduzia ao gabinete de Ameni. O infatigvel
escriba dirigia um servio que englobava vinte funcionrios de alto
gabarito encarregados de todas as pastas de assuntos importantes.
Ameni extraa delas o essencial, comunicando-o imediatamente a
Ramss.
O sardo ouviu um rudo de passos precipitados atrs de si.
Admirado, voltou-se. LIma dezena de soldados apontavam as
lanas em sua direo.
- O que  que deu em voc?
-Temos ordens.
- Quem lhe d as ordens sou eu!
- Devemos prend-lo.
- Mas que loucura  essa?
#
- Nenhuma, apenas obedecemos.
-Afastem-se ou acabo com vocsl
A porta do gabinete de Ameni abriu-se, e o secretrio particular
do rei apareceu no limiar
- Diga a estes imbecis para irem embora, Amenil
- Fui eu que ordenei a sua priso.
LIm naufrgio no teria impressionado tanto o antigo pirata.
Durante alguns segundos foi incapaz de reagir Os soldados aprovei-
taram para lhe tirar as armas e atar-lhe as mos atrs das costas.
- Explique-me. . .
A um sinal de Ameni, os guardas empurraram Serramanna para
o gabinete do secretrio particular de Ramss. O escriba consultou
um papiro.
- Conhece uma tal de Nenofar?
- Claro,  uma das minhas amantes. A ltima, alis, para ser
mais exato.
72 RAMSS
- Por acaso brigaram?
- Palavras apaixonadas, no fogo da ao.
- Violentou-a?
O sardo sorriu.
- Atracamo-nos duramente algumas vezes, mas eram batalhas
pela conquista do prazer.
- Ento no tem nada a censurar dessa moa?
-Tenhol Ela  inesgotvel no amor!
Ameni permanecia glacial.
- Esta Nenofar fez graves acusaes contra voc.
- Mas. . . posso jurar que ela estava querendo!
- No falo dos seus excessos sexuais, mas de sua traio.
-Traio... Foi essa palavra que falou?
- Nenofar acusa-o de ser um espio pago pelos hititas.
- Est brincando comigo, Ameni?
- Essa jovem ama o seu pas. Quando descobriu umas tabuazinhas
de madeira bastante estranhas escondidas na arca da roupa do seu quarto,
achou conveniente traz-las a mim. Reconhece-as?
Ameni mostrou os objetos ao sardo.
- Isso no me pertence!
- So as provas do crime. De acordo com os textos escritos
de forma bastante grosseira, anuncia ao seu contato hitita que
arranjar as coisas de forma a tornar inoperante o corpo de elite
que comanda.
-Mas isso  um absurdo!
-A denncia da sua amante foi registrada por um juiz, que a
leu em voz alta, perante testemunhas, e ela confirmou o que dissera.
- uma manobra para me desacreditar e enfraquecer Ramss.
- De acordo com as datas das tabuazinhas, a sua traio data
de oito meses. O imperador hitita prometeu-lhe uma bela fortuna,
que lhe seria entregue depois da derrota do Egito.
- Sou fiel a Ramss. . . Ao me conceder a vida quando podia
tir-la, esta passou a pertencer-lhe.
- Belas palavras que os fatos desmentem.
- Voc me conhece, Ameni! Fui pirata,  verdade, mas nunca
tra um amigo!
A Batalha de Kadesh 73
- Julgava conhec-lo, mas vejo que voc  igual a esses corte-
sos, para quem a ganncia do lucro  o nico senhor. m mercenrio
no se oferece a quem mais lhe paga?
Magoado, Serramanna manteve-se ereto.
- Se o Fara me nomeou chefe da sua guarda pessoal e
responsvel pelo corpo de elite do exrcito, foi porque sempre teve
confiana em mim.
- Confiana muito mal aproveitada!
- Nego ter cometido o crime de que me acusa.
- Desatem-lhe as mos!
Serramanna sentiu um grande alvio. Ameni o interrogara com
o seu rigor habitual, mas para o inocentar!
O secretrio particular do rei estendeu ao sardo umjunco afiado,
com a extremidade embebida em tinta negra, e um pedao de calcrio
de superfcie bem polida.
- Escreva o seu nome e os seus ttulos.
#
Nervoso, o sardo obedeceu.
-  a mesma escrita das tabuazinhas de madeira. Essa nova
prova ser acrescentada ao seu processo. Voc  culpado, Serramanna.
Louco de raiva, o ex-pirata tentou atirar-se sobre Ameni, mas
quatro lanas picaram-lhe as costas, fazendo brotar quatro filetes de
sangue.
- Bela confisso, no acha?
-Quero ver essa miservel e obrig-la a cuspir as suas mentiras!
- Voc a ver quando for julgado.
-  um golpe forjado, Ameni!
- Prepare bem a sua defesa, Serramanna. Para os traidores da
sua laia existe apenas um castigo: a morte. E no conte com a
indulgncia de Ramss.
- Deixe-me falar ao rei, tenho revelaes importantes a lhe fazer.
- O nosso exrcito parte amanh para o combate. Os seus
amigos hititas vo se surpreender com a sua ausncia.
- Deixe-me falar com o rei, suplico-lhe!
- Metam-no na priso, e bem guardado - ordenou Ameni.
12
Chenar estava de excelente humor e com apetite
feroz. Seu desjejum, "a lavagem da boca", era composto por infuso
de cevada, duas codornizes assadas, queijo de cabra e bolos redondos
com mel. Naquele formoso dia em que veria a partida de Ramss e
do seu exrcito para o Norte, concedeu a si mesmo um brinde: uma
coxa de pato grelhado e temperado com alecrim, cominhos e cere-
flio.
Com Serramanna preso numa masmorra, a capacidade de ata-
que das tropas egpeias ficava significativamente reduzida.
Chenar molhava os lbios numa taa de leite fresco, quando
Ramss entrou em seus aposentos privados.
-Que o seu rosto seja protegido -disse Chenar, erguendo-se
e utilizando a antiga frmula de cortesia reservada s saudaes
matinais.
O rei envergava um saiote branco e uma sobrepeliz de mangas
curtas. Nos pulsos, pulseiras de prata.
-O meu querido irmo no parece pronto para partir
- Mas. . . Est tentando me levar com voc, Ramss?
- Parece que voc no tem alma de guerreiro.
- No possuo nem sua fora e nem sua coragem.
- Eis as minhas instrues: durante a minha ausncia, voc
recolher as informaes provenientes do estrangeiro e as submeter
 apreciao de Nefertari, Touya e Ameni, que formaro o meu con-
selho de regncia, habilitado para tomar decises. Eu estarei na frente
de batalha, em companhia de Acha.
- Ele ir com voc?
RAMSS
76
- Seu conhecimento do terreno torna-lhe a presena indis-
ensvel.
P
- Infelizmente, a diplomacia fracassou. . .
- Lamento, Chenar, mas no  hora para dvidas.
- Qual  a sua estratgia?
-Restabelecer a ordem nas provncias que estavam sob o nosso
controle; depois fazer uma pausa antes de avanar sobre Kadesh e
enfrentar diretamente os hititas. Quando comear a segunda parte da
expedio, talvez eu o chame para junto de mim.
- Ser associado  vitria final ser uma honra.
- Llma vez mais, o Egito sobreviver.
- Seja prudente, Ramss. O nosso pas precisa de voc.
Ramss atravessou de barco o canal que separava o bairro das
oficinas e dos armazns da parte mais antiga de Pi-Ramss, o povoado
de Avaris, outrora capital dos invasores hicsos, asiticos de sinistra
memria. Ali erguia-se o templo de Seth, o aterrador deus da
tempestade e das perturbaes celestes, detentor do mais formidvel
poder existente no universo e protetor do pai de Ramss, Sethi, o
nico rei do Egito a ousar escolher semelhante nome.
Ramss mandara aumentar e embelezar o santurio do temvel
deus Seth, que o prprio pai o obrigara a enfrentar quando o estava
preparando, em segredo, para a funo suprema.
#
No corao do jovem prncipe haviam se confrontado o medo
e a fora capazes de o vencer; como resultado do combate surgira um
fogo, da natureza do prprio deus, que Sethi transcrevera num
preceito: "Acreditar na bondade dos humanos  um erro que um
Fara no pode cometer."
No ptio que precedia o templo coberto fora erguida uma
esttua de granito rosa.* No topo, o estranho animal que Seth
encarnava: um co de olhos vermelhos, duas grandes orelhas espeta-
das e um longo focinho inclinado para baixo. Homem algum jamais
vira ou veria semelhante criatura. No arco da estela, o prprio Seth
* Com 2,20m de altura por 1,30m de largura.
A Batalha de Kadesh 77
estava representado sob forma humana: na cabea, uma tiara cnica,
um dism solar e dois chifres; na mo direita, a chave da vida; na mo
esquerda, o cetro do "poder".
O documento era datado do quarto dia do quarto ms do vero
do ano 400.* A tnica repousava na fora do nmero quatro, organi-
zador do cosmos. O texto hieroglfico gravado na estela comeava
com uma invocao:
Saudaes a voc, Seth, filho da deusa do cu,
A voc, cujo poder  flrande na barca de milhes de anos.
A voc, que se encontra d proa da barca da luz e abate os seus
(inimios,
A voc, cuja voz  tonitruante!
Permita ao Fara que si9a o seu ka.
Ramss entrou no templo coberto e recolheu-se diante da
esttua de Seth. A energia do deus ser-lhe-ia indispensvel para o
combate que iria travar.
Seth, capaz de transformar quatro anos de reinado em quatro-
centos anos inscritos na pedra, no seria o melhor dos aliados?
O gabinete de Ameni estava entulhado de papiros enrolados,
guardados em estojos de couro, enfiados em potes ou empilhados em
areas de madeira. Por toda parte havia etiquetas confirmando o contedo
dos documentos e a data do registro. Reinava uma ordem rigorosa
naqueles domnios onde ningum estava autorizado a fazer limpeza. O
prprio Ameni se encarregava da tarefa, com meticulosidade.
-Gostaria de ir com voc -confessou a Ramss.
-O seu lugar  aqui, meu amigo. Todos os dias voc se reunir
a rainha e com a minha me. Sejam quais forem as veleidades de
ar, no lhe conceda nenhum poder de deciso.
- No fique ausente por muito tempo.
Daf deriva a denominav "Estela do ano 400", atribuda pelos egiptlogos a cste
extraordinrio documento.
78 RAMSS
-Tenho inteno de atacar depressa e com fora total.
- Ter de ir sem Serramanna.
- Por qu?
Ameni relatou as circunstncias da deteno do sardo. Ramss
pareceu entristecido.
- Redija claramente a ata de acusao - exigiu o rei. - Eu
o interrogarei quando voltar; ele me dir os motivos do seu procedi-
mento.
- Pirata  sempre pirata.
- O seu processo e o seu castigo sero um exemplo.
-LTm brao como o dele lhe teria sido til -lamentou Ameni.
-A sua espada ter-me-ia ferido pelas costas.
-As nossas tropas esto realmente preparadas para combater?
- No tm outra opo.
-Voc acredita que temos reais chances de vencer?
- Creio que dominaremos os rebeldes que espalham a desor-
dem nos nossos protetorados, mas depois. . .
-Antes de se lanar sobre Kadesh, d-me a ordem para eu ir
ao seu encontro.
.
- No, meu amigo. E aqui, em Pi-Ramss, que voc  mais
til. Se eu perecesse, Nefertari teria necessidade da sua ajuda.
- O esforo de guerra continuar - prometeu Ameni. -
Continuaremos a fabricar armas. Eu. . . Eu pedi a Setaou e a Acha que
velassem pela sua segurana. Na ausncia de Serramanna, voc pode
cometer imprudncias.
#
- Se eu no estivesse  frente do meu exrcito, no estaria ele
de antemo derrotado?
Os cabelos eram mais negros que o negrume da noite e mais
doces do que o fruto da figueira; os dentes eram mais brancos que o
p de gesso; os seios, firmes como duas peras.
Nefertari, a sua esposa.
Nefertari, a rainha do Egito, cujo olhar luminoso era a alegria
das Duas Terras.
A Batalha de Kadesh 79
- Depois de ter ido ao encontro de Seth - confessou-lhe
Ramss - conversei com a minha me.
- Que lhe disse ela
- Falou-me de Sethi, das longas meditaes a que ele se
entregava antes de travar qualquer combate, e tambm da sua capa-
cidade de preservar a energia durante os interminveis dias de viagem.
- A alma do seu pai vive em voc, acredite. Ele combater a
seu lado.
-Deixo o reino nas suas mos, Nefertari. Minha me e Ameni
sero os seus fiis aliados. Serramanna acaba de ser preso, e Chenar,
 lgico, tentar impor-se. Mantenha com firmeza o leme do Estado.
- Conte apenas com voc mesmo, Ramss.
O rei apertou a esposa nos braos, como se nunca mais fosse
tev-la.
Da coroa azul pendiam duas largas tiras de linho plissado que iam
at a cintura. Ramss envergava uma indumentria de couro acolchoado,
composta por armadura e saiote, e constituindo uma espcie de couraa
ooberta de pequenas placas de metal. LIma grande tnica transparente
cobria o conjunto, de uma majestade incomparvel.
Quando Homero viu o monarca aparecer naquele traje guerrei-
ro, parou de fumar o seu cachimbo e ergueu-se. Heitor, o gato preto
rajado de branco, escondeu-se embaixo de uma cadeira.
- Chegou ento a hora, Majestade.
- Queria cumpriment-lo antes de partir para o Norte.
- Eis os versos que acabo de escrever: Atrele ao seu carro os seus
dois cavalos com cascos de bronze, de corrida rpida, de crina de ouro. EnverSue
:. uma tnica deslumbrante, empunhe o seu chicote e, com um toque, lance-os
agalope para que voem entre a terra e o cu.
- Os meus dois cavalos merecem bem essa homenagem; h
vrios dias que os estou preparando para a prova que, juntos, vamos
enfrentar
- Que pena, esta partida. . . Acabo de tomar conhecimento de
uma interessante receita. Misturando suco de tmaras, que eu prprio
g RAMSS
descaroo, ao po de cevada, obtenho, depois da fermentao, uma
cerveja diestiva. Gostaria de v-lo provar.
- E uma velha receita egpeia, Homero.
- Preparada por um poeta grego deve ter um sabor indito.
- Quando eu voltar, ns a beberemos juntos.
-Embora ao envelhecer eu v me tornando rabugento, detesto
beber s, sobretudo quando convido um amigo muito querido para
partilhar esse prazer. A educao Oobriga a regressar o mais rapida-
mente possvel, Majestade.
-E essa  a minha inteno. Alm disso, gostaria muito de ler
a sua llada.
- Precisarei ainda de muitos anos para termin-la; por isso 
que envelheo lentamente, para enganar o tempo. J Vossa Nlajestade
comprime o tempo com a mo.
-At breve, Homero.
Ramss subiu em seu carro, puxado pelos seus dois melhores
,
cavalos, "Vitria em Tebas" e "A deusa Mut est satisfeita". Jovens
vigorosos, inteligentes, partiam velozmente para a aventura, ansiosos
por devorar grandes distncias.
O rei confiara seu co Vigilante a Nefertari; Matador, o enorme
leo nbio, mantinha-se  direita do carro. Com uma fora e beleza
prodigiosas, a fera sentia tambm nsia de provar os seus dotes de
guerreiro.
O Fara ergueu o brao direito.
O carro de Ramss arrancou, e o leo acertou a sua velocidade
pela do monarca. Ento, milhares de soldados, enquadrados por
#
unidades de cavalaria, seguiram o Fara.
13
Apesar do forte calor de junho, mais intenso ainda
do que o habitual, o exrcito egpcio convenceu-se de que a guerra
seria como um passeio campal. A travessia a nordeste do Delta foi um
momento encantador; esquecendo a ameaa que pesava sobre as Duas
Terras, os camponeses cortavam as espigas de espelta com uma
pequena foice. Llma brisa leve, vinda do mar, fazia tremer as culturas
e brilhar o verde e o ouro dos campos. Embora o rei impusesse uma
marcha forada, os soldados sentiam prazer em contemplar os cam-
pos sobrevoados por garas-reais, pelicanos e flamingos rosas.
A tropa parava nas aldeias, onde era bem acolhida; embora
mantendo a disciplina, comiam legumes e frutos frescos, e cortavam
a gua com um vinho local, sem esquecer os enormes copos de cerveja
doce. Como estavam distantes da imagem do soldado de infantaria
sedento e esfomeado, curvado sob o peso do armamentol
Ramss assumia o comando do seu exrcito, dividido em quatro
regimentos de cinco mil homens cada, colocados sob a proteo dos
deuses Ra, Amon, Seth e Ptah. A esses vinte mil soldados juntavam-se
os reservistas, uma parte dos quais ficaria no Egito, o corpo de elite
e a cavalaria. Para atenuar esse pesado dispositivo, de manuteno
difcil, o rei organizara companhias de duzentos homens colocados
sob a responsabilidade de um porta-estandarte.
O general da cavalaria, os generais das quatro divises, os escribas
do exrcito e o chefe da administrao no tomavam qualquer iniciativa
sem antes consultarem Ramss logo que surgia uma dificuldade. Para a
alegria do monarca, este podia contar com as intervenes secas e
precisas de Acha, que todos os oficiais superiores respeitavam.
g2 RAMSS
Quanto a Setaou, este precisara de uma carroa para transportar
o que considerava o equipamento do homem de bem que est de
partida para as turbulentas terras do Norte: cinco navalhas de bronze,
potes de pomadas e de blsamos, uma pedra de afiar, um pente de
madeira, vrias cabaas de gua fresca, piles, uma machadinha,
sandlias, esteiras, um capote, saiotes, tnicas, bengalas, vrias deze-
nas de recipientes cheios de xido de chumbo, de asfalto, de ocre
vermelho e de almen, jarros de mel, sacos com cominhos, brinia,
rcino e valeriana. LIma segunda carroa continha drogas, poes e
remdios, todos colocados sob a vigilncia de Ltus, a esposa de
Setaou e a nica mulher da expedio. Como era sabido que ela
manejava perigosos rpteis como arma, ningum ousava aproximar-se
da linda nbia de corpo esguio e elegante.
Setaou usava no pescoo um colar com cinco dentes de alho que
afastava os miasmas e lhe protegia a dentadura. Numerosos soldados
o imitavam, conhecedores das virtudes dessa planta que, segundo a
lenda, preservara os dentes de leite do jovem Horus, escondido no
pntano do Delta com a sua me, sis, para escapar  fria de Seth
,
decidido a eliminar o filho e sucessor de Osris.
Na primeira parada, Ramss retirara-se para a sua tenda em
companhia de Acha e Setaou.
- Serramanna tinha a inteno de me trair- revelou.
- Espantoso!- exclamou Acha. - Sempre tive a pretenso de
conhecer bem os homens e tinha a sensao de que esse lhe era fiel.
-Ameni reuniu provas formais contra ele.
- Estranho - considerou Setaou.
-Voc no gostava muito de Serramanna -lembrou Ramss.
,
- E verdade que tivemos atritos, mas experimentei-o. Esse
pirata  um homem de honra que respeita a prpria palavra. E ele lhe
deu essa palavra.
- E as provas?
-Ameni pode ter-se enganado.
.-- No  de seu feitio.
- Por mais competente que Ameni seja, no  imlvel. I'ode
ter certeza de que Serramanna no o traiu e que quiseram elimin-lv
para enfraquecer voc.
A Batalha de Kadesh 83
- O quelhe parece, Acha?
- No considero a hiptese de Setaou absurda.
#
- Quando estiver restabelecida a ordem nos nossos protetora-
dos -declarou o rei -e os hititas tiverem clamado por misericr-
dia, deslindaremos esse caso. Ou Serramanna  um traidor, ou algum
manipulou falsas provas; tanto num caso como no outro, vou querer
saber toda a verdade.
- Eis um ideal ao qual j renunciei - reconheceu Setaou. -
Onde vivem os homens, a mentira prospera.
-O meu papel consiste em combat-la e venc-la -afirmou
Ramss.
-  por sso que no o invejo. As serpentes no atacam pelas
costas.
-A menos que algum fuja -corrigiu Acha.
- Nesse caso, merece o castigo que lhe inffigem.
Ramss percebia a horrvel suspeita que atravessava o esprito
dos seus dois amigos. Estes sabiam o que ele sentia e seriam capazes
de discutir durante horas para afastar o fantasma da dvida: e se o
prprio Ameni tivesse inventado as provas? Ameni o rigoroso, o
escriba infatigvel a quem o rei confiara a gesto material do Estado,
com a certeza de no ser trado. Nem Acha nem Setaou se atreviam
a acus-lo de forma direta, mas Ramss por direito no podia tapar
os ouvidos.
- Por que Ameni se comportaria assim? - perguntou.
Setaou e Acha entreolharam-se e permaneceram silenciosos.
- Se Serramanna tivesse descoberto indcios estranhos em rela-
o ao meu secretrio - continuou Ramss - teria me informado.
- No ter sido para o impedir de faz-lo que Ameni o prendeu?
- sugeriu Acha.
-  inverossmil - declarou Setaou. - Estamos fazendo espe-
culaes no vao. Quando regressarmos a Pi-Ramss, investigaremos.
-  o caminho da sabedoria - concordou Acha.
- No gosto deste vento - disse Setaou.- No  o de um
vero normal. Traz doenas e destruies, como se o ano fosse morrer
antes do tempo. Desconfie, Ramss; este sopro pernicioso no
anuncia nada de bom.
g4 RAMSS
-A rapidez de ao ser o nosso melhor trunfo para o sucesso.
Nenhum vento abrandar o avano de nossas tropas.
Dispostas na fronteira nordeste do Egito, as fortalezas que
formavam o Muro do Rei comunicavam-se entre si por sinais pticos
e enviavam relatrios regulares  corte; em tempo de paz, tinham
como misso controlar a imigrao. Desde o alerta geral, arqueiros e
vigias observavam constantemente o horizonte do alto dos caminhos
,
de ronda. Essa grande muralha fora construda, muitos sculos antes
por Sesostris I, a fim de impedir que os bedunos roubassem gado no
Delta e para prevenir qualquer tentativa de invaso.
"Quem franqueia esta fronteira torna-se um dos tilhos do
Fara", afirmava a estela legislativa colocada em cada uma das forta-
lezas, tratadas com cuidado e dotadas de uma guarnio bem armada
e bem paga. Os soldados coabitavam com os guardas alfandegrios
que faziam pagar taxas aos mercadores desejosos de introduzir mer-
cadorias no Egito.
O Muro do Rei, reforado no decorrer dos tempos, dava se-
gurana  populao egpeia. Graas a esse sistema defensivo, o qual
j dera suas provas, o pas no receava nem ataques de surpresa nem
uma avalanche de brbaros atrados pelas ricas terras do Delta.
O exrcito de Ramss avanava com toda a serenidade. Alguns
veteranos comeavam a acreditar numa simples ronda de inspeo
que o fara tinha o dever de efetuar periodicamente para demonstrar
o seu poderio militar
Logo que viram as ameias da primeira fortaleza guarnecida de
arqueiros prontos para disparar, o otimismo esmoreceu.
Ento a grande porta dupla abriu-se para dar passagem a Ramss;
mal o seu carro parou no centro do grande ptio arenoso, um perso-
nagem barrigudo, protegido da luz solar por um guarda-sol transpor-
tado por um servial, precipitou-se para o soberano.
-  sua glria, Majestade! A sua presena  uma ddiva dos
deuses.
Acha entregara a Ramss um relatrio detalhado sobre o gover-
nador geral do Muro do Rei. Rico proprietrio de terras, escriba
#
A Batalha de Kadesh 85
formado na universidade de Mnfis, grande gluto, pai de quatro
filhos, ele detestava a vida militar e tinha pressa em abandonar aquele
posto, cobiado mas aborrecido, para se tornar alto funcionrio em
Pi-Ramss e se ocupar da administrao das casernas. O governador
geral do Muro do Rei nunca manejara uma arma e temia a violncia,
mas as suas contas .eram impecveis e, graas ao seu gosto pelos
produtos de boa qualidade, as guarnies das fortalezas beneficiavam-
se de excelente alimentao.
O rei desceu do carro e acariciou seus dois cavalos, que lhe
corresponderam com olhar de amizade.
- Mandei preparar um banquete, Majestade; aqui nada lhe
faltar. O seu quarto no ser to confortvel como o do palcio, mas
espero que lhe agrade e que nele possa repousar.
- No tenho inteno de repousar, mas sim de sufocar uma
revolta.
-Claro, Majestade, clarol Bastaro alguns dias.
- Por que essa certeza?
- Os relatrios vindos das nossas praas fortes de Cana so
tranqilizadores. Os revoltosos no esto conseguindo se organizar e
lutam entre si.
-As nossas posies foram atacadasl
- De forma alguma, Majestade! Eis a ltima mensagem trans-
portada por um pombo-correio que chegou esta manh.
Ramss leu o documento, redigido com mo calma. De fato,
chamar Cana  rao anunciava-se como tarefa fcil.
-Que os meus cavalos sejam tratados com o mximo cuidado
-ordenou o monarca.
- Apreciaro o alojamento e a forragem - prometeu o
governador.
- E a sala dos mapas?
- Eu o conduzirei at l, Majestade.
A fim de no fazer o rei perder um segundo do seu tempo, o
governador quase correu pela fortaleza para atend-lo, e o seu prprio
portador de guarda-sol tivera grande dificuldade em acompanhar-lhe
os passos.
Ramss convocou Acha, Setaou e os generais.
g6 RAMSS
-A partir de amanh -anunciou o monarca, mostrando um
mapa estendido sobre uma mesa baixa -partiremos na direo nortc
em marcha forada. Passaremos a oeste de Jerusalm, seguiremos ao
longo da costa, estabeleceremos contato com a nossa primeira forta-
leza e dominaremos os rebeldes de Cana. Depois pararemos em
Megiddo antes de retomarmos a ofensiva.
Os generais aprovaram, Acha permaneceu silencioso.
Setaou saiu da sala, observou o cu e regressou para junto cle
Ramss.
- Algum problema, Setaou?
- No gosto deste vento. Ele  traioeiro.
14
O avano era rpido e alegre, e a disciplina afrou-
xara bastante. Ao entrar no territrio de Cana, submetido ao Fara
e pagando-lhe tributo, o exrcito egpcio no tinha de forma alguma
a impresso de se aventurar num pas estrangeiro nem de correr o
mnimo perigo. No teria Ramss levado demasiado a srio um inci-
dente local?
A exibio das tropas egpeias era tal que os revoltosos se
apressariam em entregar as armas e implorar o perdo do rei. Mais
uma campanha que, felizmente, terminaria sem mortos nem feridos
graves.
De passagem, ao longo da costa, os soldados haviam percebido
um pequeno forte destrudo, geralmente ocupado por trs homens
encarregados de vigiar a migrao dos rebanhos, mas ningum se
importara com isso.
Setaou continuava de cara aborrecida. Conduzindo sozinho a
sua carroa, de cabea descoberta apesar do sol ardente, no trocava
sequer uma palavra com Ltus, alvo dos olhares dos soldados que
tinham a sorte de marchar prximo ao veculo da bela nbia.
O vento marinho temperava o calor, a estrada no era muito
dura para os ps, e os condutores de gua com freqncia distribuam
#
aos soldados o precioso lquido. Mesmo exigindo uma boa condio
ffsica e um gosto acentuado pela marcha, a vida militar no era aquele
inferno descrito pelos escribas, sempre prontos a desvalorizar as
outras profisses.
 direita de Ramss, seguia Matador, o seu fiel leo. Ningum
ousava aproximar-se dele, com medo de ser despedaado pelas suas
88 RAMSS
garras, mas todos se tranqilizavam com a presena da fera, que
encarnava uma fora sobrenatural que s o fara era capaz de contro-
lar. Na ausncia de Serramanna, o leo era o melhor protetor de
Ramss.
Estava  vista a primeira fortaleza: Cana.
Impressionante edificao de seis metros de altura, com suas
paredes de tijolos de duplo declive, parapeitos reforados, muralhas
grossas, torres de vigia e ameias.
-Quem  o chefe da guarnio? -perguntou Ramss a Acha.
-LIm experiente comandante, oriundo de Jeric. Foi educado
no Egito, onde fez um treinamento intensivo, sendo nomeado para o
referido posto depois de vrias rondas de inspeo na Palestina. J
estive com ele;  um homem seguro e srio.
- Era ele quem nos enviava a maior parte das mensagens in-
formando sobre a existncia de uma revolta em Cana, no  verdade?
- Exato, Majestade. Esta fortaleza  um ponto estratgico
essencial que rene o conjunto de informaes da regio.
- Esse comandante daria um bom governador de Cana.
- Tenho certeza que sim.
-No futuro, evitaremos tais perturbaes. Esta provncia deve
ser melhor governada; compete-nos acabar com todo e qualquer tipo
de insubmisso.
- S existe uma possibilidade -considerou Acha. -Acabar
com a influncia hitita.
- Essa  a minha inteno.
LIm batedor galopou at a entrada da fortaleza. Do alto das
muralhas, um arqueiro fez-lhe um sinal amistoso.
O batedor fez meia-volta. LIm porta-estandarte deu, ento,
ordem aos homens da frente para avanarem. Cansados, s pensavam
em beber, comer e dormir.
Llma chuva de flechas atingiu-os em cheio.
Dezenas de arqueiros haviam surgido no caminho de ronda e
disparavam com uma cadncia rpida sobre os alvos prximos e
desprotegidos. Mortos ou feridos, com flechas espetadas na cabea,
no peito ou no ventre, os soldados de infantaria egpcios foram caindo
uns sobre os outros. O porta-estandarte que comandava a vanguarda
A Batolho de Kadesh 89
teve uma reao de orgulho: a de querer apoderar-se da fortaleza com
os sobreviventes.
A preciso dos disparos no deu qualquer chance aos soldados
restantes. Com o pescoo atravessado por uma seta, o porta-estan-
darte caiu ao p das muralhas.
Em poucos minutos, veteranos e soldados experientes acabavam
de sucumbir.
Quando uma centena de soldados de lana em punho se prepa-
rava para vingar seus companheiros, Ramss gritou:
- Recuem!
-Majestade -implorou um oficial -matemos esses traidores!
- Se se lanarem ao ataque de forma desordenada, sero
massacrados. Recuem.
Os soldados obedeceram.
Uma saraivada de flechas caiu a menos de dois metros do rei,
9ue se encontrava rodeado pelos seus oficiais superiores, todos em
".
pamco.
- Mandem seus homens cercar a fortaleza, fora do alcance de
tiro; na primeira linha os arqueiros, a seguir os soldados de infantaria
e, atrs deles, os carros.
O sangue-frio do rei serenou os espritos. Os soldados lembra-
ram-se dos ensinamentos aprendidos durante os treinos, e as tropas
manobraram em ordem.
-  preciso recolher os feridos e trat-los - exigiu Setaou.
- Impossvel! Os arqueiros inimigos abateriam os que tentas-
#
sem ir busc-los.
- Eu sabia que este vento era traioeiro!
-No compreendo -lamentou Acha. -Nenhum dos meus
agentes me informou que os rebeldes haviam se apoderado desta
fortaleza.
- Devem ter utilizado a astcia - sugeriu Setaou.
-- Mesmo que tenha razo, o comandante teria tido tempo de
soltar alguns pombos-correios levando papiros de aviso redigidos
previamente.
- A realidade  simples e desastrosa - concluiu Ramss. -
O comandante foi morto, a sua guarnio exterminada e ns recebe-
90 RAMSS
mos mensagens falsas, enviadas pelos insurretos. Se eu tivesse disper-
sado as tropas, enviando os regimentos para as diversas fortalezas de
Cana, teramos sofrido baxas muito mais pesadas. A dimenso da
revolta  considervel. S os comandantes hititas podem ter organi-
zado semelhante prova de fora.
- Cr que ainda estejam presentes na regio? - perguntou
Setaou.
-  urgente recuperarmos sem demora as nossas posies.
- Os ocupantes desta fortaleza no nos resistiro durante
muito tempo - afirmou Acha. - Proponha que se rendam. Se
houver hititas entre eles, ns os faremos falar.
- Encabece uma delegao, Acha, e faa voc mesmo a pro-
posta.
- Vou com ele - disse Setaou.
-Deixe-o demonstrar seus talentos de diplomata; pelo menos
que nos traga os feridos. Quanto a voc, prepare os remdios e rena
os enfermeiros.
Nem Acha nem Setaou discutiram as ordens de Ramss. At o
encantador de serpentes, sempre de resposta pronta, inclinava-se
perante a autoridade do Fara.
Cinco carros comandados por Acha dirigiram-se para a fortale-
za. Ao lado do jovem diplomata, um condutor de carros segurava uma
lana, onde, na extremidade superior, estava preso um pano branco,
significando que os egpcios desejavam uma trgua.
Os carros nem tiveram tempo de parar. Logo que ficaram ao
alcance de tiro, os arqueiros cananeus atacaram. Duas flechas atra-
vessaram o pescoo do condutor de carros, uma terceira raspou o
brao esquerdo de Acha, abrindo-lhe um sulco sangrento.
- Voltem! - berrou ele.
- No se mexa -exigiu Setaou - seno a minha compressa
de mel no ficar bem aplicada.
- Porque no  voc que est sofrendo - protestou Acha.
- Virou sentimental agora?
A Batalha de Kadesh 91
-No tenho nenhuma predileo pelas feridas e teria preferido
Ltus como mdico.
- Nos casos desesperados, sou eu que intervenho. Como
utilizei o meu melhor mel, voc dever ficar curado. A cicatrizao
ser rpida e no haver perigo de infeco.
- Que selvagens. . . Nem sequer pude observar as suas defesas.
-  intil pedir a Ramss clemncia para os revoltosos, pois
no suporta que algum tente matar os seus amigos, mesmo que
tenham se metido pelos tortuosos caminhos da diplomacia.
Acha fez uma careta de dor.
- Eis um bom pretexto para no participar do ataque! -
ironizou Setaou.
- Preferia que a flecha fosse mais precisa?
- Pare de dizer bobagens e descanse. Se um hitita cair em
nossas mos, precisaremos dos seus talentos de tradutor, Acha.
Setaou saiu da espaosa tenda que servia de hospital de campa-
nha e da qual Acha era o primeiro paciente; o encantador de serpentes
correu para Ramss a fim delhe dar as ms notcias.
Acompanhado por seu leo, Ramss dera a volta  fortaleza, com
O olhar fixo naquela massa de tijolos que dominava a plancie. Smbolo
de paz e de segurana, transformara-se numa ameaa que era preciso
aniquilar.
Do alto das muralhas, vigias cananeus observavam o fara.
Nem gritos nem insultos. Subsistia uma esperana: a de que o
#
exrcito egpcio desistisse da idia de tomar a praa forte para
dividir-se e inspecionar Cana antes de decidir a sua estratgia. Nesse
caso, as emboscadas previstas pelos instrutores hititas obrigariam as
tropas de Ramss a recuar.
Setaou, convencido de ter adivinhado o pensamento do adver-
srio, perguntava a si prprio se uma viso de conjunto da situao
no seria prefervel ao ataque de uma fortaleza bem defendida, que
poderia causar numerosas baixas.
Os prprios generais faziam a mesma pergunta e, depois de a
terem discutido, tencionavam propor ao monarca que mantivesse um
92 RAMSS
contngente para impedir que os sitiados sassem, enquanto que o
grosso das tropas seguiria em frente, para o norte, a fim de traar um
mapa preciso da rebelio.
Ramss parecia to absorto em suas reflexes que ningum
ousava abord-lo antes de ele acariciar a juba do seu leo, imvel
e de porte digno. A comunho em que o homem e a fera viviam
desprendia um tal poder, que deixava pouco  vontade quem deles
se aproximasse.
O mais idoso dos generais, que servira na Sfria sob as ordens de
Sethi, correu o risco de irritar o monarca.
-Majestade... Posso lhe falar?
- Estou ouvindo.
- Os meus companheiros e eu discutimos muito. Considera-
mos que seria necessrio avaliar a dimenso da revolta. A nossa viso
est perturbada pelas falsas informaes.
- Qual  a sua proposta para torn-la clara?
- No nos encarniarmos sobre esta fortaleza, mas espalhar-
mo-nos por todo o territrio de Cana. Depois, atacaremos com
conhecimento de causa.
- Interessante perspectiva.
O velho general sentiu-se aliviado; afinal, Ramss no era ina-
cessfvel  moderao e  lgica.
- Devo reunir o seu conselho de guerra, Majestade, para que
suas diretivas sejam recebidas?
,
- E intil - respondeu o rei - porque minhas diretivas se
resumem em poucas palavras: vamos atacar imediatamente aquela
fortaleza.
15
Com o seu arco de madeira de accia que s ele
conseguia disparar, Ramss atirou a primeira flecha. A corda, feita
com um tendo de touro, exigia uma fora digna do deus Seth.
Quando os vigias cananeus viram o rei do Egito colocar-se em
posio, a mais de trezentos metros da fortaleza, sorriram. No
passava de um gesto simblico, destinado a encorajar-lhe o exrcito.
A flecha de junco, com a ponta de madeira dura forrada de
bronze e a cauda com entalhes, descreveu um meio crculo no cu
limpo e veio cravar-se no corao do primeiro vigia. Estupefato, viu
o sangue brotar da sua carne e tombou para a frente, no vazio. O
segundo vigia sentiu um choque violento no meio da testa, desequi-
librou-se e seguiu o mesmo caminho do seu companheiro. O terceiro,
assustado, teve tempo de chamar por socorro, mas, ao voltar-se,
sentiu uma pancada nas costas e caiu no ptio da fortaleza. Nesse
momento, um regimento de arqueiros egpcios se aproximava.
Os arqueiros cananeus tentaram espalhar-se ao longo das ameias,
mas,  sua frente, os egpcios, mais numerosos e com muito boa pontaria,
mataram a metade logo na primeira saraivada.
Os que vieram substitu-los tiveram a mesma sorte. Quando O
nmero de arqueiros inimigos tornou-se insuficiente para evitar a
abordagem da praa forte, Ramss ordenou aos soldados de infantaria
yue avanassem com suas escadas. Matador, o leo, observava calma-
mente a cena.
Colocadas as escadas de encontro aos muros, os soldados come-
aram a subir. Compreendendo que os egpcios no teriam clemncia,
os cananeus apelaram para as suas ltimas energias. Lanaram pedras
94 RAMSS
do alto das muralhas desguarnecidas e conseguiram virar uma escada.
Vrios egpeios quebraram os ossos ao carem no cho, mas os
arqueiros do Fara no tardaram a eliminar os revoltosos.
#
Centenas de soldados de infantaria juntamente com inmeros
arqueiros subiram e apoderaram-se do caminho de ronda. E de l
arqueiros dispararam sobre os inimigos reunidos no ptio.
Setaou e os enfermeiros ocuparam-se dos feridos, que trans-
portaram em macas at o acampamento egpcio. Ltus unia os
bordos dos cortes lineares e limpos um no outro, por meio de tiras
adesivas colocadas em cruz; por vezes, a bela nba recorria 
tcnica dos pontos de sutura. Estancava as hemorragias aplicando
carne fresca sobre as feridas; da a algumas horas, fazia um curativo
com mel, ervas adstringentes e po com bolor.* Quanto a Setaou,
este fez uso do seu material teraputico, composto por decoces,
bolinhas de produtos anestesiantes, pastilhas, ungentos e poes;
conseguiu acalmar as dores, adormecer os soldados gravemente
feridos, instalando-os o mais confortavelmente possvel na tenda-
hospital. Os que pareciam em estado de suportar a viagem seriam
repatriados para o Egito em companhia dos mortos, pois nenhum
seria sepultado no estrangeiro. Os que possuam famlia, esta
recebera uma penso vitalca.
No interior da fortaleza, os cananeus ofereciam apenas uma fraca
resstnca. Os ltimos combates travaram-se no corpo-a-corpo. Na
proporo de um contra dez, os revoltosos foram rapidamente elimi-
nados. Para escapar a um interrogatrio que sabia impiedoso, o chefe
cortou o prprio pescoo com um punhal.
Aberta a grande porta, o Fara penetrou no interior da fortaleza
reconquistada.
-Queimem os cadveres -ordenou -e purifiquem o local.
Os soldados aspergiram as paredes com natro e defumaram os
locais de moradia junto com as reservas de alimentos e armas. Suaves
perfumes invadiram as narinas dos vencedores.
Quando foi servido o jantar, na sala de refeies do comandante
da fortaleza, no havia qualquer vestgio do conflito.
* O conjunto pvssui propriedades antibiticas.
A Batalha de Kadesh 95
Os generais elogiaram o esprito de deciso de Ramss e sauda-
ram o magnfico resultado da sua iniciativa. Setaou ficara junto dos
feridos com Ltus. Acha parecia inquieto.
- No est alegre com essa vitria, meu amigo?
- Quantos combates como este ainda sero necessrios?
- Reconquistaremos as fortalezas uma a uma, e Cana ser
pacificada. Como o efeito-surpresa deixou de funcionar contra ns,
no voltaremos a nos arriscar a perdas to severas.
- Cinqenta mortos e uma centena de feridos. . .
-O nmero  pesado porque fomos vtimas de uma armadilha
que ningum podia prever
- Devia ter pensado nisso - admitiu Acha. - Os hititas no
se contentam apenas com a fora brutal; o gosto pela intriga  sua
segunda natureza.
- H algum hitita entre os mortos?
- Nenhum.
- Em suma, os seus comandos retiraram-se para o Norte.
- O que significa que teremos de prever outras armadilhas.
-Uamos enfrent-las. U dormir, Acha; amanh tornaremos a
partir em campanha.
Ramss deixou na fortaleza uma forte guarnio com os supri-
mentos necessrios. Urios mensageiros j partiam a caminho de
Pi-Ramss, levando a Ameni a ordem de enviar uma guarnio para
a praa forte reconquistada.
O rei,  frente de uma centena de carros, abriu caminho ao seu
exrcito.
A mesma cena repetiu-se dez vezes. Sempre a trezentos
metros da fortaleza ocupada pelos revoltosos, Ramss espalhara o
pnico ao matar os arqueiros colocados nas muralhas. Sob a
cobertura do disparar ininterrupto de flechas egpeias que impe-
diam os cananeus de se defenderem, os soldados de infantaria
colocavam grandes escadas, subiam sob a proteo dos escudos e
apoderavam-se dos caminhos de ronda. Nunca tentavam forar a
porta principal de entrada.
96 RAMSS
Em menos de um ms, Ramss tornara-se novamente senhor
de Cana. Como os revoltosos haviam massacrado as pequenas guar-
#
nies egpeias, incluindo as mulheres e os filhos dos militares, ne-
nhum deles era to idiota de implorar clemncia ao rei. Desde a
primeira vitria que a reputao de Ramss aterrorizava os revoltosos.
A tomada da ltima praa forte, ao norte de Cana, no passou de
uma formalidade, de tal forma os defensores cederam ao terror.
A Galilia, o vale ao norte do Jordo e as vias comerciais ficaram
novamente sob o controle egpcio. Os habitantes da regio aclamaram
o fara, jurando-lhe eterna fidelidade.
Nenhum hitita fora capturado.
O governador de Gaza, capital de Cana, ofereceu um espln-
dido banquete ao estado-maior egpcio. Com notvel zelo, os seus
concidados haviam-se posto  disposio do exrcito do Fara para
tratar e alimentar cavalos e burros e ainda fornecer aos soldados tudo
aquilo de que necessitassem. A breve guerra de reconquista terminava
em regozijo e amizade.
O governador cananeu,pronunciara violento discurso contra os
hititas, aqueles brbaros da Asia que tentavam, sem xito, quebrar os
laos indestrutveis entre seu pas e o Egito. Beneficiando-se do fvor
dos deuses, o Fara tinha voado em socorro dos seus fiis aliados, que
sempre acreditaram que o monarca no os abandonaria.  claro que
choravam a morte trgica dos residentes egpcios, mas Ramss agira
segundo Mat, combatendo a desordem e restabelecendo a disciplina.
-Tanta hipocrisia me enoja -disse o rei a Acha.
- No espere transformar os homens.
- Tenho o poder de mud-los.
Acha sorriu.
- Substituir aquele por outro? Claro que pode. Mas a natureza
humana  imutvel. Assim que o prximo governador cananeu tiver
oportunidade de tra-lo, no hesitar. Pelo menos, conhecemos bem
o atual potentado: mentiroso, corrupto, ambicioso. No ser nada
difcil manipul-lo.

A Batalha de Kadesh 97
- Esqueceu que aceitou a presena de comandos hititas num
territrio controlado pelo Egito?
- Qualquer outro teria agido da mesma forma.
- Aconselha-me ento que deixe continuar no posto este
desprezvel personagem?
-Ameace afast-lo ao menor deslize. O efeito dissuasivo durar
alguns meses.
- Existe um nico ser digno de sua estima, Acha?
-A minha funo leva-me ao encontro de homens poderosos,
dispostos a tudo para conservarem ou aumentarem o seu poder; se
depositasse neles a mnima confiana, seria rapidamente dispensado.
- No respondeu  minha pergunta.
- Admiro-o, Ramss, e isso, para mim,  um sentimento
excepeional. Mas no  voc tambm um homem poderoso?
- Sou o servidor da Regra e do meu povo.
- E se um dia os esquecesse?
-Nesse dia a minha magia desapareceria e a minha queda seria
para sempre.
- Permitam os deuses que tal desgraa no acontea, Majestade.
- Quais so os resultados de suas investigaes?
- Os mercadores de Gaza e alguns funcionrios, substancial-
mente pagos, finalmente confessaram: foram espies hititas que fo-
mentaram a revolta e aconselharam os cananeus a se apoderarem das
fortalezas por meio da astcia.
- Como?
- Na entrega habitual de gneros alimentcios. . . com homens
armados nas carroas. Todas as nossas praas fortes foram atacadas ao
mesmo tempo. Para poupar a vida de mulheres e crianas feitas refns,
os comandantes preferiram render se. Erro fatal. Os hititas haviam
garantido aos cananeus que a resposta egpeia seria dispersa e ineficaz;
ao exterminarem as nossas guarnies, com as quais tinham excelentes
relaes, os revoltosos pensavam nada ter a recear
Ramss no lamentava a sua ao fulminante: o brao armado
do Egito abatera apenas uma cambada de covardes.
-Algumlhe falou de Moiss?
- Nenhuma pista at agora.
9g RAMSS
J
O conselho de guerra reuniu-se na tenda real. Ramss presidia,
sentado num banco dobrvel de madeira dourada, com o leo deitado
aos ps.
O monarca convidara Acha e todos os oficiais superiores para
cada um expressar a sua opinio. O velho general tomou a palavra por
ltimo:
- O moral do exrcito  excelente, bem como o estado dos
animais e do material. Vossa Majestade acaba de obter uma retum-
bante vitria que ficar assinalada nos anais.
- Permita-me que duvide.
-Majestade, estamos orgulhosos por termos participado desta
batalha e...
- Batalha? Guarde essa palavra para mais tarde; ela vai nos
servir quando nos defrontarmos com uma verdadeira resistncia.
- Pi-Ramss est pronta para aclam-lo.
- Pi-Ramss esperar.
- J que restabelecemos a nossa autoridade sobre a Palestina,
j que toda a Cana est pacificada, no seria a hora de nos pormos
a caminho?
- O mais difcil est por fazer: reconquistar a provncia de
Amurru.
- Os hititas devem ter reunido foras considerveis por l.
- Por acaso est com medo de combater, general?
- Precisaremos de tempo para montar uma estratgia, Majes-
tade.
- J est montada: vamos direto para Amurru.
Y
16
Com uma peruca curta, presa como touca por uma
tira que terminava em duas pontas soltas cadas nos ombros, e
envergando uma longa tnica justa, apertada na cintura por uma faixa


vermelha, Nefertari purificou as mos com gua do lago sagrado e
penetrou no naos do templo de Amon, para tornar efetiva a presena
da divindade, oferecendo-lhe as essncias sutis da refeio da tarde.
Na sua funo de esposa do deus, a rainha agia em nome do filho da
luz, imbuda do poder criador que modelava constantemente o
universo.
A rainha fechou as portas do naor, selou-as, saiu do templo e
seguiu os ritualistas que a levariam at a Casa da Vida de Pi-Ramss,
onde, como encarnao da deusa distante, simultaneamente morte
e me, tentaria esconjurar as foras do mal. Se o olho do Sol se
transformasse na sua prpria viso, perpetuaria a vida e asseguraria a
perenidde dos ciclos naturais; a calma felicidade dos dias dependeria
de sua capacidade para transformar em harmonia e serenidade a fora
destruidora transportada pelos ventos perigosos.
LIm sacerdote apresentou um arco  rainha, e uma sacerdotisa,
quatro flechas.
Nefertari retesou o arco, atirou a primeira flecha para leste, a
segunda na direo norte, a terceira para o sul e a quarta para oeste.
Assim, aniquilaria os inimigos invisveis que ameaavam Ramss.
O camareiro de Touya esperava Nefertari.
-A rainha-me deseja v-la o mais rapidamente possvel.
 oo RAMSS
ma cadeirinha com carregadores transportou a grande esposa
real.
Muito esguia no seu longo vestido de linho finamente plissado,
a cintura envolta numa faixa de tecido listrado, os braos e o pescoo
adornados com pulseiras de ouro e um colar de lpis-lazli de seis
voltas, Touya estava de uma elegncia soberana.
- No se inquiete, Nefertari; um mensageiro vindo de Cana
acaba de trazer excelentes notcias. Ramss tornou-se novamente
senhor de toda a provncia, e a ordem foi restabelecida.
- Quando vai voltar?
- No disse.
- Em outras palavras, o exrcito continua para o Norte.
-  provvel.
- Voc agiria assim?
- Sem hesitar - respondeu Touya.
- Ao norte de Cana fica a provncia de Amurru, que marca a
fronteira entre a zona de influncia egpeia e a dos hititas.
- Sethi assim o quisera, a fim de evitar a guerra.
- Se as tropas hititas ultrapassaram essa barreira. . .
- Ser o combate, Nefertari.
- Lancei as flechas aos quatro pontos cardeais.
- Se o ritual foi cumprido, o que podemos temer?
Chenar detestava Ameni. Ser obrigado, todas as manhs, a
encontrar-se com aquele pequeno escriba enfezado e pretensioso,
para obter informaes sobre a expedio de Ramss, era uma
insuportvel penitncia! Quando ele, Chenar, reinasse, faria Ameni
limpar as cavalarias de um regimento da provncia e a ele perderia
a mirrada sade de que gozava.
A nica satisfao era que, dia aps dia, a expresso per-
turbada do secretrio particular do Fara se tornava cada vez mais
sombria, sinal indubitvel de que o exrcito egpcio estava lento.
O irmo mais velho de Ramss mostrava um semblante aborreci-
do e prmetia rezar aos deuses para que o destino lhe fosse
favorvel.
A Batalha de Kadesh 101
Pouco ocupado no Ministrio dos Negcios Estrangeiros, mas
fazendo constar que trabalhava com afinco, Chenar evitava qualquer
eontato direto com Raia, o mercador srio. Naqueles tempos de
inquietao, pareceria estranho a qualquer pessoa que um persona-
gem com a envergadura de Chenar se preocupasse em comprar vasos
raros provenientes do estrangeiro. Contentava-se, portanto, com as
mensagens codificadas de Raia, cujo contedo era bastante satisfat-
rio. Segundo os observadores srios a servio dos hititas, Ramss cara
na armadilha preparada pelos cananeus. Demasiado presunoso, o
fara deixara-se levar pelo seu mpeto natural, esquecendo que os
seus adversrios possuam o gnio da intriga.
Chenar resolvera o pequeno enigma que agitava a corte: quem
roubara o xale de Nefertari e o pote de peixes secos da Casa da Vida


de Helipolis? O culpado s podia ser o jovial intendente da casa real,
Romeu. Assim, antes de se dirigir ao seu obrigatrio encontro com
Ameni, convocara o volumoso homem sob um pretexto ftil.
Barrigudo, de bochechas redondas, com triplo queixo, Romeu
executava o seu trabalho com perfeio. Lento no deslocar-se, era um
manaco da higiene e do detalhe, pois provava ele prprio os pratos
servidos  famffia real e controlava o seu pessoal com rigidez. Nomea-
do para seu difcil posto pelo monarca em pessoa, fizera calar as
erticas e impusera as suas exigncias ao conjunto de servidores do
palcio. No lhe obedecer traduzia-se em demisso imediata.
-Em que posso servi-lo, senhor? -perguntou Romeu a Chenar.
- O meu intendente no lhe disse?
- Invocou um problema de preferncia num banquete, mas
no estou vendo. . .
- E se falssemos do pote de peixes secos roubado nos
armazns da Casa da Vida de Helipolis?
- O pote.. . mas no sei do que est falando. . .
- E o xale da rainha Nefertari?
- Claro que fui informado e lamentei esse terrvel incidente,
mas. . .
- Procurou o culpado?
-No compete a mim desenvolver investigaes, senhor Chenar!
- No entanto, est bem colocado para isso, Romeu.
102 RAMSS
- No, no acho. . .
-Mas claro que sim! Ora, pense um pouco! Voc  o homem-
chave do palcio, aquele ao qual nenhum incidente deveria escapar.
- Est me superestimando?
- Por que fez essas coisas?
- Eu? No est supondo que. . .
- No suponho, tenho certeza. A quem entregou o xale da
rainha e o pote de peixes?
- Est me acusando injustamentel
-Conheo os homens, Romeu. E tenho provas.
- Provas?...
- Por que correu semelhantes riscos?
A expresso surpresa de Romeu, o rubor doentio que invadira
as suas faces e testa, e a flacidez acentuada das suas carnes eram
indcios um tanto reveladores.
Chenar no se enganara.
- Ou voc foi muito bem pago, ou odeia Ramss. Tanto num
caso como no outro, trata-se de um grave delito.
- Senhor Chenar. . .
A perturbao de Romeu era quase comovente.
- Como  um excelente intendente, quero esquecer esse
deplorvel incidente. Mas, no futuro, se eu precisar de voc, no
dever mostrar-se ingrato.
Ameni redigia o seu relatrio cotidiano dirigido a Ramss. Sua
mo era firme e rpida.
-Posso importun-lo alguns instantes? -perguntou Chenar,
afvel.
-No me importuna. Tanto voc quanto eu devemos obedin-
cia ao rei, que nos exigiu um confronto de idias dirio.
O escriba pousou a sua paleta no solo.
- Parece cansado, Ameni.
-  s na aparncia.
- No deveria preocupar-se mais com a sua sade?
- S a do Egito me preocupa.
A Batalha de Kadesh 103
-Ter... ms notcias?
-Muito pelo contrrio.
- Poderia ser mais explcito?
- Esperei para ter a confirmao antes delhe falar dos xitos
de Ramss. Como fomos enganados por falsas mensagens transpor-
tadas por pombos-correios, aprendi a mostrar-me prudente.
- LIma idia dos hititas?
- Que quase nos custou caro! As nossas fortalezas cananias
haviam cado nas mos dos rebeldes. Se o rei tivesse dispersado as
suas foras, nossas perdas teriam sido desastrosas.
- Felizmente no foi esse o caso. . .


-A provncia de Cana est novamente controlada, e o acesso
 costa, livre. O governador jurou fidelidade permanente ao Fara.
-Magnfica vitria. . . Ramss acaba de realizar um grande feito
e de afastar a ameaa hitita. Suponho que o exrcito tomou o caminho
de volta.
- Segredo militar
- Segredo militar, como? No esquea que sou ministro dos
Negcios Estrangeirosl
- No disponho de outras informaes.
-  impossvel!
- No entanto,  assiml
Furioso, Chenar retirou-se.
Ameni sentia remorsos. No por causa da sua atitude para com
Chenar, mas porque se interrogava sobre a maneira apressada como
tratara o caso Serramanna. E verdade que os indcios acumulados
contra o sardo eram pesados, mas o escriba no teria dado crdito
demais a tais indcios? Dominado pela exaltao provocada pela
parrida do exrcito, Ameni no se mostrara to exigente quanto O
habitual. Deveria ter verificado as provas e testemunhos que haviam
conduzido o ex-pirata  priso. Talvez se tratasse de um procedimento
intil, mas imposto pelo rigor.
Irritado consigo prprio, Ameni retomou a pasta do caso de
$erramanna.
1
Como base militar que guardava o acesso para a
Sria, a fortaleza de Megiddo erguia-se no topo de uma colina visvel
a distncia. Lnica elevao no meio de uma plancie verdejante
,
parecia impenetrvel: paredes de pedra, ameias, altas torres quadra-
das, palanques de madeira, portas largas e grossas.
A guarnio era formada por egfpeios e srios fiis ao fara, mas
seria possvel acreditar nas mensagens oficiais que afirmavam que a
fortaleza no cara nas mos dos insurretos?
Ramss estava descobrindo uma paisagem pouco habitual: coli-
nas elevadas e cobertas de rvores, carvalhos de troncos nodosos,
ribeiras lodosas, pntanos, uma terra por vezes arenosa. . . LIm pas
difcil, hostil e fechado, distante, muito distante da beleza do Nilo e
da doura dos campos eglpeios.
Por duas vezes, uma manada de javalis atacara os batedores
eglpeios, por estes terem perturbado o sossego de uma fmea e dos
filhotes. Atrapalhados por uma vegetao densa e selvagem, os cava-
leiros tinham dificuldade de passar pelo emaranhado de moitas e por
entre os troncos das grandes rvores dispostas em fileiras apertadas.
Em contrapartida, estes inconvenientes apresentavam um panorama
aprecivel: a abundncia de pontos de gua e de caa.
Ramss deu ordem para pararem, mas sem montarem as tendas.
Com os olhos tixos na fortaleza de Megiddo, esperava o regresso dos
batedores.
Setaou aproveitou para tratar dos doentes e administrar-lhes as
poes. Repatriados os feridos graves, o exrcito s dispunha agora
de homens em hoa forma fsica, com exceo de alguns que sofriam
106 RAMSS
oom o calor e com o fi-io, ou com distrbios gstricos. Preparaes 
base de brinia, cominhos e rcino eliminavam esses pequenos pro-
blemas. A ttulo preventivo, continuavam a consumir alho e cebola,
cuja variedade "madeira de serpente", proveniente da orla do deserto
oriental, era a preferida de Setaou.
Ltus acabava de salvar um burro picado numa pata por uma
serpente aqutica que ela conseguira capturar. Para ela, a viagem 
Sria finalmente tornava-se interessante, pois, at agora, apenas en-
contrara espcimes j conhecidos. Este ltimo, apesar da sua pouca
quantidade de veneno, era uma novidade.
Dois soldados vieram fazer apelo aos talentos da nbia, com o
pretexto de tambm terem sido vtimas de um rptil. Duas sonoras
bofetadas castigaram-lhes a mentira. Quando Ltus retirou de um
saco a cabea assobiante de uma vbora, os dois correram para suas
tendas.
Passaram-se mais de duas horas. Com autorizao do rei, cava-
leiros e carreiros haviam-se apeado, e os soldados de infantaria sen-
taram-se no cho, protegidos por alguns vigias.


- Os batedores partiram h muito tempo - exclamou Acha.
- Concordo com voc - disse Ramss. - Como vai o seu
ferimento?
- Est cicatrizado. Este Setaou  um verdadeiro mago.
- O que pensa deste lugart
- No me agrada.  nossa frente o espao est livre, mas h
pntanos. De um lado e de outro, florestas de carvalhos, arbustos e
ervas altas. As nossas tropas esto muito dispersas.
-Os batedores ainda no voltaram -afirmou Ramss. -Ou
foram abatidos ou esto prisioneiros no interior da fortaleza.
-lsso significaria que Megiddo caiu nas mos do inimigo e no
tem inteno de se render
-Esta praa forte  a chave da Sria do Sul -lembrou Ramss.
-Mesmo que os hititas se tenham fechado l dentro, temos o dever
de reconquist-la.
-E no se tratar de uma declarao de guerra -considerou
Acha - mas da recuperao de um territrio que pertence  nossa
zona de influncia. Podemos, portanto, atacar a qualquer momento
A Batalha de Kadesh 107
e sem avisar Juridicamente, permanecemos no mbito de uma
rebelio a sufocar, sem qualquer relao com um confronto entre
Estados.
Aos olhos dos pases circundantes, a anlise do jovem diplomata
no deixava de ser pertinente.
-Avise aos generais para prepararem o ataque.
Acha no teve tempo de puxar as rdeas de seu cavalo. De um
denso bosque,  esquerda do rei, saiu um grupo de cavaleiros a galope,
que se lanou sobre os carreiros egpcios parados. Muitos foram
trespassados pelas curtas lanas, e vrios cavalos ficaram com as
pernas ou o pescoo cortados. Os sobreviventes defenderam-se com
os seus piques e espadas; alguns conseguiram subir para o carro e
rumar para a posio onde estavam os soldados de infantaria, abriga-
dos atrs dos escudos.
O ataque, inesperado e violento, pareceu coroado de xito. Pela
tira que prendia os cabelos hirsutos dos agressores, pela barba pon-
tuda, pelo vestido de franjas at os tornozelos, pelo cinto colorido
recoberto com uma faixa de tecido, era fcil reconhecer os srios.
Ramss permanecia estranhamente calmo. Acha inquietou-se.
-Vo desmantelar as nossas fileiras!
- Embriagam-se ilusoriamente com a sua faanha.
O avano dos srios foi detido. Os soldados de infantaria egpcios
obrigaram-nos a recuar para o lado dos arqueiros, cujos disparos
foram devastadores.
O leo rosnou.
- H outro perigo ameaando-nos - disse Ramss. - 
agora que se vai jogar a sorte desta batalha.
Do mesmo bosque saram vrias centenas de srios, armados
com machados de cabo curto. Bastava franquear-lhes uma pequena
distncia para atingirem os arqueiros egpcios pelas costas.
- Vamos! - ordenou o rei a seus cavalos.
Ao ouvirem a voz do dono, os dois animais compreenderam que
deviam usar o mximo de sua energia. O leo saltou, e Acha e cerca
de cinqenta carros o seguiram.
O confronto foi de uma violncia incrvel. Com as garras, a fera
dilacerou a cabea e o peito dos audaciosos que se aproximavam do
108 RAMSS
carro de Ramss, enquanto o rei, disparando flechas e mais flechas,
trespassava coraes, gargantas e testas. Os carros rolavam sobre os
feridos, e os soldados de infantaria, que acorreram em socorro,
puseram os srios em fuga.
Ramss notou um estranho guerreiro que corria na direo do
bosque.
-Apanhe-o -ordenou ao leo.
Matador eliminou dois retardatrios e lanou-se sobre o ho-
mem, que caiu por terra. Embora tivesse tentado controlar a sua fora,
o leo havia ferido mortalmente o seu prisioneiro, que jazia por terra
com as costas dilaceradas. Ramss examinou o homem de cabelos
compridos e barba malfeita; a longa tnica de riscas vermelhas e pretas
estava em farrapos.
- Mandem vir Setaou - exigiu o monarca.


Os combates chegaram ao fim. Os srios foram exterminados
at o ltimo homem, e apenas haviam infligido ligeiras perdas ao
exrcito egpcio.
Sem flego, Setaou chegou junto de Ramss.
- Salve este homem - pediu-lhe o rei. - No  um srio, e
sim um corredor das areias. Ele tem que nos dizer as razes da sua
presena.
To longe de suas bases, um beduno, em geral ocupado em
pilhar caravanas para os lados do Sinai. .. Setaou ficou intrigado.
- O seu leo deixou-o num estado deplorvel.
O rosto do ferido estava coberto de suor, corria-lhe sangue das
narinas, e a nuca estava rgida. Setaou tomou-lhe o pulso e escutou a
voz do seu corao, to fraca que no foi difcil fazer-lhe o diagnstico:
o corredor das areias agonizava.
- Pode falar? - perguntou o rei.
- Est com os maxilares contrados, talvez haja uma possibili-
dade.
Setaou conseguiu introduzir na boca do moribundo um tubo de
madeira, enrolado num pano, e deitou por ele um lquido  base de
rizoma de cipreste.
- Este remdio talvez lhe acalme as dores. Se este indivduo
for resistente, poder sobreviver somente algumas horas.
A Batalha de Kadesh 109
O corredor das areias viu o Fara. Assustado, tentou erguer-se,
quebrou o tubo de madeira com os dentes e gesticulou como um
pssaro incapaz de voar.
- Acalme-se, amigo - recomendou Setaou. - Vou tratar de
voce.
- Ramss. . .
-  justamente o Fara do Egito que quer falar com voc.
O beduno fitava a coroa azul.
- Veio do Sinai? - interrogou o rei.
- Sim,  o meu pas. . .
- Por que combatia ao lado dos srios?
- Ouro. . . Prometeram-me ouro. . .
- Encontrou hititas?
- Deram-nos um plano de combate e foram embora.
- H mais bedunos com voc?
- Fugiram.
- Encontrou um hebreu chamado Moiss?
- Moiss...
Ramss descreveu o amigo.
- No, no o conheo.
- Ouviu falar dele?
- No, acho que no. . .
- Quantos homens h no interior da fortaleza?
- No. . . no sei.
- No minta.
Com um movimento inesperado, o ferido agarrou seu punhal,
soergueu-se e tentou matar o rei. Com uma pancada seca no punho, '
Setaou o desarmou. i
O esforo do beduno fora demasiado violento. O rosto con- '
traiu-se, o corpo retesou-se, depois dobrou-se em dois, e caiu morto.
- Os srios tentaram aliar-se aos bedunos - comentou
Setaou. - Que estupidez! So pessoas que nunca se entendero.
Setaou voltou para junto dos feridos egpcios, que estavam
entregues aos cuidados de Ltus e dos enfermeiros. Os mortos haviam
sido envolvidos em esteiras e carregados para os carros. LIm comboio,
RAMSS
protegido por uma escolta, partiria para o Egito, onde os infelizes se
beneficiariam dos rituais de ressurreio.
Ramss acariciou os seus cavalos e o leo, cujos rugidos surdos
se assemelhavam a um ronronar. Grande nmero de soldados reuniu-
se em volta do soberano, ergueram as armas para o cu e aclamaram
aquele que acabava de conduzi-los  vitria com a mestria de um
guerreiro experiente.
Os generais conseguiram abrir passagem e apressaram-se a
felicitar Ramss.
- Descobriram mais algum srio nos bosques vizinhos?
- No, Majestade. Autoriza-nos agora a montar o acampa-


mento?
-Temos algo melhor a fazer: reconquistar Megiddo.
18
Revigorado por um enorme prato de lentilhas que
no o faria engordar um grama, Ameni passara a noite em seu
gabinete, para adiantar por algumas horas o trabalho do dia seguinte
e assim poder ocupar-se do caso Serramanna. Quando lhe doam as
costas, tocava no porta-pincis de madeira dourada, em forma de
coluna encimada por um lrio, que Ramss lhe oferecera quando O
contratara como secretrio. Sua energia renovava-se de imediato.
Desde a adolescncia que Ameni gozava de laos invisveis com
Ramss e sabia instintivamente quando o filho de Sethi estava ou no
em perigo. Por vrias vezes sentira que a morte pousava no ombro do
rei e que apenas a sua magia pessoal lhe permitiria afastar a desgraa;
se essa barreira protetora edificada pelas divindades em torno do
Fara se afastasse, a bravura de Ramss no o levaria ao fracasso?
E se Serramanna fosse uma das pedras dessa muralha mgica, e
ele, Ameni, tivesse cometido um grave erro ao impedi-lo de cumprir
a sua funo? Mas seria esse remorso justificado?
A acusao baseava-se em grande parte no testemunho de
Nenofar, a amante de Serramanna; por isso Ameni pedira  guarda
que trouxesse a mulher para poder interrog-la melhor. Se ela havia
mentido, obrig-la-ia a dizer a verdade.
s sete horas, o guarda responsvel pelo inqurito, um qinqua-
genrio ponderado, apresentou-se no gabinete do secretrio particu-
lar do rei.
- Nenofar no vir - declarou.
- Recusou-se a acompanh-lo?
- No h ningum na casa dela.
112 RAMSS
- Vivia no local que havia indicado?
- Segundo a vizinhana, sim, mas abandonou a casa h vrios
dias.
- Sem dizer para onde ia?
- Ningum sabe de nada.
- Revistaram o alojamento?
- Sem resultado. At mesmo as arcas de roupa estavam vazias,
como se ela no quisesse deixar qualquer vestgio de sua existncia.
- O que sabe sobre ela?
-  uma jovem muito leviana, ao que parece. Dizem as ms
lnguas que vive dos seus encantos.
- Devia ento trabalhar numa casa de cerveja.
- No era esse o caso. Fiz as investigaes necessrias.
- Havia homens que a visitavam?
- A vizinhana diz que no; mas muitas vezes estava ausente,
principalmente  noite.
-  preciso reencontr-la e identificar os seus eventuais em-
pregadores.
- Havemos de conseguir.
- Procurem-na.
O guarda saiu, e Ameni releu as tabuazinhas de madeira sobre
as quais Serramanna escrevera ao seu cmplice hitita o texto que
provava a sua culpabilidade.
Na calma do seu gabinete, quela hora matinal em que o esprito
estava fresco, surgiu-lhe uma hiptese. Para verificar a sua veracidade
,
tinha que aguardar o regresso de Acha.
Erguida sobre um promontrio rochoso, a fortaleza de Megiddo
impressionou o exrcito egpcio espalhado pela plancie. Devido 
altura das torres, fora necessrio fabricar grandes escadas, e no seria
fcil coloc-las encostadas s muralhas; flechas e pedras podiam
dizimar qualquer grupo de assalto.
Com Acha a seu lado, Ramss deu a volta  praa forte, condu-
zindo seu carro a grande velocidade, de forma a no se tornar um alvo
fcil para os arqueiros.
A Batalho de Kadesb 1 13
		Nenhuma flecha fora disparada contra ele, nenhum arqueiro
	aparecera nas ameias.
		-Ficaro escondidos at o ltimo momento -calculou Acha.
	- Assim no desperdiaro nenhuma de suas armas. A melhor


	 soluo seria venc-los pela fome.
		-As reservas de Megiddo lhes permitiriam manter-se durante
	wrios meses. E no h nada mais desesperante do que um cerco
	interminvel.
		- Com assaltos sucessivos, perderemos muitos homens.
		-Considera-me to insensvel a ponto de no pensar seno em
	mais uma nova vitria?
-A glria do Egito no ultrapassa a sorte dos homens?
-Todas as existncias so preciosas para mim, Acha.
-O que est planejando agora?
-Disporemos nossos carros em torno da fortaleza,  distncia
de tiro, e os nossos arqueiros eliminaro cada srio que for surgindo
nas ameias. Trs equipes de voluntrios colocaro as escadas, prote-
gendo-se com os escudos.
- E se Megiddo for inconquistvel?
- Tentemos primeiro conquist-la; refletir j com o fracasso
em mente  assumir a derrota.
A energia que emanava de Ramss deu um novo dinamismo aos
soldados. Os voluntrios apresentaram-se em grande nmero, e os
arqueiros empurravam-se uns aos outros para se instalarem nos
carros que cercariam a praa forte, lugar silencioso e inquietante.
Levando ao ombro as compridas escadas, as colunas de infantaria
avanaram em passadas aceleradas e nervosas em direo s muralhas.
Quando as estavam erguendo, os arqueiros srios apareceram na torre
mais alta e esticaram os seus arcos. Nenhum deles, porm, teve tempo
de ajustar o disparo. Ramss e os arqueiros egpcios abateram-nos.
Clma segunda leva de defensores de cabelos hirsutos presos por uma
, tira e barba pontiaguda os substituram; os sfrios conseguiram lanar
algumas flechas, que, felizmente, no atingiram nenhum egpcio. O
rei e os seus arqueiros de elite os eliminaram.
- Medocre resistncia - declarou o velho general a Setaou.
- Parece que esses srios nunca combateram.
114 RAMSS
- Tanto melhor. Assim terei menos trabalho e talvez possa
consagrar uma noite a Ltus. Essas batalhas me esgotam.
Os soldados haviam comeado a subir quando surgiram cerca
de cinqenta mulheres.
O exrcito egpcio no tinha por hbito massacrar mulheres e
crianas. Todas seriam levadas para o Egito com suas respectivas mes,
como prisioneiras de guerra, e l se tornariam trabalhadoras de
grandes propriedades agrcolas. Depois de mudarem de nome seriam
integradas na sociedade egpeia.
O velho general ficou consternado.
-E eu que julgavaj ter visto tudo. .. Essas infelizes so loucas!
Duas srias ergueram um braseiro acima da borda da muralha e
despejaram-no direto sobre os soldados que se preparavam para subir.
Os carves em brasa roaram os guerreiros egpcios colados aos
degraus das escadas. As flechas dos arqueiros acertaram os olhos das
mulheres, que despencaram da muralha. As substitutas, com um novo
braseiro, tiveram a mesma sorte. Superexcitada, uma das mulheres
colocou brasas em sua funda, f-la girar e atirou-as para longe.
Llma das brasas atingiu a coxa do velho general, que caiu com a
mo crispada na queimadura.
-No toque na queimadura -recomendou Setaou. -hique
parado e deixe-me agir.
Erguendo o saiote, o encantador de serpentes urinou sobre a
queimadura. Tanto quanto ele, o general sabia que a urina, ao
contrrio da gua de poo ou de um rio, era um recurso esterilizante,
pois limpava uma chaga sem perigo de infeco. A seguir, foi colocado
numa maca e transportado para a tenda-hospital.
Os soldados atingiram as ameias vazias: nenhum srio  vista.
Alguns minutos mais tarde, a grande porta da fortaleza de
Megiddo foi aberta.
Em seu interior viam-se apenas algumas mulheres e crianas
aterrorizadas.
- Os srios tentaram fazer-nos recuar lanando todas as suas
foras numa batalha fora da fortaleza - constatou Acha.
- A manobra poderia ter dado resultado - considerou o rei.
- Mas eles no o conheciam, Ramss.
9 Batalha de Kadesh I 15


- Quem pode gabar-se de me conhecer, meu amigo?
LIma dezena de soldados comeou a pilhar o tesouro da forta-
leza, abarrotado de peas de baixela em alabastro e estatuetas de prata.
LIm rugido do leo os dispersou.
- Prendam esses homens - decretou Ramss. - Que os
locais de moradia sejam purif3cados e defumados.
O rei nomeou um governador, encarregado de escolher os
oficiais e os homens de tropa que passariam a residir em Megiddo.
Havia nos armazns provises suficientes para vrias semanas e j um
grupo de tropa saa em busca de caa e de rebanhos.
Ramss, Acha e o novo governador reorganizaram a economia
da regio; os camponeses, sem saberem quem era o seu senhor,
haviam interrompido os trabalhos do campo. Em menos de uma
semana, a presena egpeia foi de novo sentida como uma garantia de
segurana e paz.
O rei mandou construir pequenos fortins, a certa distncia, ao
norte de Megiddo, ocupados por quatro vigias e mais os cavalos. Em
caso de ataque hitita, a guarnio teria tempo de se pr a salvo.
Do alto da torre principal, Ramss no gostou da paisagem que
viu. Para ele, viver longe do Nilo, dos palmeirais, dos campos verde-
jantes e do deserto era um grande sofrimento. Naquela hora serena,
Nefertari celebraria os rituais da tarde. Como sentia a sua falta!
Acha interrompeu a meditao do rei.
- Fiz como pediu: falei com os oficiais e soldados.
- E o que esto achando de tudo isso?
- Tm total contiana em voc, mas s pensam em regressar a
casa.
- Gosta da Sria, Acha?
-  um pas perigoso, cheio de armadilhas. S com longas
estadas  que se pode conhec-lo bem.
-A terra dos hititas  parecida com a da Sria?
- mais selvagem e mais rude. No inverno, nos altos planaltos
da Anatlia, o vento  gelado.
- Ser que me seduzir?
- Voc  egpcio, Ramss. Nenhuma outra terra encontrar
lugar em seu corao.
116 RAMSS
-A provncia de Amurru est prxima.
- O inimigo tambm.
- Ser que o exrcito hitita invadiu Amurru?
- No dispomos de informaes conFiveis.
- Qual  a sua opnio?
-  l com certeza que eles nos esperam.
19
Estendendo-se ao longo do mar, entre as cidades
costeiras de Tiro e Biblos, a provncia de Amurru situava-se a leste
do monte Hermon e da cidade comercial de Damasco. Era o ltimo
protetorado egpcio antes da fronteira com a zona de influncia hitita.
A mais de quatrocentos quilmetros do Egito, os soldados do
Fara avanavam a passo lento. Contrariamente ao que lhe haviam
recomendado os generais, Ramss evitara a estrada do litoral e seguira
por um caminho montanhoso, to desgastante para os animais quanto
para os homens. Ningum mais ria nem conversava; todos se prepa-
ravam para um confronto com os hititas, cuja reputao de ferocidade
assustava at mesmo os mais corajosos.
De acordo com a anlise do diplomata Acha, reconquistar
Amurru no seria um ato de guerra declarada, mas quantos cairiam
sob o sol ardente? Muitos esperaram que o rei se contentasse com
Megiddo e tomasse o caminho de volta. Mas Ramss concedera
apenas um breve repouso ao seu exrcito antes de lhe impor este novo
esforo.
LIm batedor passou a galope pela coluna e estacou bruscamente
na frente de Ramss.
- Esto ali, no fim do caminho, entre a falsia e o mar.
- So muitos?
- Urias centenas de homens armados com lanas e arcos,
todos ocultos atrs dos arbustos. Como esto vigiando a estrada do
litoral, ns os apanharemos pelas costas.
- So hititas?
- No, Majestade, so habitantes da provncia de Amurru.


118 RAMSS
Ramss estava perplexo. Que nova armadlha preparariam ao
exrcito egpcio?
- Leve-me at l.
O general de cavalaria interps-se.
- O Fara no deve correr semelhante risco.
O olhar de Ramss relampejou.
- Devo ver, julgar e decidir.
O rei seguiu o batedor Os dois homens terminaram o trajeto a
p e enveredaram por um terreno inclinado em que se encontravam
rochedos instveis.
Ramss imoblzou-se.
O mar, a estrada que seguia ao longo dele, a profuso de arbustos,
os inimigos emboscados, a falsia. . . No havia lugar para foras hititas
emboscadas. Mas o horizonte era limitado por outra falsia. No
estariam dezenas de carros anatlios camuflados a alguma distncia
dal, prontos para intervr a toda velocidade?
Ramss tinha nas mos a vida dos seus soldados, eles prprios a
garantia da segurana do Egito.
-Uamos espalhar-nos -murmurou.
Os soldados de infantaria do prncipe de Amurru meneavam as
cabeas para espantar o sono. Logo que os primeiros egpcios surgis-
sem do sul pela estrada do litoral, seriam abatidos de surpresa.
O prncipe Benteshina aplicava a estratgia que lhe fora imposta
por instrutores hititas. Estes estavam convencidos de que Ramss, em
cujo caminho haviam montado diversas armadilhas, no chegaria at
ali. E, se chegasse, as suas foras estariam de tal forma reduzidas que
uma ltima arapuca acabaria com elas faclmente.
Qinquagenrio robusto, com um belo bigode preto, Benteshi-
na no gostava dos hititas, mas tinha medo deles. Amurru estava to
prxma da sua zona de influncia que no tinha interesse em
contrari-los.  certo que era vassalo do Egito e pagava tributo ao
fara, mas os hittas no se importavam com isso, e exigiam que ele
se revoltasse e desferisse o ltimo golpe num exrcito egpcio j
esgotado.
A Batalha de Kadesh 1 19
' Como estava com a garganta seca, o prncipe pediu ao seu
copeiro para lhe trazervinho fresco. Benteshina mantinha-se abrigado
numa gruta da falsia.
O servidor deu apenas alguns passos.
- Senhor. . . Olhe!
-V logo, pois tenho sede.
- Olhe, senhor, sobre a falsia. . . centenas, milhares de egpcios!
Benteshina ergueu-se, estupefato. O copeiro no mentia.
LIm homem de elevada estatura, com uma coroa azul e enver-
gando um saiote com reflexos dourados, descia em seu carro para a
plancie costeira.  sua direita, um enorme leo.
Primeiro, um a um, e depois, em massa, os soldados libaneses
voltaram-se e descobriram o mesmo espetculo visto por seu chefe.
Todos foram brutalmente acordados.
-Onde est seu esconderijo, Benteshina? -interrogou a voz
grave e forte de Ramss.
Trmulo, o prncipe de Amurru avanou para o Fara.
- No  mais o meu vassalo, Benteshina?
-Majestade, sempre servi fielmente ao Egito!
- Por que razo o seu exrcito me preparava uma emboscada?
- Pensvamos. . . A segurana da nossa provncia. . .
LIm rudo surdo, semelhante a um tremor de terra, encheu o
cu. Ramss olhou ao longe, na direo da falsia em que por trs
dela podiam ocultar-se carros hititas.
Para o Fara, era o momento da verdade.
- Voc me traiu, Benteshina.
- No, Majestade! Os hititas obrigaram-me a obedecer. Se
tivesse recusado, eles massacrariam a mim e ao meu povo. Esperva-
mos que viesse para sermos libertados do seu jugo.
- Onde esto?
- Partiram, convencidos de que o seu exrcito chegaria aqui
em farrapos, se tivesse conseguido ultrapassar as inmeras armadilhas
montadas ao longo do caminho.
- Que rudo estranho  esse?


-  o rudo das grandes vagas que se erguem do mar, rolam
sobre os rochedos e se desfazem de encontro  falsia.
120 RAMSS
- Os seus homens estavam preparados para uma batalha. Os
meus, para combater
Benteshina ajoelhou-se.
- Como  triste, Majestade, descer  terra do silncio onde
reina a morte! O homem desperto adormece a para sempre, ficando
adormecido o dia inteiro. O lugar onde se encontram aqueles que
residem l embaixo  to profundo que as suas vozes j no chegam
at ns, pois no existe porta nem janela. Nenhum raio de sol ilumina
o sombrio reino dos defuntos, nenhum vento refresca o seu corao.
Ningum deseja seguir para esse terrvel pas. Imploro o perdo do
Fara! Que o povo de Amurru seja poupado e continue a lhe servir
tendo o seu comandante e senhor submisso, os soldados liba-
neses lanaram fora suas armas.
Quando Ramss ergueu Benteshina, que se inclinou profunda-
mente perante o Fara, gritos de alegria brotaram do peito dos
egpcios e dos seus aliados.
Quando saiu do gabinete de Ameni, Chenar estava horrorizado.
Para finalizar uma campanha militar realizada com incrvel
rapidez, Ramss acabava de reconquistar a provncia de Amurru, que,
no entanto, era considerada sob influncia hitita! Como havia esse
jovem rei inexperiente, que conduzia pela primeira vez o seu exrcito
em terreno hostil, conseguido escapar s armadilhas e alcanar uma
vitria to retumbante?
H muito tempo que Chenar deixara de acreditar na existncia
dos deuses, mas era evidente que Ramss gozava de uma proteo
mgica quelhe fora legada por Sethi no decurso de um ritual secreto.
E era essa forra que traava o seu caminho.
Chenar redigiu uma ordem de servio encaminhada a Ameni.
Como mnstro dos Negcos Estrangeiros, deslocava-se pessoalmen-
te a Mnfis para anunciar a excelente notcia aos notveis.
-Onde est o mago? -perguntou Chenar  sua irm Dolente.
A volumosa mulher morena de formas flcidas apertou de
A Batalho de Kadesh 121
ncontro a si a loura Lita, a herdeira de Akhenaton, que a clera do
u'mao mais velho de Ramss aterrorizava.
- Est traba!hando.
- Quero v-lo imediatamente.
- Tenha um pouco de pacincia. Est preparando uma nova
sesso de magia com o xale de Nefertari.
- Que bela eficcia! Sabe que Ramss reconquistou Amurru,
retomou todas as fortalezas cananias e imps de novo a sua lei aos
nossos protetorados do Norte? As nossas perdas so nfimas, o nosso
bem-amado irmo no sofreu um mnimo arranho e tornou-se
mesmo um deus para os soldados!
- Tem certeza. . . ?
-Ameni  uma excelente fonte de informaes. Esse maldito
escriba  to prudente que  capaz mesmo de ter ficado abaixo da
verdade. Cana, Amurru e a Sria do Norte no voltaro para a esfera
hitita. Conta com Ramss para erguer ali uma base bem fortificada e
tambm uma zona de proteo que o inimigo nunca conseguir
atravessar Em vez de abatermos o meu irmo, reforamos o seu
F: sistema defensivo... Magnfico resultado!
A loura Lita contemplava Chenar
- O nosso futuro reino est se afastando, minha querida. E se
! voc e o seu mago estiverem me enganando?
Chenar arrancou a parte de cima do vestido da jovem, reben-
tando as alas. O seio dela tinha a marca de profundas queimaduras.
Lita prorrompeu em soluos e aninhou-se nos braos de Do-
: lente.
- No a torture, Chenar; ela e Ofir so os nossos aliados mais
preciosos.
- timos aliados, sem dvida!
- No duvide, senhor - disse uma voz lenta e firme.
Chenar voltou-se.
A face de ave de rapina do mago Ofir impressionou novamente
irmo mais velho de Ramss. O olhar verde-escuro do lbio parecia
rtar maldies capazes de aniquilar um adversrio em poucos


-Estou descontente com os seus servios, Ofir.
122 RAMSS
- Como acabou de constatar, nem Lita nem eu poupamos
esforos. Como lhe expliquei, lutamos com uma fora muito grande
e precisamos de tempo para ag'ir. Enquanto o xale de Nefertari no
estiver completamente consumido, a proteo mgica no ser que-
brada. Se formos muito depressa, mataremos Lita e no teremos mais
nenhuma esperana de destronar o usurpador.
- Quanto tempo, Ofir?
- Lita  frgil porque  uma excelente mdium. Entre cada
sesso de magia, Dolente e eu tratamos de suas queimaduras; depois
temos que esperar pela cicatrizao da ferida antes de utilizarmos
novamente os seus dons.
- No pode mudar de cobaia?
O olhar do mago endureceu.
- Lita no  uma cobaia, mas sim a futura rainha do Egito, sua
esposa. H vrios anos que se prepara para esse combate implacvel
do qual sairemos vencedores. Ningum poderia substitu-la.
- J compreendi. . . Mas a glria de Ramss aumenta constan-
temente!
- Em algum momento a desgraa pode pr-lhe um Eim.
- O meu irmo no  um homem vulgar; est sendo animado
por uma estranha fora.
-Tenho conscincia desse fato, senhor Chenar.  por isso que
apelo para os recursos mais ocultos da minha cincia. A precipitao
seria um grave erro. No entanto.. .
Chenar ficou com os olhos fixos nos lbios de Ofir.
- No entanto, tentarei uma ao fulminante contra Ramss.
LTm homem vitorioso torna-se muito seguro de si e baixa as guardas.
Aproveitaremos um momento de fraqueza.
zo
A provncia de Amurru estava em festa. O prncipe
Benteshina fizera questo de celebrar de forma espalhafatosa a pre-
sena de Ramss e a volta  paz. Solenes declaraes de fidelidade
haviam sido inscritas em papiros, e o prncipe comprometera-se a
entregar o mais depressa possvel, por barco, troncos de cedros que
seriam erguidos na frente das colunas dos templos do Egito. Os
soldados libaneses transbordavam de amizade pelos seus homlogos
egpcios, o vinho corria  solta, e as mulheres da provncia reconquis-
tada souberam fascinar os seus protetores.
Encantados, mesmo no se deixando iludir por aquela alegria
forada, Setaou e Ltus tomaram parte nas festividades e tiveram a
felicidade de encontrar um velho feiticeiro apaixonado por serpentes.
Embora os espcimes locais fossem desprovidos de uma qualidade
especial de veneno e de uma agressividade superior  das v boras que
viviam no Egito, os dois especialistas trocaram alguns segredos da
profisso.
Apesar da excelente acolhida, Ramss no se sentiu  vontade.
Benteshina considerou essa atitude como necessria  gravidade que
o fara, o homem mais poderoso do mundo, devia conservar em
qualquer das circunstncias.
Todavia, essa no foi a opinio de Acha.
Ao trmino de um banquete que reunira os oficiais superiores
do Egito e de Amurru, Ramss retirara-se para o terrao do palcio
principesco onde Benteshina alojara o seu ilustre hspede.
O olhar do rei estava fixo no Norte.
- Posso interromper a sua meditao?
124 RAMSS
- O que quer, Acha?
- Voc no parece de forma alguma estar apreciando as
honrarias do prncipe de Amurru.
- Quem traiu, trair novamente. Mas sigo os seus conselhos:
por que haveria de substitu-lo, selhe conheo os vcios?
- No  nele em que est pensando.
- Conhece por acaso as minhas preocupaes?
- O seu olhar est fixo em Kadesh.
- Kadesh, o orgulho dos hititas, o smbolo do seu domnio
sobre a Sria do Norte, o perigo permanente que ameaa o Egito! Sim
,
estou pensando em Kadesh.


- Atacar essa praa forte  penetrar em zona de influncia
hitita. Se tomar essa deciso,  melhor declarar-lhes guerra com todas
as letras.
- Por acaso eles respeitaram as regras ao fomentarem as
revoltas em nossos protetorados?
-No passavam de movimentos de insurreio. Atacar Kadesh
 franquear a verdadeira fronteira entre o Egito e o imprio hitita.
Em outras palavras, a grande guerra. LIm conflito suscetvel de durar
vrios meses e destruir-nos.
- Estamos preparados.
- No, Ramss. As suas vitrias no devem torn-lo eufrico.
- Parecem-lhe irrisrias?
- Voc venceu apenas guerreiros medocres; e os de Amurru
entregaram as armas sem combater. Com os hititas ser diferente.
Alm disso, os nossos homens esto esgotados e anseiam por regressar
ao Egito. Entrar agora num conflito de tal envergadura nos levaria ao
desastre.
- O nosso exrcito ser assim to fraco?
- Nossos corpos e espritos estavam preparados para uma
campanha de reconquista, no para o ataque a um imprio cujo
poderio militar  superior ao nosso.
-A sua prudncia no est sendo perigosa?
-A batalha de Kadesh acontecer, se  esse o seu desejo, mas
tem que saber prepar-la.
-Tomarei a minha deciso esta noite.
A Batalha de Kadesh 125
J
A festa havia terminado.
De madrugada, a palavra de ordem havia circulado pelas caser-
nas: preparao para o combate. Duas horas mais tarde, Ramss
apresentou-se no seu carro, puxado pelos seus dois fiis cavalos. O
rei envergava a couraa de combate.
Muitos estmagos se apertaram. Teria fundamento o rumor
insensato que corria? Atacar Kadesh, marchar sobre a indestrutvel
cidade hitita, chocar-se de frente com brbaros de uma crueldade
sem igual?... No, o jovem monarca no podia ter concebido plano
to insensato! Herdeiro da sabedoria do pai, respeitaria a zona de
influncia adversria e optaria por consolidar a paz.
O rei passou as tropas em revista. Os rostos estavam tensos e
inquietos; do mais jovem soldado ao veterano mais experiente, todos
mantinham-se imveis, com os msculos retesados. Das palavras que
o Fara iria pronunciar dependeria o resto das suas existncias.
Setaou, que detestava paradas militares, estava deitado de bar-
riga para baixo, em sua carroa, e deixava-se massagear por Ltus,
cujos seios nus afloravam as suas omoplatas.
O prncipe Benteshina estava confinado em seu palcio, incapaz
de devorar os bolos com creme de que costumava empanturrar-se no
desjejum. Se Ramss declarasse guerra aos hititas, a provncia de
Amurru serviria de base recuada ao exrcito egpcio, e seus habitantes
seriam alistados como mercenrios. Vencido Ramss, os hititas po-
riam a regio a ferro e fogo.
Acha tentou adivinhar-lhe as intenes, mas o rosto de Ramss
permaneceu impenetrvel.
Terminada a inspeo, Ramss girou o seu carro. Por instantes,
os cavalos pareceram dirigir-se para o norte, para Kadesh; o Fara
voltou-se, porm, para o sul, para o Egito.
126 RAMSS
J
Setaou barbeou-se com uma navalha de bronze, penteou-se com
o pente de madeira de dentes desiguais, untou o rosto com uma
pomada para afastar os insetos, limpou as sandlias e enrolou a esteira.
No era elegante como Acha, mas fazia questo de se mostrar mais
bem apresentvel do que o habitual, apesar das risadas cristalinas de
Ltus.
Depois que o exrcito egpcio, entusiasmado, tomara o caminho
de volta, Setaou e Ltus finalmente arranjaram tempo para fazer amor
na carroa. Os soldados de infantaria no paravam de entoar canes
 glria de Ramss, enquanto os ocupantes dos carros - a arma
nobre - se contentavam em assobiar. A totaldade dos mlitares
partilhava a mesma convico: como era bela a vida de soldado quando


no tinha que combater!
O exrcito atravessou em boa caminhada Amurru, a Galilia e
a Palestina, cujos habitantes os aclamavam  sua passagem, oferecen-
do-lhes legumes e frutas frescas. Antes da ltima etapa, aquela que os
conduziria  entrada do Delta, o acampamento foi montado ao norte
do Sinai e a oeste de Negeb, numa regio trrida onde a guarda do
deserto vigiava o deslocamento dos nmades e protegia as caravanas.
! Setaou rejubilava. Abundavam ali as vboras e as cobras de tamanho
 soberbo, com veneno dos mais ativos. Com a sua destreza habitual, Ltus
j havia capturado uma dezena, dando a volta ao acampamento. Sorri-
dente, via os soldados afastarem-se  sua passagem.
Ramss contemplava o deserto. Voltou a olhar na direo norte
,
para Kadesh.
-A sua deciso foi lcida e sbia -declarou Acha.
.-  nisso que consste a sabedoria: bater em retrada perante
o inimigo?
- No, Ramss; ela consiste em no fazer-se massacrar e nem
tentar o impossvel.
- Engana-se, Acha. A verdadeira coragem  da natureza do
i impossvel.
A Batalha de Kadesh 127
- Estou sentindo medo pela primeira vez, Ramss. Para onde
quer arrastar o Egito?
-Acredita realmente que a ameaa de Kadesh se dissipar por
si prpria?
- A diplomacia permite resolver conflitos aparentemente in-
solucionveis.
-A sua diplomacia desarmar os hititas?
- Por que no?
- Traga-me a verdadeira paz que desejo, Acha; do contrrio,
eu mesmo a construirei.
Eram cento e cinqenta.
Cento e cinqenta homens, corredores das areias, bedunos e
hebreus, percorrendo h vrias semanas a regio do Negeb em busca
de caravanas perdidas. Todos obedeciam a um octogenrio zarolho
que conseguira escapar de uma priso militar antes de ser executado.
Autor de trinta ataques a caravanas e de vinte e trs assassinatos de
mercadores egpcios e estrangeiros, Uargoz surgia como um heri aos
olhos de sua tribo.
Quando o exrcito egpcio surgira no horizonte, julgaram ver
uma miragem. Os carros, os cavaleiros, os soldados a p... Uargoz e
os seus homens refugiaram-se numa gruta, decididos a no sair de l
antes do desaparecimento do inimigo.
Durante a noite, um rosto assediara os sonhos de Uargoz: o do
mago lbio Ofir.
Com sua cabea de ave de rapina e uma voz doce e persuasiva,
Uargoz o conhecera muito bem na sua juventude. Num osis perdido
entre a Lbia e v Egito, o mago ensinara-o a ler e a escrever, e o utilizara
como mdium.
Nessa noite, o rosto imperioso ressurgira do passado, a voz suave
dava novas ordens s quais Vargoz no podia escapar.
Com os olhos esbugalhados, os lbios brancos, o chefe do bando
acordou os seus cmplices.
- Este vai ser o nosso mais belo golpe -explicou. - Sigam-me.
128 RAMSS
Obedeceram como sempre faziam. L onde Vargoz os levava
devia haver bastantes riquezas.
Quando chegaram prximo do acampamento egpcio, alguns
homens de Vargoz insurgiram-se.
- A quem quer roubar?
-A tenda mais bela, a que est mais  frente. . . Contm muitos
tesouros.
- No teremos qualquer chance!
- As sentinelas so poucas e no esperam um ataque. Sejam
rpidos e se tornaro homens ricos.
-  o exrcito do Fara - objetou um corredor das areias.
- Mesmo se conseguirmos fugir, eles vo nos apanhar.
- Imbecil. .. Acha que vamos permanecer na regio? Com o
ouro que vamos roubar, seremos mais ricos do que prncipes!


-Ouro...
- O fara nunca se desloca sem grande quantidade de ouro e
pedras preciosas.  com eles que compra os seus vassalos.
- Quem lhe disse?
- LIm sonho.
O corredor das areias olhou Vargoz com espanto.
- Est zombando de mim?
- Vai obedecer ou no?
-Arriscar a pele por causa de um sonho. . . Est delirando?
' O machado de Vargoz abateu-se sobre o pescoo do corredor
das areias. Quando o moribundo caiu, o chefe da tribo cobriu-o de
pontaps e acabou por degol-lo.
-Algum mais quer discutir?
Rastejando, os cento e quarenta e nove homens avanaram para
a tenda do fara.
Vargoz obedeceria  ordem que Ofir lhe dera: cortal- uma das
pernas de Ramss, tornando-o invlido.
21
Diversas sentinelas cochilavam enquanto monta-
vam guarda. Outras sonhavam com o lar e a famlia. S6 uma percebeu
uma forma bizarra que rastejava na sua direo, mas Vargoz teve
tempo de estrangul-la antes que desse o alarme. Os membros da
tribo tiveram que admitir que mais uma vez o seu chefe tinha razo.
No haveria qualquer dificuldade em aproximar-se da tenda real.
Vargoz no sabia se Ramss transportava um tesouro e tambm
no pensou no momento de os companheiros descobrirem que ele,
Vargoz, os enganara. Apenas uma obsesso o guiava: obedecer a Ofir,
libertar-se do seu rosto e da sua voz.
Esquecendo os riscos, correu para o oficial semi-adormecido
junto  entrada da grande tenda. O peso do corpo de Vargoz foi to
violento que o egpcio nem teve tempo de desembainhar a espada.
Com a respirao cortada pela cabeada do seu agressor, o homem
desmaiou.
O caminho estava livre.
Mesmo o Fara, considerado um deus, no resistiria a um
agressor enlouquecido.
O gume do machado rasgou a porta de pano da tenda.
Arrancado do seu sono, Ramss ergueu-se. Com a arma em
punho, Vargoz lanou-se contra o monarca.
LIm peso enorme, porm, o derrubou. LIma dor intensa ras-
gou-lhe as costas, como se mil facas lhe dilacerassem a carne. Voltando
a cabea, viu, num timo de segundo, as mandbulas de um gigantesco
leo se fecharem sobre seu crnio, engolindo-o como um fruto
maduro.
130 RAMSS
O berro de terror do corredor das areias que seguia Vargoz deu
o alerta. Privados do seu chefe, desorientados, no sabendo se deviam
atacar ou fugir, os ladres foram trespassados por flechas. S Matador
matou cinco e, depois, vendo os arqueiros se ocuparem da tarefa, foi
dormir atrs da cama do seu dono.
Furiosos, os egpcios vingaram a morte das sentinelas, massa-
crando a tribo de ladres. A splica de um ferido intrigou um oFcial,
que chamou a ateno do rei.
- LIm hebreu, Majestade.
Com duas tlechas no estmago, o homem agonizava.
- Viveu no Egito, hebreu?
- Di-me. . .
- Fale, se quer ser tratado! - exigiu o oficial.
- No, no Egito no. .. Sempre vivi aqui. . .
-A sua tribo acolheu algum chamado Moiss? -perguntou
Ramss.
-No...
- Por que nos atacaram?
O hebreu balbuciou algumas palavras incompreensveis e morreu.
Acha aproximou-se do rei.
- Est bem?
' - Matador protegeu-me.
- Quem so os bandidos?
- Bedunos, corredores das areias e, pelo menos, um hebreu.
- Fo um ataque-suicda.


-Algum os nctou a tomarem essa niciativa insensata.
- Instrutores hititas?
- Talvez.
- Em quem est pensando?
-  impossvel descrever os nomes dos demnios das trevas.
- No consegui adormecer - confessou Acha.
- Qual a causa da sua insnia?
- A reao dos hititas. No vo ficar passivos.
- Est me censurando agora por no ter atacado Kadesh?
-  preciso consolidar o mais depressa possvel o sistema de
defesa dos nossos protetorados.
A Batalha de Kadesh 131
- Esta ser a sua prxima misso, Acha.
Por questo de economia, Ameni limpava uma velha tabuazinha
de madeira para utiliz-la novamente como superfcie de escrita. Os
funcionrios do seu servio sabiam que o secretrio particular do rei
no suportava o desperdcio e exigia respeito pelo material.
O triunfo de Ramss nos protetorados e a cheia perfeita de que
se beneficiava o Egito tinham enchido Pi-Ramss de alegria. Os ricos
e os humildes preparavam-se para receber o rei, e os barcos traziam
todos os dias alimentos slidos e lquidos destinados ao monumental
banquete em que todos os habitantes da cidade tomariam parte.
Naquele perodo de frias foradas, os camponeses descansavam
ou iam de barco visitar membros da famlia que moravam longe. O
delta do Nilo tornara-se um mar, de onde emergiam ilhotas em que
estavam erigidas as aldeias. Pi-Ramss assemelhava-se a um navio
ancorado no centro daquela imensido.
S o esprito de Ameni estava angustiado. Se realmente havia
eometido a injustia de colocar um inocente na priso, que era mais
do que um amigo fiel para Ramss, essa mesma injustia pesaria
duramente na balana do julgamento do outro mundo. O escriba no
ousara visitar Serramanna, que continuava a clamar por sua inocncia.
O guarda a quem Ameni confiara o inqurito sobre a principal
testemunha de acusao, Nenofar, a amante de Serramanna, apareceu
em seu gabinete no fim da tarde.
- Obteve resultados?
O guarda exprimia-se com lentido.
- Afirmativo.
Ameni sentiu-se mais descansado; ia finalmente ver clarol
- E Nenofar?
- Encontrei-a.
- Por que no a trouxe?
- Porque est morta.
- Por acidente?
- Segundo o mdico a quem mostrei o cadver, foi assassinato.
Nenofar foi estrangulada.
132 RAMSS
-LIm crime. . . Quiseram, portanto, eliminar essa testemunha.
Mas por qu? . . . Porque ela tinha mentido ou porque se arriscava a
falar demais?
- Com o devido respeito, este impasse no lana uma dvida
sobre a culpabilidade de Serramanna?
Ameni tornou-se mais plido do que de costume.
- Possua provas contra ele.
- Provas no se discutem - admitiu o guarda.
- Pois discutem-se, sim senhor! Imagine essa Nenofar sendo
paga para acusar Serramanna, assustando-se com a idia de compa-
recer perante o tribunal, mentindo sobjuramento e em face da Regra.
O seu mandante no tinha opo: tinha de elimin-la. Claro que nos
resta uma prova irrefutvel! E se for uma falsificao; e se algum tiver
imitado a escrita do sardo?
- No  difcil: Serramanna redigia toda semana uma nota de
servio, que era afixada na porta da caserna da guarda pessoal do rei.
- Serramanna vtima de uma trama. .. E nisso que acredita,
no  verdade?
O guarda concordou com a cabea.
- Quando Acha regressar - disse Ameni - talvez eu possa
libertar Serramanna sem esperar pela priso do culpado... Tem
alguma pista?
- Nenofar no se debateu.


assassmo.
- Onde foi morta?
 provvel que conhecesse o seu
- Numa pequena casa do bairro comercial.
- Quem  o seu proprietrio?
- Como estava desocupada, os vizinhos no puderam me
esclarecer.
-Consultando o cadastro, obterei com certeza uma indicao.
E esses vizinhos no notaram nada de suspeito?
-LIma velhota, meio cega, afirma que viu um homem de baixa
estatura sair da casa no meio da noite, mas  incapaz de descrev-lo.
- E se consegussemos uma lista das relaes de Nenofar?
- intil esperarmos conseguir isso.. . E se Serramanna fosse
o seu primeiro peixe grado?
A Batalha de Kadesh 133
J
Nefertari saboreou um longo banho morno. Com os olhos
fechados, pensou na felicidade louca cujo perfume se aproximava,
minuto a minuto, no regresso de Ramss, cuja ausncia se asseme-
lhava a um suplcio.
As servas esfi egaram-lhe docemente a pele com cinza e natro,
mistura de carbonato e de bicarbonato de sdio, que secava e pu-
rificava. Depois de uma ltima asperso, a rainha estendeu-se nos
mosaicos quentes e uma massagista friccionou-a com um creme 
base de terebintina, azeite e limo, que lhe tornaria o corpo aromtico
durante todo o dia.
Sonhadora, Nefertari entregou-se aos cuidados da pedicura,
manicura e da maquiadora, que lhe rodeou os olhos com uma linha
de tinta verde-clara, simultaneamente ornamento e proteo. Como
o regresso de Ramss estava prximo, ungiu a soberba cabeleira da
rainha com um perfume de festa, cujos principais componentes eram
a estiraccea e o benjoim. Depois, estendeu a Nefertari um espelho
de bronze polido cujo cabo fora esculpido na forma de uma jovem
nua, evocao terrestre da beleza celeste de Hathor.
Faltava colocar uma peruca de cabelos humanos, da qual des-
ciam duas longas madeixas at os seios e cuja parte de trs era
encaraclada. A prova do espelho foi favorvel pela segunda vez.
- Se me permite - murmurou a cabeleireira - Vossa
Majestade nunca esteve to bela.
As camareiras encarregadas de vestir a rainha fizeram-na enver-
gar um imaculado vestido de linho, que acabava de ser criado e
confeccionado pela oficina de tecelagem do palcio.
Mal a rainha se sentou para verificar a largura da admirvel
indumentria, um co amarelo-dourado, robusto, musculoso, de
orelhas cafdas, cauda em espiral e focinho curto coroado com uma
mancha negra, saltou-lhe para os joelhos. LIm co que vinha do jardim
recentemente regado e cujas patas sujaram de lama o vestido real.
Horrorizada, uma das camareiras agarrou uma pazinha destina-
da a matar moscas e avanou para bater no animal.
134 RAMSS
- No lhe toque - ordenou Nefertari. -  Vigilante, o co
de Ramss. Se procede assim, deve ter um motivo.
LIma lngua rosada, mida e doce lambeu as faces da rainha e
lhe tirou a maquiagem. Os grandes olhos confiantes de Vigilante
ofereceram-lhe um olhar cheio de indescritvel alegria.
- Ramss estar aqui amanh, no  verdade?
Vigilante pousou as patas da frente sobre as alas do vestido e
agitou a cauda num entusiasmo que no deixava dvidas.
22
Por meio de sinais pticos, os vigias das fortalezas
e dos fortins de vigilncia acabavam de anunciar a chegada de Ramss.
A capital ficou imediatamente em efervescncia. Do bairro
contguo ao templo de Ra s oficinas prximas do porto, das villos dos
altos funcionrios s moradias da gente humilde, todos corriam para
executar a tarefa que lhes fora confiada e ter tudo pronto para o
momento excepeional da entrada do soberano em Pi-Ramss.
O intendente Romeu escondia a sua calvcie crescente embaixo
de uma peruca curta. Sem dormir h quarenta e oito horas, atormen-
tava os subordinados, todos acusados de lentido e falta de preciso.
S para a mesa real seriam necessrias centenas de quartos de bois


assados, vrias dezenas de patos grelhados, duzentos cestos de carne
e peixes secos, cinqenta potes de natas, uma centena de pratos de
peixes preparados com especiarias, sem contar os legumes e as frutas.
Os vinhos deviam ser de qualidade perfeita, assim como as cervejas.
Tambm deviam ser organizados mil banquetes nos diversos bairros
da cidade, a fim de que, nesse dia, mesmo o mais humilde participasse
da glria do rei e da felicidade do Egito.  menor falha, quem seria
apontado seno ele, Romeu2
Releu o ltimo papiro de entrega: mil pes de formas variadas,
mas de farinha muito fina, dois mil pezinhos dourados e crocantes,
vinte mil bolos de mel e suco de alfarroba, recheados com figos,
trezentos e cinqenta e dois sacos com uvas para serem colocadas em
taas, cento e doze com roms e muitos outros com figos...
- Ei-lo! - exclamou o copeiro.
l36 RAMSS
Em p, sobre o telhado da cozinha, um aprendiz tzia grandes
gestos.
- No  possvel. . .
- Sim,  ele!
O aprendiz saltou do telhado, e tanto ele quanto o copeiro
correram em direo  grande avenida da capital.
- Fiquem aqui!- berrou Romeu.
Em menos de um minuto, a cozinha e as dependncias do
palcio ficaram desertas. Romeu deixou-se cair num banco de trs
ps. Quem iria tirar os cachos de uva dos sacos para apresent-los
com arte?
			Estava fascinante.
			Era o sol, o touro poderoso, o protetor do Egito e o vencedor
		de pases estrangeiros, o rei de vitrias grandiosas, aquele que a luz
		divina escolhera.
			Era Ramss.
			Com uma coroa de ouro, envergando uma armadura prateada e
		um saiote bordado em ouro, segurando um arco na mo esquerda e
		uma espada na direita, mantinha-se ereto no carro adornado com
			,
		lrios e conduzido por Acha. Matador, o leo nbio de juba flamejante
		avanava no mesmo ritmo dos cavalos.
			A beleza de Ramss aliava o poder ao esplendor. Encarnava nele
		a mais completa representao de Fara.
			A multido comprimia-se de um lado e de outro da longa via
		processional que conduzia ao templo de Amon. Com os braos
		carre ados de flores e perfumados com leo de festa, msicos e
			g
		cantores celebravam o regresso do rei com um hino de boas-vindas.
		"Ver Ramss", proclamava-se, "torna o corao feliz"; diante disso,
		todos se empurravam  passagem do monarca, para tentar v-lo,
		mesmo que por um instante.
			No limiar do es ao sa ado estava Nefertari a grande esposa
			P ' ,
		real. O doce amor, aquela de cuja voz emanava a felicidade, a soberana
		das Duas Terras com a coroa de plumas altas que tocava o cu e com
	 	o colar de ouro adornado com um escaravelho de lpis-lazli apre-
A Batolha de Kadesh 137
sentando o segredo da ressurreio - ali estava ela, Nefertari, que
segurava nas mos um cvado, smbolo de Mat, a Regra eterna.
Quando Ramss desceu do carro, a multido fez silncio.
O rei, em passos lentos, dirigiu-se para a rainha. Imobilizou-se
a trs metros dela, largou o arco e a espada, e, fechando o punho
direito, colocou-o sobre o corao.
- Quem  voc, que se atreve a contemplar Mat?
- Sou o Filho da Luz, o herdeiro do testamento dos deuses. o
que  penhor da justia e no faz qualquer diferena entre o forte e
o fraco. E todo o Egito que devo proteger do mal, tanto no interior
quanto no exterior.
- Longe da terra sagrada, respeitou Mat?
- Pratiquei a Regra e, perante ela, deponho os meus atos para
que me julgue. S assim o pas ser consolidado com base na verdade.
- Que a Regra o reconhea como um ser em retido.
Nefertari ergueu o cvado de ouro, que resplandeceu ao sol.
Durante longos minutos, a multido aclamou seu rei. At Che-


nar, subjugado, no conseguiu evitar de murmurar o nome do irmo.
No primeiro grande ptio a cu aberto do templo de Amon s
eram admitidos os notveis de Pi-Ramss, impacientes por assistirem
 cerimnia de entrega do "ouro da valentia". Quem o Fara iria
condecorar? Que promoes concederia? Circulavam vrios nomes
e tinham sido feitas at apostas.
Quando o rei e a rainha surgiram na "janela da apario", todos
contiveram a respirao. Os generais exibiam-se na primeira fila,
espiando-se uns aos outros pelo canto do olho.
Dois porta-estandartes estavam prontos para conduzir, at pr-
ximo  janela, os felizes eleitos. Desta vez o segredo fora bem guar-
dado; at os mexeriqueiros da corte estavam na incerteza.
- Que seja primeiro honrado o mais corajoso dos meus
soldados -declarou Ramss -aquele que no hesitou em arriscar
a prpria vida para proteger a do Fara. Avance, Matador
Assustada, a assistncia abriu passagem para o leo, que parecia
ber certo prazer em ver todos os olhares convergirem para si. Bam-
138 RAMSS
boleante, em passo leve, foi at a "janela da apario". Ramss
inclinou-se, acariciou-lhe a cabea e colocou-lhe em redor do pesco-
o uma fina corrente de ouro que entrosava a fera como uma das
personalidades mais destacadas da corte. Satisfeito, o leo deitou-se
na posio de esfinge.
O rei murmurou dois nomes ao ouvido dos porta-estandartes.
Contornando Matador, os dois guardies ultrapassaram a fileira dos
generais, depois a dos oficiais superiores e dos escribas, e pediram a
Setaou e Ltus que os acompanhassem. O encantador de serpentes
protestou, mas a sua linda esposa segurou-lhe a mo.
Ver passar a nbia de pele dourada e cintura fina despertou os
mais indiferentes, mas o aspecto rude de Setaou, enfiado na sua pele
de antlope cam mltiplos bolsos, no recolheu os mesmos aplausos.
- Que sejam honrados aqueles que trataram dos feridos e
saIvaram inmeras vidas - disse Ramss. - Graas  sua cincia e
dedicao, homens corajosos venceram o sofrimento e regressaram 
sua ptra.
Inclinando-se de novo, o rei colocou vrios aros de ouro nos
pulsos de Setaou e Ltus. A bela nbia estava comovida, mas o
encantador de serpentes resmungava.
- Encarrego Setavu e Ltus da direo do laboratrio do
palcio - acrescentou Ramss. - Tero como misso aperfeioar
os remdios  base de veneno de rpteis e garantir a sua distribuio
para todo o pas.
- Preferiria a minha casa no deserto - resmungou Setaou.
- Lamenta estar mais perto de ns? - perguntou Nefertari.
O sorriso da rainha desarmou o resmungo.
- Vossa Majestade. . .
- A sua presena no palcio, Setaou, ser uma honra para a
corte,
Pouco  vontade, Setaou corou.
-Tudo ser de acordo com os desejos de Vossa Majestade.
Os generais, um pouco chocados, no se atreveram a fazer
qualquer crtica. Em qualquer ocasio, no tinham recorrido  arte
de Setaou e Ltus para facilitar uma digesto ditcil ou aliviar uma
respirao presa? O encantador de serpentes e a esposa haviam
A Batalha de Kadesh 139
cumprido corretamente a sua misso durante a campanha. A sua
recompensa, embora exagerada aos olhos dos graduados, no era
imerecida.
Restava saber qual dos generais seria distinguido e ascenderia ao
posto de comandante-chefe do exrcito do Egito, sob as ordens
diretas do Fara. A escolha era decisiva, porque o nome do eleito seria
revelador da futura poltica de Ramss: o nome do mais idoso dos
generais seria prova de passividade e de conteno; o do chefe da
cavalaria, anncio de uma guerra iminente.
Os dois porta-estandartes ladearam Acha.
Fino, elegante, muito  vontade, o jovem diplomata ergueu um
olhar respeitoso para o casal real.
- Honro-o, meu nobre e fiel amigo - declarou Ramss -,
porque os seus conselhos me foram preciosos. Tambm no hesitou
em expor-se ao perigo e soube convencer-me a modificar os meus


planos quando a situao o exig'ia. A paz est restabelecida, mas
continua frgil. Surpreendemos os revoltosos com a nossa rapidez de
ao, mas como reagiro os hititas, os verdadeiros autores de tudo
que aconteceu?  verdade que reorganizamos as guarnies das nossas
fortalezas de Cana e deixamos tropas na provncia de Amurru, a mais
exposta a uma desforra brutal do inimigo, mas temos de coordenar
os esforos de defesa nos nossos protetorados, a fim de que no
estoure uma nova sublevao. Confio essa misso a Acha. A partir de
agora, grande parte da segurana do Egito estar em suas mos.
Acha curvou-se, e Ramss colocou em torno do seu pescoo
trs colares de ouro. O jovem diplomata ascendia ao estatuto de
notvel do Egito.
Os generais uniram-se no mesmo rancor No competia a um
dignitrio sem experincia ocupar-se de tarefa to difcil. O rei
acabava de cometer um grave erro; era imperdovel demonstrar assim
falta de confiana na hierarquia militar
Chenar perdia o seu adjunto no Ministrio dos Negcios Es-
trangeiros, mas ganhava um precioso aliado com poderes mais am-
plos. Ao nomear o amigo para aquele posto, Ramss corria para a sua
perda. O olhar de conivncia trocado entre Acha e Chenar foi, para
este ltimo, o melhor momento da cerimnia.
4o Ranlss
.P..P
Acompanhado por Vgilante e Matador, felizes por se reencon-
trarem e poderem brincar juntos, Ramss deixara o templo e voltara
ao carro para cumprir uma promessa.
Homero estava rejuvenescido. Sentado sob o seu limoeiro, tirava
o caroo de tmaras que Heitor, o gato preto rajado de branco, farto
de carne fresca, olhava com indferena.
-Lamento no ter assistido  cerimnia, Majestade; as minhas
velhas pernas tornaram-se preguiosas e j no posso ficar de p
durante haras. Sinto-me feliz por rev-lo com perfeita sade.
-Quer oferecer-me essa cerveja  base de suco de tmaras que
voc prprio preparou?
Na paz da tarde, os dois homens saborearam a suave bebida.
- Concedeu-me um raro prazer, Homera: o de acreditar, por
um instante, que sou um homem como os outros, capaz de gozar um
momento de repouso sem pensar no amanh. Como est indo sua
Iliada?
-Tal como a minha memria: semeada de matanas, cadveres,
amizades perdidas e manobras divinas. Mas tero os homens outro
destino que no seja o da sua prpria loucura?
- A grande guerra que o meu povo receia no estourou; os
protetorados do Egito voltaram ao que eram antes; desta vez espero
criar uma barreira intransponvel entre ns e os hititas.
- Eis a grande sabedoria para um jovem monarca dotado de
tanto vigor. No seria Vossa Majestade a aliana miraculosa da pru-
dncia de Pramo e da valentia de Aquiles?
-Estou convencido de que os hititas ficaro mortificados com
a minha vitria. Esta paz no passa de uma trgua... Breve, a sorte
do mundo estar lanada em Kadesh.
- Por que uma tarde to suave dever ser portadora de um
breve amanh? Os deuses so cruis.
-Aceita ser meu convidado no banquete desta noite?
- Com a condio de regressar cedo a casa; na minha idade, o
sono  a principal virtude.
A Batalha de Kadesh 141
- J havia sonhado alguma vez que a guerra no existia?
-Ao escrever a Ilada, o meu objetivo  pint-la com cores to
horrveis, que os homens recuem perante o desejo de destruir. Mas
ser que os generais ouviro a voz de um poeta?
23
Os grandes olhos amendoados de Touya, severos e
penetrantes, enterneceram-se ao olhar Ramss. Altiva, encantadora
no seu vestido de linho de corte perfeito, apertado na cintura por
uma faixa cujas pontas riscadas caam quase at os tornozelos, con-
templou longamente o fara.
- No sofreu, realmente, nenhum ferimento?
-Acredita que eu seria capaz de lhe ocultar? Est maravilhosa!
-As rugas da testa e do meu pescoo acentuaram-se; nem as


melhores maquiadoras podero fazer milagres.
-Ajuventude ainda permanece em voc.
-A fora de Sethi, talvez. . . Ajuventude  um pas estrangeiro
que s voc habita. Mas por que ceder  nostalgia nesta noite de festa?
Ocuparei o meu lugar durante o banquete, no se preocupe.
O rei abraou a me com fora.
- Voc  a alma do Egito.
- No, Ramss, eu sou apenas a recordao, o reflexo de um
passado ao qual voc deve fidelidade. A alma do Egito  o casal que
voc forma com Nefertari. Restabeleceu uma paz duradoura?
- LIma paz, sim; duradoura, no. Restabeleci a nossa autori-
dade sobre os protetorados, incluindo Amurru, mas prevejo uma
reao violenta por parte dos hititas.
- Pensou em atacar Kadesh, no  verdade?
-Acha convenceu-me a desistir.
- Ele est com a razo. Seu pai renunciara a essa guerra,
sabendo que as nossas perdas seriam elevadas.
RAMSS
- Mas os tempos no mudaram? Kadesh  uma ameaa que
no poderemos tolerar por mais tempo.
- Os nossos convidados nos esperam.
Nenhuma nota em falso empanou o brilho do banquete presi-
dido por Ramss, Nefertari e Touya. Romeu corria constantemente
da sala de refeies para as cozinhas e vice-versa, vigiando todos os
pratos, provando todos os molhos e bebendo um gole de cada vinho.
Acha, Setaou e Ltus ocupavam os lugares de honra. O brilhante
dilogo do jovem diplomata seduzira dois generais carrancudos; Ltus
divertira-se em ouvir inmeros elogios celebrando a sua beleza,
enquanto Setaou se concentrava no seu prato de alabastro, que enchia
constantemente com iguarias suculentas.
A aristocracia e a casta militar tinham partilhado um tempo de
trguas, longe das angstias do futuro.
Por fim, Ramss e Nefertari ficaram a ss no seu amplo quarto
do palcio, perfumado por uma dezena de ramos de flores. Predomi-
nava um aroma de jasmim e juna aromtica.
- isso a realeza: ter de roubar algumas horas para poder viver
com a mulher que amamos?
-A sua viagem foi longa, to longa...
Estenderam-se sobre um grande leito, lado a lado, as mos
entrelaadas, saboreando o prazer do reencontro.
- estranho -disse ela. -A sua ausncia torturava-me, mas
o seu pensamento estava presente em mim. Todas as manhs, quando
ia ao templo para celebrar os rituais da madrugada, a sua imagem
destacava-se das paredes e guiava os meus gestos.
- Durante os piores momentos da campanha, o seu rosto
nunca me abandonou. Sentia voc ao meu redor como se fizesse bater
as asas de sis quando ela d vida a Osris.
- Foi a magia criada pela nossa unio; nada deve quebr-la.
- Quem ousaria faz-lo?
-Pressinto por vezes uma sombra fria.. . Aproxima-se, afasta-
se, aproxima-se de novo, e desaparece.
A Batalha de Kadesh 145
- Se existe, eu a destruirei. Mas vejo no seu olhar apenas uma
luz simultaneamente doce e ardente.
Ramss ergueu-se de lado e admirou o corpo perfeito de Ne-
fertari. Desatou-lhe os cabelos, fez deslizar as alas do seu vestido e
desnudou-a lentamente, to lentamente que a fez estremecer
-Est com frio2
-Voc est demasiado longe de mim.
Estendeu-se sobre ela, suas formas ajustaram-se, seus desejos
uniram-se.
s seis horas da manh, depois de ter tomado um banho e lavado
a boca com natro, Ameni mandara que lhe levassem ao gabinete o
desjejum, composto por infuso de cevada, iogurte, queijo fresco e
figos. O secretrio particular de Ramss comia depressa, com os olhos
fixos num papiro.
Surpreendeu-o um rudo de sandlias de couro nos mosaicos.
Um dos seus subordinados? ao cedo? Ameni limpou os lbios com
um pano.
- Ramssl


- Qual a razo de ter faltado ao banquete?
- Veja: estou cheio de trabalho! Chegaria a jurar que as pastas
se reproduzem entre si. E depois, bem sabe que no aprecio O
mundanismo. Tencionava pedir-lhe audincia esta manh para lhe
apresentar os resultados da minha gesto.
-Tenho certeza de que so excelentes.
O esboo de um sorriso iluminou o rosto srio de Ameni. A
confiana de Ramss era o seu bem mais precioso.
- Diga-me. . . Por que esta visita matinal?
- Por causa de Serramanna.
- Era o primeiro assunto que queria abordar
- Fez muita falta durante a campanha. Foi voc que o acusou
e prendeu por traio, no  verdade?
-As provas eram esmagadoras, mas...
-Mas...?
-Mas reabri o inqurito.
146 RAMSS
- Por qu?
- Porque tive a sensao de estar sendo manipulado. E as f-
mosas provas contra Serramanna parecem-me cada vez menos con-
vincentes. A sua acusadora, uma mulher leviana, Nenofar, foi assassi-
nada. Quanto ao documento que demonstra a sua cumplicidade com
os hititas, estou impaciente por submet-lo  sagacidade de Acha.
- Ento vamos acord-lo.
As suspeitas que Acha havia levantado a respeito de Ameni foram
dissipadas, mas essa felicidade o rei guardou s para si.
Leite fresco com mel despertou Acha, que confiou sua compa-
nheira da noite s mos peritas do massagista e do cabeleireiro.
- Se Vossa Majestade em pessoa no estivesse na minha frente
-confessou o diplomata -no teria coragem nem de abrir os olhos.
-Abra tambm os ouvidos -recomendou Ramss.
- O rei e seu secretrio nunca dormem?
-A sorte de um homem injustamente preso vale mais que um
despertar brutal - sublinhou Ameni.
- De quem est falando?
- De Serramanna.
- Mas. . . No foi voc que. . .
- Olhe para estas tabuazinhas de madeira.
Acha esfregou os olhos e leu as mensagens que Serramanna
redigira para o seu correspondente hitita, prometendo-lhe que no
lanaria as suas tropas de elite contra o inimigo, em caso de conllito.
-  uma brincadeira?
- Por que diz isso?
- Porque os grandes personagens da corte hitita so todos
extremamente melindrosos. Do uma importncia vital s formalida-
des, inclusive ao correio secreto. Para que mensagens como estas
cheguem a Hattusa, existe uma forma de redigir observaes e
perguntas que Serramanna ignora.
- Imitaram, portanto, a escrita de Serramanna.
- Sem dificuldade nenhuma e, por sinal, bastante grosseira.
Estou convencido de que estas mensagens nunca foram enviadas.
A Batalha de Kadesh 147
Ramss examinou, por sua vez, as pequenas tbuas.
- H, no entanto, um indfeio que vocs no perceberam!
Acha e Ameni refletiram.
-Antigos alunos do kap da unversidade de Mnfis deviam estar
mais atentos.
-  por causa da hora matinal - desculpou-se Acha. - 
claro que o autor deste texto s pode ser um srio. Fala bem a nossa
lngua, mas duas construes de frase so caractersticas da lngua
deles.
- LIm srio - repetiu Ameni. - Estou convencido de que 
o mesmo homem que pagou a Nenofar, a amante de Serramanna,
para que ela prestasse um falso testemunho contra ele! Receando que
falasse, achou melhor elimin-la.
- Assassinar uma mulher! - exclamou Acha. -  mons-
truoso!
- H milhares de srios no Egito - lembrou Ramss.
- Esperemos que tenha cometido um erro, um simples e
pequenino erro - interveio Ameni. - Estou analisando um inqu-


rito e espero encontrar uma pista concreta.
- Talvez esse srio no seja apenas um assassino - disse
Ramss.
- O que est querendo dizer? - perguntou Acha.
- LIm srio ligado aos hititas. . . que talvez tenha instalado uma
rede de espionagem no nosso territrio.
- Nada prova uma ligao direta entre o homem que tentou
incriminar Serramanna e o nosso principal inimigo.
Ameni replicou Acha com ironia.
- Formula essa objeo porque est aborrecido, meu amigo.
Voc, o chefe do nosso sistema de informaes, acaba de descobrir
uma verdade que no lhe agrada!
- O dia j est comeando mal - constatou o diplomata -
e os seguintes ameaam ser movimentados.
- Descubram o srio o mais depressa possvel - exigiu
Ramss.
148 RAMSS
Na sua cela, Serramanna reagia  sua maneira; continuando a
clamar sua inocncia, tentava demolr as paredes a soco. No dia do
processo, partiria a cabea dos seus acusadores, quaisquer que fossem
eles. Temerosos da raiva do ex-pirata, os carcereiros passavam-lhe os
alimentos atravs das grossas barras da grade de madeira.
Quando a cela foi aberta, Serramanna sentiu vontade de se lanar
sobre o homem que ousava enfrent-lo.
- Majestade!
- Esta m estada no lhe abalou muito, Serramanna.
-No tra Vossa Majestadel
- Voc foi vtima de um erro e vim libert-lo.
- Vou realmente sair desta jaula?
- Duvida da palavra do rei?
-Tem ento... confiana em mim?
- Voc  o chefe da minha guarda pessoal.
-Ento, Majestade, vou lhe dizer tudo. Tudo o que soube, tudo
aquilo de que desconfio, todas as verdades por causa das quas
quiseram fazer-me calar
24
Sob o olhar de Ramss, Ameni e Acha, Serramanna,
bem instalado na sala de refeies do palcio, devorava pat de
pombo, costeletas de vaca grelhadas, favas com gordura de pato,
pepinos com natas, melancia e queijo de cabra. Manifestando um
apetite inesgotvel, mal tinha tempo para beber canecas de um vinho
tinto espesso no diluvel em gua.
Finalmente saciado, olhou para Ameni com malevolncia.
- Por que me prendeu, escriba?
-Apresento-lhe as minhas desculpas. No s me deixei enga-
nar, como cedi  precipitao devido  partida do exrcito para o
Norte. A minha nica inteno era proteger o rei.
- Desculpas. . . U para a priso em meu lugar e vai ver! Onde
est Nenofar?
- Morta - respondeu Ameni. - Assassinada.
-No posso lament-la. Quem a manipulou e tentou livrar-se
de mimt
-Ainda no sabemos, mas haveremos de descobrir.
- Pois eu sei!
O sardo esvaziou mais um copo de vinho e limpou o bigode.
- Ento diga logo! - exigiu o rei.
Serramanna tornou-se sentencioso.
-Majestade, eu o avisei. Quando Ameni me prendeu, eu estava
me preparando para lhe fazer um certo nmero de revelaes que
talvez lhe desagradem.
- Estamos ouvindo-o, Serramanna.
150 RAMSS
- O homem que quis me eliminar foi Romeu, o intendente
escolhido por Vossa Majestade. Quando foi introduzido um escorpio
no quarto de Vossa Majestade, a bordo, desconfiei de Setaou e
enganei-me; quando ele tratou de mim, aprendi a conhec-lo.  um
homem correto, incapaz de mentir, de fazer intriga ou de prejudicar
algum. Romeu, pelo contrrio,  vicioso. Quem estaria melhor
colocado seno ele para roubar o xale de Nefertari? E foi ele ou foi
algum dos seus auxiliares que roubou o pote de peixes secos.


- Por que razo teria ele agido assim?
- No sei.
-Ameni considera que no tenho nada a recear de Romeu.
- Ameni no  infalvel - retorquiu vivamente o sardo. -
No meu caso, ele enganou-se... E o mesmo est acontecendo em
relao a Romeu!
-Eu prprio o interrogarei -anunciou Ramss. -Continua
a defender Romeu, Ameni?
O secretrio particular do Fara balanou a cabea negativamente.
- Tem outras revelaes, Serramanna?
-Tenhv, Majestade.
- E dizem respeito a quem?
-Ao seu amigo Moiss. A respeito dele, tenho opinio forma-
da; como ainda continuo encarregado de proteger Vossa Majestade,
devo ser sincero.
O olhar cortante de Ramss teria assustado qualquer um. Com
o auxi'lio de mais uma caneca de vinho forte, Serramanna aliviou a sua
."
consciencia.
- Para mim, Moiss  um traidor e um conspirador O seu
objetivo era encabear o povo hebreu e fundar, no Delta, um principado
independente. Talvez tenha amizade por Vossa Majestade, mas em pouco
tempo, se ainda estiver vivo, ser o mais implacvel dos seus inimigos.
Ameni receou uma reao violenta por parte do rei. Ramss
permaneceu estranhamente calmo.
- Simples suposio ou resultado de um inqurito?
-LIm inqurito to aprofundado quanto me foi possvel. Alm
disso, soube que Moiss tivera diversos contatos com um estrangeiro
que se fazia passar por arquiteto. Esse homem veio encoraj-lo, ou
A Batalha de Kadesh 151
seja, ajud-lo; o seu amigo hebreu estava no centro de uma conspi-
rao contra o Egito.
- Identificou esse falso arquiteto?
- Ameni no me deu tempo.
- Esqueamos esse lamentvel engano, apesar de ter sofrido
rnm ele. Devemos unir as nossas foras.
Depois de longa hesitao, Ameni e Serramanna abraaram-se
meio desconfiados. O escriba julgou sufocar sob a presso do sardo.
- No poderia existir pior hiptese - considerou o rei. -
Moiss  um homem teimoso; se estiver certo, Serramanna, ele ir
at o fim. Mas quem conhece hoje realmente o seu ideal? Ser que
ele mesmo o conhece? Antes de acus-lo de alta traio,  necessrio
ouvi-lo. E para ouvi-lo,  necessrio encontr-lo.
-Esse falso arquiteto -interveio Acha, intrigado -no seria
um manipulador de primordial importncia?
- Antes de formarmos uma opinio definitiva - considerou
Ameni -h muitas zonas sombrias que precisam ser iluminadas.
Ramss pousou a mo no ombro do sardo.
-A sua franqueza  uma qualidade rara, Serramanna; acima de
tudo, nunca a perca.
Durante a semana seguinte ao regresso triunfal de Ramss,
Chenar, como ministro dos Negcios Estrangeiros, s teve boas
notcias a comunicar ao irmo. Os hititas no haviam emitido qual-
quer protesto oficial e continuavam sem se manifestar perante o fato
oonsumado. A demonstrao de fora do exrcito egpcio e a sua
rapidez de ao pareciam t-los convencido a respeitar o pacto de
no-agresso imposto por Sethi.
Antes de Acha partir em uma volta de inspeo pelos proteto-
rados, Chenar organizou um banquete do qual o seu antigo colabo-
rador foi o convidado de honra. Sentado  direita do dono da casa,
cujas recepes fascinavam a alta sociedade de Pi-Ramss, o jovem
diplomata apreciou as danas de trs jovens que, exceto por um cinto
de tecido colorido que pouco ocultava o seu sexo de azeviche, estavam
nuas. Elas evoluam com graa ao ritmo de uma melodia, ora vivaz,
1 52 RAMSS
		ora lnguida, tocada por uma orquestra feminina composta por uma
		harpista, trs flautistas e uma tocadora de obo.
			- Qual delas deseja para esta noite, meu caro Acha?
			- Vou surpreend-lo, Chenar, mas vivi uma semana esgotante
		com uma vva nsacivel e s desejo dormr uma dza de horas antes


		de tomar o caminho para Cana e Amurru.
			- Graas a esta msica e s conversas dos meus convidados
			,
		podemos falar tranqlamente.
			-J no trabalho no ministrio, mas a minha nova misso no
		dever desagrad-lo.
	;j
			-Tanto voc quanto eu, no podamos esperar melhor.
	!		- Podamos, Chenar. Ramss podia ter sido morto, ferido ou
		desonrado.
			-No podia imagnar que ele alasse qualdades de estrategsta
	'	 sua fora inata. Refletindo bem, a sua vitria  apenas relativa. O
		que fez ele, a no ser reconquistar protetorados? A ausncia de reao
		dos httas surpreende-me.
			- Esto analisando a situao. Passada a surpresa, atacaro.
			- Como tenciona proceder, Acha?
			-Ao dar-me plenos poderes nos nossos protetorados, Ramss
		forneceu-me uma arma decisiva. Acobertado pela reorganizao do
		nosso sistema defensivo, irei desmantelando-o pouco a pouco.
			- No receia ser desmascarado?
			-J consegui persuadir Ramss a manter os prncipes de Cana
		e de Amurru  frente da sua provncia. So personagens torpes e
		corruptos que se vendero a quem mais lhes oferecer. Ser fcil
		faz-los passar para o campo hitita e assim a famosa barreira protetora
		com que sonha Ramss no passar de iluso.
			- No cometa imprudncias, Acha; o preo  duro.
			- No ganharemos a partida sem correr alguns riscos. O mais
		difcil de apreciar ser a estratgia dos hititas; felizmente, possuo
	I '
		alguns dons nesse campo.
			LIm imenso imprio da Nbia  Anatlia, um imprio do qual
		ele seria o senhor. . . Chenar nem ousava acreditar nisso, mas eis que
		o seu sonho se transformava pouco a pouco em realidade. Ramss
	!	escolhia mal os seus amigos: Moiss, um assassino e um revoltoso;
A Batalha de Kadesh 153
Acha, um traidor; Setaou, um extravagante sem envergadura. Restava
Ameni, intratvel e incorruptvel, mas desprovido de ambio.
-  necessrio arrastar Ramss para uma guerra insensata -
continuou Acha. -Assim, ele surgir como o causador do naufrgio
do Egito e voc como o salvador da ptria: eis a linha direcional que
no devemos esquecer.
- Ramss confiou-lhe outra misso?
- Sim, a de encontrar Moiss. O rei tem o culto da amizade.
Mesmo que o sardo considere Moiss culpado de alta traio, o Fara
no o condenar antes de ouvi-lo.
-Alguma pista sria?
- Nenhuma. Ou o hebreu morreu de sede no deserto ou est
escondido numa das inmeras tribos que cruzam o Sinai e o Negeb.
Se ele se estabeleceu em Cana ou Amurru, acabarei sabendo.
- Se Moiss liderasse uma tribo rebelde, poderia .s ser til.
- H um detalhe perturbador - sentenciou Acha. - Segundo
Serramanna, Moiss teve misteriosos contatos com um estrangeiro.
- Aqui, em Pi-Ramss?
-Aqui mesmo.
- Foi identificado?
- No; sabe-se apenas que se fazia passar por arquiteto.
Chenar fingiu indiferena, mas sabia que Ofir j no era um
completo desconhecido.  verdade que o mago no passava ainda de
uma sombra, mas tornava-se uma ameaa potencial. Dali por diante,
nenhuma ligao, de qualquer espcie, deveria ser estabelecida entre
ele e Ofir. Quem praticasse magia negra contra o Fara estava passvel
de pena de morte.
-Ramss exige a identificao desse personagem -acrescen-
tou Acha.
- Com certeza  um hebreu em situao irregular... Talvez
tenha sido ele quem conduziu Moiss pelos caminhos do exi'lio.
Aposto que no tornaremos mais a ver nem um nem outro.
-  provvel. . . Contemos com Ameni para tentar clarear mais
este caso, sobretudo depois do seu grave erro.
-Acha que Serramanna o perdoar?


- Parece que o sardo est bastante rancoroso.
154 RAMSS
- No caiu numa espcie de armadilha? - inquiriu Chenar.
- Caiu porque um srio comprou a cumplicidade de uma
prostituta e a estrangulou para impedi-la de Elar, depois de ter
acusado o sardo. E foi o mesmo estrangeiro que imitou a escrita de
Serramanna para que se acreditasse que o sardo era um espio pago
pelos hititas. LIma mentira feita com certa habilidade, mas demasiado
superficial.
Chenar teve alguma dificuldade em manter a calma.
- O que significa. ..
- Que existe uma rede de espionagem no nosso territrio.
Raia, o mercador srio, aliado principal de Chenar, estava amea-
ado. E o pior: Acha, o seu outro aliado essencial, era quem tentava
descobri-lo e prend-lo!
-Deseja que o meu ministrio investigue sobre esse srio?
- Ameni e eu nos encarregaremos disso.  melhor agir de
forma discreta para no espantar a caa.
Chenar bebeu um grande gole de vinho branco do Delta. Acha
nunca saberia da grande ajuda que lhe estava dando.
-H um notvel que vai ter graves aborrecimentos -revelou
o jovem diplomata, divertido.
- Quem?
- O gordo Romeu, o tirnico intendente do palcio. Serra-
manna colocou-o sob vigilncia, porque est convencido de que
Romeu merece ser preso.
Chenar comeou a sentir dores nas costas, como um lutador
fatigado, mas conseguiu fazer boa figura.
Devia agir depressa, e bem depressa, para dissipar a tempestade
que ameaava cair.
25
Aproximava-se o fim da poca da inundao. Os
camponeses haviam reparado ou reforado os seus arados que,
atrelados a dois bois, trabalhariam o lodo mole, abrindo sulcos
pouco profundos, antes da passagem dos semeadores. Como a
inundao fora perfeita, nem muito alta nem muito baixa, os
especialistas em irrigao dispunham da quantidade de gua ideal
para fazer crescer as culturas. Os deuses eram favorveis a Ramss:
este ano, novamente os celeiros ficariam cheios, e o povo do Fara
teria comida farta.
Romeu, o intendente do palcio, no saboreava a doura de um
fim de outubro que uma ou outra tempestade vinha refrescar de vez
em quando. Quando estava preocupado, Romeu engordava. Como
os aborrecimentos iam aumentando, a gordura cortava-lhe por vezes
o flego, obrigando-o a sentar-se uns minutos antes de retomar a sua
intensa atividade.
Serramanna seguia-o por todo lado semlhe deixar um momento
de folga. Quando no era o sardo em pessoa, era um dos seus esbirros,
cuja envergadura no passava despercebida nem no palcio nem nos
mercados onde o intendente comprava, ele prprio, os produtos
destinados s cozinhas reais.
Outrora, Romeu teria sentido prazer com a idia de preparar
uma nova receita em que misturasse razes de ltus, tremoos amargos
fervidos em vrias guas, abobrinhas, gros-de-bico, alho doce,
amndoas e pequenos pedaos de perca grelhados, mas nem esta
perspectiva, quelhe era sublime, conseguia faz-lo esquecer a perse-
guio da qual estava sendo alvo.
1 56 RAMSS
Desde a sua reabilitao, o monstruoso Serramanna considerava
que tudo lhe era permitido. Mas Romeu no podia protestar. Quando
o corao est apertado e a conscincia turva, como estar em paz
consigo prprio?
Serramanna possua a pacincia de um pirata. Esperava um erro
da sua presa, o gordo intendente de rosto flcido e alma negra. Seu
! instinto no o enganara: h vrios meses que desconfiava da covardia
de Romeu, essa tara capaz de conduzir s piores traies. Embora
tivesse conseguido um lugar de importncia, Romeu sofria de um mal
mortal: avidez. No se contentava com a sua posio e queria acres-
centar a fortuna ao medocre poder de que dispunha.
Graas a uma vigilncia constante, Serramanna submetia os ner-


vos do intendente a rude provao, que acabaria por cometer um
erro, talvez at mesmo confessando os seus crimes.
Como Serramanna previra, o intendente no se atrevia a apre-
sentar queixa. Se estivesse inocente, no teria hesitado em falar ao
rei. No seu relatrio cotidiano a Ramss, o sardo no deixava de
sublinhar esse fato significativo.
Depois de vrios dias com esse tratamento, Serramanna pediria
aos seus homens que continuassem a vigilncia, mas sem deix-lo
perceber. Considerando-se finalmente liberto de uma praga, Romeu
talvez eorresse para o refgio de um eventual cmplice, o mesmo 9ue
lhe pagara pelos seus roubos.
O sardo dirigiu-se ao gabinete de Ameni, um bom tempo depois
do pr-do-sol. O secretrio arrumava os papiros do dia num grande
armrio de sicmoro.
- Novidades, Serramanna?
- Por enquanto, no. Romeu  mais resistente do que eu
supunha.
- Sente ainda rancor em relao a mim?
- Bem... A provao por que me fez passar no  fcil de
esquecer.
- Seria intil renovar as minhas desculpas. Quer vir comigo ao
gabinete dos cadastros?
A liatalha de Kadesh 157
-Associa-me ao seu inqurito?
- Exatamente.
- Que o resto do meu rancor se escoe como um simples mau
humorl Acompanho-o.
Os meticulosos funcionrios do gabinete dos cadastros haviam
demorado vrios meses antes de conseguirem a eficcia de que davam
provas os seus colegas de Mnfis. Habituar-se a uma nova capital,
inventariar as terras e as casas, identificar proprietrios e locatrios,
tudo isso exigia grande nmero de verificaes. Fora por isso que o
pedido de Ameni, embora classificado como urgente, demorara a ser
atendido.
Serramanna considerou o diretor do cadastro, um sexagenrio
careca e magro, ainda mais sinistro do que Ameni. Sua tez macilenta
provava que nunca se expunha ao sol nem ao ar livre. O funcionrio
recebeu seus visitantes com uma delicadeza gelada e guiou-os atravs
de um labirinto de tabuazinhas de madeira, empilhadas umas sobre f
as outras, e de papiros arrumados em armrios.
-Agradeo-lhe por nos receber a essa hora to tardia -disse
Ameni.
- Imaginei que pref'eriria o mximo de discrio.
- Realmente, assim .
- No esconderei que o seu pedido nos obrigou a uma
sobrecarga de trabalho, mas finalmente conseguimos identificar o
proprietrio da casa em questo.
- Quem ?
- LIm mercador natural de Mnfis chamado Renuf.
-Conhece o seu domiclio principal em Pi-Ramss?
-Vive numa villo, ao sul da velha cidade.
Os pedestres afastavam-se s pressas  passagem do carro con-
duzido por Serramanna. Com o corao na boca, Ameni fechara os
olhos. O veculo entrou velozmente na ponte recm-construda sobre
o canal que separava os novos bairros da capital da velha cidade de
i ss RAMSS
Avaris. As rodas rangeram, a estrutura tremeu, mas o carro no se
abalou.
No antigo local ainda existiam algumas belas villas, com casas
modestas de dois andares e contornadas por jardins bem tratados.
Nas noites frescas de outono, os friorentos comeavam a aquecer a
casa compequenas lascas de madeira ou lama seca.
- E aqui - disse Serramanna.
Ameni apertara com tal fora uma das correias do carro, que
no conseguia tirar a mo.
- Ento, isso vai sair ou no?
- Sim, claro que vai.
- Pois bem, vamos! Se o pssaro estiver no ninho, o caso em
breve ficar resolvido.
Ameni conseguiu soltar-se; com as pernas trmulas, seguiu o


sardo.
O porteiro de Renuf estava sentado na frente da entrada do muro
da cerca de tijolos crus, ornado com plantas trepadeiras. O homem
	comia queijo e po.
	- Queremos ver o mercador Renuf - disse Serramanna.
	- Est ausente.
	- Onde podemos encontr-lo?
	- Partiu para o Mdio Egito.
	- Quando volta?
	- No sei.
	- H algum que possa saber?
	- Bem. . . no creio.
- Avise-nos assim que ele chegar
- Por que haveria de faz-lo1
Com olhar feroz, Serramanna ergueu o porteiro pelas axilas.
- Porque o Fara o exige. Se se atrasar uma hora, ser a mim
que ter de dar explicaes.
Chenar sofria com insnias e ardor no estmago. Raia estava
ausente de Pi-Ramss e ele precisava ir o mais rpido possvel a
Mnfis, para avisar ao mesmo tempo o mercador srio do perigo que
A Batalha de Kadesh 1 S9
o espreitava e falar com Ofir. No entanto, o ministro dos Negcios
Estrangeiros devia relatar os motivos de seus deslocamentos  antiga
capital; felizmente, alegou que precisava acertar algumas disposies
administrativas com altos funcionrios menfitas. Foi, portanto, em
nome do Fara que Chenar empreendeu uma viagem oficial a bordo
de um barco demasiado lento para o seu gosto.
Ou Ofir arranjava uma soluo para reduzir Romeu ao silncio,
ou Chenar seria obrigado a desembaraar-se do mago, embora a sua
experincia de magia no estivesse terminada.
Chenar no lamentava ter mantido cada um de seus aliados
ciente apenas de suas prprias tarefas, e o que acabava de acontecer
demonstrava a correo de sua estratgia. Llma pessoa arguta e
perigosa como Acha no teria gostado de descobrir as ligaes que
Chenar mantinha com uma rede de espionagem pr-hitita que o
jovem diplomata no controlava. m indivduo manhoso e cruel
como Raia, que estava convencido de manipular facilmente o irmo
mais velho de Ramss, no teria suportado que levasse a cabo um jogo
por demais pessoal fora da sua aliana com os hititas. Quanto a Ofir,
era prefervel que continuasse confinado aos seus temveis poderes e
 sua irremedivel loucura.
Acha, Raia, Ofir... Trs feras que Chenar era capaz de domar
para garantir um futuro favorvel, porm sob a condio de afastar a
ameaa que as imprudncias do trio faziam pesar sobre ele.
Durante o primeiro dia de sua estada em Mnfis, Chenar
recebeu os altos funcionrios que devia contactar e organizou na sua
villa uma das suntuosas noitadas das quais tinha o segredo. Para essa
ocasio, pedira a seu intendente que mandasse vir o mercador Raia
para que este lhe propusesse vasos raros para a decorao de sua sala
de banquetes.
Quando o frio se tornou demasiado forte, os convidados deixa-
ram o jardim e entraram na villa.
- O mercador est aqui - disse o intendente a Chenar.
Se acreditasse nos deuses, o irmo mais velho de Ramsslhes
teria rendido graas. Com ar fingidamente alheio, dirigiu-se para o
portal da villa.
O homem que o saudou no era Raia.
160 RAMSS
- Quem  voc?
- O gerente do estabelecimento de Raia, em Mnfis.
-Ah... Estou sempre tratando das coisas com o seu patro.
- Ele partiu para Tebas e Elefantina a fim de negociar um
carregamento de conservas de luxo. No entanto, na sua ausncia
tenho alguns belos vasos para lhe mostrar.
- Pois mostre-os.
Chenar examinou as peas.
- No tem nada de extraordinrio... Mesmo assim, vou
comprar dois.
- O preo  muito razovel, meu senhor.
Chenar regateou por uma questo de princpios e mandou seu


intendente pagar os vasos.
Sornr, conversar e discorrer sobre futilidades no foi fcil, mas
Chenar mostrou-se  altura do seu papel. Ningum desconfiou de
que o ministro dos Negcios Estrangeiros, encantador e bem-falante
como sempre, estivesse dominado pela angstia.
- Est radiosa hoje - disse  sua irm Dolente.
Lnguida, a volumosa morena deixava-se cortejar por jovens
nobres de discurso oco.
-A sua recepo  que est magnfica, Chenar.
O irmo deu-lhe o brao e arrastou-a para o prtico que ladeava
a sala de banquetes.
- Irei ver Ofir amanh de manh. E o mais importante: 9ue
ele no saia, pois est em perigo!
26
Foi a prpria Dolente uern abriu a porta da sua villo.
q
Chenar voltou-se. Ningum o seguira.
- Entre, Chenar.
- Est tudo calmo?
- Sim, est tudo tranqilo. As experincias de Ofir progridem '
- garantiu sua volumosa irm. - Lita comporta-se de forma
admirvel, mas a sua sade  frgil, da no podermos acelerar o
processo. Por que est to inquieto?
- O mago est acordado?
- Vou busc-lo.
- No se dedique muito a ele, irmzinha.
- um homem maravilhoso e instaurar o reino do verdadeiro
Deus. Est convencido de que voc  o instrumento do destino. 
-Traga-o logo; tenho pressa.
Envergando um longo manto negro, o mago lbio inclinou-se
diante de Chenar.
- Tem de mudar de casa hoje mesmo, Ofir.
,.
- O que se passa, senhor? B
1:
- Viram voc falando com Moiss, em Pi-Ramss.
- Descreveram-me com exatido?
- Parece-me que no, mas os investigadores sabem que voc
est se fazendo passar por arquiteto e que  estrangeiro.
- muito pouco, meu senhor. Tenho o dom de passar desper-
cebido quando  necessrio.
-`fm sido imprudente, isso sim.
162 RAMSS
			- Era indispensvel tentar encontrar Moiss. Amanh talvez
		nos felicitemos por isso.
			- Ramss regressou com perfeita sade de sua expedio aos
		nossos protetorados; agora quer encontrar Moiss e sabe que voc
		existe. Se houver testemunhas que o identifiquem, voc ser detido
		e interrogado.
			O sorriso de Ofir gelou o sangue de Chenar
			-Acredita que possam prender um homem como eu?
			- Receio que tenha cometido um erro fatal.
			- Qual?
			- Confiar em Romeu.
			- Por que pensa que confio nele?
			-Por sua ordem, roubou o xale de Nefertari e o pote de peixes
		da Casa da Vida de Helipolis, dos quais voc tinha necessidade para
		seus eitios,
			- Notvel deduo, senhor Chenar, mas com uma pequena
		falha: Romeu roubou o xale, mas um de seus amigos, um distribuidor
		de Mnfis, encarregou-se do pote.
			- LIm distribuidor. .. E se ele falar?
	i		- O ineliz morreu de um ataque cardaco.
			- LIma morte. . . natural?
-Qualquer morte acaba sendo natural, senhor Chenar, quando
o corao se cala.
- Resta o gordo Romeu... Serramanna est convencido da sua
j culpa e no pra de persegui-lo. Se Romeu falar, vai denunci-lo. A
punio para os feitios dirigidos  pessoa real  a pena de morte.
Ofir continuava a sorrir


- Vamos para o meu laboratrio.
O amplo aposento estava cheio de papiros, de pedaos de
marfim com inscries, de poes contendo substncias coloridas e
fios. No havia qualquer desordem e pairava um agradvel aroma de
incenso. O local assemelhava-se mais  oficina de um arteso ou a um
gabinete de escriba bem organizado do que ao laboratrio de um
praticante de magia negra.
A Batalha de Kadesh 163
Ofir estendeu as mos sobre um espelho de cobre, colocado
deitado sobre um trip. Depois, despejou gua e pediu a Chenar que
ae aproximasse.
Pouco a pouco um rosto foi tomando forma no espelho.
- Romeu! - exclamou Chenar
- O intendente de Ramss  um bom homem - comentou
Ofir - mas  fraco, inseguro e influencivel. No  preciso ser um
grande mago para o enfeitiar O roubo que cometeu, contra a
vontade, o corri interiormente como cido.
- Se Ramss o interrogar, ele falar.
- No, senhor Chenar
A mo esquerda de Ofir descreveu um crculo sobre o espelho.
A gua fervilhou, e o cobre abriu fendas.
Impressionado, Chenar recuou.
- Esse truque de magia bastar para fazer calar Romeu?
- Pode considerar esse problema resolvido. No me parece
indispensvel mudar de casa; ela no est em nome de sua irm?
- Est.
- Todos a vem entrar e sair. Lita e eu somos seus zelosos
servidores, e no temos qualquer desejo de passear pela cidade.
Enquanto no tivermos destrudo as protees mgicas do casal real,
nem ela nem eu sairemos daqui.
- E os partidrios de Aton?
- A sua irm  nossa agente de ligao. Por ordem minha,
mantm-se com uma discrio exemplar, esperando um grande
acontecimento.
Chenar saiu quase convencido. Estava pouco se importando com
aquele bando de iluminados nostlgicos e inquietava-se principal-
mente por no poder eliminar o intendente Romeu com suas prprias
mos. Restava esperar que o mago no se gabasse em vo.
Impunha-se, entretanto, uma precauo suplementar.
O Nilo era um rio maravilhoso. Graas  sua forte correnteza,
que impelia um barco veloz a mais de treze quilmetros por hora,
164 RAMSS
Chenar percorreu em menos de dois dias a distncia que separava
Mnfis de Pi-Ramss.
O irmo mais velho do rei passou pelo seu ministrio, organizou
uma reunio rpida com seus principais colaboradores, tomou co-
nhecimento da correspondncia proveniente do estrangeiro e das
mensagens expedidas pelos diplomatas colocados nos protetorados.
Uma cadeira de carregadores levou-o em seguida ao palcio real sob
um cu encoberto, carregado de nuvens negras.
Pi-Ramss era uma bela cidade, porm faltavam a ptina de
Mnfis e o encanto proporcionado pelo passado. Quando reinasse,
Chenar lhe tiraria o estatuto de capital, sobretudo porque Ramss a
marcara excessivamente com o seu carisma. Uma populao animada
e alegre entregava-se s suas ocupaes cotidianas como se a paz fosse
eterna, como se o vasto imprio hitita houvesse desaparecido no
buraco sem fundo do esquecmento. Por instantes, Chenar deixou-se
fascinar pela miragem da existncia simples ritmada pela sabedoria
das estaes. No deveria, assim como a totalidade do povo egpcio,
aceitar a soberania de Ramss?
No, ele no era um servidor.
Possua, sim, o estofo de um rei de quem a Histria haveria de
recordar-se, de um monarca com uma viso muito mais ampla que a
de Ramss e do "grande chefe" hitia. Do seu pensamento nasceria
um mundo novo do qual ele seria o senhor.
O Fara no fez o irmo esperar. Ramss acabava de conferenciar
com Ameni a quem Vigilante tinha conscienciosamente lambido o rosto.
O secretrio particular do monarca e Chenar cumprimentaram-se com
frieza, e o co amarelo-dourado foi deitar se sob um fraco raio de sol.
- Uma viagem agradvel, Chenar?


- Excelente. Voc h de me perdoar, mas gosto muto de
Mnfis.
- Quem o pode censurar?  uma cidade excepeional a que
Pi-Ramss jamais conseguir se igualar. Se a ameaa hitita no tivesse
assumido tais propores, no haveria necessidade de se criar uma
nova capital.
- A administrao menfita permanece um modelo de cons-
cincia profissional.
A Batalha de Kadesh 165
-Os diferentes servios de Pi-Ramss trabalham com eficcia; '. i
I
o seu ministrio no  uma prova disso
'
- No me poupo a trabalhos, pode acreditar; no h nenhuma
mensagem inquietante, nem oficial nem oficiosa. Os hititas perma-
necem mudos.
i
- Nem um mnimo comentrio dos nossos diplomatas? i
- Os anatlios ficaram arrasados com a sua interveno; no
imaginavam que o exrcito egpcio fosse capaz de se mostrar to i
rpido e dotado de tal poder de conquista.
- E possvel.
- Por que duvida? Se tivessem certeza de sua invencibilidade, ,
os hititas teriam, pelo menos, emitido um vigoroso protesto. '
-Respeitarem a fronteira imposta por Sethi?... No acredito.
- Est se tornando pessimista, Majestade?
-A razo de ser do imprio hitita  a expanso territorial.
-No ser o Egito um bocado grande de engolir, mesmo para
um inimigo esfomeado?
-Quando uma casta militar deseja o confronto -considerou
Ramss - nem o bom senso nem a razo conseguem dissuadi-la
disso.
- S um adversrio de envergadura far os hititas recuarem.
-Est defendendo um armamento intensivo, Chenar; e quanto
ao aumento dos nossos efetivos?
- V soluo melhor?
O raio de sol havia desaparecido, e Vigilante saltou para os
joelhos do rei.
- No  uma maneira de declarar guerra? - inquietou-se
Ramss.
- Os hititas no compreendem outra linguagem seno a da
fora; esse  o seu verdadeiro pensamento, se no estou enganado.
- Tambm considero importante a consolidao do nosso
sistema defensivo.
- Fazer dos nossos protetorados uma zona de proteo, bem
sei... Pesada tarefa para o seu amigo Acha, mesmo sendo ele uma
pessoa ambiciosa.
- Parece-lhe excessiva?
166 RAMSS
- Acha  jovem, e voc acaba de condecor-lo e de fazer dele
uma das principais personalidades do Estado. LIma promoo to
rpida pode subir-lhe  cabea... Ningum contesta as suas grandes
qualidades, mas no seria conveniente desconfiar?
-A casta militar no se sentiu suficientemente honrada, tenho
conscincia disso; mas Acha  o homem da situao.
- H um detalhe sem grande importncia, mas tenho o dever
de lhe falar sobre isso. voc sabe que o pessoal do palcio tem mania
de falar a torto e a direito; no entanto, talvez algumas confidncias
sejam dignas de interesse. Segundo o meu intendente, uma das
camareiras da rainha, por quem ele sente profunda amizade, afirmou
ter visto Romeu roubar o xale de Nefertari.
- Ela seria capaz de depor?
-Romeu a aterroriza. Receia ser maltratada por ele se o acusar
- Estamos num pas de bandidos ou num pas governado por
Mat?
-Talvez devesse levar primeiro Romeu para confessar; depois
a moa deporia.
Esboando uma crtca em relao a Acha e, sobretudo, denun-
ciando Romeu e precipitando a interveno de Ramss, Chenar fazia
um jogo perigoso, mas, em contrapartida, adquiria cada vez mais


credibilidade aos olhos do fara.
Entretanto, se as prticas ocultas de Ofir se revelassem inefica-
zes, Chenar o estrangularia com as prprias mos.
i
27
Romeu s encontrara uma soluo para acalmar a
avidez que o deixava com um apetite insacivel: preparar uma mari-
nada indita que batizaria como "delcia de Ramss" e cuja receita os
cozinheiros transmitiriam de mestre para discpulo. O intendente
fechou-se na ampla cozinha do palcio, onde fazia questo de estar
s. Ele prprio selecionara o alho doce, as cebolas de primeira
qualidade, uma boa colheita de vinho tinto dos osis, azeite de
Helipolis, vinagre salgado com o melhor sal da terra de Seth, vrias
espcies de ervas aromticas, fils de perca do Nilo de textura
excepeional e carne de vaca digna de oferenda aos deuses. A marinada
daria  mistura desses ingredientes um aroma inimitvel, que agrada-
ria ao rei e tornaria Romeu insubstituvel.
Apesar das ordens rigorosas que dera, a porta da cozinha abriu-se
de repente.
-Tinha exigido que... Majestadel Majestade, o seu lugar no
 aquil
- Existe algum lugar do reino que me seja proibido?
-No foi isso que eu quis dizer. Perdoe-me, eu...
-Autoriza-me a provar?
- A minha marinada ainda no est pronta, estou apenas nos
preparativos. Mas ser um prato fenomenal, que entrar nos anais
culinrios do Egitol
- Possui o gosto do segredo, Romeu?
-No, no. . . Mas a boa cozinha exige discrio. Confesso que
sou cioso das minhas invenes.
- No ter outras confisses a me fazer?
6g RAMSS
A elevada estatura de Ramss subjugou Romeu. Inclinando-se
para a frente, o intendente baixou os olhos.
- A minha existncia no tem qualquer mistrio, Majestade;
desenrola-se toda no palcio para servi-lo, unicamente para servi-lo.
- Tem mesmo certeza? Todos os homens tm suas fraquezas,
segundo dizem; quais so as suas?
- Eu. . . eu no sei. Talvez a gula.
- Est descontente com o seu salrio?
- No, claro que nol
- O lugar de intendente  invejvel e invejado, mas no pro-
porciona riqueza.
-Garanto-lhe que a riqueza no  o meu objetivo.
- Quem resistiria a uma oferta vantajosa, em troca de alguns
pequenos favores?
- O servio de Vossa Majestade  de tal forma gratificante
que. .
-No minta mais, Romeu. Lembra-se do lamentvel episdio
do escorpio em meu quarto?
- Felizmente, tudo acabou bem.
- Haviam-lhe prometido que ele no me mataria e que voc
nunca seria acusado, no  verdade?
-  falso, Majestade, tudo completamente falso!
- No devia ter cedido, Romeu. Apelaram para a sua cobia
pela segunda vez, exigindo que roubasse o xale preferido da rainha.
E no deve tambm, com certeza, estranhar o roubo do pote de
peixes.
- Espere, Majestade, eu no...
-Algum viu voc.
Romeu sufocava. Grossas gotas de suor nasceram-lhe na testa.
- No  possvel. . .
- Ou a sua alma  m, Romeu, ou tornou-se um joguete das
circunstncias.
O intendente sentiu uma dor violenta no peito. Tinha vontade
de revelar tudo ao rei, de expulsar o remorso que o corroa.
Ajoelhou-se, e a testa bateu no rebordo da mesa sobre a qual
estavam dispostos os ingredientes da marinada.
A Batalha de Kadesh 169
- No, eu no sou mau. . . Fui fraco, demasiado fraco. Deve


perdoar-me, Majestade.
- Desde que me diga a verdade, Romeu.
Na bruma do mal-estar que o invadia, o rosto de Ofir apareceu a
Romeu. LIm rosto de abutre, com um bico adunco, que lhe penetrava
a carne e devorava o corao.
- Quem lhe ordenou que cometesse esses atos?
Romeu quis falar, mas o nome de Ofir no deixava ultrapassar a
barreira dos seus lbios. Dominou-o um medo terrvel, um medo que
o impelia a mergulhar no nada para escapar ao castigo.
Romeu ergueu um olhar implorante para Ramss, a sua mo
direita agarrou-se ao prato que continha o preparo da marinada e
soltou-o. O molho condimentado espalhou-se sobre seu rosto e o
intendente caiu no cho, morto.
-  muito grande - disse Kha, olhando Matador, o leo de
Ramss.
-Tem medo dele? -perguntou o rei ao filho.
Com nove anos, Kha, o filho de Ramss e de Iset a Bela, era
srio como um velho escriba. As brincadeiras da sua idade aborre-
ciam-no e s gostava de ler e escrever, passando a maior parte do
tempo na biblioteca do palcio.
- Me d um pouco de medo.
-Tem razo, Kha; Matador  um animal muito perigoso.
- Mas voc no tem medo, porque  o fara.
- Eu e este leo nos tornamos amigos. Quando ele era muito
novo, foi mordido por uma serpente, na Nbia; encontrei-o, Setaou
curou-o e nunca mais nos separamos. Matador, por sua vez, tambm me
salvou a vida.
-  sempre amvel com voc?
- Sempre. Mas s comigo.
- Fala com voc?
- Sim, com os seus olhos, as suas patas, os sons que emite. . .
E compreende o que lhe digo.
- Gostaria de tocar-lhe a juba.
170 RAMSS
Deitado como uma esfinge, o enorme leo observava o homem
e a criana. Quando rosnou, com um som grave e profundo, o
pequeno Kha agarrou-se  perna do pai.
- Est zangado?
- No, apenas concorda que voc o acaricie.
Tranqilizado pela serenidade do pai, Kha aproximou-se. Pri-
meiro hesitante, sua minscula mo roou os plos da suntuosa juba
e depois ganhou confiana. O leo ronronou.
- Posso subir em seu lombo?
- No, kha. Matador  um guerreiro e uma criatura orgulhosa;
concedeu a voc um grande favor, mas no deve pedir-lhe mais.
- Hei de escrever a sua histria e cont-la a minha irm
Meritamon. Felizmente, ela ficou no jardim do palcio com a rai-
nha... Llma garotinha teria ticado aterrorizada com um leo to
grande.
Ramss ofereceu ao filho uma segunda paleta de escriba e um
estojo de pincis. O presente encantou o menino, que experimentou
imediatamente os novos instrumentos e se absorveu em trabalhos de
escrita. O pai no o incomodou, feliz por saborear aqueles momentos
raros, ele que acabara de assistir  morte atroz do intendente Romeu,
cujo rosto ficara de imediato enrugado como o de um velho.
Romeu morrera de medo, sem revelar o nome daquele que o
levara a destruir-se a si prprio.
LIm ser das trevas estava lutando contra o Fara. E esse inimigo
era to temvel e perigoso quanto os hititas.
Chenar no cabia em si de felicidade.
O desaparecimento brutal de Romeu, em conseqncia de uma
parada cardaca fulminante, cortava a pista que conduzia a Ofir. O
mago no se gabara em vo. Sua magia matara o gordo intendente,
que no conseguira suportar o suplcio de um interrogatrio cerrado.
Sua morte no surpreendeu ningum no palcio; obeecado pela
alimentao, Romeu engordava e inquietava-se cada vez mais. Sobre-
carregado de gordura, minado por um nervosismo permanente, o
corao acabara no resistindo.
A Batalha de Kadesh 171
,


 satisfao de ver desaparecer o delicado problema levantado
pela existncia de Romeu, vinha juntar-se outra: o regresso de Raia,
o mercador srio, a Pi-Ramss, que desejava ver Chenar para lhe
propor um vaso admirvel. O encontro fora marcado para o fim de
uma manh de novembro, doce e ensolarada.
- Fez boa viagem pelo Sul?
-Muito fatigante, senhor Chenar, mas com timos resultados.
A barbicha do srio estava meticulosamente aparada em ponta
,
os pequenos olhos castanhos, muito vivos, perscrutavam a sala de '
colunas para recepes onde Chenar expunha suas obras-primas.
Raia retirou o pano que cobria um bojudo vaso de bronze,
decorado com parras e ramos de vinha estilizados.
-  proveniente de Creta; comprei-o de uma rica tebana que
enjoou dele. Hoje no se fabricam mais vasos assim.
-Admirvel! Negcio fechado, meu amigo.
- Sinto-me feliz, senhor, mas. . .
- Ter a nobre dama imposto condies?
-No, mas o preo  bastante elevado. . . Trata-se de uma pea
nica, verdadeiramente nica.
- Coloque essa maravilha sobre uma base e venha ao meu
gabinete. Tenho certeza de que faremos negcio.
A grossa porta de sicmoro fechou-se. Ningum podia ouvi-los.
- LIm de meus assistentes informou-me de que voc fora a
Mnfis para me comprar um vaso; abreviei ento a minha viagem e
voltei a Pi-Ramss o mais depressa possvel.
- Era indispensvel.
- O que est acontecendo?
- Serramanna foi libertado e goza novamente da confiana de
Ramss.
- Que lamentvel!
- O bisbilhotero do Ameni teve dvidas sobre a veracidade
das provas e Acha interferiu.
- Desconfie desse jovem diplomata;  inteligente e conhece
bem a sia.
-Felizmente, j no trabalha no ministrio; Ramss condeco-
172 RAMSS
		rou-o e enviou-o para os nossos protetorados para reforar os siste-
	'	mas de defesa.
			- LIma tarefa bem delicada, para no dizer impossvel.
			- Acha e Ameni chegaram a concluses muito inquietantes:
		algum imitou a escrita de Serramanna para fazer crer que ele se
		correspondia com os hititas, e esse algum seria um srio.
			- Muito aborrecido - lamentou Raia.
			-Encontraram o cadver de Nenofar, a amante de Serramanna,
		de quem voc se utilizou para apanhar o sardo.
			- Tnhamos que nos desembaraar dela; a imbecil estava
		ameaando falar.
			-Aprovo o seu procedimento, mas cometeu uma imprudncia.
			- Qual?
			- A escolha do local onde a matou.
			- No escolhi. A culpa foi dela, pois ia acordar o bairro inteiro;
		ento tive que agir rapidamente e fugir.
			-Ameni procura o proprietrio da casa para interrog-lo.
			-  um mercador que viaja muito; encontrei-me com ele em
		Tebas.
		- Ser que ele vai dizer seu nome?
		- Receio que sim, pois sou seu locatrio.
		-  a catstrofe, Raia! Ameni est convencido de que h uma
	rede de espionagem pr-hitita instalada em nosso territrio. Embora
	tenha mandado prender Serramanna, Ameni e o sardo parecem ter-se
	reconciliado e esto ajudando-se mutuamente. A procura de quem
	fez com que o sardo fosse acusado sem razo e depois assassinou a
	sua amante tornou-se uma questo de Estado. E diversos indcios
	levam at voc.
		- Nada est perdido.
		- Qual  o seu plano?
		- Interceptar o mercador egpcio.
		-E...
		- E elimin-lo,  claro.


28
O inverno aproximava-se, as horas do dia dimi-
nuam, o sol perdia o seu fulgor. O monarca preferia a fora do vero
e o ardor do seu astro protetor, pois s ele podia olh-lo de frente
sem queimar os olhos. Mas aquele dia de outono, de uma doura
fascinante, oferecia-lhe uma alegria rara: um fim de tarde nos jardins
do palcio, em companhia de Nefertari, da filha Meritamon e do filho
Kha.
Sentados em cadeiras dobrveis  margem de um pequeno lago,
o rei e a rainha observavam as duas crianas. Kha tentava fazer
Meritamon ler um difcil texto sobre a necessria moralidade de um
escriba; Meritamon queria ensinar Kha a nadar de costas. Apesar do
seu carter srio, o menino cedera, no antes de reclamar que a gua
estava muito fria e que ia se resfriar.
- Meritamon  to teimosa quanto a me - considerou
Ramss. - Fascinar a terra inteira.
- Kha  um mago em embrio... Olhe, j est levando-a na
direo do papiro. A irm h de ler o texto, de boa vontade ou  fora.
- Os preceptores deles esto satisfeitos?
-Kha  uma criana excepeional. Segundo Nedjem, o ministro
da Agricultura, que continua a velar pela sua educao, j seria capaz
de passar no exame para aprendiz de escriba.
-  o que ele deseja?
- S pensa em estudar.
- Demos-lhe o alimento que pede para que sua verdadeira
natureza se desenvolva.  claro que ter que passar por muitas provas,
RAMSS
porque os medfocres sempre tentam sufocar as pessoas superdotadas.
Desejo uma existncia mais calma para Meritamon.
- Ela s tem olhos para o pai.
- E eu lhe dedico to pouco tempo. . .
- O Egito passa  frente dos nossos Eilhos, essa  a Regra.
Deitados  entrada do jardim, o leo e o co amarelo-dourado
montavam guarda. Ningum poderia se aproximar sem que Vigilante
acordasse Matador.
-Venha, Nefertari.
A jovem rainha, de cabelos soltos, sentou-se nos joelhos de
Ramss e pousou-lhe a cabea no ombro.
- Voc  o perfume da vida e d-me felicidade. Podamos
ser um casal como qualquer outro, saborear inmeras horas como
estas...
-  delicioso sonhar neste jardim, mas os deuses e o seu pai
fizeram-no fara e voc ofereceu sua vida ao seu povo. Aquilo que
damos, no podemos recuperar.
-Neste instante, s existem os cabelos perfumados da mulher
por quem estou perdidamente apaixonado, cabelos que danam com
o vento da tarde e me acariciam as faces.
Os lbios uniram-se no beijo intenso dos jovens amantes.
O prprio Raia  que teria de agir.
Foi por isso que se dirigiu ao porto de Pi-Ramss, bem menor
do que o de Mnfis, mas com atividade igualmente intensa. A guarda
fluvial mantinha com autoridade a ordem de fiscalizar os barcos que
atracavam e descarregavam no cais.
Raia convidaria o seu colega Renuf para um farto almoo numa
estalagem, na presena de numerosas testemunhas que, se necessrio,
confirmariam t-los visto juntos. Ficaria assim bem marcada a exce-
lente qualidade das suas relaes.  noite, Raia entraria na villa de
Renuf e o estrangularia. Se surgisse algum criado, teria a mesma sorte.
O mercador aprendera a matar nos campos de treino hititas da Sria
do Norte.  evidente que esse novo crime seria atribudo ao assassino
A Botolha de Kadesh  75
de Nenofar. Mas que importncia teria? LIma vez eliminado Renuf
,
Raia estaria fora de perigo.
No porto, pequenos mercadores vendiam frutas, legumes, san-
dlias, peas de tecido, colares e pulseiras. Os compradores entrega-
vam-se a barganhas desenfreadas, pois o prazer da palavra constitua
um ingrediente indispensvel para uma compra satisfatria. Se tivesse
tido tempo, Raia teria reorganizado essa atividade desordenada para
obter um lucro maior com ela.


O sfrio dirigiu-se a um dos guardas que controlavam o porto.
- O barco de Renuf j chegou?
- Cais nmero cinco, ao lado do lancho.
Raia apressou o passo.
LIm marinheiro dormia na ponte do barco de Renuf. O srio
subiu a passarela e o acordou.
- Onde est o seu patro?
- Renuf. . . No sei.
- Quando chegaram?
- De madrugada.
- Viajaram de noite?
- Tnhamos autorizao especial, por causa do queijo fresco
da grande leiteria de Mnfis. Alguns nobres daqui no querem outro.
-Depois das formalidades de desembarque, o seu patro deve
ter voltado para casa, no?
-Acho muito difcil.
- Por qu?
- Porque ele foi obrigado a subir no carro do gigante sardo de
bigode grande. E esse sardo tem cara de no ser nada amigvel.
O cu aeabava de desabar sobre a cabea de Raia.
Renuf era um homem jovial, de formas avantajadas, pai de trs
filhos, herdeiro de uma fmlia de barqueiros e mercadores. Quando
Serramanna o interpelara,  sua chegada a Pi-Ramss, manifestara um
grande espanto. Como o sardo parecia de mau humor, o mercador
preferira ir com ele para desfazer o mais depressa possvel o mal-en-
tendido de que era vtima.
176 RAMSS
			Serramanna conduziu-o a toda velocidade ao palcio e guiou-o
		at o gabinete de Ameni. Era a primeira vez que Renuf se deparava
		com o secretrio particular do rei, cuja reputao aumentava grada-
		tivamente. Gabavam-lhe a seriedade, a capacidade de trabalho e sua
		dedicao; como primeiro-ministro, geria, na sombra, os assuntos de
		Estado com uma integridade exemplar, no se preocupando com
		distines nem com mundanismos.
			A palidez de Ameni impressionou Renuf. Segundo se dizia, o
		escriba quase nunca saa do seu gabinete.
			- Esta entrevista  uma honra - disse Renuf - mas no
		compreendo a sua razo de ser. Confesso que esta interpelao brutal
		me surpreende.
			- Perdoe-me, mas estamos investigando um caso grave.
			- LIm caso. . . que me diz respeito?
			- Talvez.
			-De que forma eu posso ajud-lo1
			- Respondendo francamente s minhas perguntas.
			- Pode perguntar.
			- Conhece uma certa Nenofar?
			-  um nome bastante vulgar. . . Conheo uns dez deles!
			- Este de quem estamos falando  o de uma jovem, muito
		bonita, solteira, provocante e que vive em Pi-Ramss, onde faz
	j	negcio com seus encantos.
			- LIma. . . prostituta?
			- De forma discreta.
			-Amo a minha esposa, Ameni. Apesar das minhas numerosas
		viagens, nunca a enganei. Posso garantir-lhe que o nosso entendimen-
		to  perfeito. Interrogue meus amigos e meus vizinhos, se no me
		acredita.
			-Sob juramento e perante a regra de Mat, poder jurar nunca
	'	haver se encontrado com a jovem Nenofar?
			-Jurarei -prometeu Renuf, solene.
			A declarao impressionou Serramanna que, silencioso, assistia
		ao interrogatrio. O mercador parecia sincero.
			- Estranho - declarou Ameni, irritado.
A Batalha de Kadesh 177
- Estranho por qu? Ns, os mercadores, no temos boa
reputao, mas sou um homem honesto e alegro-me por isso! Os
meus empregados recebem um bom salrio, o meu barco est bem
cuidado, alimento a minha famlia, as minhas contas esto em ordem,
,
pago os meus impostos, e o fisco nunca me censurou nada... E isso
que lhe parece estranho?


- So raros os homens com a sua qualidade, Renuf.
-  de lamentar que assim seja.
- Mas o que me parece mais estranho  o lugar onde o corpo
de Nenofar foi encontrado.
O mercador sobressaltou-se.
- O corpo. . . ? Quer dizer que. . .
- Foi assassinada.
- Que horror!
- No passava de uma jovem de m reputao, mas qualquer
assassinato  passvel de pena de morte. E o mais estranho, como j
disse antes,  que o cadver foi encontrado numa casa de Pi-Ramss
de sua propriedade.
- Em minha casa? Na minha villo?
Renuf estava  beira de um colapso.
- No foi na sua villa - interveio Serramanna - mas nesta
casa aqui.
O sardo colocou o dedo sobre o ponto exato na planta de
Pi-Ramss que Ameni desenrolara  sua frente.
- No compreendo. . . Eu. . .
- Essa casa lhe pertence ou no?
- Sim; mas no  uma casa.
Ameni e Serramanna entreolharam-se; Renuf teria enlouquecido?
-No  uma casa -repetiu ele -e sim um armazm. Estava
precisando de um lugar para as minhas mercadorias e por isso
comprei essas paredes. Mas tive mais olhos do que barriga; na minha
idade, no' me interessa mais aumentar as dimenses da empresa.
Assim que puder, aposento-me e vou para o campo, perto de Mnfis.
-Tem inteno de vender este local?
- Aluguei-o.
LIma esperana brilhou no olhar de Ameni.
178 RAMSS
- A quem?
-A um colega chamado Raia.  um homem rico, muito ativo,
que possui vrios barcos e numerosos estabelecimentos em todo O
Egito.
- Qual  a especialidade dele?
-lmportao de conservas de luxo e de vasos raros, que vende
 alta sociedade.
- Sabe qual  a sua origem?
,
- E srio, mas instalado no Egito h muitos anos.
- Obrigado, Renuf; a sua ajuda foi preciosa.
-No... no precisa mais de mim?
-Penso que no, mas guarde silncio sobre esta nossa conversa.
- Dou-lhe a minha palavra.
Raia, um srio. . . Se Acha estivesse presente, teria confirmado a
exatido das suas dedues. Nem bem Ameni tivera tempo de se
levantar, e o sardo j corria para o seu carro.
- Serramanna, espere por mim!
29
Apesar do ar frio, Uri-Techup envergava apenas um
saiote de l grosseira. De torso nu, galopava a toda velocidade,
obrigando seus cavaleiros a exigirem o mximo esforo dos seus
cavalos. Alto, musculoso, o corpo coberto por uma espessa camada
de plos ruivos, cabelos compridos, Uri-Techup, filho do imperador
hitita Muwattali, estava orgulhoso de ter sido nomeado general-chefe
do exrcito, depois do fracasso da sublevao nos protetorados
egpcios.
A rapidez e o vigor da reao de Ramss haviam surpreendido
Muwattali. No entanto, segundo Baduk, o ex-general-chefe encarre-
gado de preparar a insurreio, de control-la e de ocupar os terri-
trios depois do xito da revolta, a operao no apresentava qualquer
dificuldade maior
O espio srio instalado no Egito h vrios anos transmitira
mensagens menos tranqilizadoras. Segundo ele, Ramss era um
grande fara, de carter firme e vontade inflexvel; Baduk objetara
que os hititas nada tinham a recear de um rei inexperiente e de um
exrcito constitudo por mercenrios medrosos e incapazes. A paz
imposta por Sethi conviera ao Hatti, na medida em que Muwattali
precisava de tempo para firmar a sua autoridade, desembaraando-se


de um bando de ambiciosos que lhe cobiavam o trono. Atualmente
reinava sozinho.
A poltica de expanso podia recomear. E se havia um pas do
qual os anatlios queriam se apoderar a fim de se tornarem os
senhores do mundo, esse pas era o Egito dos faras.
180 RAMSS
Segundo o general Baduk, o fruto estava maduro. Com Amurru
i
e Cana nas mos dos hititas, bastaria avanar para o Delta e desman-
1
telar as fortalezas que compunham o Muro do Rei e depois invadir o
Baixo Egito.
LIm plano magnfico, que entusiasmara o estadn-maior hitita.
Porm negligenciara um elemento: Ramss.
Em Hattusa,* capital hitita, todos queriam saber que falta cometera
o imprio contra os deuses. Apenas LIri Techup no se interrogava:
considerava que o fracasso era culpa da estupidez e da incompetncia
do general Baduk. Assim, o filho do imperador percorria o territrio
hitita no apenas para inspecionar as suas fortaleas, mas tambm para
encontrar Baduk, que demorava a regressar  capital.
Pensava reencontr-lo em Gavur Kalesi,** praa forte construda
i
! no topo de uma colina que fazia parte dos primeiros contrafortes
;,
montanhosos, na orla do planalto da Anatla. Trs figuras ggantes de
soldados armados revelavam o carter guerreiro do imprio hitita,
evidncia clara de que os adversrios s tinham duas alternativas:
render-se ou serem exterminados. Ao longo das estradas, nos rochedos
prximos aos rios, em blocos perdidos no meio dos campos, os escul-
tores haviam talhado figuras agressivas mostrando soldados em marcha
com uma lana na mo direita e um arco pendurado no ombro esquerdo.
No territrio hitita, o amor pela guerra triunfava por toda parte.
LIri-Techup percorrera em grande velocidade as plancies fr-
teis, ricas em gua e orladas de nogueiras. Nem sequer diminura o
I
galope ao atravessar as florestas de bordos separadas por pntanos.
j Esgotando homens e animais, o filho do imperador teimara em chegar
o mais depressa possvel  fortaleza de Masat.*** Era o ltimo lugar
onde poderia refugiar-se o general Baduk.
Apesar de sua resistncia e da dureza do seu treino, os cavaleiros
hititas chegaram esgotados perante Masat, fortaleza edificada sobre
i uma elevao, no meio de uma plancie aberta entre duas fileras de
montanhas. Do alto daquele promontbro, era fcl observar os
* Bogazky, I 50km a este de Ankara (Turyuia).
** 60km a sudoeste de Ankara.
*** Masat-Hyk, 1 l6km a nordeste de Hattusa.
A Batalha de Kadesh  g 
arredores. Dia e noite havia arqueiros colocados nas ameias das torres
de vigia. Escolhidos entre as famMias nobres, os oficiais faziam reinar
uma disciplina implacvel.
LIri-Techup imobilizou-se a cem metros da entrada da fortaleza.
De repente, uma lana cravou-se profundamente na terra, na frente
do seu cavalo.
O filho do imperador desmontou e adiantou-se.
- Abram! - berrou. - No me reconheceram?
A porta da fortaleza de Masat abriu-se. No limiar, dez soldados
apontaram suas lanas para o recm-chegado.
ri-Techup afastou-os.
- O filho do imperador exige ver o governador.
Este desceu rapidamente da muralha, com risco de quebrar a
cabea.
- Pn'ncipe, quanta honra!
Os soldados ergueram as lanas e formaram uma ala de honra.
- O general Baduk est aqui?
- Est; instalei-o no meu quartel.
- Conduza-me a ele.
Os dois homens subiram uma escada de pedra de degraus altos
e escorregadios.
No alto da praa forte, o vento norte turbilhonava. Grandes
blocos rugosos formavam as paredes da residncia do governador,


iluminada por lmpadas de leo de onde saa uma espessa fuligem
que escurecia os tetos.
Logo que viu LIri-Techup, um qinquagenrio corpulento er-
gueu-se.
- Prncipe LIri-Techup. . .
- Tem passado bem, general Baduk?
-O fracasso do meu plano  inexplicvel. Se o exrcito egpcio
no tivesse reagido com tanta rapidez, os insurretos de Cana e
Amurru teriam tido tempo para se organizarem. Mas nem tudo est
perdido. . . O domnio dos egpcios  apenas aparente. Os potentados
que se declararam fiis ao Fara sonham colocar-se sob a nossa tutela.
- Por que no ordenou s nossas tropas estacionadas perto de
Kadesh para atacarem o exrcito inimigo quando este invadiu Amurru?
182 RAMSS
O general Baduk pareceu surpreendido.
- Teria sido necessria uma declarao de guerra em boa e
devida forma. . . e isso no era da minha competncia! S o imperador
poderia tomar tal deciso.
Outrora to impetuoso e conquistador como LIri-Techup, Ba-
duk no passava agora de um velho esgotado. Os cabelos e a barba
haviam se tornado cinzentos.
- Est fazendo o balano da sua ao?
-  por essa razo que estou aqui h algum tempo... Estou
redigindo um relatrio completo e sem complacncia.
- Posso retirar-me? - perguntou o governador da fortaleza, que
no queria ouvir segredos militares reservados aos altos comandos.
- No - respondeu LIri-Techup.
O governador estava incomodado por assistir  humilhao do
general Baduk, grande soldado dedicado  sua ptria. Mas a obedin-
cia s ordens era a primeira das virtudes hititas, e as exigncias do
flho do imperador no se discutiam. Qualquer insubordinao era
castigada com a morte imediata, pois no havia outro meio de manter
a coeso de um exrcito perpetuamente em p de guerra.
- As fortalezas de Cana resistiram bem aos ataques egpcios
.- referiu Baduk. - As suas guarnies, formadas sob as nossas
ordens, recusaram render-se.
- Essa atitude no altera em nada o resultado - considerou
LIri-Techup. - Os insurretos foram exterminados e Cana est de
novo sob o domnio egpcio. Em Megiddo foi o mesmo fracasso.
- Infelizmente,  verdade! Os nossos instrutores, no entanto,
haviam ministrado uma excelente formao aos nossos aliados. De
acordo com a vontade do imperador, haviam regressado a Kadesh a
fim de no poder ser constatada a presena hitita em Cana e Amurru.
- Falemos de Amurru! Quantas vezes afirmou que o seu
prncipe viria comer em sua mo e que nunca mais se submeteria a
Ramss?
-Foi o meu mais grave erro -admitiu Baduk. -A manobra
do exrcito egpcio foi notvel: em vez de seguir pela estrada da costa,
que o faria cair na emboscada armada pelos nossos novos aliados, ele
A Botalha de Kadesh 183
passou pelo interior. Apanhado pelas costas, o prncipe de Amurru
no teve outra alternativa seno render-se.
-Render-se, render-se! -trovejou Llri-Techup. -No tem
outra palavra na boca! A estratgia que havia preparado no tinha a
finalidade de enfraquecer o exrcito egpcio, cujas infantaria e cava-
laria deveriam ser aniquiladas? Em vez disso, poucas perdas entre os
soldados do Fara, tropas confiantes quanto ao seu valor e a vitria
de Ramss.
- Tenho conscincia do meu fracasso e no procuro minimi-
z-lo. Errei em confiar no prncipe de Amurru, que preferiu a desonra
ao combate.
-A derrota no tem lugar na carreira de um general hitita.
- No se trata da derrota dos meus homens, prncipe, mas da
m aplicao de um plano de desestabilizao dos protetorados
egpcios.
- Estava com medo de Ramss, no  verdadel
- Suas foras eram mais considerveis do que ns imaginva-
mos, e a minha misso consistia em fomentar revoltas, no em
en&entar os egpcios.
- Por vezes, Baduk,  preciso saber improvisar.


- Sou um soldado, prncipe, e devo obedeeer a ordens.
- Por que est refugiado aqui, em vez de regressar a Hattusa?
- J disse: queria ter um certo isolamento para redigir o meu
relatrio. E tenho uma boa notcia: graas aos nossos aliados em
Amurru, a insurreio vai recomear.
- Est sonhando, Baduk.
- No, prncipe. . . D-me algum tempo e conseguirei.
- J no  general-chefe do exrcito hitita. O imperador
decidiu: sou eu que o substituo.
Baduk caminhou na direo do grande fogo onde ardiam
troncos de carvalho.
-As minhas felicitaes, LIri-Techup. Vou conduzi-lo  vitria.
-Tenho outra mensagem para voc, Baduk.
O ex-general aqueceu as mos, voltando as costas ao filho do
tmperador.
- Estou escutando, prncipe.
1 84 RAMSS
- Voc  um covarde.
Desembainhando a espada, LIri-Techup enterrou-a no estmago
de Baduk.
Q governador ficou petrificado.
- Este covarde era tambm um traidor - afirmou LIri-Te-
chup. - Recusou-se a admitir a sua derrota e agrediu-me. Voc 
testemunha.
O governador curvou-se.
- Ponha o cadver nos ombros, leve-o para o centro do ptio
e queime-o sem celebrar o ritual dos funerais reservado aos guerrei-
ros. Assim perecem os generais covardes e vencidos.
Enquanto o cadver de Baduk ardia, sob o olhar da guarnio,
o prprio LIri-Techup untou com gordura de carneiro os eixos do
carro de guerra que o conduziria  capital, para ali pregar uma guerra
total contra o Egito.
30
ri-Techup no podia sonhar com uma capital
mais bela.
Construda no planalto da Anatlia Central, onde as estepes ridas
alternavam com gargantas e ravinas, Hattusa, o corao do imprio hitita,
nutria-se da violncia dos seus veres ardentes e dos seus invernos
gelados. Cidade de montanha, ocupava uma superfi'cie de 18.000 ares
num solo bastante acidentado, que havia exigido prodgios da parte dos
construtores. Composta de uma cidade baixa e uma cidade alta, esta
ltima dominada por uma acrpole na qual se erguia o palcio do
imperador, Hattusa surgia, ao primeiro olhar, como um gigantesco
conjunto de fortificaes de pedra acompanhando o relevo catico.
Rodeada de macios que formavam barreiras inacessveis para um
eventual agressor, a capital hitita assemelhava-se a uma fortaleza erigida
sobre espores rochosos e formada por blocos enormes dispostos em
camadas regulares. Por toda parte, no interior, fora utilizada a pedra para
os alicerces; para as paredes, o tijolo cru e a madeira.
Hattusa, orgulhosa e selvagem. Hattusa, a guerreira invencvel,
onde o nome de ri-Techup seria em breve aclamado.
Os nove quilmetros de muralhas, guarnecidas de torres e ameias,
alegravam a alma de qualquer soldado; acompanhavam o terreno escar-
pado, escalavam os picos, dominavam as profundidades dos desfiladei-
ros. A mo do homem dominara a natureza, roubando-lhe o segredo da
sua fora.
Abriam-se duas portas na muralha da cidade baixa e trs na da
cidade alta. Ignorando a dos Lees e a do Rei, LIri-Techup dirigiu-se
para o ponto de acesso mais elevado - a porta das Esfinges - que
186 RAMSS
se caracterizava por uma galeria subterrnea de 45 metros de com-
primento em comunicao com o exterior.
 verdade que a cidade baixa dispunha de um edifcio requisi-
tado, o templo do deus da tempestade e da deusa do sol, e o bairro
dos santurios, que tinha mais de vinte monumentos de vrias dimen-
ses, mas Llri-Techup preferia a cidade alta e o palcio real. Gostava
de contemplar, dessa acrpole, os terraos feitos de pedras justapos-
tas, sobre as quais haviam sido construdas edificaes oficiais e
moradias de notveis, dispostas por acaso nas encostas.
Ao entrar na cidade, o filho do imperador partira trs pes e


derramara vinho sobre uma pedra, pronunciando a frmula ritual: "ue
este rochedo seja eterno." Aqui e acol estavam dispostos recipientes
cheios de leo e de mel, destinados a acalmar os demnios.
O palcio erguia-se sobre uma imponente massa rochosa composta
por trs picos; muralhas guarnecidas de altas torres, permanentemente
guardadas por soldados de elite, isolawm a moradia imperial do resto
da capital e impediam qualquer tipo de agresso. Muwattali, prudente
e astuto, guardava na memria os sobressaltos da histria hitita e as
encarniadas lutas pela conquista do poder; a espada e o veneno muitas
vezes foram utilizados como argumentos, e muito poucos "grandes
chefes" hititas haviam morrido de morte natural. Era, portanto, prefe-
rvel que "a grande fortaleza", como a chamava o povo, fosse inacessvel
por trs dos seus lados; apenas uma entrada estreita, vigiada dia e noite,
dava acesso a visitantes, devidamente revistados.
LIri Techup submeteu-se  vistoria dos guardas que, como a maior
parte dos soldados, tinham acolhido bem a nomeao do filho do
imperador Jovem, corajoso, no poderia ser to indeciso como o general
Baduk.
No interior do palcio havia vrios reservatrios de gua, indis-
' pensveis durante os meses de vero. As cavalarias e as salas de armas
e dos guardas abriam espao para um ptio lajeado. O plano do
alojamento imperial era, alis, semelhante ao das outras moradias
hititas, quer grandes ou pequenas: um conjunto de compartimentos
dispostos ao redor de um espao central em formato quadrado.
m oficial saudou LIri-Techup e o encaminhou a uma sala de
pesados pilares onde o imperador costumava receber os seus visitantes.
A Batalha de Kadesh 187
Lees e esfinges de pedra guardavam a porta, assim como a entrada para
a sala dos arquivos, que conservava as recordaes das vitrias do exrcito
hitita. Naquele local, marco da invencibilidade do imprio, LIri-Techup
sentiu-se engrandecido e fortificado por sua misso.
Dois homens entraram na sala. O primeiro era o imperador
Muwattali, um qinquagenrio de estatura mediana, peito atltico e
pernas curtas. Friorento, envolvia-se num longo manto de l vermelha
e preta. Os olhos castanhos estavam permanentemente atentos.
O segundo era Hattusil, o irmo mais novo do imperador.
Baixinho, carrancudo, os cabelos presos por uma tira, o pescoo
adornado com um colar de prata, no cotovelo esquerdo uma pulseira,
estava vestido com uma indumentria de tecido multicor que lhe
deixava os ombros descobertos. Sacerdote da deusa do sol, casara com
a bela Putuhepa, filha de um grande sacerdote, inteligente e com boa
influncia. LIri-Techup detestava os dois, mas muitas vezes o impera-
dor dava ouvidos aos conselhos de ambos. Aos olhos do novo gene-
ral-chefe, Hattusil no passava de um mentor de intrigas que, oculto
na sombra do poder, preparava-se para se apoderar dele no momento
propcio.
Llri-Techup ajoelhou-se diante do pai e beijou-lhe a mo.
- Encontrou o general Baduk?
- Sim, meu pai. Estava escondido na fortaleza de Masat.
-Como ele explica a prpria atitude2
-Agrediu-me e o mate. O governador da fortaleza foi teste-
munha.
Muwattali voltou-se para o irmo.
- LIm drama terrvel - comentou Hattusil - mas ningum
devolver a vida ao general derrotado. O seu desaparecimento surgir
como um castigo dos deuses.
LIri-Techup no disfarou a sua surpresa. Pela primeira vez,
Hattusil estava do seu lado!
-Sbias palavras -considerou o imperador. -O povo hitita
no gosta de derrotas.
- Sou partidrio de que invadamos imediatamente Amurru e
Cana - adiantou LIri-Techup - e depois ataquemos o Egito.
 gg RAMSS
- O Muro do Rei forma uma slida linha de defesa -objetou
Hattusil.
- Pura iluso! Os fortins esto bastante afastados uns dos
outros. Ns os isolaremos e apanharemos todos num nico e decisivo
ataque.
- Esse seu otimismo parece-me excessivo. O Egito no acaba
de provar o valor do seu exrcito?


- S venceu covardes! Quando os egpcios enfrentarem os
hititas, fugiro.
- Est esquecendo da existncia de Ramss?
A pergunta do imperador acalmou o filho.
- Voc h de comandar um exrcito vitorioso, ri-Techup,
mas  preciso preparar esse triunfo. Travar uma batalha longe das
nossas bases seria um erro.
- Mas. . . onde lanaremos a ofensiva?
- Num local onde estejam as foras egpeias longe das suas bases.
- Quer dizer. .
- Em Kadesh. Ali ter lugar a grande batalha que ver a derrota
		de Ramss.
			- Preferiria atacar os protetorados do Fara.
			- Estudei cuidadosamente os relatrios dos nossos informan-
		tes e tirei concluses do fracasso de Baduk. Ramss  um verdadeiro
		mestre da guerra, muito mais perigoso do que supnhamos. Ser
		necessria uma longa preparao.
			- Vamos perder tempo inutilmente!
			- No, meu filho. Devemos atacar com fora e preciso.
			- O nosso exrcito  amplamente superior a uma quadrilha de
		soldados egpcios e de mercenrios! A fora, ns a temos; a preciso,
		eu a demonstrarei aplicando os meus prprios planos. Est tudo aqui
		na minha cabea; palavras so inteis. Basta-me o comando para
	,	arrastar as minhas tropas numa investida irresistvell
			- Sou eu que governo o Hatti, LIri-Techup. Agir por minha
		ordem e apenas por minha ordem. Por ora, prepare-se para a
		cerimnia; irei para a corte em menos de uma hora.
			O imperador saiu da sala de colunas.
			Llri-Techup encarou Hattusil.
A Batalha de Kadesh 189
-  voc que est tentando travar as minhas iniciativas, no 
verdade?
- Nada tenho a ver com o exrcito.
- Est brincando comigo? s vezes eu me pergunto se no 
voc que governa o imprio.
- No injurie a grandeza do seu pai, Llri-Techup. Muwattali 
o imperador e sirvo-o o melhor que posso.
- Enquanto espera a sua morte!
-As suas palavras ultrapassam o seu pensamento.
-Esta corte  feita de intrigas e voc  o chefe dos instigadores.
Mas no tenha esperanas de triunfar.
-Atribui-me intenes que no tenho.  capaz de admitir que
um homem possa limitar as suas ambies?
- No  o seu caso, Hattusil.
- Suponho que seja intil tentar convencer voc.
- Completamente intil.
- O imperador nomeou-o general-chefe e tem razo. Voc 
um excelente soldado, e as nossas tropas lhe tm muita confiana;
mas no pense em agir como lhe der na cabea e sem controle.
- Est esquecendo um fato muito importante, Hattusil: para
os hititas, o exrcito  que faz a lei.
- Sabe do que gosta a maior parte das pessoas do nosso pas?
Gostam da sua casa, dos seus campos, da sua vinha, das suas cabeas
de gado. . .
- Defende, por acaso, a paz?
- Que eu saiba, a guerra no est declarada.
- Quem falar em favor da paz com o Egito dever ser conside-
rado traidor.
- Probo-o de deturpar as minhas palavras.
- Afaste-se do meu caminho, Hattusil. Caso contrrio, ir se
lamentar.
-A ameaa  a arma dos fracos.
O filho do imperador levou a mo ao cabo da espada. Hattusil
enfrentou-o.
-Atrever-se-ia a erguer a sua arma contra o irmo de Muwattali?
190 RAMSS
Llri Techup deu um berro de raiva e saiu da grande sala, marte-
lando o lajedo com passadas furiosas.
31
ri-Techup, Hattusil, Putuhepa, o grande sacerdo-


te do deus da tempestade, o da deusa do sol, o chefe dos operrios,
o inspetor dos mercados e os outros dignitrios do imprio, todos
haviam se reunido para ouvir o discurso do imperador
O fracasso do plano de desestabilizao dos protetorados egpcios
periurbara os espritos. Que o culpado fora o general Baduk, morto de
forma trgica, ningum duvidava; mas que poltica prepararia Muwattali i
O cl dos militares, instigado pelo impetuoso LIri-Techup, desejava um
confronto direto e rpido com o Egito; o dos mercadores, cujo poder
financeiro era considervel, preferia o prolongamento do estado de
"nem guerra nem paz", favorvel ao desenvolvimento de trocas comer-
ciais. Hattusil recebera os seus representantes e aconselhara o imperador
a no negligenciar os seus pontos de vista. O Hatti era um pas de trnsito,
onde circulavam caravanas que pagavam pesadas taxas ao Estado hitita
e alimentavam, assim, a casta militar LIm burro no conseguia ti-ans-
portar 65 quilos de mercadorias diversas e at 80 quilos de txteis? Tanto
nas cidades como nas aldeias, os mercadores haviam estabelecido
verdadeiros centros comerciais e implementado um sistema econmico
eficaz, graas s listas de produtos, s instrues de ti-ansporte, aos
oontratos, ao reconhecimento de dvidas e aos processos judiciais par-
ticulares. Se, por exemplo, um mercador era acusado de matar algum,
ele evitava o tribunal e a priso pagando a sua liberdade por um preo
elevado.
O exrcito e o comrcio: eis os dois sustentculos do poder do
imperador No podia ficar sem nenhum dos dois. J que LIri-Techup
estava se tornando o fdolo dos militares, Hattusil tinha o cuidado e o
192 RAMSS
privilgio de ser o interlocutor dos mercadores. Quanto aos sacerdo-
tes, estes estavam sob a alada de sua esposa Putuhepa, cuja fmlia
era a mas rca da arstocracia hitta.
' Muwattali era demasiado perspicaz para no perceber a inten-
sidade da rixa entre o filho e o irmo. Concedendo a cada um deles
um campo de influncia limitado, satisfazia-lhes a ambio e contro-
! lava a situao, mas durante quanto tempo? Em breve teria que tomar
i
i uma deciso.
Hattusil no era hostil  conquista do Egito, mas sim na medida
em que ela viesse a consagrar Llri-Techup como heri e futuro
imperador; por isso precisava garantir mais amizades no exrcito e
assim minar o poder de Llri-Techup. Para o filho do imperador, uma
bela morte em combate no seria o destino mais desejvel?
' Hattusil apreciava a maneira de Muwattali governar e teria se
ii
contentado em servi-lo se LIri-Techup no tivesse se tornado uma
ameaa para o equilbrio do imprio. Muwattali no deveria esperar
do filho respeto ou gratdo; entre os hittas, os laos famliares
tinham uma importncia apenas relativa. Segundo o legislador, o
incesto era uma prtica aceitvel na medida em que no causasse mal
a ningum; quanto  violao, esta no era alvo de pesadas penas e
nem era passvel de qualquer sano, se existisse uma simples presun-
' o de consentimento da mulher agredida; quanto a um filho matar
o pai para se apoderar do poder tambm no feria a moral pbIica.
I Confiar o comando-chefe do exrcto a Llri-Techup fora uma
i dia de gno; o filho do imperador, ocupado em consolidar o seu
prestgio, no pensaria, pelo menos de imediato, em eliminar o pai.
Mas, da a algum tempo, o perigo ressurgiria. Competia a Hattusil
explorar bem esse perodo para reduzir a capacidade de ao de
LIri-Techup.
LIm vento gelado soprava sobre a cidade alta, anunciando um
inverno precoce. Os dignitrios foram convidados a entrar na sala de
audincias, aquecida por braseiros.
A atmosfera estava pesada e tensa. Muwattali no gostava de
discursar nem de assemblias; preferia trabalhar na sombra e mani-
A Batalha de Kadesh 193
pular seus subordinados um por um, evitando ser perturbado com a
presena de um conselho.
Na primeira fila, a flamejante couraa nova de Uri-Techup
contrastava com o aspecto modesto de Hattusil. Putuhepa, a esposa
deste, soberba em seu vestido vermelho, possua a dignidade de uma
rainha; estava coberta de jias, entre as quais pulseiras de ouro
provenientes do Egito.


Muwattali sentou-se no trono, uma cadeira de pedra tosca e
despojada de adornos.
Apesar de suas raras aparies, todos se espantavam que aquele
homem aborrecido, de aparncia inofensiva, fosse o imperador de uma
nao to belicosa; mas um observador atento detectaria rapidamente,
no seu olhar e nas suas atitudes, uma agressividade reprimida pronta a
explodir com a mxima violncia.  fora brutal, Muwattali acrescentava
a astcia e a habilidade de atacar como um escorpio.
- Foi a mim, e a ningum mais - declarou o imperador - que
o deus da tempestade e a deusa do sol confiaram este pas, a sua capital
e as suas cidades. Eu, o imperador, os protegerei, porque o poder e o
carro de guerra me foram entregues, a mim e a ningum mais.
Utilizando velhas frmulas, Muwattali acabava de recordar que
ele era o nico a decidir, e que o filho e o irmo, fosse qual fosse a
sua influncia, deviam-lhe uma obedincia absoluta. Bastaria um
passo em falso e seriam implacavelmente eliminados, e ningum
contestaria a sua deciso.
-A norte e a sul, a leste e a oeste -continuou Muwattali -
o planalto da Anatlia est rodeado por montanhas protetoras. As
nossas fronteiras so inviolveis. Mas a vocao do nosso povo no 
ficar confinado em seu territrio. Os meus predecessores declararam:
"Que o pas hitita seja limitado pelo mar, tanto de um lado como do
outro." E eu declaro: Que as margens do Nilo nos pertenam.
Muwattali ergueu-se. O seu discurso havia terminado.
Em poucas palavras, acabara de anunciar a guerra.
A recepo organizada por Uri-Techup para festejar a sua no-
meao prometia ser brilhante e muito apreciada. Governadores de
194 RAMSS
		fortalezas, oficiais superiores e soldados de elite evocavam faanhas
		passadas e vitorias futuras. O filho do imperador anunciou uma
		reestruturao da cavalaria, que seria dotada de equipamentos novos.
			O perfume embriagador de um conflito brutal e intenso flutuava
		no ar.
			Hattusl e a esposa abandonaram a recepo quando uma cen-
		tena de jovens escravas de Uri-Techup irromperam na sala, oferecen-
		do-se aos convidados como sobremesa. Tinham recebido ordem para
	
		lhes realizarem todas as fantasias, sob pena de serem chicoteadas e
		enviadas para as minas de sal, uma das riquezas do Hatti.
			- J esto indo, meus amigos? - espantou-se o filho do
		imperador.
			-Amanh temos um da muto sobrecarregado -respondeu
		Putuhepa.
Y - Hattusil devia descontrair-se um pouco... H neste grupo
asiticas de dezesseis anos, lindas como guas. O vendedor prometeu-
me que os seus desempenhos seriam excepeionais. Wolte para casa, cara
Putuhepa, e conceda a seu marido esta pequena distrao.
- Nem todos os homens so porcos - retorquiu ela. - No
futuro, poupe-nos de semelhantes convtes.
Hattusil e Putuhepa dirigiram-se para a alia do palcio, onde
 I' habitavam. Um ambiente austero, apenas alegrado por tapetes de l de
cores vivas. Nas paredes, trafus, cabeas de ursos e lanas cruzadas.

Nervosa, Putuhepa mandou embora a criada de quarto e des-
maquiou-se sozinha.
- Este Ur Techup  um louco perigoso - afirmou.
- Eu sei; mas tambm  o filho do imperador.
- E voc  o irmo do imperador!
- Aos olhos de muitas, Uri-Techup surge como o sucessor
designado de Muwattali.
-Designado. . . Seria o imperador capaz de cometer semelhan-
te idiatice?
- Por enquanto no passa de um rumor.
- Por que no contrariar esse rumor?
- No me inquieta muito.
--. A sua serenidade no  fingida?
A Batalha de Kadesh 195
- No, minha querida;  &uto de uma anlise lgica da situao.
- Quer fazer o favor de me esclarecer?
-Llri-Techup conseguiu o posto com que sonhava; j no tem


necessidade de conspirar contra o imerador.
- Tornou-se, agora, ingnuo? E o trono que ele quer!
-  evidente, Putuhepa, mas ser capaz de consegui-lo?
A sacerdotisa olhou o marido com ateno. Raqutico e pouco
sedutor, Hattusil conquistara-a, no entanto, por meio da sua inteligncia
e perspiccia. Possua o estofo de um grande homem de Estado.
- LIri-Techup no tem qualquer sinal de lucidez e no tem
conscincia da enormidade da sua tarefa - declarou Hattusil. -
Comandar o exrcito hitita exige uma competncia que ele no possui.
- Ele no  um excelente guerreiro que no conhece o medo?
-  verdade; mas um general-chefe tem que saber arbitrar
tendncias diversas, mesmo contraditrias. E tal ao exige experin-
."
cia e paciencia.
- Claro que no  o retrato de ri Techup que est pintando!
- Existe melhor razo para nos alegrarmos? Esse exaltado no
tardar a cometer pesados erros, descontentando este ou aquele
general. As atuais faces sero reforadas e divididas, oposies vo
se manifestar e as feras de dentes longos tentaro devorar um tirano
incapaz de se impor.
- O imperador anunciou a guerra... Ofereceu o primeiro
papel a Uri-Techup.
-Aparentemente, apenas aparentemente.
-Tem certeza?
- Repito-lhe: LIri-Techup ilude-se com as suas aptides. Uai
descobrir um mundo complexo e cruel. Seus sonhos de guerreiro vo
chocar-se com os escudos dos soldados e sero esmagados sob as
rodas dos carros. E isso no  tudo...
- Est querendo me impacientar?
- Muwattali  um grande imperador.
- Pretender ele explorar os defeitos do filho?
Hattusil sorriu.
- O imprio  simultaneamente forte e frgil. Forte porque a
sua fora militar  considervel; frgil porque  ameaado por vizinhos
;;
196 RAMSS
invejosos, prontos para se aproveitarem da mnima fraqueza. Atacar
o Egito e apoderar-se dele  um bom projeto, mas a improvisao
conduziria a um desastre. Os abutres aproveitariam para se refestelar
com os nossos despojos.
- O prprio Muwattali seria capaz de controlar um louco por
guerra como Uri Techup?
- ri Techup gnora os verdadeiros projetos do pai e a forma
como ele pretende realiz-los. O imperador disse-lhe o suficiente
para lhe dar confiana, mas no revelou o essencial.
' -A voc... revelou?
i - Possuo essa honra, Putuhepa. E o imperador tambm me
confiou uma misso: realizar o seu plano de ao sem informar ao
filho.
Do terrao da moradia oficial, na cidade alta, LIri-Techup con-
templava a lua nova. Nela residia o segredo do futuro, do seu futuro.
Falou-lhe longamente e confiou-lhe o seu desejo de conduzir o exrcito
hitita  vitria, esmagando quem se intrometesse em seu caminho.
O filho do imperador ergueu uma taa cheia de gua para o astro
noturno. Graas a seu espelho, esperava penetrar nos segredos do cu.
Entre os hititas, todos praticavam a arte da adivinhao; mas dirigir-se
diretamente  lua implicava um risco que bem poucos ousavam correr
Violada no seu silncio, a lua tornava-se uma espada curva que
cortava a garganta do seu agressor, cujo corpo desconjuntado seria
encontrado junto s muralhas. Aos seus amantes, em contrapartida,
concedia a sorte no combate.
LIri-Techup venerou a rainha da note, insolente e infiel.
Durante mais de uma hora permaneceu muda.
Depois a gua enrugou-se e borbulhou. A taa tornou-se quente,
mas Llri-Techup na a soltou.
A gua acalmou. Na superfcie plana desenhou-se o rosto de um
homem com uma dupla coroa, do Alto e do Baixo Egito.
Ramss!
Era esse o imenso destino anuncado a LIri-Techup: mataria
Ramss e faria do Egito um escravo dcil.


32
Com a barbicha aparada com perfeio, trajando
espessa tnica, o mercador srio Raia apresentou-se no gabinete de
Ameni. O secretrio particular do Fara recebeu-o imediatamente.
-Disseram-me que andava  minha procura por toda a cidade
-declarou Raia com voz firme.
-  verdade. Serramanna tinha como misso traz-lo aqui, de
boa vontade ou  fora.
- fora... Por que razo?
- Pesam sobre voc graves suspeitas.
O srio pareceu preocupado.
- Suspeitas.. . a meu respeito.. .
- Onde estava escondido?
- Mas... eu no estava escondido! Estava no porto, num
armazm, preparando uma remessa de conservas de luxo. Logo que
soube do incrvel rumor, vim correndo! Sou um comerciante hones-
to, instalado no Egito h vrios anos, e no cometi delito de espcie
alguma. Pode interrogar os meus funcionrios, os meus clientes...
Deve ficar sabendo que estou desenvolvendo a minha atividade e que
tenciono comprar mais um barco de transporte. As minhas conser-
vas so servidas s melhores mesas, e os meus vasos preciosos so
obras-primas que adornam as mais belas moradias de Tebas, de
Mnfis e de Pi-Ramss. .. Sou at fornecedor do palcio!
Raia fez sua explanao com voz nervosa.
- No estou pondo em dvida as suas qualidades comerciais
- disse Ameni.
- Ento. . . de que me acusam?
198 RAMSS
			- Conhece Nenofar, uma mulher libertina que resde em
		Pi-Ramss?
			- No.
			- No  casado?
			- A minha profisso no me deixaria tempo para me ocupar
		de uma mulher e de uma famlia.
			- Mas deve ter ligaes.
			-A minha vida privada. .
			'
			- Responda, para o seu prprio interesse.
			Raia hesitou.
			- Tenho amigas aqui e ali. . . Para ser sincero, trabalho tanto
		que a mnha dstrao preferida  o sono.
			- Nega, portanto, ter encontrado essa tal Nenofar?
	''		- Nego.
	,I
	 '		- Reconhece utilizar-se de um armazm em Pi-Ramss?
			- Sim. Aluguei um enorme armazm no cais, que em breve
		ser pequeno. Decidi, portanto, alugar outro, na cidade mesmo. Vou
		us-lo a partir do prximo ms.
			- Quem  o seu proprietrio?
			- Um colega egpcio, Renuf. Um bom homem e um mercador
	i	honesto que comprara o local com a esperana de se expandir; como
	i	at hoje no o usou, ofereceu-mo por um preo razovel.
	;
			- No momento, o local est vazio?
	i
			- Sim.
			- vai l com freqncia?
			- S fui l uma vez, em companhia de Renuf, para assinar o
		contrato de aluguel.
			- Pois foi nesse local, Raia, que foi encontrado o cadver de
		Nenofar.
			A revelao pareceu perturbar o mercador.
			- A pobre moa foi estrangulada - continuou Ameni -
		porque estava decdida a revelar o nome do homem que a obrigara a
		dar um falso depoimento.
			As mos de Raia tremeram e os lbios ficaram brancos.
	s ;		- Um assassinato... Um assassinato aqui, na capital! Que
		abominao... Quanta violncia... Estou perturbado.
A Batalha de Kadesh 199
- Qual  a sua origem?


- Sria.
- O nosso inqurito deu-nos a confirmao de que o culpado
,.
era um smo.
- H milhares deles no Egitol
-Voc  srio, e foi num estabelecimento seu due Nenofar foi
assassinada. Estranhas coincidncias, no?
-Apenas coincdncias, mais nadal
- Esse crime est ligado a um outro delito de extrema gravi-
dade. Foi por isso que o rei me pediu para agir com a maior rapidez.
- No passo de um mercador, um simples mercador! Ser a
minha pequena fortuna que provoca calnias e cimes? Se tenho
enriquecido,  graas a meu intenso trabalho! No roubei nada de
ningum.
"Se este  o homem que procuramos", pensou Ameni, "ele 
um tremendo comediante."
-Leia sto -exigiu o escriba, entregando ao srio o processo
verbal da descoberta do cadver de Nenofar, contendo a data do
crime.
- Onde estava nesse dia e nessa noite?
- Deixe-me reffetir, estou muito perturbado. . . E com todas
as minhas viagens, atrapalho-me um pouco... Ah, j seil Estava
fazendo o registro das mercadorias no meu armazm de Bubastis.
Bubastis, a linda cidade da deusa-gata Bastet, situada a 80
quilmetros de Pi-Ramss. Com um barco rpido e uma corrente
forte, no distava da capital mais de cinco ou seis horas.
- Algum o viu l?
- Sim, o meu chefe de armazm e o meu diretor de vendas
para a regio.
- Quanto tempo ficou em Bubastis?
- Cheguei l na vspera do drama e parti no dia seguinte para
Mnfis.
- LIm libi perfeito, Raia.
-libi?... Mas essa  a verdade!
- D-me o nome desses dois homens.
Raia escreveu-os num pedao de papiro usado.
200 RAMSS
i
- Vou verificar - prometeu Ameni.
- S ir constatar a minha inocncia!
- Peo-lhe para no sair de Pi-Ramss.
- Estou. . . estou detido?
-Talvez seja necessrio interrog-lo novamente.
-Mas. . . e o meu negcio? Tenho que ir  provncia para vender
vasos!
- Os seus clientes esperaro um pouco.
O mercador estava a ponto de chorar.
- Estou correndo o risco de perder a confiana de meus
clientes ricos... Fao sempre as entregas no dia certo.
-Motivo de fora maior. Onde est alojado?
- Numa pequena casa por trs do meu armazm do cais...
Quanto tempo vai durar essa investigao?
- Em breve teremos a resposta, pode estar seguro.
Foram necessrias trs canecas de cerveja forte para acalmar a
clera do gigante sardo, de regresso de Bubastis depois de uma
viagem-relmpago.
- Interroguei os empregados de Raia - disse ele a Ameni.
- Confirmam o seu libi?
- Confirmam.
- Sero capazes de jurar perante um tribunal?
- So srios, Amen O que lhes interessa o julgamento dos
mortos? Mentiro descaradamente, em troca de uma forte retribui-
o! Para eles, a Regra no conta. Se me fosse permitido interrog-los
 minha maneira, como na poca em que era pirata...
-Mas voc no  mais pirata, e a justia  o bem mais precioso
do Egito. Maltratar um ser humano  um delito.
- E deixar em liberdade um criminoso e espio no e um
delito?
A interrupo de uma ordenana f-los calar-se. Ameni e Ser-
ramanna foram convidados a entrar no amplo gabinete de Ramss.


- Como vo as coisas? - pergunta o rei.

A liatalho de Kadesh 201
- Serramanna est convencido de que o mercador srio Raia 
um espio e assassino.
- E voc2
- Eu tambm.
O sardo dirigiu um olhar de gratido ao escriba. Havia desapa-
recido qualquer vestgio de ressentimento entre eles.
- Provas?
-Nenhuma, Majestade -confessou Serramanna.
- Se for detido por simples suspeitas, Raia pedir para ser
ouvido por um tribunal e ser absolvido.
-Temos conscincia disso -lamentou Ameni.
- Deixe-me atuar, Majestade - implorou Serramanna.
- Devo recordar ao chefe da mnha guarda pessoal que qual-
quer brutalidade aplicada sobre um suspeito provoca pesada conde-
nao... para o agressor2
Serramanna suspirou, concordando.
- Estamos num impasse - confessou Ameni. -  provvel
que este Raia seja membro de uma rede de espionagem hitita, talvez
mesmo o chefe. O sujeito  inteligente, manhoso, comediante. Con-
trola as suas reaes, sabe choramingar e indignar-se, mas sempre
mantendo a pose do mercador honesto e trabalhador cuja existncia
 consagrada ao dever Acontece, porm, que se desloca por todo O
Egito, vai de cidade em cidade, e convive com um grande nmero de
pessoas; haver mtodo melhor para observar o que se passa no nosso
pas, a fim de transmitir informaes exatas ao inimigo?
- Raia dormia com Nenofar - continuou Serramanna - e
ele pagou-lhe para mentir Acreditou que ela se calaria, e foi a que
se enganou. Ela quis chantage-lo, e ele a matou.
-Segundo o seu relatrio -constatou Ramss -o srio teria
estrangulado essa moa num recinto comercial que havia alugado. Por
que semelhante imprudncia
- O local no estava no nome dele - lembrou Ameni. -
Chegar ao proprietrio, que est fora de questo, e depois a Raia, no
foi fcil.
- Sem dvida que Raia pensou em matar o proprietrio -
acrescentou Serramanna - com medo de que ele revelasse o seu
202 RAMSS
nome, mas chegamos a tempo. Seno esse srio teria permanecido
nas trevas. Na minha opino, Raia no premeditou a morte de
Nenofar. Ao encontrar-se com ela naquele local discreto, num bairro
onde nngum o conhecia, no corria qualquer risco. Segundo ele,
um severo aviso bastaria para acalm-la. Mas a situao inverteu-se; a
mulher teve a idia delhe extorquir uma pequena fortuna para no
falar. Seno, ameaava revelar tudo s autoridades. Raia matou-a e
fugiu, sem ter tido tempo de esconder o corpo noutro lugar; mas
forjou um libi, graas aos seus cmplices srios.
-Se estamos na iminncia de um conllito direto com os hititas
-disse Ramss -a presena de uma rede de espionagem no nosso
territrio  uma pesada desvantagem para ns. A sua reconstituio
dos fatos  convincente, mas o mais importante  saber como Raia
transmite as suas mensagens aos hittas.
- LIm bom interrogatrio. . . - sugeriu Serramanna.
- LIm espio no falar.
- O que sugere Vossa Majestade? - perguntou o escriba.
-lnterrogue-o de novo e depois deixe-o ir. Tente convenc-lo
de que no lhe ficamos com nenhuma suspeita.
- Ele no se deixar enganar!
-Claro que no -reconheceu o rei. -Mas ao sentir o cerco
fechar-se sobre ele, ser obrigado a comunicar-se com o Hatti. Quero
saber como o faz.
33
Naquele fim do ms de novembro iniciava-se a
estao durante a qual os cereais comeavam a brotar da terra. Os
gros semeados proclamavam a sua vitria sobre as trevas e ofereciam
ao povo egpcio a vida que transportavam dentro de si.
Ramss ajudou Homero a descer da cadeira de carregadores e
a sentar-se numa poltrona, de frente para uma mesa cheia de manti-
mentos,  sombra das palmeiras, na margem do canal. No longe dali,
um trecho raso permitia a passagem dos rebanhos. O suave sol dos


primeiros dias de inverno acariciava a cabea do velho peta.
- Este almoo no campo o agrada? - perguntou o rei.
- Os deuses concederam grandes favores ao Egito.
- O Fara nolhes constri templos onde so venerados?
- Esta terra  um mistrio, Majestade, e o prprio fara  um
mistrio tambm. A calma, a doura de viver, a beleza das palmeiras,
a transparncia do ar luminoso, o gosto delicioso dos alimentos...
H algo de sobrenatural em tudo aqui. Vocs, os egpcios, criaram um
milagre e vivem em magia. Mas por quantos sculos ela ainda durar?
- Durar enquanto a Regra de Mat for o nosso valor essencial.
- Est esquecendo o mundo exterior, Ramss; ele est pouco se
importando para essa Regra. Julga que Mat deter o exrcito hitita?
- Ser o nosso melhor baluarte contra o adversrio.
- Contemplei a guerra com os meus olhos, e vi a crueldade dos
homens, a fw-ia desencadear-se, a loucura assassina apoderando-se de
seres que pareciam ponderados. A guerra.. . Ela  o vcio oculto no
sangue do homem, a tara que destruir todas as formas de civilizao. E
o Egito no ser exceo a essa regra.
204 RAMSS
- Engana-se, Fiomero. O nosso pas  um milagre, voc tem
razo, mas um milagre que construmos todos os dias. E quebrarei a
invaso, venha de onde vier.
O poeta fechou os olhos.
- J no estou no exilio, Majestade. Nunca esquecerei a Grca,
com sua rudeza e seu encanto, mas  aqui, nesta terra negra e frtil, que
o meu esprito se comunica com o cu. LIm cu que a guerra va rasgar
-- Por que esse pessimismo?
- Os hititas s sonham com conquistas; oombater  a sua razo
de existir, tal como era a de numerosos gregos empenhados em matar se
uns aos outros. A sua recente vitria no os far desistir
- O meu exrcito est pronto para combater
- Sois semelhante a um grande felino, Majestade; foi pensando
em vs que compus estes versos: Uma pantera que enfrenta um caador
no treme, antes mantm o corao calmo, mesmo quando ouve os bramidos
de uma matilha de ces; ainda que ferida por uma lona, continua a lutar e
atacn para viver ou morrer.
Nefertari releu a espantosa missiva que Chenar lhe Fzera chegar
s mos. Mensageiros a cavalo tinham-na trazido do Hatti at a Sria
do Sul, substitudos por outros at o Egito, onde fora entregue ao
ministro dos Negcios Estrangeiros.
 minha irm, a muito querida ranha do Eaito, Nefertati. Eu, Putu-
hepa, esposa de Hattusil, irmo do imperador dos hititas, dirijo-lhe pensa-
mentos amiSveis. Estamos lonae uma da outra, os nossos pases e os nossos
povos so muito diferentes, mas no aspiraro a uma mesma paz? Se voc e eu
conseSussemos fazer avanar o bom entendimento entre os nossos povos, no
teremos cumprido uma boa ao? De minha parte, dedicar me-ei a isso. Posso
suplicar d minha venervel irm que aja da mesma forma?
Receber uma carta escrita pela sua mo seria um prazer e uma honra.
Que os deuses a protejam.
A Batalha de Kadesh 205
- O que significa esta curiosa mensagem? - perguntou a
rainha a Ramss.
-A forma dos dois selos de lama seca e a escrita no deixam
qualquer dvida sobre a autenticidade da carta.
- Devo responder a Putuhepa?
- No  rainha, mas deve ser considerada como a primeira
dama do imprio hitita desde a morte da esposa de Muwattali.
- O seu marido, Hattusil, ser o futuro imperador?
- A preferncia de Muwattali vai para o filho, LIri-Techup,
partidrio encarniado da guerra contra o Egito.
- Ento esta missiva no faz sentido.
-Revela a existncia de uma outra tendncia, encorajada pela
casta dos sacerdotes e dos mercadores, cujo poder financeiro no
pode ser negligenciado, segundo Acha. Eles receiam um conflito, que
reduziria, e muito, o seu volume de negcios.
-A sua influncia  suficiente para evitar o confronto?
- Com certeza que no.
- Se Putuhepa  sincera, por que no hei de ajud-la? Existe
ainda uma vaga esperana de evitar milhares de mortes.
Nervoso, o mercador srio Raia tateou a barbicha.


- Verificamos o seu libi - declarou Ameni.
-Tanto melhor!
- Tanto melhor para voc, realmente; os seus empregados
onfirmaram o que havia dito.
- Disse a verdade e no tenho nada a esconder
Ameni no parava de brincar com um pincel.
- Devo confessar. .. que talvez nos tenhamos enganado a seu
respeito.
- Finalmente, a voz da razo!
- Voc h de concordar que as circunstncias apontavam em
sua direo. No entanto, apresento-lhe as minhas desculpas.
-A justia egpeia no  uma palavra intil.
- Todos nos congratulamos com isso.
- Sou livre para ir aonde quiser?
206 RAMSS
- Pode retomar o seu trabatho em plena liberdade.
- Estou lvre de qualquer acusao?
- Est, Raia.
- Aprecio a sua honestidade e espero que encontre o mais
rpido possvel o assassino dessa pobre moa.
Distrado, Raia fingiu ocupar-se das notas de entrega e andou
de um lado para outro do cais, entre o armazm e o barco.
A comda desempenhada por Amen no o iludra nem por um
momento. O secretrio particular de Ramss era por demais persistente
para targar uma presa to depressa, fazendo f apenas no testemunho de
dois srios. Recusando-se a usar de violncia, o escriba preparava-lhe
uma armadilha: esperava que Raia,julgando-se ilibado, retomasse as suas
atvdades ocultas e conduzsse Serramanna at os membros da sua rede.
Pensando bem, a situao era muito mais grave do que havia
imaginado. Por mais que disfarasse, a sua rede parecia condenada.
Ameni concluiria rapidamente que quase todos os seus empregados
trabathavam para o Hatti, formando assim um verdadeiro exrcito
das sombras, de uma eficca terrvel. Llma onda de prses acabaria
por destru-la.
Engan-lo e contnuar tratando dos seus negcios como era de
hbito... Esta soluo, provisria, no o levaria longe.
Precsava avsar Chenar o mais rapidamente possvel, sem atrair-
lhe a menor suspeita.
Raia entregou vasos preciosos a diversos notveis de Pi-Ramss.
Chenar, comprador regular, figurava na lsta. O sro drgu-se, portanto,
 villa do irmo mais velho do rei e encontrou o seu intendente.
- O senhor Chenar est ausente.
-Ah... Voltar logo?
- No sei.
- Infelizmente no estou com tempo para esperar por ele,
porque tenho que partir para Mnfis. Alguns incdentes, nos ltmos
A Batalha de Kadesh 207
dias, atrasaram-me muito. Quer ter a bondade de entregar este objeto
ao senhor Chenar?
-Claro que sim. '
-Cumprimente-o por mim, suplico-lhe. Ah, quase me esque-
ci. O preo desta pequena obra-prma  bastante elevado, mas a
qualidade o justifica. Resolveremos esse probleminha quando eu
voltar
>,
Raia foi visitar trs outros clientes regulares antes de retornar
ao seu barco e rumar para Mnfis.
A deciso estava tomada: considerando a urgncia, precisava
comunicar-se com seu chefe e pedir-lhe conselho, depois de ter
despistado os homens de Serramanna que o andavam vigiando.
O escriba do Ministrio dos Negcios Estrangeiros encarregado
da redao das comunicaes, esquecendo a peruca e a dignidade do
seu ofcio, correu at o gabinete de Chenar sob o olhar de censura de
seus colegas. No era o autocontrole a principal qualidade de um
letrado?
Chenar estava ausente.
Terrvel dilema... Esperar o regresso do ministro ou saltar-lhe
o degrau hierrquico e levar a missiva ao rei? Apesar de uma
provvel reprimenda, o alto funcionrio optou pela segunda so-
luo.


Boquiabertos, os colegas virarxi-no deixar o ministrio durante
as horas de servio, sempre sem peruca, e saltar para o seu carro
oficial, que o faria chegar ao palcio em poucos minutos.
Ameni recebeu o funcionrio e compreendeu a sua perturbao.
A carta, transmitida pelos servios diplomticos da Siria do Sul,
trazia os selos de Muwattali, o imperador dos hititas.
-Como o meu ministro estava ausente, julguei por bem...
- Fez bem. No receie pela sua carreira: o rei apreciar seu
esprito de iniciativa.
Ameni sopesou a mssiva, uma tabuazinha de madera envolvida
num tecido marcado com vrios selos de lama seca, cobertos de
caracteres hititas.
208 RAMSS
O escriba fechou os olhos, esperando tratar-se de um pesadelo.
Quando os reabriu, a mensagem no havia desaparecido e continuava
a queimar-lhe os dedos.
Com a garganta seca, percorreu em passo muito Iento a distncia
que o separava do gabinete de Ramss. Depois de passar o dia na
companhia de seu ministro da Agricultura e dos responsveis pela
irrigao, o rei estava s e preparava um decreto visando melhorar a
manuteno dos diques.
- Parece perturbado, Ameni.
As mos estendidas do escriba apresentaram a missiva oficial do
imperador do Hatt endereada ao fara.
-A declarao de guerra -murmurou Ramss.
;i
;l
34
Sem pressa, Ramss quebrou os selos, rasgou o
tecido protetor e percorreu a mensagem com os olhos.
De novo Ameni fechou os olhos, saboreando os ltimos segun-
dos de paz antes do inferno, antes de o fara lhe ditar a resposta que
marcaria a entrada do Egito na guerra contra os hititas.
- Continua sbrio como sempre, Ameni?
A pergunta surpreendeu o escriba.
- Eu, sbrio? Sim, com certeza.
-  pena, pois teramos bebido juntos um vinho excepeional.
Leia.
Ameni decifrou a tabuaznha.
Do imperador do Hatti, Muwattali, ao seu irmo Ramss, o Filho da
Luz, o fara do ESito.
Como tem passado? Espero que a sua me Touya, a sua esposa Nefertari
e os seus filhos estejam bem. A sua fama e a da arande esposa real no cessam
de aumentar, e a sua valentia  conhecida por todos os habitantes do Hatti.
Como vo os seus cavalos? Aqui, temos muito cuidado com os nossos. So
animais esplndidos, os mais belos da criao.
Que os deuses protejam o Hatti e o Egito.
LIm amplo sorriso iluminou o rosto de Ameni.
- . . .  maravilhoso.
- No me convenceu.
210 RAMSS
- So as frmulas diplomticas habituais e estamos bem longe
de uma declarao de guerra!
- S Acha poder nos dizer.
- No tem confiana nenhuma em Muwattali. . .
- Ele baseou o seu poder na aliana da violncia com a astcia;
i
a seus olhos, a diplomacia no passa de uma arma suplementar e no
um caminho para a paz.
- E se estvesse cansado da guerra? A reconqusta de Cana e
Amurru por voc demonstrou-lhe que precisava levar o exrcito
egpcio a srio!
- Muwattali no despreza as nossas foras;  por isso que se
I prepara para o conflito e tenta acalmar os nossos receios com algumas
demonstraes de amizade. Homero, cujo olhar chega longe, no
acredita numa paz duradoura.
- E se eIe se enganasse, se Muwattali tivesse mudado, se o cl
dos mercadores dominasse o dos guerreiros? A carta de Putuhepa
orienta-se nesse sentido.
-A economia do imprio hitita  toda feita com base na guerra,


e a alma do seu povo ama a violncia. Os mercadores apoiaro os
,
militares e no caso de um grande conflito aproveitaro a ocasio para
, ,
obter novos lucros.
'' . - O confronto parece-lhe ento inevitvel?
- Espero estar enganado. Se Acha no descobrir grandes mano-
bras, nem rearmamento, nem mobilizao geral, voltarei a ter esperana.
Ameni sentiu-se perturbado; uma idia louca atravessou-lhe a
mente.

- A misso oficial de Acha consiste em reorganizar o sistema
de defesa dos nossos protetorados; para obter as informaes que
deseja no ter que... penetrar em territrio hitita?
', - Exato - reconheceu Ramss.
-  uma loucura! Se ele for apanhado...
-Acha estava livre para aceitar ou recusar.
i'
- Ele  nosso amigo, Ramss, nosso amigo de infncia, e  to
i
fiel a voc quanto eu prprio, ele..
;.
- Eu sei, Ameni, e aprecio devidamente a sua coragem.
A Batalha de Kadesh 21 1
- No tem chance de regressar vivol Mesmo que consiga
transmitir algumas mensagens, acabar sendo capturado.
Pela primeira vez, o escriba experimentou ressentimento em
relao a Ramss. Privilegiando o superior interesse do Egito, o fara
no cometia qualquer falta, mas sacrificava um amigo, uma pessoa de
elite, um homem que mereceria viver cento e dez anos, como os
sbios.
-Tenho que ditar uma resposta, Ameni. Sosseguemos o nosso
irmo, o imperador do Hatti, sobre o estado de sade dos meus
familiares e dos meus cavalos.
Saboreando uma ma, Chenar olhava o vaso que o intendente
colocara  sua frente.
- Foi mesmo o prprio mercador Raia quem lhe entregou?
- Sim, senhor
- Repita-me o que ele disse.
- Fez referncia ao preo elevado dessa obra-prima, mas
afirmou que resolver esse probleminha quando voltar  capital.
- D-me outra ma e que ningum me incomode.
- O senhor marcou para receber uma jovem. . .
- Mande-a embora.
Chenar continuava com os olhos fixos no vaso.
Llma cpia.
LIma cpia malfeita e feia que no valia sequer um par de
medocres sandlias. At uma simples burguesa de provncia teria
hesitado em exp-la na sua sala de recepes.
A mensagem de Raia era clara. O espio fora desmascarado e
no voltaria a entrar em contato com Chenar Caa por terra uma boa
parte da estratgia do irmo mais velho de Ramss. Como continuaria
suas manobras, privado de contato com os hititas?
Dois elementos, porm, lhe deram confiana.
Em primeiro lugar, os hititas no desistiriam, num perodo to
crucial, de manter uma rede de espionagem em solo egpcio;  evi-
dente que substituiriam Raia, e seu sucessor entraria em contato com
Chenar
212 RAMSS
			Depois, havia a posio privilegiada de Acha. Desorganizando O
		sistema de defesa dos protetorados, no deixaria de estabelecer laos
		com os hititas e de avisar Chenar desse fato.
	!		Restava, agora, o mago Ofir, cujas tcnicas de feitiaria talvez se
	'	revelassem eficazes.
	; ..		Analisando bem a situao, a desgraa de Raia no lhe cortaria as
		pernas. O espio srio haveria de se desvencilhar daquele mau passo.
	Ltma Iuz ocre e quente banhava os templos de P-Ramss.
	Depois de haverem celebrado os rituais do poente, Ramss e Nefer-
	tari reuniram-se diante do templo de Amon, cuja construo conti-
	nuava em andamento. Todos os dias a capital se embelezava mais,


	parecendo dedicada  paz e  felicidade.
	O casal real passeou no jardim plantado defronte ao santurio;
	por entre os macios de loendros cresciam persias, sicmoros e
	jujuberas. Os jardineros regavam as rvores jovens, s quas drgam
	palavras ternas; todos sabiam que as plantas apreciavam essas mensa-
	gens, assim como a gua as alimentava.
	- O que pensa das cartas que acabamos de receber?
-No me do confiana -respondeu Nefertari. -Os hititas
procuram deslumbrar~nos com a miragem de uma trgua.
- Esperava uma opinio mais reconfortante.
- Engan-lo seria trair o nosso amor. Devo oferecer-lhe a
minha viso, mesmo que tenha as cores induetantes de um cu
tempestuoso.
- Como imaginar uma guerra onde tantos jovens perdero a
vida, quando saboreamos a beleza deste jardim?
- No temos o direito de nos refugiarmos neste paraso e
esquecermos a tempestade que ameaa aniquil-lo.
- Ser o meu exrcito capaz de resistir aos ataques de hititas?
O que temos so veteranos que s pensam na reforma, soldados muto
jovens e inexperientes, e uns tantos mercenrios unicamente preo-
cupados com o seu soldo... Como v, o inimigo conhece as nossas
fraquezas.
- E ns no sabemos as dele?
A Batalha de Kadesh 213
- Os nossos servios de informao esto mal organizados;
sero necessrios anos de esforos para torn-los eficazes. Acredita-
mos que Muwattali respeitaria a fronteira imposta por meu pai ; 
quando chegara s portas de Kadesh; mas, tal como os seus prede-
cessores, esse imperador sonha com expanso e no existe presa mais
bela do 9ue o Egito.
-Acha enviou-lhe algum relatrio?
;
- At o momento estou sem notcias.
- Receia pela vida dele, no?
- Confiei-lhe uma misso perigosa que o obrigar a penetrar
no territrio inimigo para recolher o mximo de informaes. Ameni
no me perdoa.
- Quem teve essa idia?
- Nunca lhe mentiria, Nefertari; fui eu, e no Acha.
- Ele poderia ter recusado.
- Recusa-se uma proposta do Fara?
- Acha tem personalidade forte, capaz de escolher o seu destino.
- Se falhar, serei responsvel pela sua captura e sua morte.
- Acha vive para o Egito tal qual voc. Ao partir para o Hatti,
levou a esperana de salvar o nosso pas da catstrofe.
- Falamos desse ideal uma noite inteira; se ele me enviar
informaes importantes sobre as foras hititas e a sua estratgia,
talvez consigamos repelir os invasores.
- E se voc atacasse primeiro?
-Tenho pensado nisso. .. Mas primeiro devo deixar Acha fazer
o seu trabalho.
- As cartas que recebemos provam que os hititas procuram
ganhar tempo, sem dvida por causa de divergncias internas. No
devemos deixar passar o momento certo.
Com a sua voz musical e doce, Nefertari exprimia o rigor e a
vontade inflexvel de uma rainha do Egito. Tal como Touya fizera ao
lado de Sethi, ela moldava a alma real e alimentava-lhe a fora.
- Tenho pensado muito em Moiss. Como reagiria ele hoje,
quando a prpria existncia das Duas Terras est ameaada? Apesar
das estranhas idias que o dominavam, estou convencido de que
lutaria ao nosso lado para salvar o pas dos faras.
214 RAMSS
O sol pusera-se; Nefertari teve um arrepio.
- Sinto falta do meu velho xale, que me aquecia to beml
35
A terra de Madi, situada ao leste do golfo de A aba
q
e ao sul do de Edom, contentava-se com uma existncia serena e
recatada, acolhendo por vezes nmades que percorriam a pennsula
do Sinai. O povo de Madi, confinado  sua condio de pastor,


mantinha-se  parte dos combates que opunham a ele as tribos rabes
da terra de Moab.
m velho sacerdote, pai de sete filhas, reinava sobre a pequena
comunidade dos madianitas, que nunca se queixavam de sua pobreza
nem dos rigores do clima.
O velho tratava da pata de uma ovelha, quando um rudo inslito
lhe aguou os ouvidos.
Cavalosl
Cavalos e carros em grande velocidade.
ma patrulha do exrcito egpcio.. . Entretanto, nunca vinham
a Madi, cujos habitantes no possuam qualquer arma nem sabiam
combater Devido  sua pobreza, no pagavam impostos, e a guarda
do deserto sabia que no poderiam arriscar a pele abrigando ladres
bedunos, sob pena de verem o seu osis destrudo e de serem con-
denados  deportao.
Quando os carros egpcios entraram no acampamento, homens,
mulheres e crianas refugiaram-se nas suas tendas de tecido grosseiro.
O velho sacerdote ergueu-se e enfrentou os que chegavam.
O chefe da patrulha era um oficial jovem e arrogante.
- Quem  voc?
- O sacerdote de Madi.
--  o chefe deste monto de piolhentos?
216 RAMSS
- Com muita honra.
-Do que vivem vocs aqui?
- Da criao de carneiros, do consumo de tmaras e da gua
do nosso poo. As nossas hortas fornecem-nos alguns legumes.
- Possuem armas?
- No  nosso costume.
- Recebi ordem de revistar as suas tendas.
- Esto abertas, nada temos a esconder.
- Dizem que do asilo a criminosos bedunos.
- Seramos assim to loucos a ponto de desencadear a clera
do Fara? Mesmo sendo este lugar pobre e esquecido,  o nosso
pedao de terra, e estamos ligados a ele. Violar a lei seria a nossa perda.
- Voc  sbio, velho, mas mesmo assim procederei  revista.
-Repito que as nossas tendas esto abertas. Antes, aceita com-
partilhar de uma modesta festa? Uma das minhas filhas acaba de dar
 luz um menino. Comeremos cordeiro e beberemos vinho de palma.
O oficial egpcio ficou pouco  vontade.
- No  muito regulamentar. . .
- Enquanto os soldados cumprem o seu dever, venha sentar-se
perto do fogo.
Assustados, os madianitas reuniram-se em redor do velho sacer-
dote, que os acalmou elhes pediu para facilitarem a tareFa dos
soldados.
O chefe da patrulha aceitou sentar-se e partilhar da refeio
fstiva. A me ainda estava de cama, mas o pai, um barbudo com o
rosto queimado de sol, dobrado sobre s mesmo, segurava a crana
nos braos e a embalava.
-Um pastor que receava no poder ser pai -explicou o veiho
sacerdote. - Esta criana ser a luz da sua velhice.
Os soldados no descobriram armas nem bedunos.
-Continue fazendo respeitar a lei -recomendou o oflcial ao
sacerdote de Madi -e o seu povo no ter aborrecimentos.
Carros e cavalos foram distanciando-se no deserto.
Quando a nuvem de p se dissipou, o pai do recm-nascdo
ergueu-se. O oticial teria se surpreendido ao ver um pastor tranilo
transformar-se num colosso de ombros largos.
A Batalha de Kadesh 217
- Estamos salvos, Moiss -disse o velho sacerdote ao genro.
- No voltaro.
,
Na margem ocidental de Tebas, arquitetos, talhadores de pe-
dra e escultores no poupavam esforos para construir o Ramesseum,
o templo de milhes de anos do Filho da Luz. Em aplicao da
Regra, a construo comeara pelo naos, onde residia o deus oculto
cuja forma os humanos jamais conheceriam. Enorme quantidade de
grandes blocos de argila, granito cinzento e basalto estava armazenada ''
no canteiro de obras, gerido por uma organizao rigorosa. J se


elevavam as paredes das salas de colunas, onde j estava sendo erigido
o futuro palcio real. Tal como Rannss exigira, o seu templo seria um
fabuloso monumento que atravessaria os sculos. Ali seria honrada a
memria do seu pai, seriam celebradas sua me e sua esposa, e, por
fim, seria transmitida a energia invisvel, sem a qual era impossvel o
exerccio de um poder justo.
Nebu, o grande sacerdote de Karnak, era todo sorrisos. O velho,
fatigado e padecendo de reumatismo, recebera o encargo de admi-
nistrar o mais vasto e o mais rico dos santurios egpcios, e todos
haviam considerado a escolha de Ramss cnica e estratgica; prximo
da senilidade, Nebu no passaria de um fantoche, rapidamente
substitudo por outro homem do monarca, igualmente idoso e servil.
Ningum previra que Nebu envelhecesse como o granto. Calvo,
deslocando-se com lentdo, seco em palavras, governava sem parti-
lhas. Fiel ao seu rei, no pensava, como alguns dos seus predecessores,
em fazer uma poltica partidria. Servir Ramss era a sua cura de
juventude.
Mas hoje Nebu esquecia o imenso templo, o seu numeroso
;;
pessoal, a sua hierarquia, as suas terras e as suas aldeias para se curvar
sobre uma pequena rvore, a accia que Ramss plantara no local do
templo de milhes de anos, no segundo ano de seu reinado. O grande
sacerdote de Karnak prometera ao monarca velar pelo crescimento
daquela rvore, cujo vigor era impressionante. Beneficiando-se com
 magia do lugar, elevava-se para o cu muito mais depressa do que
as suas similares.
218 RAMSS
- Est satisfeito com a minha accia, Nebu?
O grande sacerdote voltou-se lentamente.
- Majestade. . . No me avisaram da sua vindal
- No repreenda ningum, porque a minha viagem no foi
anunciada pelo palcio. Esta rvore est magnfica.
- Creio nunca ter visto coisa mais surpreendente; no teria
Vossa Majestade lhe comuncado o seu vigor? Tive o privilg'io de
proteg-la na infncia, Vossa Majestade a contemplar adulta.
- Desejava rever Tebas, o meu templo de milhes de anos, o
meu tmuto e esta accia, antes de penetrar na tempestade.
i
-A guerra  inevitvel, Majestade2
i ' - Os hititas tentam convencer-nos do contrrio, mas quem
' pode acreditar nas suas declaraes pacficas?
-Aqui est tudo em ordem. As riquezas de Karnak so suas, e
fiz prosperar os domfnos que me confiou.
;
- Como vai a sua sade?
;
- Enquanto os canais do corao no ficarem entupidos, a
minha funo ser desempenhada. No entanto, se Vossa Majestade
''  veio com a inteno de me substituir, no ficarei aborrecida. Habitar
perto do Iago sagrado e meditar sobre o vo das andorinhas so a
minha maior ambio.
-Arriscando-me a entristec-lo, no vejo por que modificar a
" atual herarquia.
-As minhas pernas recusam-se, as orelhas tapam-se, os ossos
doem-me..
- Mas o seu pensamento continua vivo como o vo do falco
e preciso como o do bis. Continue a trabalhar assim, Nebu, e a velar
por esta accia. Se eu no voltar, ser voc o seu tutor.
-Voltar. Vossa Majestade haver de voltar
Ramss visitou o canteiro de obras, recordando-se da sua estada
entre os talhadores de pedra e os carreiros. O fara construa o Egito
dia aps dia, eles rnnstruam os templos e as moradas da eterrudade
I sem as quais as Duas Terras teriam mergulhado na anarquia e na
baixeza inererites  espcie humana. Venerar o poder da luz e respeitar
a Regra de Mat era ensinar ao homem a retido, tentar desvi-lo do
seu egosmo e da sua vaidade.
A Batalha de Kadesh 219
O sonho do monarca tornava-se realidade. O templo de mlhes
de anos ganhava corpo, aquele formidvel produtor de energia mgica
comeava a funcionar por si prprio, pela simples presena dos


hierglifos e das cenas gravadas nas paredes do santurio. Percorren-
do as salas cujo traado estava delimtado, recolhendo-se nas futuras
capelas, Ramss bebeu a fora do ko, nascida do casamento entre o
cu e a terra. Assimilou-a, no para ele prprio, mas para ser capaz
de enfrentar as trevas das quas os htitas queriam recobrir o solo
amado dos deuses.
Ramss sentiu-se portador de todas as dinastias, de toda a
linhagem de faras que modelara o Egito  imagem do cosmos.
Por um instante, o jovem soberano de vinte e sete anos vacilou; o
passado, contudo, tornou-se uma fora, no um fardo. No seu templo
de milhes de anos, seus predecessores traaram-lhe o caminho.
Raia entregou vasos aos notveis de Mnfis. Se os seus persegui-
dores interrogassem seus empregados, estes ficariam sabendo que o
mercador srio tinha inteno de continuar satisfazendo a sua clientela
e permanecendo fornecedor exclusivo das fami ias nobres. Conti-
nuou, portanto, com o seu processo habitual de vendas, feito de
contatos diretos, de regateios e de lisonjas.
Depois, partiu para o grande harm de Mer-LIr, onde no ia h
mais de dois anos, certo de que essa visita deixara perplexos os
guardas de Amen e de Serramanna. Julgariam que o espio tinha
cmplices nessa nobre e antiga instituio, e perderiam tempo e
energia explorando essa falsa pista.
Raia ofereceu-lhes ainda outra, dormndo numa pequena aldeia,
prxima do harm, onde conversou com camponeses que no conhe-
eia. Outros cmplices, com toda certeza, do ponto de vista dos
investigadores egpcios.
Abandonando seus perseguidores  sua perplexidade, o merca-
dor regressou a Mnfis para vigiar as condies de transporte de vrios : I
carregamentos de conservas de luxo, alguns destinados a Pi-Ramss,
outros a Tebas.
t:..:
220 RAMSS
J
Serramanna esbravejava.
' i - Esse espio est caoando de nos! Sabe que o estamos
seguindo e diverte-se conosco.
- Acalme-se - recomendou Ameni. - Ele h de cometer
i
 um erro, no tenha dvida.
 i - Que tipo de erro?
- As mensagens que recebe do Hatti so disfaradas nas
conservas ou nos vasos preciosos. Aposto mais nestes ltimos, visto
que so provenientes, em grande parte, da Sria do Sul e da sia.
- Pois bem, vamos examin-los!
- Seria uma perda de tempo. O importante  que sabemos
como ele envia as mensagens e a rede que utiliza. Considerando a
situao atual, ser obrigado a avisar os hititas de que no pode
continuar a sua atividade. Esperemos o momento em que fizer um
envio de quaisquer objetos destinados  Sria.
- Tenho outra idia - confessou Serramanna.
- Legal, espero.
- Se no fizer espalhafato e lhe proporcionar a oportundade
de prender Raia com toda a legalidade, permite-me que aja?
Ameni triturou o seu pincel de escriba.
- De quanto tempo precisa?
-Amanh j terei terminado.
36
Celebrava-se em Bubastis a festa da embriaguez.
Durante uma semana, moas e rapazes saboreariam as primeiras
delcias do amor sob o olhar benevolente da deusa-gata Bastet,
encarnao da doura de viver. Torneios de luta no campo permitiam
aos rapazes mostrarem a sua fora e seduzirem as belas espectadoras
por meio do seu entusiasmo na luta.
Os empregados de Raia tinham direito a dois dias de folga. O
chefe dos armazns, um srio magro e curvado, aferrolhara a porta
do armazm que guardava cerca de dez vasos de valor mdio. No lhe
desagradava misturar-se com a multido e tentar a sua sorte junto a
alguma mulherzinha amvel, mesmo que j estivesse com uma certa
idade. Raia era um patro severo e havia de aproveitar qualquer
ocasio para se distrair.


Com gua na boca, imaginando o prazer que sentiria, o encar-
regado do armazm, cantarolando, meteu-se pela ruela que conduzia
a uma pequena praa onde se reuniam os candidatos  diverso.
De repente, um punho enorme agarrou-o pelos cabelos e
puxou-o para trs; a mo que lhe caiu sobre os lbios abafou o seu
grito de dor.
- Fique quieto - ordenou Serramanna - ou o estrangulo.
Aterrorizado, o srio deixou-se conduzir para um alpendre onde
estavam amontoados artigos de vimes.
-H quanto tempo trabalha para Raia? -perguntou o sardo.
- Quatro anos.
- Paga-lhe um bom salrio?
-  um tanto unha-de-fome.
222 RAMSS
-Tem medo dele?

I - Mais ou menos. . .
- Raia vai ser preso - afirmou Serramanna - e ser conde-
nado  morte por fazer espionagem para os hititas. Os seus cmplices
' sofrero o mesmo castigo.
- Sou apenas um empregado!
- Mentir  falta grave.
- Estou empregado como gerente de armazm, no como
espio.
- Fez mal em mentir afirmando que ele estava aqui, em
Bubastis, quando na verdade ele cometa um assassinato em P:-
I
Ramss.
- LIm assassinato?... No, no  possvel, . . Eu no sabial
- Pois agora j sabe. Mantm ainda a sua afirmao?
- No. . . Sim, seno ele se vingarl
- Voc no me dexa opo, amigo: se contnuar mentndo,
esmago-lhe a cabea de encontro  parede.
- No se atreverl
- J matei dezenas de covardes iguais a voc.
- Raia. . . Vai vingar-se. . .
- Nunca mais voltar a v-lo.
- Com certeza?
- Absoluta.
- Ento, est bem. . . Pagou-me para dizer que estava aqui.
- Sabe escrever?
- No muito bem.
- Ento vamos juntos ao gabinete do escriba pblico, que
registrar a sua declarao. Depois, poder ir atrs das moas.
Os olhos verdes-vivo, os lbios perfeitamente pintados, graciosa,
viva e alegre, Iset a Bela, a me do pequeno Kha, nada perdera da sua
juventude. Naquela fresca manh de inverno, a jovem cobrira os
ombros com um xale de I.
Nos arredores de Tebas o vento soprava fortemente. No entanto,
Iset a Bela dirigia-se a um encontro marcado pelo contedo de uma
A Batalha de Kadesh 223
estranha carta: "A cabana de juncos. Procure a mesma de Mnfis, na
margem oeste, defronte ao templo de Luxor, na orla de um campo
de trigo."
Aquela letra... No podia enganar-se. Mas por que o curioso
convite e a recordao de um passado to ntimo?
Iset a Bela seguiu ao longo de um canal de irrigao, chegou ao
campo de trigo que o pr-do-sol dourava, e viu a cabana. Ao aproxi-
mar-se dela, um sopro de vento ergueu a bainha de sua saia, pren-
dendo-a num arbusto.
Ao baixar-se para no rasgar o tecido, uma mo libertou-a e
ergueu-a.
- Ramss. . .
-Continua to encantadora como sempre, Iset. Agradeo voc
ter vindo.
-A sua mensagem perturbou-me.
- Desejava v-la longe do palcio.
O rei fascinava-a.
O seu corpo de atleta, a nobreza de suas atitudes, a fora de seu
olhar despertaram nela o mesmo desejo de outrora. Nunca deixara


de am-lo, embora se considerasse incapaz de rivalizar com Nefertari.
A grande esposa real preenchera o corao de Ramss, renando sem
partilha. Iset a Bela no era ciumenta nem invejosa; aceitava o destino
e sentia-se orgulhosa por ter dado ao rei um filho cujas qualidades
excepeionais h muito se evidenciavam.
Sim, odiara Ramss quando este casara com Nefertari, mas esse
sentimento violento no passava de uma forma dolorosa de amor. Iset
rebelara-se contra a conspirao que havia ameaado o rei e  qual
pretenderam associ-la. Ela nunca trairia o homem que lhe dera tanta
felicidade, que iluminara seu corao e o seu corpo.
- Por que esta discrio... por que o recordar dos nossos
primeiros encontros numa cabana como esta?
-  Nefertari que assim o deseja.
- Nefertari. . . No compreendo.
- Ela exige que tenhamos um segundo filho para garantir a
continuao do reino, caso acontea alguma coisa a Kha.
Iset a Bela, vencida, caiu nos braos de Ramss.
224 RAMSS
- um sonho -murmurou -um sonho maravilhoso. Voc
no  o rei, eu no sou Iset, no estamos em Tebas, e no vamos fazer
amor para dar um irmo a Kha. Tudo no passa de um sonho, mas
quero vv-lo no mas profundo do meu ser e preserv-lo para sempre.
Ramss tirou a tnica e depositou-a no cho. Febril, Iset deixou
que ele a despisse.
A felicidade louca de um instante onde seu corpo geraria uma
criana para Ramss, a fulgurao de uma alegria que j no esperava.
No barco que o conduzia a Pi-Ramss, o rei, enclausurado em sua
solido, contemplava o Nilo. O rosto de Nefertari no lhe saa do
pensamento. Sim, o amor de Iset era sincero, e o seu encanto perma-
necia intacto, mas no nutria por ela aquele sentimento mperoso como
o sol e vasto como o deserto que invadira o seu ser desde o primeiro
encontro com Nefertari, aquele amor cuja intensidade continuava a
crescer com o correr dos dias. Assim como o Ramesseum e a capital
cresciam graas  ao incessante dos construtores, tambm a paixo
que Ramss sentia pela esposa no parava de aumentar e reforar-se.
O rei esquecera-se de confar a Iset as verdadeiras exgncas de
Nefertari: a rainha queria que Iset desempenhasse realmente as
funes de segunda esposa e desse vrios filhos ao monarca, cujos
poder e esmagadora personalidade podiam ultrapassar diversos po-
tenciais de sucesso. O Egito havia conhecido um grave precedente:
Ppi o Segundo, que morrera com mas de cem anos, sobrevivera aos
filhos e, por ocasio da sua morte, deixara o pas mergulhado num
vazio que se transformara em aguda crise. Se Ramss chegasse  ve-
Ihice, o que aconteceria ao reino se Kha ou Meritamon, por qualquer
razo, fossem incapazes delhe suceder?
Era impossvel a um fara levar a vda de um homem comum.
At mesmo os seus amores e famlia deviam servir para a perenidade
da instituio que encarnava.
Mas havia Nefertari, a maior entre as mulheres, e o amor
sublime que a mesma lhe oferecia. Ramss no queria trair a sua
funo nem dvidr o seu desejo com outra mulher, mesmo que
fosse Iset a Bela.
A Batalha de Kadesh 225
E foi o Nilo quelhe ofereceu a resposta, o Nilo cuja energia
fecundava as duas margens na altura da inundao, com uma genero-
sidade inesgotvel.
A corte estava reunida na sala de audincias de Pi-Ramss, e os
boatos corriam rapidamente. Ao contrrio do pai, Sethi, Ramss era
pouco apreciador daquele tipo de cerimnia; preferia o trabalho
frente a frente com os seus ministros a discusses estreis com uma
assemblia cujos membros limitavam-se apenas em enaltecer-se.
Quando o fara surgiu, segurando na mo direita um basto ao
qual estava enrolada uma corda, muitos contiveram por instantes a
respirao. Aquele smbolo indicava que Ramss iria lanar um
decreto que adquiriria imediatamente fora de lei. O basto simbo-
lizava o Verbo, e a corda, o lao, com a realidade que o rei faria nascer
ao anunciar os termos de uma deciso maduramente refletida.
A emoo e a angstia apoderaram-se da corte. Ningum tinha
dvidas: Ramss decretaria o estado de guerra com os hititas. Seria
enviado ao Hatti um embaixador para entregar ao imperador a


mensagem do Fara, definindo a data do incio do conflito.
- As palavras que eu pronuncio formam um decreto real -
declarou Ramss. - Ser gravado nas estelas, os arautos anunciaro
nas cidades e aldeias, todos os habitantes das Duas Terras sero in-
formados. A partir deste dia e at o meu ltimo suspiro, elevarei 
dignidade de "filho real" e "filha real" as crianas que forem educadas
na escola do palcio, as quais recebero o mesmo ensino que o meu
filho Kha e a minha filha Meritamon. O seu nmero  ilimitado, e
entre eles escolherei o meu sucessor, sem que este seja informado
antes do momento oportuno.
A corte ficou estupefata e encantada. Todos os pais e todas as
mes sentiram a secreta esperana de que seu filho fosse criado com
semelhante dignidade; sonhavam j em elogiar as qualidades dos
rebentos para influenciar a escolha de Ramss e Nefertari.
226 RAMSS
i Ramss envolveu num grande xale os ombros de Nefertari, que
I
estava se recuperando de um resfriado.
- proveniente do melhor ateli de Sas; a superiora do templo
teceu-o com as prprias mos.
O sorriso da rainha iluminou o cu encoberto do Delta.
- Gostaria muito de partir para o Sul, mas sei que  impossvel.
-Lamento, Nefertari, mas tenho que vigiar o treino das minhas
tropas.
s
- Iset lhe dar mais um filho, no  verdade?
- Os deuses decidiro.
-Assim ser. Quando tornar a v-la?
- No sei.
-Mas... 'Tinha-me prometido...
 - Acabo de lanar um decreto.
 - Que relao tem a ver com Iset?
-A sua vontade foi satisfeita: teremos mais de uma centena de
filhos e filhas, e a mnha sucesso estar assegurada.
3
-'renho a prova da mentra de Raia - afirmou
Serramanna, entusiasmado.
Ameni permaneceu mpassvel. ;
- Ouviu-me bem? '
- Sim, sim - respondeu o secretrio particular do rei.
O sardo compreendeu a razo da passividade de Ameni; outra
vez o escriba s havia dormido duas ou trs horas e por isso demorava
a acordar.
-Tenho aqui a declarao do encarregado do armazm de Raia
,
assinada e autentcada por testemunhas. O homem afirma claramente
que o seu patro, que no estava em Bubastis no dia do assassinato
de Nenofar, pagou-lhe para prestar falso testemunho.
-As minhas felicitaes, Serramanna; foi um timo trabalho.
O encarregado do armazm est... intacto?
- Quando saiu do seu gabinete, manifestava o ardente desejo
de participar da grande festa da cidade e de encontrar algumas
mulheres pouco recatadas.
- LIm belo trabalho, realmente. . .
- No est vendo? O libi de IZaia est destrudo e podemos
prend-lo para o interrogatrio!
-  impossvel.
- Impossvel? Quem se oporia. . .
- Raia escapou dos que o estavam seguindo e desapareceu
numa ruela de Mnfis.
228 RAMSS
Aps avisar Chenar e deix-lo fora de perigo, Raia precisava
sumir dali. Convencido de que Ameni examinaria tudo que enviasse
, com destno  Sria do Sul, mesmo que se tratasse de um pote de
conservas, no estava mais em condies de informar os hititas.
 Confiar uma mensagem a um dos membros da sua rede parecia-lhe
bastante arriscado; sabia o quanto era fcl trar um homem em fuga,
e ainda mais sendo procurado pela guarda do Fara! A nica soluo
! vivel, desde o momento em que haviam suspeitado dele, seria entrar
em contato com o chefe da rede, apesar da formal probo de


faz-lo.
Despistar os guardas que o seguiam constantemente no fora
nada fcil; graas ao deus da tempestade, que fizera cair sobre Mnfis
um forte temporal no final do dia, conseguira livrar-se dos imperti-
nentes, metendo-se por uma oficina onde havia duas sadas.
Passando pelos telhados, introduzira-se na moradia do chefe da
rede no auge da tempestade, no momento em que raios riscavam o
cu e fortes ventanias erguiam nuvens de p nas ruas desertas.
A casa estava mergulhada nas trevas e parecia abandonada. Raia
habituou-se  falta de claridade e aventurou-se com passos cautelosos
na sala de visitas, sem fazer o mnimo rudo. Ouviu ento um gemido.
Inquieto, o mercador avanou.
LIm outro queixume, exprimindo dor intensa, mas contida.
Mais  frente, um risco de luz por baixo de uma porta.
Teria sido o chefe da rede detido ou torturado? No, isso era
impossvel, pois s Raia o conhecia!...
A porta abriu-se, e a chama de uma tocha ofuscou o srio, que
recuou protegendo os olhos com as mos cruzadas.
- Raia. . . O que faz aqui?
- Perdoe-me, mas no tive outra opo.
Raia havia encontrado o chefe da rede apenas uma vez, na corte
de Muwattali, mas no o esquecera: alto, magro, mas do rosto
salientes, olhos verde-escuros e cara de ave de rapina.
A Batalha de Kadesh 229
De repente, Raia receou que Ofir o eliminasse naquele momen-
to, mas o lbio permaneceu com uma calma inquietante.
No laboratrio, a loura Lita continuava a gemer
-Estava preparando-a para uma experincia -afirmou Ofir,
fechando a porta.
A penumbra assustou Raia, mas no era ela o reino do mago
negro?
- Aqui estaremos em paz para falar Voc infringiu as ordens
que lhe foram dadas.
- Eu sei, mas ia ser preso pelos homens de Serramanna.
- Suponho que ainda esto na cidade.
- Sim, mas despistei-os.
- Se o seguiram, no tardaro a entrar por aquela porta. Nesse
caso, serei obrigado a mat-lo e afirmar que fui agredido por um
ladro.
Dolente, que dormia no mesmo andar sob o efeito de um
sonfero, concordaria com a verso de Ofir
- Conheo a minha profisso; no fui seguido.
- Esperemos que sim, Raia. O que aconteceu?
- LIma sucesso de desgraas.
- No tero sido antes uma srie de falhas?
O srio explicou tudo, sem omitir o menor detalhe. Perante Ofir,
era prefervel no disfarar, pois sabia que o mago tinha o poder de
ler seus pensamentos.
LIm longo silncio se seguiu s declaraes de Raia. Ofir refletia
antes de pronunciar o seu veredito.
- E verdade que no teve sorte, mas temos que admitir que a
sua rede est destruda.
- Os meus armazns, os meus vasos, a fortuna que juntei. .
- Vai recuper-la quando o Hatti tiver conquistado o Egito.
- Que os demnios da guerra o ouaml
- Duvida da nossa vitria finall
-Nem por um instante! O exrcito egpcio no est preparado.
Segundo minhas ltimas informaes, o seu programa de armamento
est atrasado, e os oficiais superiores receiam um confronto direto
com as foras hititas. Soldados medrosos j esto vencidosl
230 RAMSS
- Excesso de confiana pode conduzir  derrota - objetou
Ofir. -No devemos negligenciar nada que ajude a arrastar Ramss
para o abismo.
- Continuar manipulando Chenar?
- O Fara suspeita dele?
- Desconfia do irmo, mas no pode imaginar Chenar se
tornando nosso aliado. Como  possvel acreditar que um egpcio,
membro da famlia real e ministro dos Negcios Estrangeiros, traia o
seu pas? Na minha opinio, Chenar continua a ser, para ns, um peo


essencial. Quem me substituir?
- No tem que saber de nada.
- Ser obrgado a fazer um relatro a meu respeto, Ofir. . .
- Ser elogioso. Serviu fielmente o Hatti; o imperador levar
isso em conta e saber recompens-lo.
- Qual ser a minha nova misso?
- Enviarei um projeto a Muwattali e ele decidir.
-Esse partido atonano...  uma coisa sria?
- Estou pouco me importando para os partidrios de Aton,
bem como para os outros seguidores, pois so carneiros fceis de
conduzir para o matadouro. Como me vm comer  mo, por que
haveria de privar-me de sua credulidade?
-Essa mulher que est com voc...
-  uma iluminada e uma ignorante, mas uma excelente
mdium. Permite-me obter informaes preciosas que, sem a sua
ajuda, estariam fora do meu alcance. Com ela, tenho esperana de
enfraquecer as defesas de Ramss.
Ofir pensou em Moiss, um potencial aliado cuja fuga e desapa-
recimento lamentava. Interrogando Lita durante um transe, tivera a
certeza de que o hebreu continuava vivo.
- Posso ficar aqui alguns dias? - perguntou o srio. - Os
meus nervos foram submetidos a dura prova.
,
- E muito arriscado. U imediatamente para o porto, para o
extremo sul, e embarque no lancho que vai partir para Pi-Ramss.
Ofir deu ao srio as palavras de passe e os contatos necessrios
para sair do Egito, atravessar Cana e a Sria do Sul, e atingir a zona
de influncia hitita.
A Batalha de Kadesh 231
Logo a seguir  partida de Raia, ao verificar que Lita estava pro-
fundamente adormecida, o mago saiu da villa.
O persistente mau tempo convinha-lhe; passaria despercebido
e atingiria rapidamente o seu refgio, depois de ordenar ao substituto
de Raa para entrar em cena.
Chenar estava voraz. Embora racionalmente estivesse descansado,
precisava acalmar a sua angsta, comendo. Engolia uma codorniz assada,
quando o seu intendentelhe anunciou a visita de Meba, o ex-ministro
dos Negcios Estrangeiros de quem ocupara o lugar, fazendo-o crer que
Ramss era o nico responsvel pela sua demisso.
Meba era um desses altos funcionrios dignos e calmos, escribas
de pai para filho, habituados a mover-se nos meandros da admnis-
trao, a evitar as preocupaes cotidianas e a no se preocupar seno
com as promoes. Ao tornar-se ministro, Meba atingira uma poso
elevada, onde esperava ficar at a aposentadoria. Todavia, a interven-
o inopinada de Chenar, da qual ele nunca saberia nada, privara-o
do seu posto. Reduzido  inatividade, o diplomata retirara-se para a
sua vasta propriedade em Mnfis, contentando-se em aparecer, vez
ou outra, na corte de Pi-Ramss.
Chenar lavou as mos e a boca, perfumou-se e verificou o
penteado. Conhecia o requinte do seu visitante e no queria mostrar-
se inferior.
- Meu querido Meba! Que prazer rev-lo na captal... Uai
honrar-me com a sua presena na recepo que darei amanh  noite?
- Com prazer.
- Sei que o momento no  para alegrias, mas no podemos
deixar-nos cair na melancolia. O prprio rei no deseja modificar
nada nos hbitos do palcio.
De rosto largo e tranqilizador, Meba continuava a ser um
sedutor de gestos elegantes e voz insinuante.
- Est satisfeito com a sua funo, Chenar?
- No  fcil, mas executo-a o melhor que posso, para a
grandeza do pas.
- Conhece Raia, o mercador srio?
232
Chenar ficou tenso.
- Vende-me vasos preciosos, de notvel qualidade, e por um
preo bastante elevado.
- Nunca abordou outros assuntos durante as suas conversas2
-Aonde est querendo chegar, Meba?
- Nada tem a recear de mim, Chenar, pelo contrrio.
- Recear voc. . . o que quer dizer?
- Esperava o sucessor de Raia, no  verdade? Eis-me aqui.
- Voc, Meba. . .
-No consigo suportar a inatividade. Quando a rede hitita me
contactou, aproveitei a ocasio para me vingar de Ramss. No me
choca que o inimigo tenha escolhido voc para suced-lo, desde que
me d de volta o Ministrio dos Negcios Estrangeiros quando tomar
o poder.
O irmo mais velho do rei parecia perturbado.
- D-me a sua palavra, Chenar.
-Tem a minha palavra, Meba, eulhe prometo...
- Vou transmitir-lhe agora as diretivas de nossos amigos.
Quando tiver alguma mensagem para eles, fale comigo. Visto que fui
colocado desde hoje como adjunto, em lugar de Acha, teremos
ocasio de nos ver muitas vezes. Ningum desconfiar de mim.
38
Llma chuva gelada caa sobre Hattusa, a ca ital do
p
tmprio hitita. A temperatura tornava-se negativa, as pessoas quei-
mavam turfa e madeira para se aquecerem. Era a poca em que
morriam muitas crianas; os meninos sobreviventes seriam excelentes
soldados. Quanto s meninas, que no tinham direito a herana, no
havia para elas outra esperana seno a de um bom casamento.
Apesar da dureza do clima, LIri-Techup, filho do imperador e
novo general-chefe, havia endurecido o treino. Descontente com os
desempenhos fsicos dos soldados de infantaria, obrigou-os a andar
pela estrada durante muitas horas, carregados de armas e suprimen-
tos, como se partissem para uma longa campanha. Esgotados, vrios
#
homens haviam sucumbido. LIri-Techup abandonara-os na beira do
caminho, considerando que os incapazes no mereciam sepultura. Os
abutres se encarregariam de seus cadveres.
O filho do imperador no poupava mais as equipes dos carros,
instigando-as a levarem seus cavalos e veculos ao limite extremo de
sua resistncia. Numerosos acidentes fatais haviam-no convencido de
que alguns condutores no controlavam o material recente e tinham-
se deixado amolecer no decurso de um perodo de paz demasiado
longo.
Nenhum protesto se ouvia nas fileiras dos militares. Todos
pressentiam que Llri-Techup preparava as tropas para a guerra e que
a vitria dependeria do seu rigor Satisfeito com a sua popularidade
nascente, o general no esquecia que o chefe supremo do exrcito
continuava a ser Muwattali. Estar assim afastado da corte, dirigindo
as manobras nos cantos perdidos da Anatlia, apresentava um perigo;
234 RAMSS
por isso, Llri-Techup pagara a cortesos encarregados de lhe forne-
cerem o mximo de informaes sobre a atuao do pai e do tio,
Hattusil.
Ao saber que este partira para inspecionar os pases vizinhos,
submetidos  influncia hitita, LIri-Techup sentiu-se simultaneamen-
,:;
te espantado e tranqilo. Espantado porque o irmo do imperador
raramente saa da capital; tranqilo porque a sua ausncia o impedia
de destilar os seus prfidos conselhos em benefcio da casta dos
mercadores.
LIri-Techup detestava os comerciantes. Depois da sua vitria
sobre Ramss, expulsaria Muwattali, subiria ao trono do Hatti, man-
daria Hattusil definhar nas minas de sal e jogaria sua esposa Putuhepa,
arrogante e conspiradora, num bordel de provncia. Quanto aos
mercadores, seriam alistados no exrcito pela fora.
O futuro do Hatti estava traado: tornar-se uma ditadura militar
da qual ele, Llri-Techup, seria o senhor absoluto.
Atacar o imperador, cujo prestgio permanecia intacto depois
de vrios anos de um reinado hbil e cruel, teria sido prematuro;
apesar do seu carter impulsivo, LIri-Techup saberia mostrar-se pa-
ciente na espera do primeiro erro do pai. Ou Muwattali aceitava
abdicar, ou o filho o eliminaria.
Embrulhado num espesso manto de l, o imperador permanecia
perto de uma lareira cujo calor pouco o aquecia. Com a idade,
suportava cada vez com mais dificuldade os rigores do inverno, mas
nunca desistira de contemplar o espetculo grandioso que lhe pro-
porcionavam as montanhas cobertas de neve. s vezes sentia-se
tentado a renunciar  poltica de conquistas para se dedicar  explo-
rao das riquezas naturais do seu pas; a iluso, porm, dissipava-se
rapidamente porque a expanso era indispensvel  sobrevivncia do '
seu povo. Conquistar o Egito significava possuir uma cornucpia de
abundncia cujo governo confiaria, nos primeiros meses, ao irmo
mais velho de Ramss, o ambicioso Chenar, para acalmar a populao.
Depois, desembaraar-se-ia do traidor egpcio e imporia s Duas
A Batalha de Kadesh 235
Terras uma administrao hitita, que rapidamente sufocaria qualquer
tentativa de revolta.
Para ele, o principal perigo era o prprio filho, ri-Techup. O
imperador precisava dele para devolver s tropas o vigor e a comba-
tividade, mas tinha de impedi-lo de explorar em proveito prprio os
resultados de um triunfo. Guerreiro intrpido, LIri-Techup no tinha
sentimento de Estado e seria um deplorvel administrador
J Hattusil era diferente. Embora franzino e de sade frgil, o
irmo do imperador possua qualidades de governante e sabia per-
manecer na sombra, fazendo esquecer a sua real influncia. O que
desejaria verdadeiramente? Muwattali era incapaz de responder a esta
pergunta, o que fazia redobrar a sua desconfiana.
Hattusil apresentou-se diante do imperador.
- Fez uma viagem feliz, meu irmo?
- Os resultados esto  altura das nossas esperanas.
Hattusil espirrou diversas vezes.
- Est resfriado?
- Os postos de mudana so mal aquecidos; a minha esposa
preparou-me vinho aquecido, e alguns escalda-ps bem quentes
#
acabaro com este maldito resfriado.
- Os nossos aliados reservaram-lhe um bom acolhimento?
- A minha visita surpreendeu-os; receavam um aumento de
impostos suplementar.
-  conveniente manter um clima de receio nos nossos vassa-
los. Quando a espinha no tem a necessria flexibilidade, a desobe-
dincia vem a caminho.
- Foi por isso que evoquei os erros passados de um ou outro
prncipe e a benevolncia do imperador, antes de entrar fundo no
assunto.
- A chantagem continua sendo a arma privilegiada da diplo-
macia, Hattusil; parece-me que a utiliza com bastante habilidade.
-LIma arte difcil, cujo controle nunca se adquire completamen-
be, mas cujos efeitos se revelam positivos. Todos os nossos vassalos, sem
exceo, corresponderam ao nosso. . . convite.
- Fico muito satisfeito com isso, meu querido irmo. Quando
estaro terminados os seus preparativos?
236
- Dentro de trs ou quatro meses.
- Ser indispensvel a redao de documentos oficiais?
-  prefervel evitar isso - considerou Hattusil. - Infiltra-
mos espies no territrio inimigo, e os egpcios talvez tenham feito
o mesmo no nosso.
-  pouco provvel, mas  necessrio ser prudente.
-Para os nossos aliados, a derrocada do Egito  uma priorida-
de. Dando sua palavra ao representante oficial do Hatti, foi ao
imperador que a deram. Guardaro silncio at o desencadear da
ao.
Com olhar febril, Hattusil saboreava o calor do compartimento
cujas janelas foram fechadas com painis de madeira recobertos de
tecidos.
- Como vai a preparao do nosso exrcito?
-LIri Techup cumpre perfeitamente a sua tarefa -respondeu
Muwattali. -A eficcia das nossas tropas em breve atingir o apogeu.
- Considera que a sua carta e a da minha esposa possam ter
adormecido a desconfiana do casal real?
- Ramss e Nefertari responderam de forma muito amvel e
continuamos essa correspondncia. Pelo menos ir confundi-los. O
que se passa com a nossa rede de espionagem?
- A do mercador srio Raia foi desmantelada e os seus mem-
bros dispersaram-se. Mas o nosso principal agente, o lbio Ofir, con-
tinuar a transmitir-nos preciosas informaes.
- O que faremos desse Raia?
-LIma eliminao brutal seria uma boa soluo, mas Ofir teve
uma idia melhor.
,
-Otimo. Agora v gozar de um bom e merecido descanso junto
 sua deliciosa esposa.
O vinho quente com especiarias acalmou a febre e desentupiu
o nariz de Hattusil, enquanto que o escalda-ps fervente proporcio-
nou-lhe uma sensao de bem-estar recompensadora pelas numero-
sas horas de viagem pelas estradas da sia. Llma serva massageou-lhe
A Batalha de Kadesh 237
os ombros e o pescoo, e um barbeiro fez-lhe a barba, sob a vigilncia
de Putuhepa.
-Cumpriu a sua misso? -perguntou quando ficaram a ss.
- Acho que sim, minha querida.
- Da minha parte, cumpri a minha.
-A sua misso... De que est falando?
- Permanecer parada no faz parte do meu temperamento.
- Explique-se, por favor!
- Voc, que tem o esprito to perspicaz, ainda no com-
preendeu?
- No me diga. . .
- Claro que sim, meu querido diplomata! Enquanto executava as
ordens do imperador, eu me ocupava do seu rival, do seu nico rival.
- ri-Techupl
- Quem mais barra a sua ascenso e tenta contrariar a sua
inffuncial A nomeao o est deixando de cabea virada. J se v como
imperador!
#
-  Muwattali quem o manipula, no o contrrio!
-Vocs dois subestimam o perigo.
-Engana-se, Putuhepa; o imperador  lcido. Se confiou esse
posto ao filho foi para dinamizar o exrcito e conferir-lhe a sua plena
e6ccia no dia do combate. Mas Muwattali no v LIri-Techup como
sendo capaz de governar o Hatti.
- Ele confessou-lhe issol
-  aquilo que sinto.
- No  o bastante! LIri-Techup  violento e perigoso, odeia a
voc e a mim, e sonha afastar-nos do poder. Como  o irmo do
imperador, ele no se atreve a atacar voc de frente, mas tentar feri-lo
pelas costas.
- Seja paciente. LIri-Techup condenar-se- a si prprio.
-Tarde demais.
- Tarde demais, como?
-Agi como era preciso agir
Hattusil temia compreender.
- LIm representante do cl dos mercadores est a caminho do
quartel-general de ri-Techup - revelou Putuhepa. - Pedir para
238 RAMSS
lhe falar e, para ter sua confiana, dir que vrios ricos mercadores
veriam com bons olhos o fim de Muwattali e a subida do filho ao
trono. O nosso homem apunhalar LIri-Techup e ficaremos finalmen-
te livres desse monstro.
- O Hatti precisa dele...  cedo demais, muito cedo! 
indispensvel que LIri-Techup prepare as nossas tropas para o com-
bate.
- Vai tentar salv-lo? - perguntou Putuhepa, irnica.
Dolorido, febril, e com os joelhos rgidos, Hattusil ergueu-se.
- Partirei imediatamente.
39
Era impossvel reconhecer o elegante e requintado
Acha vestido num grosseiro e surrado casaco de mensageiro percor-
rendo as estradas da Sria do Norte. Montado num robusto burro
seguido por dois outros, cada um carregado com cerca de sessenta
quilos dos mais variados documentos, Acha acabava de penetrar na
zona de influncia hitita.
Passara diversas semanas em Cana e em Amurru para examinar
de perto os sistemas defensivos dos dois protetorados, discutira com
os oficiais egpcios encarregados de organizar a resistncia contra um
possvel ataque hitita e, por fim, aumentara sua lista de amantes com
uma boa dezena de jovens criativas.
Benteshina, o prncipe de Amurru, apreciara muito o compor-
tamento de Acha. Hspede delicado, apreciador da boa comida, o
jovem diplomata no formulara qualquer exigncia, contentando-se
em pedir ao prncipe que avisasse Ramss logo que suspeitasse de
alguma manobra agressiva por parte dos hititas.
Depois, Acha retomara o caminho do Egito; pelo menos, assim
fizera crer Obedecendo-lhe as ordens, a sua escolta metera-se pela
estrada costeira em direo ao Sul, enquanto o diplomata destrua os
seus trajes egpcios; a seguir, munido de uma credencial hitita perfei-
tamente falsa, enfiava-se na indumentria de um mensageiro e partia
para o Norte.
Com relatrios contraditrios sobre relaes imprecisas, como
seria possvel formar um julgamento realista sobre as verdadeiras
intenes do Hatti a no ser explorando o pas? Como o desejo de
Ramss correspondia ao seu, Acha aceitara a misso sem pestanejar;
240 RAMSS
detentor de uma informao em primeira mo, conduziria o jogo a
seu bel-prazer.
No consistia a grande fora hitita em fazer crer que eram invul-
nerveis e estavam prontos para conquistar o mundo? Eis a questo
crucial  qual era necessrio responder, a partir de elementos concretos.
O posto fronteirio hitita era guardado por cerca de trinta
soldados armados e de rostos carrancudos. Durante longos minutos,
quatro homens andaram em redor de Acha e dos seus trs burros. O
falso mensageiro permaneceu imvel, como que aturdido.
O ferro de uma lana tocou a face esquerda de Acha.
-A sua credencial?
Acha retirou do casaco uma tabuazinha redigida em caracteres
#
hititas.
O soldado leu-a e passou-a a um colega, que tambm a leu.
- Aonde vai?
- Devo levar cartas e faturas aos mercadores de Hattusa.
- Mostre-as.
-  confidencial.
- No h nada de confidencial para o exrcito.
- No gostaria de ter aborrecimentos com os destixatrios.
- Se no obedecer, vai ter muito mais aborrecimentos.
Com os dedos entorpecidos pelo frio, Acha desatou os fios dos
sacos com as tabuazinhas.
- LIma algaraviada comercial - constatou o soldado. -
Uamos revist-lo.
O correio no trazia armas. Despeitados, os hititas nada tinham
a censurar-lhe.
- Antes de entrar numa aldeia, apresente-se no posto de
controle.
- Isso  novidade.
- No tem nada que fazer comentrios. Se no se apresentar
em todos os postos de controle, ser considerado inimigo e abatido.
- No h inimigos no territrio hitita!
- Obedea e pronto!
- Est bem, est bem. . .
- Desaparea, j estamos fartos de olhar para voc!
A Batalha de Kadesh 241
Acha afastou-se, sem pressa, como um homem sereno que nada
de ilegal tivesse feito. Caminhando ao lado do burro da frente, acertou
seu passo com o do tranqilo animal e enveredou pela estrada que
conduzia a Hattusa, no corao da Anatlia.
Por diversas vezes procurou o Nilo com o olhar. No era fcil
habituar-se a uma paisagem acidentada, desprovida da simplicidade
do vale irrigado pelo rio divino. Acha sentia a falta da separao ntida
entre as culturas e o deserto, o verde dos campos e o ouro da areia,
assim como o pr-do-sol de mil cores. Mas devia esquec-los e s se
preocupar com o Hatti, a terra fria e hostil cujos segredos descobriria.
O cu estava carregado, e caam violentas pancadas de chuva. Os
burros evitavam as poas d'gua e detinham-se, quandolhes apetecia
para pastar a erva molhada.
Aquela paisagem no era propfeia  paz. Circulava em suas
entranhas uma ferocidade, que levava os habitantes a conceber a
existncia como uma guerra e o futuro como o aniquilamento das
outras pessoas. Quantas geraes seriam necessrias para tornar
frteis aqueles vales desolados, dominados por rgidas montanhas, e
transformar os soldados em camponeses? Porque, ali, as pessoas
nasciam para lutar e lutariam sempre.
A colocao de postos de controle  entrada das aldeias intrigou
Acha. Receariam os hititas a presena de espies no seu territrio,
apesar de o mesmo ser percorrido por foras de segurana? Aquela
medida fora do comum tinha um valor significativo. No estaria o
exrcito fazendo manobras de grande envergadura, e por isso fechado
ao olhar de qualquer curioso?
Por duas vezes patrulhas ambulantes verificaram os documentos
de Acha, interrogando-o sobre seu destino. Aps as respostas satis-
fatrias, foi autorizado a prosseguir seu caminho. No posto de
controle da primeira aldeia, Acha sofreu uma nova e minuciosa
revista. Os soldados estavam nervosos e irritveis, e ele no esboou
qualquer protesto.
Depois de uma noite de sono num estbulo, alimentou-se de
po e queijo e continuou a viagem, satisfeito por constatar que seu
personagem era perfeito. No meio da tarde, entrou por um atalho,
chegando a um trecho de vegetao rasteira no meio da mata; ali
242 RAMSS
                desembaraou-se de algumas tabuazinhas de mercadores inexisten-
                tes.  medida que ia avanando para a capital, ia pouco a pouco
                aliviando-se de seu fardo.
                        A vegetao escondia uma ravina com enormes blocos de pedra
                que tinham despencado de uma elevao atacada pelas chuvas e pela
                neve. As razes de carvalhos retorcidos fincavam-se na encosta inclinada.
                        Ao abrir um dos sacos transportados pelo burro da frente, Acha
                teve a sensao de estar sendo vigiado. Os animais agitaram-se.
#
                Perturbados, os pintarroxos levantaram vo.
                        O egpcio agarrou uma pedra e um punhado de madeira seca,
                armas irrisrias diante de um eventual agressor. Quando ouviu niti-
                damente o rudo de uma cavalgada, atirou-se de barriga no cho por
                trs de uma pequena elevao.
                        Quatro homens a cavalo saram do mato e rodearam os burros.
                No eram soldados, mas salteadores munidos com arcos e punhais.
                At no Hatti existiam homens que se dedicavam a pilhar caravanas;
                quando capturados, eram imediatamente executados.
                        Acha comprimiu-se mais ainda ao cho. Se os quatro ladres o
                vissem, cortariam seu pescoo.
                        O chefe,. um barbudo de rosto picado de bexigas, farejou o ar
                como um co de caa.
                        - Olhe - disse um dos seus companheiros -  presa fraca.
                S tabuazinhas... Sabe ler?
                        ?
                        - No tive tempo de aprender.
        ;                - Isso vale alguma coisa
                        - Para ns, no.
                        Irritado, o ladro partiu as minsculas tbuas e atirou os pedaos
                na ravina.
                        - O proprietrio dos burros no deve estar longe e tenho
                certeza de que carrega dinheiro consigo.
                        -Uamos nos espalhar e procur-lo -ordenou o chefe.
                        Lvido de medo e de frio, Acha no perdeu a lucidez. LIm dos
        "        bandidos vinha em sua direo. O egpcio rastejou e agarrou-se a uma
                raiz. O chefe dos salteadores contornou-o sem v-lo.
                        Acha fraturou-lhe a nuca com uma pedra de bom tamanho. O
        i ..        homem tombou com a cara na lama.
A Batalha de Kadesh 243
- Ali! - gritou um dos cmplices, que vira a cena.
Apoderando-se do punhal da sua vtima, Acha atirou-o com
fora e preciso. A arma foi cravar-se no peito do ladro.
Os dois restantes retesaram os arcos.
No restava a Acha outra soluo seno a fuga. LIma flecha as-
sobiou em seus ouvidos quando comeou a escorregar pelo declive,
em direo ao fundo da ravina. Correndo at quase ficar sem flego,
precisava atingir um macio vegetal, com bastantes arbustos e plantas
espinhosas, onde estaria a salvo.
Outra flecha raspou-lhe a perna direita, mas conseguiu atirar-se
para o seu abrigo provisrio. Arranhado, com as mos sangrando,
avanou por um denso silvado, caiu, levantou-se, e recomeou a correr
J sem poder respirar, escorregou. Se os seus perseguidores o
apanhassem, j no teria foras para lutar. O silncio ento envolveu
a ravina, apenas perturbado pelo crocitar de um bando de corvos
esvoaando sob as nuvens negras.
Desconfiado, Acha permaneceu imvel at escurecer Depois,
subiu o declive, e, seguindo ao longo da ravina, regressou para o lugar
onde havia abandonado os burros.
Os animais haviam desaparecido. Restavam apenas os cadveres
dos dois ladres.
O egpcio estava com ferimentos superficiais, mas dolorosos.
Lavou-se na gua de uma fonte, esfregou os machucados com trs
ervas colhidas ao acaso, subiu para o topo de um carvalho e dormiu
estendido entre dois grossos galhos quase paralelos.
Acha sonhou com uma cama confortvel numa das luxuosas villos
que Chenar lhe oferecera em troca da sua colaborao, com um lago
rodeado por palmeiras, uma taa de vinho especial e uma linda toca-
dora de alade que lhe encantaria os ouvidos antes de lhe oferecer o
corpo.
Llma chuva gelada despertou-o pouco antes da madrugada,
fazendo-o retomar o caminho na direo do Norte.
A perda dos burros e das tabuazinhas obrigou-o a mudar de
personagem. LIm mensageiro sem material e sem animais de trans-
porte seria consderado suspeito e detido. Era-lhe, portanto, impos-
sivel apresentar-se no prximo posto de controle e entrar na aldeia.
244 RAMSS
Passando pelas florestas, evitaria as patrulhas, mas conseguiria
escapar dos ursos, linces e dos salteadores que ali se refugiavam? A
gua era abundante, mas a alimentao seria difcil de arranjar. Com
#
um pouco de sorte, armaria uma emboscada para um mercador e
tomaria o seu lugar.
A sua situao no era nada Fcil, mas isso no o impediria de
chegar a Hattusa e descobrir o verdadeiro poder de fora do exrcito
hitita.
40
Depois de passar um dia cavalgando durante as
manobras de cavalaria, Llri-Teehup lavava-se com gua fria. Cada vez
mais intensivo, o treinamento estava dando bons resultados, mas
ainda no satisfzia o filho do imperador. O exrcito hitita no devia
ceder nenhuma chance s tropas egpeias, nem manifestar a mnima
hesitao nas diversas etapas do combate.
Enquanto secava ao vento, o seu ajudante-de-campo avisou-o de
que um mercador, vindo de Hattusa, desejava falar com o general-chefe.
-Que espere -disse LIri-Techup. -Falarei com ele amanh
de madrugada; os mercadores nasceram para obedecer. Que aspecto
tem ele?
- Pela sua apresentao,  um homem importante.
- Mesmo assim esperar. Faa-o dormir na tenda menos
confortvel.
- E se ele se queixar?
- Deixe-o gemer.
Hattusil e a sua escolta haviam galopado em marcha acelerada.
O irmo do imperador no se preocupava nem com a gripe nem com
a febre, dominado apenas por uma obsesso: chegar ao quartel-gene-
ral de ri-Techup antes que o irreparvel acontecesse.
Quando o acampamento militar ficou  vista, no meio da noite,
parecia calmo. Hattusil apresentou-se aos guardas, que lhe abriram a
porta de madeira. Precedido pelo oficial encarregado de garantir a
246 RAMSS
sua segurana, o irmo do imperador foi recebido na tenda de
LIri-Techup.
Este ltimo mostrou-se de mau humor. Ver Hattusil no lhe dava
qualquer prazer
- Qual a razo dessa inesperada visita?
- A sua vida.
- O que significa isso?
- Foi tramada uma conspirao contra a sua pessoa. Querem
mat-lo.
- Fala srio?
-Acabo de chegar de uma viagem esgotante, tenho febre e no
sinto seno o desejo de repousar... Voc acha que eu teria galopado
to rapidamente se no fosse sriol
- Quem quer me matar?
- Conhece as minhas ligaes com o cl dos mercadores...
Durante a minha ausncia, um dos seus representantes confessou 
minha esposa que um louco havia decidido elimin-lo para evitar a
guerra contra o Egito e preservar os seus lucros.
- Qual  o seu nome?
- No sei, mas fiz questo de vir lhe avisar sem demora.
-Voc tambm gostaria de evitar esta guerra...
-Engana-se, LIri-Techup; considero-a necessria. Graas  sua
vitria, continuar a expanso do nosso imprio. Se o imperador o
nomeou para chefiar o exrcito, foi por causa da sua capacidade e
habilidade como guerreiro, e das suas qualidades como chefe.
O discurso de Hattusil espantou LIri-Techup, mas sem dissipar
a sua desconfiana. O irmo do imperador manejava a lisonja com
uma arte incomparvel.
No entanto, no fora um mercador que lhe solicitara uma
entrevista? Se LIri-Techup tivesse recebido imediatamente esse tal
mercador, quem sabe j no estaria morto? Havia, porm, um meio
simples de conhecer a verdade e verificar a sinceridade de Hattusil.
O mercador passara a noite em claro, repetindo constante e
mentalmente o gesto que ia realizar. Cravaria o punhal na garganta de
LIri Techup para impedi-lo de gritar, sairia da tenda do general com
ar calmo, como um homem de bem, e depois montaria no cavalo e
A Batalha de Kodesh 247
sairia do campo no trote. Aps forar bastante o cavalo, saltaria para
o dorso de outro, escondido em um pequeno bosque.
O risco era grande, mas o mercador odiava Llri-Techup. LIm ano
#
antes, esse fantico da guerra provocara a morte dos seus dois filhos
numa manobra insensata, em que vinte jovens haviam morrido por
esgotamento. Quando Putuhepa o inspirara neste plano, mostrara-se
entusiasmado. Pouco lhe interessava a fortuna que a esposa de
Hattusil lhe prometera. Mesmo que fosse preso e executado, teria
vingado os filhos e matado um monstro.
De madrugada, o ajudante-de-campo de Llri-Techup veio bus-
car o mercador, conduzindo-o  tenda do general-chefe. O executor
tnha que controlar a emoo e comear a falar, com entusiasmo, dos
amigos que desejavam depor o imperador e ajudar o filho a tomar o
poder
O ajudante-de-campo revistou-o e no encontrou nenhuma
arma. O punhal curto, de lmina dupla, estava escondido no inofen-
sivo gorro de l que os mercadores costumavam usar durante a estao
fria.
- Entre, o general o espera.
De costas voltadas para o vsitante, ri Techup estava inclinado
sobre um mapa.
- Obrigado por me receber, general.
- Seja breve.
- O cl ds mercadores est dividido. LIns agarram-se  paz,
outros, no. Eu fao parte daqueles que desejam a conquista do Egito.
- Continue.
A ocasio era excelente: LIri-Techup no se virara, ocupado em
traar pequenos crculos num mapa.
O mercador tirou o gorro, agarrou no cabo do pequeno punhal
e aproximou-se do militar sempre falando.
- Eu e os meus amigos estamos convencidos de que o impe-
rador no  capaz de nos conduzir ao triunfo que esperamos. Vs
,
pelo contrrio, vs, o brilhante guerreiro, vs... Morra, rnorra por
ter tirado a vida dos meus filhos!
O general voltou-se no momento em que o mercador desferia
o golpe. Na mo esquerda segurava tambm o cabo de um punhal. A
248 RAMSS
lmina do mercador enterrou-se no pescoo da vtima, e a do general
no corao do agressor. Mortos, ambos caram um por cima do outro
e ficaram estendidos no cho, com braos e pernas entrelaados.
O verdadeiro LIri-Techup ergueu um pano da tenda.
Para saber a verdade, tivera que sacrificar a vida de um simples
soldado com o mesmo corpo dele. O imbecil reagira mal, matando O
mercador que o general teria gostado de interrogar, mas ouvira o
suficiente para saber que Hattusil no mentira.
O irmo do imperador, realista e prudente, alinhava assim sob
a sua bandeira, com esperana de que LIri-Techup, general vitorioso
e futuro senhor do Hatti, no fosse ingrato.
Hattusil estava totalmente enganado.
Acha no assaltara nenhum mercador nem viajante porque
descobrira um comparsa melhor: uma jovem com cerca de vinte anos,
vva e sem dnhero. O marido, soldado de nfantara em Kadesh,
morrera acidentalmente quando atravessava o Oronte durante sua
cheia. Sozinha e sem filhos, cultivava com grande dificuldade uma
terra pobre e infrtil.
Desfalecendo de fadiga bem prximo de sua casa, Acha explica-
ra-lhe que fora roubado por salteadores e que conseguira fugir
arranhando-se nas slvas e nos espinheiros. Reduzido a nada, suplica-
ra-lhe refgio ao menos por uma noite.
Depois de ele ter se lavado com a gua morna de uma bacia de
barro colocada na lareira, os sentimentos da camponesa modifica-
ram-se bruscamente. A sua timidez transformara-se num desejo
imperioso de acariciar aquele corpo de homem distinto. Privada de
amor h muitos meses, despira-se com pressa. Quando a camponesa
de formas generosas passara os braos em torno do pescoo de Acha
e apoiara os seios em suas costas, o egpeo no se conteve.
Durante dois dias os amantes no safram da casa. A camponesa
no era experiente, mas revelava-se ardente e sequiosa; seria uma das
raras amantes de quem Acha guardaria uma recordao bem definida.
Chovia l fora.
A Batalha de Kadesh 249
Acha e a camponesa estavam nus, perto da lareira. A mo do
#
diplomata percorria todo o corpo da jovem, que gemia de prazer.
- Quem  voc, na realidade?
- J lhe disse: um mercador roubado e arruinado.
- No acredito.
- Por qu?
- Porque voc  muito requintado, demasiado elegante. Os
seus gestos e a sua linguagem no so de um mercador
Acha captou-lhe as palavras. Os anos passados na unversidade
de Mnfis e nos gabinetes do Ministrio dos Negcios Estrangeiros
pareciam ter deixado vestgios indelveis.
- No  um hitita, no possui a sua brutalidade. Quando faz
amor, pensa em mim; meu marido s se preocupava com seu prprio
prazer. Quem  voc?
- Promete guardar segredo?
-Juro pelo deus da tempestade!
O olhar da camponesa brilhava de excitao.
-  difcil. . .
- Confie em mim! J no lhe dei provas do meu amor?
Acha beijou-lhe o bico dos seios.
- Sou filho de um nobre srio - explicou o diplomata. -
Quero alistar-me no exrcito hitita. Meu pai proibiu-me de faz-lo
por causa da dureza do treino. Fugi de casa e quis descobrir o Hatti
sozinho, sem escolta, para provar a minha coragem e ser recrutado.
-lsso  uma loucura! Os militares so uns brutos sanguinrios.
- Desejo lutar contra os egpcios. Se no agir, vo apoderar-se
das minhas terras e despojar-me de todos os meus bens.
Ela pousou-lhe a cabea no peito.
- Detesto a guerra.
-Mas no  inevitvel?
        -Todos esto convencidos de que se realizar.
        - Sabe onde os soldados esto sendo treinados?
        -  segredo.
        - Notou algum movimento de tropas para estes lados?
        - No,  um canto perdido.
        - Quer acompanhar-me a Hattusa?
250 RAMSS
- Eu, acompanh-lo  capital. . . Nunca fui l!
-  uma boa ocasio. L encontrarei oficiais e poderei alistar-me.
- Desista, suplico-lhe! A morte  assim to tentadora?
,
- Se eu no agir, a minha provncia ser destruda. E preciso
combater o mal, e o mal  o Egito.
- A capital fica longe. . .
-H na arrecadao uma grande quantidade de potes de barro.
Foi o seu marido que fezt
- Ele era oleiro, antes de o obrigarem a alistar-se.
- Ns os venderemos e viveremos em Hattusa. Parece que 
uma cdade nesquecvel.
- As minhas terras. . .
- Estamos no inverno, e a terra tem que repousar. Partiremos
amanh.
A jovem deitou-se perto da lareira e estendeu os braos para o
amante.
41
A Casa da Vida de Helipolis, a mais antiga do pas,
trabalhava em seu ritmo habitual. Os ritualistas verificavam os textos
a serem utilizados durante a celebrao dos mistrios de Osiris, os
magos do Estado esforavam-se para anular a m sorte e as foras
perigosas, os astrlogos aperfeioavam as suas prevses para os
prximos meses, e os curandeiros preparavam poes. Pormenor
inslito, a biblioteca, contendo milhares de papiros, entre os quais a
primeira verso dos Textos dos Pirmides e o Ritual de regenerao do
Fara, estava inacessvel at o dia segunte.
Em seu interior encontrava-se, porm, um leitor: Ramss em
pessoa.
Tendo chegado durante a noite, o monarca fechara-se na grande
biblioteca de paredes de pedra, cujos armrios continham o essencial
da cincia egpeia, relativa tanto ao visvel quanto ao invisvel. Ramss
sentira necessidade de consultar os arquivos por causa do estado de
sade de Nefertari.
#
A grande esposa real definhava. Nem o mdico da corte nem
Setaou haviam descoberto a causa do mal. A rainha-me fizera um
diagnstico inquietante: agresso das foras das trevas, contra as quais
os remdios tradicionais da medicina seriam insuficientes. Era por
isso que o rei explorava os arquivos que tantos outros monarcas
tinham consultado antes dele.
Ao fim de dez horas de pesquisa, entreviu uma soluo e partiu
imediatamente para Pi-Ramss.
252 RAMSS
Nefertari presidira  reunio dos teceles vindos de todos os
templos do Egito e dera as instrues necessrias para a fabricao
das indumentrias ritualsticas at a prxima cheia. A rainha oferecera
aos deuses tiras de tecido vermelho, branco, verde e azul, e em seguida
saiu do templo apoiada em duas sacerdotisas. Conseguiu subir na
cadeira de carregadores, que a levou de volta ao palcio.
O doutor Pariamakhu precipitou-se para a cabeceira da grande
esposa real e obrigou-a a beber uma poo estimulante, sem grar-
de esperana de conseguir diminuir a intensa fadiga que a cada dia
dominava-a mais intensamente. Logo que Ramss entrou no quarto
da esposa, o mdico retirou-se.
O rei beijou a testa e as mos de Nefertari.
- Estou esgotada.
- Tem que apressar o seu programa oficial.
- No se trata de uma fraqueza passageira.. . Sinto a vida sair
de mim e escoar-se como um fiozinho de gua, cada vez mais fraco.
- Touya acha que no se trata de uma doena normal.
- Tem razo.
-Algum nos ataca na sombra.
- O meu xale... o meu xale preferido! LIm mago o est
utilizando contra mim.
- Tambm cheguei a essa concluso e pedi a Serramanna que
tentasse de tudo para identificar o culpado.
- Ele que se apresse, Ramss, que se apresse. . .
- Temos outros meios para lutar, Nefertari, mas precisamos
deixar Pi-Ramss amanh.
- Para onde vai me levar?
- Para um lugar onde estar ao abrigo do nosso inimigo
invisvel.
Ramss passou Iongas horas com Ameni. O porta-sandlias e
secretrio particular do Fara no lhe referiu qualquer incidente
assnalvel relativo aos assuntos de Estado. Sempre angustado com a
idia de uma ausncia prolongada do monarca, o escriba comprome-
A Batalho de Kadesh 253
teu-se a no negligenciar nada, para evitar qualquer impasse que
pudesse comprometer o bem-estar do pas. Ramss constatou que
Ameni seguia todas as pastas com exemplar ateno e reunia as
informaes essenciais com agudo sentido de classificao.
O rei tomou uma srie de decises e encarregou Ameni de se
fazer aplic-las pelos seus ministros. Quanto a Serramanna, este
recebeu a confirmao das suas diversas misses, das quais a menor
no era certamente a de velar pelo treinamento das tropas de elite
aquarteladas em Pi-Ramss.
Na companhia de Touya, o monarca passeou pelo jardim onde
a me gostava de meditar. Com os ombros cobertos por uma capa
plissada, a rainha-me trazia brincos em forma de ltus e um colar
de ametistas que lhe amenizava o rosto severo.
- Parto para o Sul com Nefertari, minha me. Aqui ela corre
um perigo muito grande.
- Tem rao. Enquanto no pudermos combater a ao do
demnio que se oculta nas sombras,  prefervel afastar a rainha.
- Vele pelo reino; em aso de urgncia, Ameni executar as
suas ordens. -
- E quanto  ampaGa le guerra ,
- Est tudo calmo, muito calmo Os hititas no reagem.
Muwattali contenta-se em escrever cartas insossas e protocolares.
-No traduziro as divergncias internas? Muwattali eliminou
muitos adversrios antes de se apossar do poder, e nem todos os
rancores esto extintos.
-lsso no  nada tranqilizador-considerou Ramss. -O
que pode haver de mais eficaz seno uma guerra para apagar as
#
discrdias e reestruturar a unidade?
- Nesse caso, os hititas preparam uma ofensiva de grande
envergadura.
- Quem me dera estar enganado... Talvez Muwattali esteja
cansado de combates e de sangue derramado.
- No reflita  maneira egpeia, meu filho; a felicidade, a
serenidade e a paz no so valores hititas. Se o imperador no exaltar
a conquista e a expanso, perder o seu trono.
254 RAMSS
- Se o ataque for desencadeado na mnha ausncia, no espere
pelo meu regresso para dar a ordem de partida ao exrcito para a
campanha.
O pequeno queixo quadrado de Touya endureceu.
- Nenhum hitita ultrapassar a fronteira do Delta.
O templo da deusa Mut, "a Me", abrigava trezentas e sessenta
e cinco esttuas de Sekhmet, a deusa leoa, para celebrar todos os dias
os rituais de apaziguamento da manh, e trezentas e sessenta e cinco
outras para os rituais da tarde. Era al que os grandes mdcos do reino
vinham procurar os segredos da doena e da cura.
Nefertari salmodiou o ritual que transformava a fria assassina
da leoa em poder criador; da sua violncia controlada nascia uma
capacidade de controle dos elementos constitutivos da vida. O colgio
das sete sacerdotisas de Sekhmet comungou com o esprito da rainha
que, tornando-se oferenda, fazia brotar a luz nas trevas da capela onde
' imperava a temvel deusa.
A grande sacerdotisa derramou gua sobre a cabea da leoa,
esculpida em diorito, pedra de grande dureza e bxilhante. O lquido
escorreu pelo corpo da deusa, e uma assistente o recolheu numa
taa.
Nefertari bebeu a gua curativa, absorveu a magia de Sekhmet,
cuja formidvel energia a ajudaria na luta cantra a fraqueza que se
; insinuara nas suas veias. Depois, a grande esposa real ficou a ss com
a leoa de corpo de mulher durante um dia e uma noite, mergulhada
no slncio e nas trevas.
Quando atravessou o Nilo, ternamente apoiada no ombro de
Ramss, Nefertari sentiu-se menos oprimida do que durante as
ltimas semanas. Do amor do rei nascia uma outra magia, to eficaz
como a da deusa. LIm carro Ievou-os ao "Sublime dos sublimes", o
templo de terraos apoiado numa falsia, obra da rainha-fara Hat-
chepsut. Era precedido por um jardim, no qual os mais belos exem-
plares eram rvores de ncenso, importadas da regio de Punt. Ali
reinava a deusa Hathor, soberana das estrelas, da beleza e do amor.
No sera a transmutao de Sekhmet?
A Batalha de Kadesh 255
m dos blocos do templo era um centro de convalescena onde
os doentes tomavam vrios banhos por dia e por vezes faziam uma
cura de sono. Nas bases das tinas de gua morna, textos hieroglficos
afastavam as doenas.
-  indispensvel um perodo de repouso, Nefertari.
- Os meus deveres de rainha. . .
- O seu primeiro dever  sobreviver para que o casal real
permanea a pedra angular do Egito. Aqueles que querem nos abater
tentam separar-nos para enfraquecer o pas.
O jardim do templo de Deir el-Bahari parecia pertencer a um
outro mundo; a folhagem das rvores de incenso brilhava sob o suave
sol de inverno. Llma rede de canalizaes enterradas a pouca profun-
didade garantia uma irrigao constante, regulada em funo do calor.
Nefertari teve a sensao de que seu amor por Ramss aumen-
tava ainda mais, que se expandia como um cu sem limites; o olhar
do rei provou-lhe ento que ele era parte desse deslumbramento. Mas
a felicidade era frgil, to frgil. . .
-No sacrifique o Egito por mim, Ramss. Se eu desaparecer,
tome Iset a Bela como grande esposa real.
- Voc est viva, Nefertari, e  a voc que eu amo.
- Jure-me, Ramss! Jure-me que apenas o Egito ditar a sua
conduta. Foi a ele que dedicou a sua existncia, no a um ser humano,
seja ele quem for. Do seu empenho depende a vida de um povo e,
mais ainda, da civilizao fundada por nossos antepassados. Sem ela,
o que se tornaria o mundo? Ficaria entregue s hordas brbaras, ao
reino do lucro e da injustia. Amo-o com todas as minhas foras, e o
#
meu ltimo pensamento ser este amor, mas no tenho o direito de
prend-lo porque voc  o Fara.
Sentaram-se num banco de pedra, e Ramss apertou-a de
encontro ao peito.
- Voc  aquela que v Horus e Seth em um mesmo ser -
lembrou-lhe ele, utilizando a frmula ritual que se aplicava  rainha desde
a primeira dinastia. -  pelo seu olhar que o Fara existe, pois ele  o
receptculo da luz que o espalha sobre as Duas Terras unificadas. Todos
os reinados dos meus predecessores se alimentaram da Regra de Mat,
mas nenhum foi semelhante ao outi-o, porque os humanos inventam
256 RAMSS
constantemente novos caprchos. O seu olhar  nco, Nefertar; o Egito
e o Fara tm necessidade dele.
Em plena provao, Nefertari descobria um novo amor.
- Consultando os arquivos da Casa da Vida de Helipolis,
descobri formas de combater e manobrar o agressor invisvel. Pela
dupla ao de Sekhmet e de Hathor, e graas ao repouso que ter
neste templo, a sua energia no continuar a diminuir Mas no  o
suficiente.
-Vai regressar a Pi-Ramss?
- No, Nefertari; existe um remdio talvez decisivo para curar
voce.
- E qual ?
- Segundo os arquivos,  uma pedra da Nbia colocada sob a
proteo da deusa Hathor, num local perdido, esquecido h sculos.
- Sabe onde fica?
- Hei de encontr-lo.
- A sua viagem pode ser longa, . .
-Graas  fora da corrente, o regresso ser rpido. Se tiver a
sorte de encontrar logo o local, a minha ausncia ser breve.
- Os hititas. .
9 .
-A minha me governar. Em caso de ataque, ela a prevenir
mediatamente e as duas agiro em conjunto.
Abraaram-se longamente, sob a folhagem das rvores de incen-
i''
ji so. A sua vontade era de ret-lo, passar o resto dos dias junto com
ele, na serenidade do templo.
Mas ela era a grande esposa real e ele o fara do Egito.
42
Lita dirigiu um olhar suplicante ao mago Ofir
-  preciso, minha filha.
- No, pois me causa muitas dores...
-  a prova de que o feitio  eficaz. Devemos continuar
-A minha pele...
- A irm do rei vai trat-la e no ficar qualquer marca de
queimadura.
A descendente de Akhenaton deu as costas para o mago.
-No, no quero mais, no suporto mais este sofrimentol
Ofir puxou-a pelos cabelos.
- Basta, pequena caprichosal Obedea-me ou fecho-a na cave.
--lsso no, suplico-lhe, isso no!
Claustrofbica, a mdium loura receava esse castgo mais do que
qualquer outra coisa.
-Venha para o meu laboratrio, desnude o peito e deite-se de
castas.
Dolente, a irm de Ramss, lamentava a rispidez do mago, mas
dava-lhe razo. As ltimas notcas da corte eram excelentes: Nefer-
tari, sofrendo de uma doena misteriosa e incurvel, partira para
Tebas, onde sucumbiria ao domnio de Hathor, em Deir el-Bahari.
Sua lenta agonia aniquilaria o corao de Ramss, que por sua vez
sucumbiria ao desgosto.
Para Chenar, estaria livre o caminho para o poder
258 RAMSS
Quando da partida de Ramss, Serramanna fora s quatro
casernas de Pi-Ramss e exigira dos oficiais superiores a intensifica-
o dos treinamentos. Os mercenrios haviam reclamado imediata-
mente um aumento, provocando idntico pedido por parte dos
soldados egpcios.
Em confronto com um problema acima de sua autoridade, o
#
sardo recorrera a Ameni, que apelara para a rainha-me, cuja resposta
fora imediata: ou os soldados e os mercenrios obedeciam, ou seriam
substitudos por jovens recrutas. Se Serramanna consderasse satsfa-
trios os progressos verificados durante as manobras, talvez Touya
encarasse a possibilidade de um bnus especial.
Os militares cederam, e o sardo passou  sua outra misso: tentar
descobrir o mago para quem o intendente Romeu roubara o xale de
Nefertari. Ramss no lhe ocultara nada das suas suspeitas, confirma-
das pela estranha morte de Romeu e pela no menos estranha doena
da rainha.
                        Se o maldito ntendente tivesse sobrevivido, o ex-pirata no teria
                encontrado qualquer dificuldade em faz-lo falar. E verdade que a
                tortura era proibida no Egito, mas um atentado oculto contra o casal
                real no era um caso para fugir  lei comum?
        ;I ,..
                        Romeu estava morto, levando o seu segredo para um nada
                povoado de demnios, e a psta que levava ao seu comandante parecia
        '.        cortada. E se isso fosse apenas a aparncia? Romeu era expansivo e
                falador, e talvez tivesse utilizado os servios de um cmplice. .. ou de
                uma cmplice.
                        Interrogar os mais prximos assim como o seu pessoal poderia
                dar resultado, desde que as perguntas fossem feitas com uma certa
                fora de convico... Serramanna precipitou-se para o gabinete de
                Ameni. Convenceria o escriba a concordar com a sua estratgia.
        I
                        Toda a criadagem do palcio foi convocada para a caserna do Norte.
                Roupeiras, camareiras, maquiadoras, cabeleireiras, cozinheiros, varre-
A Batalha de Kadesh 259
dores e outros serviais foram reunidos numa sala de armas guardada
por arqueiros de Serramanna.
Quando o sardo apareceu, com capacete e couraa, os coraes
apertaram-se.
- Acabam de ser cometidos novos roubos no palcio -
revelou. - Sabemos que o autor  cmplice do intendente Romeu,
o ser vil e desprezvel que o cu castigou. Vou interrog-los um a um;
se no conseguir apurar a verdade, sero todos deportados para o
osis de Khargeh e l o culpado falar.
Serramanna tinha gasto muita energia para convencer Ameni a
deix-lo proferir uma mentira e ameaas desprovidas de fundamento
legal. Qualquer um dos criados podia contestar a posio do sardo e
dirigir-se a um tribunal, o qual prontamente condenaria Serramanna.
O aspecto assustador do chefe da guarda pessoal do rei, o seu
tom imperioso, e o carter angustiante do local dissuadiram-nos de
qualquer protesto.
Serramanna teve sorte: a terceira mulher que entrou no com-
partimento onde se realizava o interrogatrio mostrou-se loquaz.
- O meu trabalho consiste em substituir as flores murchas
por ramos recm-cortados - explicou ela. - Detestava aquele
Romeu.
- Por qu?
- Colocou-me na cama dele. Se no tivesse aceitado, ele me
teria expulso do lugar
- Se tivesse apresentado queixa, ele teria sido despedido.
-Falar agora  fcil. . . Alm disso, Romeu me prometera uma
pequena fortuna se eu casasse com ele.
- Como iria ele enriquecer?
- No queria falar muito disso, mas na cama consegui faz-lo
contar al&uma coisa.
- O que ele confessou?
- Que iria vender a preo de ouro um objeto raro.
- Onde tencionava arranj-lo?
- Iria consegui-lo graas a uma empregada, uma roupeira
substituta.
- E que objeto era esse?
260 RAMSS
- No sei. Mas sei que o gordo Romeu nunca me ofereceu
nada, nem sequer um amuleto! E ento? Receberei uma recompensa
por lhe ter contado tudo isso?
"LIma roupeira substituta". . . Serramanna correu para falar com
Ameni, que mandou buscar o quadro de servio correspondente 
#
semana na qual o xale da rainha havia sido roubado.
Com efeito, uma tal Nani havia realizado uma substituio como
roupera, sob a responsabildade de uma das cradas da ranha. Esta
descreveu-a e confirmou que poderia ter tido acesso aos apartamen-
tos particulares de Sua Majestade, participando assim do roubo do
xale.
A criada indicou a direo que Nani lhe dera quando fora
contratada.
-- Interrogue-a - disse Ameni a Serramanna -- mas sem
brutalidade e respeitando a lei.
-  essa a minha inteno - afirmou o sardo, muito srio.
LIma velha cochilava no limiar de sua porta, no bairro leste da
capital. Serramanna tocou-lhe docemente no ombro.
.--Acorde, avozinha.
Ela abriu um olho e, com a mo calejada, enxotou uma mosca.
- Quem  voc?
- Serramanna, o chefe da guarda pessoal de Ramss.
- J ouvi falar em seu nome... Voc no era um antigo
pirata?
' - Ningum muda totalmente, avozinha. Continuo to cruel
rnmo antes, sobretudo quando me mentem,
- E por que haveria de lhe mentir?
- Porque vou lhe fazer perguntas.
-- Dar com a lngua nos dentes  pecado.
- Depende das circunstncias. Hoje, falar  uma obrigao.
- Siga o seu caminho, pirata; na minha idade j no se tm
obrigaes.
A Batalha de Kadesh 261
-  a av de Nani?
- Por que haveria de ser?
- Porque ela vive aqui.
- Ela foi embora.
- Quando se tem a sorte de ser contratada como roupera no
palcio, por que fugir?
- Eu no disse que ela fugiu, e sim que foi embora.
- Para onde ela foi?
- No sei.
- Lembro-a de que detesto mentiras.
- Seria capaz de bater numa velha, pirata?
-- Para salvar Ramss, sim.
A mulher ergueu os olhos inquietos para Serramanna.
- Na compreendo... O Fara est em perigo?
--. A sua neta  uma ladra, talvez uma criminosa. Se no falar,
ser sua cmplice.
- Como podera Nani estar metida numa conspirao contra
o Fara?
- Mas est, e tenho a prova.
A mosca voltou a mportunar a velha; Serramanna esmagou o
inseto.
- A morte  alegre, pirata, quando nos vem libertar de um
sofrimento excessivo. Eu tinha um bom marido e um bom Flho, mas
meu filho teve a infelicidade de casar com uma mulher horrvel que
lhe deu uma filha horrvel. O meu marido morreu, o meu filho
separou-se, e fui eu que criei o maldito rebento... Horas passadas
educando-a, alimentando-a, ensinando-lhe os princpios morais, e
voc vem me falar de uma ladra e de uma criminosa?
A velha recobrou o flego. Serramanna calou-se, esperando que
ela fosse at o fim com suas confidncias. Se se c2lasse, o sardo iria
embora.
.-- Nani partiu para Mnfis. Disse-me, com orgulho e desdm,
que iria viver numa bela villa, por tras da escola de medicina, enquanto
eu morreria nesta pequena casa!
262 RAMSS
J
Serramanna transmitiu a Ameni o resultado de suas investigaes.
- Se por acaso molestou a idosa mulher, ela apresentar queixa
contra voc.
- Os meus homens so testemunhas de que nem toquei nela.
- O que sugere ento?
-Deu-me uma descrio exata de Nani, que corresponde  da
#
criada da rainha. Assim que puser os olhos nela, eu a reconhecerei.
- Como vai encontr-la?
- Revistando cada uma das villas do bairro de Mnfis onde ela
reside.
- E se a velha mentiu para proteger Nani?
-  um risco que tenho que correr.
- Mnfis no fica longe, mas a sua presena em Pi-Ramss 
indispensvel.
- Voc prprio reconhece, Ameni: Mnfis no fica longe.
Suponha que eu coloque a mo nessa Nani e que ela me conduza ao
mago; no acha que Ramss ficaria satisfeito?
,,
- "Satisfeito" seria pouco para ele.
- Ento autorize-me a agir.
43
Acha e a amante, estupefatos, descobriram Hattusa.
Hattusa, a capital do imprio hitita, dedicada ao culto da guerra
e da fora. Como o acesso s trs portas da cidade alta - a do Rei,
a das Esfinges e a dos Lees - era proibido aos mercadores, o casal
entrou na cidade por uma das portas da cidade baixa, vigiada por
soldados armados com lanas.
Acha mostrou os seus potes de barro e chegou a convidar um
dos guardas a comprar um por preo bem barato. O soldado afastou-o
com uma cotovelada, ordenando-lhe que desaparecesse. Sem muita
pressa, o casal tomou a direo do bairro dos artesos e pequenos
comerciantes.
Os picos rochosos, os terraos de pedras sobrepostas, os enormes
blocos utilizados para o templo do deus da tempestade. . . A camponesa
estava to impressionada quanto o seu companheiro. Mas Acha lamen-
tava a falta de graa e de elegncia naquela arquitetura rugosa, dominada
por uma rede de fortificaes que tornavam inatacvel a capital encai-
xada na rude montanha da Anatlia. A paz e a doura de vver no podiam
expandr-se naquele lugar onde a violncia emanava de cada pedra.
O egpcio procurou em vo jardins, rvores, lagos, e teve um
arrepio, mordido pela aragem fria. Avaliou at que ponto o seu pais
era um paraso.
Por diversas vezes, ele e a sua companheira tiveram que encostar-se
rapidamente aos muros de tijolos para deixar passar uma patrulha.
Quem no se afastasse a tempo, mulher, velho ou criana, era empur-
rado, s vezes at mesmo derrubado, pelas companhias de soldados de
infantaria que se deslocavam em passo acelerado.
264 RAMSS
O exrcito era onipresente. Em cada canto de rua havia soldados
de sentinela.
Acha apresentou um pote a um atacadista de utenslios doms-
ticos. Como era costume em terra hitita, a mulher permaneceu atrs
dele e manteve-se em silncio.
- LIm bom trabalho - considerou o atacadista. - Quantos
faz por semana?
- Tenho um pequeno fornecimento que fabriquei no campo.
Gostaria de instalar-me aqui.
-Tem alojarnento?
-Ainda no.
- Alugo casas na cidade baixa; troco o seu fornecimento por
um ms de aluguel. Ter tempo para organizar a sua oficina.
- De acordo, selhe juntar trs pedaos de estanho.
-  duro negociar com vocl
- Tenho de comprar alimentos.
- Contrato fechado.
Acha e a amante alojaram-se numa pequena casa mida e mal
arejada, com cho de terra batida.
- Preferia a minha casa - confessou a camponesa. - Pelo
menos tnhamos com que nos aquecer
- No ficaremos aqui por muito tempo. Pegue um bocado de
estanho e v comprar cobertores e alguma coisa para comer.
- E voc, aonde vai?
- No se preocupe, voltarei  noite.
Graas ao seu conhecimento perfeito do hitita, Acha pde dia-
logar com os mercadores, quelhe indicaram uma taberna de boa
reputao, junto de uma torre de vigia, Cheo de fuligem dos lampies
#
a leo, o estabelecimento acolhia mercadores e artesos.
Acha entabulou conversa com dois homens barbudos e tagarelas
que vendiam acessrios para os carros de batalha. Eram marceneiros
,
mas tinham abandonado a fabricao de cadeiras para se dedicarem
quela atividade, muito mais lucrativa.
-Que cidade estupendal -elogiou Acha. -No a imaginava
to grandosa.
-  a sua primeira visita, amigo?
A Batalha de Kadesh 265
- Sim, mas tenciono abrir uma oficina.
- Ento trabalhe para o exrcito! Caso contrrio, comer mal
e s beber gua.
- Alguns colegas me disseram que a guerra se aproxima. . .
Os marceneiros desataram a rir.
- Ento  o ltimo a ser informado! Em Hattusa, isso no 
segredo para ningum. Desde que Llri-Techup, o fllho do imperador,
foi nomeado general-chefe, as manobras no param. E diz-se que as
nossas tropas de assalto no daro quartel... Desta vez o Egito est
perdido.
- Tanto melhor!
- Isso  discutvel, pelo menos por parte dos mercadores.
Hattusil, o irmo do imperador, nunca foi partidrio de um conflito,
mas acabou deixando-se convencer e deu o seu apoio a Llri-Techup.
Para ns,  s lucro, e j comeamos a fazer fortuna! Ao ritmo da
produo atual, o Hatti vai triplicar o nmero dos seus carros de
batalha. Em breve haver mais carros do que homens para os condu-
zirem!
Acha esvaziou o seu copo cheio de um vinho espesso e fingiu-se
de embriagado.
- V'ma a guerra! O Hatti engolir o Egito com uma s dentada, . .
E ns haveremos de festejar!
-Ainda vai ter que esperar um pouco, amigo, porque o impe-
rador no parece ter pressa em desencadear a ofensiva.
- Ah. . . O que ele est esperando?
- No estamos no segredo do palcio! Pergunte ao capito
Kenzor.
Os dois marceneiros riram com a sua prpria piada.
- Quem  Kenzor?
- O oficial de ligao entre o general-chefe e o imperador. . .
E, sobretudo, um mulherengo, pode crer! Quando est em Hattusa,
as moas bonitas andam todas areas.  o oficial mais popular do pas.
- Viva a guerra e um viva s mulheres!
A conversa declinou para os encantos femininos e os bordis da
cidade. Os marceneiros consideraram Acha simptico e pagaram-lhe
a despesa.
266 RAMSS
' Acha mudava de taberna todas as tardes. Estabeleceu inmeros
i
contatos, abordando temas frvolos, e lanou por vezes na conversa o
nome do capito Kenzor
Finalmente, conseguiu uma informao preciosa: o oficial de
ligao acabava de chegar a Hattusa.
Interrogar esse oficial superior o faria ganhar muito tempo. Preci-
sava localiz-lo, descobrir um meio de abord-lo e fazer-lhe uma
proposta que no pudesse recusar.. . Impunha-se ter uma idia.
Acha voltou para casa com um vestido, um manto e sandlias. A
 camponesa ficou maravlhada.
- So para mim?
- H outra mulher na minha vida?
- Deve ter sido caro!
 - Negociei.
Quis tocar nos trajes.
' - No, ainda no!
-Mas ento... quando?

- LIma noite dessas, que ser especal e durante a qual podere
admir-la  vontade. D-me tempo para prepar-la.
- Como quiser.
A jovem saltou-lhe ao pescoo e beijou-o apaixonadamente.
#
- Sabe que nua voc tambm  muito bonita?...
         medida que o barco real avanava para o sul, Setaou parecia
        rejuvenescer Puxando Ltus de encontro a si, redescobria, maravi-
        lhado, as paisagens da Nbia banhadas por uma luz to pura que fazia
        o Nilo parecer um rio celeste, em seu azul brilhante.
        Setaou talhara com sua machadinha um pedao de pau com
        ponta bifurcada para capturar algumas cobras cujo veneno guardaria
        num frasquinho de cobre. Com os seos nus, vestida apenas com um
        curto saiote esvoaante ao vento, a bela Ltus deliciava-se com o ar
        perfumado de sua terra natal.
A Botalha de Kadesh 267
Era o prprio Ramss que conduzia o barco. A tripulao,
experiente, manobrava com rapidez e preciso.
 hora das refeies, o capito substitua o rei. Na cabine central,
Ramss, Setaou e Ltus almoaram carne de vaca, salada bem temperada
e razes de papiros aucaradas misturadas com cebolas doces.
-  um verdadeiro amigo, Majestade - reconheceu Setaou.
-Trazer-nos consigo  um presente maravilhoso.
-Tinha necessidzde dos seus talentos e dos de Ltus.
- Embora vivamos isolados no nosso laboratrio do palcio,
chegam aos nossos ouvidos rumores desagradveis. A guerra aproxi-
ma-se realmente2
- Receio que sim.
- No  perigoso deixar Pi-Ramss nestes tempos conturbados?
-A minha prioridade  salvar Nefertari.
- No fui melhor do que o doutor Pariamakhu - lamentou
Setaou.
-A Nbia detm um remdio mraculosa, no  verdade? -
perguntou Ltus.
- Segundo os arquivos da Casa da Vida, sim; uma pedra criada
pela deusa Hathor num lugar perdido.
-Tem mais alguma informao, Majestade
- Llma vaga indicao: "No corao da Nbia, numa enseada
com areias de ouro, onde a montanha se separa e se une."
- LIma enseada. . . portanto, perto do Nilol
- Temos que agir depressa - disse Ramss. - Graas  fora
de Sekhmet e aos cuidados das especialistas do templo de Deir el-Bahari,
a energia no desaparecer completamente do corpo de Nefertari, mas
a ao das foras das trevas no foi anulada. A nossa esperana reside
nessa pedra.
Ltus ficou com o olhar perdido na distncia.
- Este pas ama Vossa Majestade como tambm Vossa Majes-
tade o ama. Fale com ele e elelhe falar, Majestade.
LIm pelicano sobrevoou o barco real. No era o magnfico
pssaro de asas grandes uma das encarnaes de Osris, o vencedor
da morte?
44
O capito Kenzor bebera demais.
Trs dias de licena na capital eram o ideal para esquecer os
rigores da vida militar e embriagar-se de vinho e mulheres. Alto, de
bigode, e voz rouca, desprezava as mulheres e considerava-as boas
apenas para darem prazer.
Quando o vinho lhe enevoava o crebro, Kenzor sentia um
desejo irresistvel de fazer amor. E nessa noite, por causa de um vinho
encorpado, precisava de sensaes fortes e imediatas. Cambaleou ao
sair da taberna e tomou a direo do bordel.
O capito nem sequer sentiu o aguilho do frio. Esperava en-
contrar uma virgem disponvel e quelhe oferecesse bastante resistn-
cia. Assim, deflor-la seria muito mais divertido.
LIm homem abordou-o com respeito.
- Posso falar-lhe, capito?
- O que quer?
- Propor-lhe uma maravilha - respondeu Acha.
Kenzor sorriu.
- O que est vendendo?
- LIma jovem virgem.
O olhar do capito iluminou-se.
- Quanto?
- Dez pedaos de estanho de primeira qualidade.
- Est muto caro!
#
-A mercadoria  de primeira qualidade.
- Quero-a imediatamente.
- Est disponvel.
270 RAMSS
        - S tenho cinco pedaos de estanho comigo.
        - Voc me paga o resto amanh de manh.
        - Confia em mim?
        - Depois desta, terei outras virgens para negociar.
        -Voc  um homem precioso, hem. .. Uamos l, tenho pressa.
        Kenzor estava to excitado que ambos seguiram em passo
apressado.
As ruelas adormecidas da cidade baixa estavam desertas.
Acha empurrou a porta da modesta habitao.
Bem penteada, a camponesa vestira os trajes novos que Acha lhe
comprara. Excitado, o capito Kenzor observou-a bem.
- Olhe bem, mercador. . . Ela no  um bocado velha demais
para ser virgem?
Com uma violenta pancada, Acha empurrou Kenzor de encontro
 parede; semidesmaiado, o oficial quase perdera a conscincia. O
egpcio aproveitou para lhe tirar a espada curta, cuja ponta encostou-
lhe na nuca.
- Quem. . . quem  voc? - balbuciou o hitita.
- Voc  o oficial de ligao entre o exrcito e o palcio. Ou
responde s minhas perguntas ou eu o mato.
Kenzor tentou libertar-se, mas a ponta da espada penetrou-lhe
na carne fazendo brotar sangue. O excesso de vinho privava o capito
da fora que possua; estava  merc do agressor.
Assustada, a camponesa refugiou-se em um canto do comparti-
mento.
- Quando se efetuar o ataque contra o Egito - interrogou
Acha - e por que razo os hititas fabricam tantos carros?
Kenzor fez uma careta. Seu agressor j dispunha de informaes
        importantes.
        -O ataque...  segredo militar.
        - Se se calar, levar esse segredo para a tumba.
        - No ser capaz. . .
        - Engana-se, Kenzor. No hesitarei em elimin-lo e matarei
        tantos oficiais quantos forem necessrios para conseguir saber a
        verdade.
A Batalha de Kadesh 271
A ponta da espada penetrou mais, arrancando um grito de dor
do ofical. A camponesa desviou o olhar
- S o imperador sabe a data do ataque... Eu no estou
informado.
-Mas sabe o motivo de o exrcito hitita ter necessidade de to
grande nmero de carros.
Com a nuca doendo, confuso por causa da bebedeira, o capito
Kenzor murmurou algumas palavras, como se falasse para si prprio.
Acha tinha o ouvido suficientemente aguado para ouvi-las e no
teve necessidade de faz-lo repetir a assombrosa declarao.
- Enlouqueceu? - perguntou, furoso, a Kenzor
.--- No,  a verdade. . .
- Impossvel!
--  a verdade.
Acha estava estupefato. Acabava de obter uma informao de
importncia capital, uma informao que podia mudar a sorte do
mundo.
Com um gesto preciso e violento, o egpcio enterrou a ponta da
espada na nuca do capito Kenzor, que morreu na hora.
- Volte-se - ordenou Acha  camponesa.
- No, deixe-me, v embora!
Com a espada estendida, aproximou-se da amante.
- Lamento, minha linda, mas  impossvel deix-la viver.
- No vi nada, no ouvi nada!
-Tem certezal
- Ele s resmungou, no ouvi nada, juro-lhe!
Ajoelhou-se.
- No me mate, suplico-lhe! Serei til a voc para sair da cidade!
Acha hesitou. A camponesa no deixava de ter razo. Como as
portas da capital ficavam fechadas durante a noite, precisava esperar
#
pela madrugada para atravess-las, acompanhado pela suposta esposa.
Ela serviria para pass-lo despercebido e, depois, num desvio de um
caminho estreito, a eliminaria.
Acha sentou-se ao lado do cadver de Kenzor I ncapaz de dormir,
s pensava em poder seguir o mais depressa possvel para o Egito e
tirar partido o mximo possvel da sua descoberta.
272 RAMSS
O inverno nbio, passada a frescura da madrugada, era delicoso.
Ramss vra na margem um leo com as suas fmeas. Os macacos,
empoleirados no alto das palmeiras mediterrnicas, saudaram-nos 
passagem do barco real com os seus gritos estridentes.
Durante uma escala, os aldees haviam oferecido ao monarca e
ao seu squito bananas e leite; durante a improvisada festa, Ramss
conversara com o chefe da tribo, um velho feiticeiro de cabeleira
embranquecida por noventa anos de uma existncia calma, ocupada
em cuidar dos seus.
Quando o velho quis se ajoelhar, Ramss impediu-o de faz-lo,
segurando-lhe pelo brao.
-A minha velhice foi iluminada. . . Os deuses permitiram-me
 ver o Faral No ser o meu dever inclinar-me diante dele e prestar-
lhe homenagem?
- Eu  que devo venerar a sua sabedoria.
 ~ No passo de um feiticeiro de aldeia!
!,, -Seja quem for que tenha respeitado a Regra de Mat ao longo
da sua vida  mais digno de respeito do que um falso sbio, mentiroso
e injusto.
- No  o senhor das Duas Terras e da Nbia? Eu s reino
sobre algumas famlias.
- E, no entanto, tenho necessidade da sua memria.
O Fara e o feiticeiro sentaram-se embaixo da palmeira que
servia de abrigo ao velho, quando o sol se tornava muito forte.
- A minha memria. . . Ela est repleta de cus azuis, brinca-
deiras de crianas, sorrisos de mulheres, saltos de gazelas e cheias
benfazejas. E Vossa Majestade  o responsvel por tudo isso, Fara!
Sem Vossa Majestade, as minhas recordaes no existiriam, e as
geraes futuras apenas produziriam seres sem corao.
- Lembra-se de um lugar sagrado onde a deusa do amor criou
uma pedra miraculosa, num lugar perdido no corao da Nbia?
Com a sua bengala, o feiticeiro desenhou uma espcie de mapa
na areia.
A Batalha de Kadesh 273
- O pai do meu pai havia trazido uma pedra como essa para a
minha aldeia. Quando lhe tocavam, as mulheres recuperavam a sade.
Infelizmente, os nmades a levaram.
- De que local  proveniente?
A bengala designou um ponto exato, no curso do Nilo.
-Aqui, deste lugar misterioso, no infeio da provncia de Kush.
- O que deseja para a sua aldeia?
- Nada mais do que aquilo que ela . Mas no se trata de
uma grande exigncia? Proteja-nos, Fara, e mantenha a Nbia
intacta.
- A Nbia falou pela sua voz e eu a ouvi.
O barco real saiu da provncia de auat e penetrou na de Kush,
onde, graas s intervenes de Sethi e de Ramss, reinava a paz entre
as tribos, sempre prontas a confrontar-se, mas receando a reao dos
soldados do Fara.
Comeava aqui uma regio selvagem e grandiosa cuja sobrevi-
vncia era garantida pelo Nilo. De um lado e do outro do rio a esteira
de terra cultivada parecia estreita, mas palmeiras mediterrnicas
davam sombra aos lavradores que lutavam contra o deserto.
De repente, surgiram as falsias.
Ramss teve a sensao de que o Nilo repelia qualquer presena
humana e que a natureza se fechava em si mesma, num espao
grandioso.
LIm embriagador aroma de mimosas atenuou-lhe aquela im-
presso de fim de mundo.
Duas salincias rochosas, de contornos quase paralelos, avana-
vam para o rio, separadas por um vale cheio de areia. Junto das
proeminncias de arenito, accias em ffor. "LIma enseada com areias
de ouro, onde a montanha se separa e se une..."
#
Como se emergisse de um longo sonho, como se fosse arrancado
de um feitio que durante um longo tempo enevoara o seu olhar,
Ramss reconheceu finalmente o lugar. Por que no pensara nele mais
cedo?
- Acostemos - ordenou. -  aqui, s pode ser aqui. . .
274 RAMSS
Nua, Ltus mergulhou no rio e nadou at a margem. Com o
corpo cintilante de gotculas prateadas de gua, correu com a elegn-
cia de uma gazela at um nbio adormecido  sombra das rvores.
Acordou-o, interrogou-o, correu de novo em direo  montanha,
apanhou um pedao de rocha e regressou ao barco.
Ramss tinha os olhos fixos na falsia.
Abou Simbel... Era exatamente Abou Simbel, a unio da fora
e da magia, o local onde decidira construir templos, o domnio de
Hathor que havia negligenciado e esquecido.
Setaou ajudou Ltus a subir para bordo. Segurava um pedao de
arenito na mo direita.
-  a pedra mgica da deusa, mas hoje ningum sabe mais
utilizar o seu poder curativo.
45
LIm fino raio de luz penetrou pela estreita janela da
casa mida e fria. O som dos passos de uma patrulha despertou a
camponesa; sobressaltou-se ao ver o cadver do capito.
-Est ali... Continua ali!
- Saia do seu pesadelo - recomendou Acha. - Este oficial
no testemunhar contra ns.
- Eu no fiz nada!
-  a minha mulher. Se eu for apanhado, voc tambm ser
executada.
A camponesa atirou-se contra Acha e martelou-lhe o peito com
os punhos cerrados.
- Esta noite estive refletindo - disse ele.
Ela parou, assustada. No olhar gelado do amante viu a prpria
morte.
- No, no tem o direito. . .
-Estive refletndo -repetiu ele. -Ou eu a mato j, ou voc
me ajuda.
-Ajud-lo... mas como?
- Eu sou egpcio.
A htita olhou para Acha como se ele fosse um ser do outro
mundo.
- Sou egpcio e tenho que regressar ao meu pas o mais
depressa possvel. Se for impedido de faz-lo, quero que passe a
fronteira e previna o meu senhor
- Por que haveria de correr semelhante risco?
276 RAMSS
- Em troca do seu bem-estar. Graas  tabuazinha que vou
entregar, voc ter uma casa na cidade, uma criada e uma renda para
toda a vida. O meu senhor ser generoso.
Nem mesmo nos seus mais loucos sonhos a camponesa ousara
imaginar semelhante vda.
- De acordo.
-Uamos sair cada um por uma porta da cidade -exigiu Acha.
- E se chegar antes de mim ao Egito? - inquietou-se ela.
- Cumpra a sua misso e no se preocupe com mais nada.
Acha redigu um curto texto em hiertco, forma abrevada da
escrita hieroglfica, e entregou a fina tabuazinha de madeira  amante.
Quando a beijou, ela no teve coragem de repeli-lo.
- Voltaremos a nos ver em Pi-Ramss - prometeu-lhe ele.
Quando Acha chegou s proximidades da cidade baixa, viu-se
diante de uma fila de mercadores que, como ele, tentavam sair da
capital.
Por todo lado havia soldados nervosos.
Era impossvel dar meia-volta por causa de uma patrulha de
arqueiros que separavam os civis em vrios grupos e os obrigavam a
submeter-se a uma revista.
Reclamavam, queixavam-se, empurravam-se, burros e mulas
zurravam, mas mesmo aquela agtao no atenuava a brutalidade das
sentinelas que guardavam a enorme porta.
-O que est acontecendo? -perguntou Acha a um mercador.
#
- E proibido entrar na cidade e difcil de sair. . . Procuram um
oficial que desapareceu.
- E desconfiam que somos ns os responsveis por sso?
-LIm oficial hitita no desaparece assim, sem deixar vestgios.
Algum deve t-lo agredido, talvez matado... Com certeza uma rixa
de palcio. Esto pracuranda o culpado.
- H suspeitas?
- LIm outro militar,  claro... Talvez conseqnca da velha
rixa entre o filho e o irmo do imperador. LIm vai acabar eliminando
O outro.
A Batalha de Kadesh 277
-As sentinelas revistam todas as pessoas...
-Querem ter certeza de que o assassino, um soldado armado,
no tentar sair da cidade dsfarado de mercador
Acha descontraiu-se.
A revista era lenta e minuciosa. LIm homem de cerca de trinta
anos foi atirado ao cho; os amigos protestaram, afirmando que ele
vendia tecidos e nunca pertencera ao exrcito. O negociante foi
liberado.
Chegou a vez de Acha.
LIm militar de rosto anguloso ps-lhe a mo no ombro.
- Quem  voc?
- LIm oleiro.
- Por que est saindo da cidade?
- Vou buscar um novo fornecimento para a minha casa.
O soldado verificou se o arteso no portava alguma arma.
- Posso partir?
O militar fez um gesto desdenhoso.
A alguns metros de Acha, a porta principal da capital hitita, a
liberdade, o caminho para o Egito...
- LIm momento - algum falou.
Ao olhar para a sua esquerda, Acha viu um homem de estatura
mediana, olhos penetrantes, com o rosto magro adornado por uma
pequena barba pontuda. Estava vestido com uma tnica de l verme-
lha com listras pretas.
- Detenham esse homem - ordenou aos sentinelas.
LIm ofical olhou-o sobranceiramente.
- Quem d as ordens aqui sou eu.
- O meu name  Raia - disse o homem de barbicha. -
Perteno  guarda do palcio.
- Que delito cometeu este mercador?
- Nem  hitita nem oleiro.  egpcio, chama-se Acha e ocupa
uma elevada posio na corte de Ramss.
Graas  fora da corrente e ao feitio do seu barco, Ramss
percorreu em dois dias os trezentos quilmetros que separavam
Zg RAMSS
Abou Simbel de Elefantina, a cabea do Egito e a cidade mais
meridional do pas. Foram necessrios mais dois dias para chegar
a Tebas. Os marinheiros haviam demonstrado uma habilidade
extraordinria, pois cada um deles estava consciente da gravidade
da situao.
Durante a viagem, Setaou e Ltus no pararam um momento
sequer de trabalhar em amostras da pedra da deusa, um arenito de
rara qualidade. Ao se aproximarem do desembarcadouro de Karnak,
no esconderam a sua decepo.
- No compreendo as reaes desta pedra - confessou
Setaou. - Suas propriedades so anormais, resiste aos cidos, ad-
quire coloraes extraordinrias e parece animada de uma energia
que no consigo medir. Como poderemos tratar a rainha, se no
conhecemos a frmula em cuja composio este remdio entrar e
nem sabemos a dosagem exata para administr-lo?
A chegada do monarca surpreendeu o pessoal do templo e
perturbou o protocolo. Apressado, Ramss dirigiu-se ao laboratrio
principal de Karnak acompanhado por Setaou e Ltus, que transmi-
tiram aos qumicos e aos farmacuticos o resultado das suas prprias
experincias.
O trabalho de investigao iniciou-se sob a superviso do rei.
Graas  biblioteca cientfica relativa aos produtos da Nbia, os
peritos apresentaram uma lista de substncias que deveriam ser postas
em contato com a pedra da deusa de Abou Simbel para expulsar os
#
demnios que debilitariam o sangue de uma pessoa, levando-a 
morte por esgotamento.
Faltava escolher os ingredientes certos e estabelecer a dosagem
dos constituintes: seriam necessrios vrios meses para conseguir isso.
Perturbado, o chefe do laboratrio no dissimulou a sua perplexidade.
- Coloquem as substncias sobre uma mesa de pedra e dei-
xem-me s - exigiu Ramss.
O rei concentrou-se e agarrou nas hastes da varinha de accia
com a qual ele e o prprio pai haviam descoberto gua no deserto.
Ramss passou a varinha sobre cada uma das substncias e,
quando ela se manifestou com um sobressalto, isolou o produto.
A Batalha de Kadesh
Completada a escolha com uma nova passagem da varinha, o monarca
efetuou as dosagens pelo mesmo mtodo.
Goma de accia, anis, extratos dos frutos recortados do sicmo-
ro, colocntida, cobre e pedacinhos da pedra da deusa foram os
componentes da frmula.
Maquiada com arte, Nefertari estava sorridente e alegre. Quan-
do Ramss se aproximou dela, a rainha lia o clebre romance de
Sinuhe, numa verso escrita por um escriba de mo particularmente
hbil. Enrolou o papiro, ergueu-se e aninhou-se nos braos do rei. O
seu abrao foi longo e apaixonado, embalado pelo canto dos popas e
dos rouxinis, e perfumado pelo aroma das rvores de incenso.
- Encontrei a pedra da deusa - disse Ramss - e o labora-
trio de Karnak preparou um remdio.
- Ser eficaz?
- LItilizei a varinha da radiestesia do meu pai para reconstituir
a frmula esquecida.
- Descreva-me o local da deusa nbia.
- Llma enseada com areia dourada, duas falsias que se unem. .
Abou Simbel, que eu havia esquecido. Abou Simbel, onde decidi celebrar
para sempre o nosso amor
O calor do poderoso corpo de Ramss transmitia-lhe a vida que
pouco a pouco ia se exaurindo.
- LIm mestre-de-obra e uma equipe de talhadores de pedra
partiro ainda hoje para Abou Simbel -continuou o rei. -Trans-
formarei aquelas falsias em dois templos, indissociveis para a
eternidade, como voc e eu.
-Ainda verei essa maravilha?
- Sim, voc a ver!
- Que a vontade do Fara seja cumprida.
- Se fosse de outra forma, seria eu ainda digno de reinar?
Ramss e Nefertari atravessaram o Nilo em direo a Karnak.
Celebraram juntos os rituais no santurio do deus Amon e depois a
rainha recolheu-se na capela da deusa Sekhmet, cujo sorriso de pedra
Ihe pareceu sereno.
280 RAMSS
                        Foi o prprio Fara que entregou  grande esposa real a taa
                contendo o nico remdio que poderia vencer a enfermidade mgica
                que a atingira.
                        A poo era morna e doce.
                        Dominada por uma vertigem, Nefertari deitou-se e fechou os
        '        olhos. Ramss no abandonaria a sua cabeceira, lutando com ela
                durante a interminvel noite em que a pedra da deusa tentaria
                expulsar o demnio que sorvia o sangue da rainha.
46
Despenteado, muito plido, com a lngua entrame-
lada, Ameni atrapalhou-se nas explicaes.
- Acalme-se - recomendou a rainha-me Touya.
-A guerra, Majestade,  a guerra!
- No recebemos qualquer documento oficial.
- Os generais preocupam-se, as casernas esto em ebulio,
surgem ordens contraditrias em todos os sentidos.
-Mas qual  a causa dessa desordem?
-lgnoro, Majestade, mas sou incapaz de controlar a situao. . .
Os militares no me do ouvidos!
Touya convocou o ritualista-chefe e duas cabelereiras do pal-
cio. Para sublinhar o carter sagrado de sua funo, ornaram-lhe a
cabea com uma peruca semelhante ao corpo de um abutre, cujas
asas desciam obliquamente do meio da testa at os ombros. Como O
#
abutre fmea era o smbolo da me cuidadosa por excelncia, Touya
surgia assim como a protetora das Duas Terras.
Nos pulsos e nos tornozelos, vrias pulseiras de ouro; no pesco-
o, um colar de pedras semipreciosas com sete voltas. Com o seu
longo vestido de lnho plissado, preso na cintura por um cinto de
largas pontas, encarnava a suprema autoridade.
- Acompanhe-me  caserna do Norte - pediu a Ameni.
- No deve ir l, Majestade! Espere acalmar essa agitao.
- O mal e o caos nunca se destroem por si prprios. Apresse-
mo-nos.
282 RAMSS
Pi-Ramss estava mergulhada em barulho e discusses. Alguns
afirmavam que os hititas se aproximavam do Delta, outros j descre-
viam os combates, e muitos preparavam a fuga para o Sul.
A porta da caserna do Norte j no estava devidamente guardada.
O carro que transportava Amen e a ranha-me penetrou no grande
ptio de onde desaparecera toda a disciplina.
Os cavalos imobilizaram-se no centro do amplo espao.
LIm oficial de cavalaria viu a rainha-me e preveniu seus com-
panheiros, que alertaram os outros soldados. Em menos de dois
minutos, centenas de homens estavam diante de Touya para ouvir suas
palavras.
Touya, pequena e frgil, no meio de soldados armados, capazes
de elmn-la em poucos segundos... Ameni tremia, considerando
suicida a interveno da rainha-me. Deviam ter permanecido no
palcio, sob a proteo da guarda de elite. Talvez suas palavras
tranqilizadoras acalmassem um pouco a tenso, desde que se mos-
trasse diplomata.
Fez-se silncio.
A ranha-me olhou com desdm para todos.
- S vejo covardes e ncapazes - declarou com voz seca, que
ressoou nos ouvidos de Ameni como um trovo. - Covardes e
imbecis, incapazes de defender o seu pas, pois acreditam no primeiro
boato que surge.
Ameni fechou os olhos. Nem ele nem Touya escapariam  fria
dos soldados.
- Por que est nos insultando, Majestade? - nterrogou um
tenente de cavalaria.
- Descrever a realidade  insultar? O seu comportamento 
ridfeulo e digno de desprezo, e os oficiais so mais dignos de censura
do que os soldados. Quem decidir a nossa participao na guerra
contra os hititas seno o Fara e, na sua ausncia, eu prpria?
O silncio tornou-se pesado. Aquilo que a rainha-me ia dzer
no seria um boato e sim o destino de toda a nao.
- No recebi nenhuma declarao de guerra do imperador do
Hatti - afirmou ela.
A Batala de Kadesh 283
Vrios urras saudaram suas palavras; 'Iuya nunca mentira. Os
soldados congratularam-se.
Como a rainha-me permaneceu imvel em seu carro, a assis-
tncia compreendeu que o seu discurso ainda no terminara. Fez-se
novamente silncio.
- -me impossvel afirmar que a paz ser duradoura, e estou
mesmo convencida de que os hititas tm como nica finalidade um
conflito implacvel. O resultado depender dos esforos de todos.
Quando Ramss estiver de novo na capital, cujo regresso est prxi-
mo, quero que se sinta orgulhoso do seu exrcito e confiante nas suas
possibilidades de vencer o inimigo.
A rainha-me foi aclamada.
Ameni reabriu os olhos, tambm subjugado pela fora de per-
suaso que se desprendia da viva de Sethi.
O carro ps-se em movimento e os soldados afastaram-se,
gritando o nome de 'Iuya.
-Regressamos ao palcio, Majestade?
- No, Ameni. Suponho que os operrios da fundio tenham
interrompido o trabalho, no  verdade?
O secretrio particular do rei baixou os olhos.
Sob o impulso de Touya, a fbrica dP armas de Pi-Ramss reco-
meou a trabalhar e em breve funcionava intensamente na produo
de lanas, arcos, pontas de flechas, espadas, couraas, arreios e peas
#
para os carros. J ningum duvidava da eminncia do conflito, mas
surgira uma nova exigncia: dispor de equipamento superior ao dos
hititas.
A rainha-me visitou as casernas e flou a todos, desde os oficiai
at o mais simples soldado; no deixou tambm de ir  oficina onde
eram montados os carros que saam da fbrica e felicitar os artesos.
A capital esquecera o medo e descobrira o gosto pelo combate.
Como era doce aquela mo elegante de longos dedos finos,
quase irreais, que Ramss beijou um a um, antes de apert-los na sua
prpria mo para nunca perd-los. No havia uma parte do corpo de
Nefertari que no inspirasse amor; os deuses, que haviam depositado
284 RAMSS
sobre os ombros de Ramss a mais pesada das misses, haviam-lhe
oferecido tambm a mais sublime das mulheres.
- Como se sente esta manh?
-Melhor, muito melhor... O sangue circula de novo em minhas
veias.
- Gostaria de dar um passeio no campo?
- Estava sonhando com isso.
Ramss escolheu dois velhos e tranqilos cavalos, que ele prprio
atrelou a seu carro. Avanaram trotando pelos caminhos da margem
ocidental, ao longo dos canais de irrigao.
Nefertari encheu os olhos com a fora das palmeiras e da vege-
tao que renasca nos campos. Comungando com as foras da terra,
acabou, por sua prpria vontade, de expulsar o mal que a enfraque-
cera. Quando desceu do carro e caminhou ao longo do Nilo, com os
cabelos ao vento, Ramss teve certea de que a pedra da deusa havia
salvo a grande esposa real e que ela haveria de ver os dois templos de
Abou Simbel construdos para celebrar o seu amor eterno.
A loura Lita ofereceu um pobre sorriso a Dolente, a irm de
Ramss, que lhe retirava uma compressa embebda em mel, resina de
accia seca e colocntida esmagada. Quase no se viam as marcas das
queimaduras.
- Sinto dores - queixou-se a descendente de Akhenaton.
- As suas feridas esto cicatrizando.
- No minta, Dolente... Elas nunca desaparecero.
- Engana-se, o nosso tratamento  eficaz.
- Pea a Ofir que pare com essa experincia. . . No agento
mais!
- Graas ao seu sacrifco, venceremos Nefertari e Ramss;
mais um pouco de coragem e a sua provao terminar.
Lita desistiu de convencer a irm de Ramss, to fantca quanto
o mago lbio. Apesar da sua aparente gentileza, Dolente s vivia para
a sua vingana. Nela, o dio sobrepusera-se a quaisquer outros sen-
timentos.
- Irei at o fim - prometeu a jovem mdium.
A BatoJho de Kodesh 285
- Eu tinha certeza! Descanse at que Ofir a leve para o labo-
ratrio. Nani vai trazer-lhe algo para comer.
Nani, a nica criada autorizada a entrar no quarto de Lita, era a
sua ltima chance. Quando a criada trouxe uma tigela de madeira
com pur de figos e pedaos de carne de vaca assados, a mdium
agarrou-lhe no cinto do vestido.
-Ajude-me, Nani!
- O que quer?
- Sair daqui! Fugirl
A criada mostrou-se pouco entusiasmada.
-  perigoso.
-Abra a porta que d para a rua.
- Estou arriscando o meu lugar
-Ajude-me, suplico-lhe!
- Quanto me pagar?
Lita mentiu.
- Os meus partidrios possuem ouro. . . Serei generosa.
- Ofir  rancoroso.
- Os adeptos de Aton nos protegero, a voc e a mim.
- Quero uma villo e um rebanho de vacas leiteiras.
-Voc os ter.
Ambiciosa, Nani j extorquira uma bela recompensa quando
entregara ao mago o xale de Nefertari, mas o que Lita lhe prometia
#
ultrapassava os seus limites.
- Quando quer partir?
-Ao cair da noite.
- Vou tentar
- Tem que conseguir! A sua fortuna depende disso, Nani.
-  realmente muito perigoso. . . Tambm quero vinte peas
de tecido de primeira qualidade.
-Tem a minha palavra.
Desde o incio da manh que Lita estava obeecada por uma viso:
uma mulher de sublime beleza, sorridente, radiosa, andando ao longo
do Nilo e estendendo a mo para um homem alto e atltico. A
mdium sabia que o feitio de Ofir falhara e que o mago lbo a estava
torturando em vo.
286 RAMSS
Serramanna e seus homens revistavam o bairro situado por trs
da escola de medcina e nterrogavam todos os seus moradores. O
sardo mostrava-lhes um desenho do rosto de Nani e ameaava-os com
terrveis punies se mentissem. Precauo desnecessria, porque a
simples viso do gigante provocava todo tipo de confisses, infeliz-
mente todas inteis.
Mas o ex-pirata era obstinado e, graas ao seu faro, sentia que a
presa no estava longe. Quando lhe trouxeram um vendedor ambu-
lante de mozinhas gorduchas, Serramanna sentiu uma contrao na
boca do estmago, prennco de um momento decisivo.
O sardo brandiu o desenho.
- Conhece esta mulher?
-Vi-a aqui no bairro. . .  uma criada. J na est aqui h muito
tempo.
- Em que villa trabalha?
- Numa das maiores, perto do poo velho.
Cem guardas cercaram imediatamente as casas suspeitas; nn-
gum podia escapar da armadilha.
O mago culpado da tentativa de assassinato da rainha do Egito
no escaparia de Serramanna.
4
O sol se punha no horizonte.
Lita j no tinha muito tempo para fugir antes de o mago Ofir
fech-la em seu laboratrio. Por que Nani estava demorando tanto?
O rosto de uma bela mulher, feliz e radioso, continuava a assediar
a mdium. O rosto da rainha do Egito. Lita sentia ter uma dvida para
com ela, uma dvida que deveria pagar antes de recuperar a liberdade.
A jovem loura deslocava-se sem fazer rudo pela casa silenciosa.
Ofir, como de hbito, consultava os seus grimrios. Cansada, Dolente
dormia.
Lita ergueu a tampa de um cofre de madeira onde se encontrava
o ltimo pedao do xale de Nefertari. Mais uma ou duas sesses e
estaria completamente calcinado. Lita tentou rasg-lo, mas as fibras
eram muito resistentes e ela estava sem foras.
Na cozinha, um rudo.
Lita escondeu o pedao de tecido numa manga do vestido, que
mediatamente lhe queimou a pele.
-  voc, Nani?
- Est pronta?
- Estou. . . S um instante.
- Seja rpida.
Lita colocou o resto do xale sobre a chama de uma lmpada de
leo.
Um crepitar, seguido de uma ltima voluta de fumaa negra,
completou a anulao do feitio destinado a destruir as defesas mgicas
do casal real.
- Como  belo, como  belo!
288
RAMSS
Lita ergueu os braos para o cu, invocando Aton, quelhe daria
uma vida nowa.
-Vamos partir logo -exigiu Nani, que roubara todas as placas
de cobre que conseguira encontrar na casa. As duas mulheres corre-
ram para a porta dos fundos, que dava para uma ruela.
Foi quando Nani esbarrou em Ofir, imvel, de braos cruzados.
- Aonde vai?
#
Nani recuou. Atrs dela estava Lita, apavorada.
- Lita. . . O que faz ela aqui com voc?
- Ela. . . ela est doente - respondeu Nani.
- Estavam tentando fugir?
- Foi ela, foi Lita quem me obrigou. . .
- O que lhe revelou ela, Nani1
- Nada, absolutamente nada!
- Est mentindo, menina.
Os dedos de Ofir enlaaram o pescoo da criada. Apertaram
com tanta fora que os seus protestos permaneceram no fundo da
garganta e o ar lhe faltou. Nani tentou libertar-se, mas em vo, pois
no conseguia afrouxar as mos fortes que a prendiam. Com os olhos
congestionados, morreu sufocada e caiu sobre a bainha do manto do
mago, que afastou o cadver com a ponta do p.
- Lita. . . O que se passa com voc, minha filha?
Prximo a um lampio de leo, Ofir descobriu os restos de um
pedao de tecido carbonizado.
- Lita! Que loucura fez?
O mago agarrou no cabo de uma faca de cortar carne.
- Ousou destruir o xale de Nefertari, ousou arruinar o nosso
trabalhol
A jovem tentou fugir, mas esbarrou num outro lampio a leo e
perdeu o equilbrio; rpido como um raio, o mago caiu sobre ela e
agarrou-lhe os cabelos.
- Traiu-me, Lita; j no posso ter mais confiana em voce.
Amanh voltaria a trair-me.
-Voc  um monstro!
-  pena. . . Voc era uma excelente mdium.
Ajoelhada, Lita suplicou:
A Batalho de Kodesh 289
-Aton cria a vida e repele a morte, ele...
- Eu quero l saber de Aton, minha pequena imbecil! Por sua
causa, o meu plano falhou.
Com mo firme, Ofir cortou a garganta de Lita.
Com a cabeleira em desordem e o rosto crispado, Dolente
irrompeu no compartimento.
- H guardas na rua. . . Oh, Lita! Lita. . .
-Enlouqueceu e agrediu-me com uma faca -explicou Ofir -
Fui obrigado a defender-me e matei-a sem querer Guardas, voc disse?
- Ouvi-os pela janela do meu quarto.
-Abandonemos esta casa.
Ofir arrastou Dolente para um alapo disfarado sob um tapete
que dava acesso a um corredor, que, por sua vez, desembocava num
armazm. Nem Lita nem Nani falariam.
- S falta uma villa - disse um guarda a Serramanna. -
Batemos, mas ningum responde.
-Arrombemos a porta!
-  ilegal!
- Motivo de fora maior
- Seria preciso prevenir o proprietrio e pedir a sua autorizao.
-A autorizao sou eu!
- Preciso de um mandado. No quero aborrecimentos.
Serramanna perdeu uma boa hora para regularizar a situao,
de acordo com as exigncias da guarda de Mnfis. Por fim, quatro
homens robustos rebentaram os ferrolhos e enaram na villo.
O sardo foi o primeiro a descobrir o cadver de uma mulher
loura e depois o da criada Nani.
- LIm verdadeiro massacre - murmurou um guarda, pertur-
bado.
-Dois crimes executados a sangue-fi-io -observou o sardo.
- Revistem tudo.
O exame de laboratrio provou que se tratava realmente do
esconderijo do mago. Embora tivesse chegado tarde demais, uma
290 RAMSS
pequena descoberta tranqilizou Serramanna: restos de tecido car-
bonzados, sem dvida os do xale da ranha.
Ramss e Nefertari fizeram a sua entrada numa capital azafma-
da, menos sorridente do que o habitual. A atmosfera estava impreg-
nada de disciplina militar, e a produo de armas e de carros de guerra
era o objetivo principal da maior parte da populao. Antes dedicada
#
ao prazer de viver, a cidade agora transformara-se numa trepidante e
ansiosa mquina de guerra.
O casal real dirigiu-se imediatamente ao encontro de Touya, que
consultava um relatrio da fundio.
- Os hititas abriram oFcialmente as hostilidades?
- No, meu filho, mas tenho certeza de que este silncio no
oculta nada de bom. Nefertar... Est curada?
-A enfermidade agora no passa de uma m recordao.
- Este interregno esgotou-me... J no tenho foras para
governar este imenso pas. Fale  corte e ao exrcito, eles precsam
do seu entusiasmo.
Ramss conversou longamente com Ameni e depois recebeu
Serramanna, que havia regressado de Mnfis. O que ele passou a lhe
contar parecia afastar de forma definitiva a ameaa da magia que
pusera em perigo o casal real; no entanto, o monarca pediu ao sardo
que continuasse o seu inqurito e identificasse o verdadeiro proprie-
trio da sinistra villa. E duem era a jovem loura, cuja garganta fora
cortada violentamente?
O fara tinha outras preocupaes. Acumulavam-se no seu
gabinete relatrios alarmantes provenientes de Cana e Amurru; os
comandantes das fortalezas egpeias no relatavam qualquer incidente
srio, mas faziam referncia a insistentes boatos relativos a grandes
manobras do exrcito hitita.
Infelizmente, Acha ainda no mandara qualquer relatrio, por
menor que fosse, que teria auxiliado Ramss a ver tudo muito claro.
Do local de onde se dara o confronto com os httas dependera o
desfecho do conflito. Sem informaes precisas, o rei hesitava entre
o reforo das linhas de defesa e o lanamento de uma ofensiva que o
A Batalha de Kadesh 291
levaria a travar a batalha mais ao norte. Neste ltimo caso, competia-
lhe tomar a iniciativa; mas deveria obedecer ao instinto e correr
semelhante risco?
A presena do casal real dava confiana e energia s foras
armadas, do general ao simples soldado. Tendo vencido um inimigo
invisvel, no conseguiria Ramss triunfar sobre os brbaros htitas?
Vendo acumularem-se armas novas, os militares tomavam conscincia
do seu potencial e receavam menos agora o choque frontal com o
adversrio. Na presena da elite da cavalaria, o prprio Ramss
experimentara vrios carros de guerra, leves, fceis de manejar e
bastante velozes. Graas ao talento dos carpinteiros, pequenos deta-
lhes tcnicos havam sido melhorados. As armas defensivas - escu-
dos e couraas -eram igualmente alvo da ateno do soberano, pois
salvariam muitas vidas.
Retomando as suas mltiplas atividades, a rainha tranqilizara a
corte. Aqueles que j tinham enterrado Nefertari no deixavam de
felicit-la por sua coragem e delhe garantir que resistr a to dura
prova era uma garantia de longevidade.
A grande esposa real permanecia indiferente a todas as bisbilho-
tices. Preocupava-se, sim, com a produo intensiva do vesturio para
os soldados e resolvia os mil e um detalhes relativos ao bem-estar
econmco do pas, baseando-se nos relatrios minuciosos de Ameni.
Chenar saudou o irmo.
- Engordou - observou Ramss.
- No  por falta de atividade - protestou o ministro dos
Negcios Estrangeiros. - No me dou bem com a angstia. Esses
rumores de guerra, essa soldadesca onipresente... E esse o Egito?
- Os hititas no tardaro a atacar-nos, Chenar.
-Sem dvida, deve ter razo, mas o meu ministrio no dispe
de nenhum fato preciso para fundamentar esse receio. No continua
a receber cartas amveis de Muwattali?
-Apenas logros.
- Se preservarmos a paz, milhares de vidas sero poupadas.
-Acha que no  esse o meu desejo mais profundo?
292 RAMSS
-A moderao e a prudncia no so as melhores conselheiras?
- Estar querendo defender a passividade, Chenar?
-Certamente que no, mas receio uma iniciativa perigosa por
parte de algum general vido de glria.
;
- Descanse, meu irmo, que tenho o exrcito sob controle
#
no se verificar qualquer incidente desse gnero.
- Sinto-me feliz por ouvi-lo dizer isso.
- Est satisfeito com os servios de Meba, seu novo auxiliar?
- Est to contente por ter reencontrado um trabalho no
ministrio que se comporta como um principiante dcil e zeloso. No
lamento t-lo arrancado  sua ociosidade; s vezes  preciso dar
oportunidade a um bom profissional. No  a generosidade a mais
bela das virtudes?
48
Chenar fechou-se no seu gabinete com Meba. O
seu distinto adjunto tivera o cuidado de trazer papiros para fazer crer
que se tratava de uma habitual sesso de trabalho.
- Vi o rei - informou Chenar. --Ainda est hesitante sobre
qual atitude tomar, por causa da falta de informaes fidedignas.
- Excelente! - exclamou Meba.
Chenar no podia confessar ao seu cmplice que o silncio de
Acha o surpreendia; por que razo o jovem diplomata no lhe prestava
contas de sua ao, essencial para precipitar a derrota de Ramss?
Com certeza lhe havia acontecido alguma desgraa. Devido a esse
inquietante mutismo, o prprio Chenar sentia falta de pontos de
referncia.
- Corno  que estamos, Meba?
-A nossa rede de espionagem recebeu ordem para no tomar
mais nenhuma iniciativa, mas apenas aguardar. Em outras palavras,
aproxima-se a hora. Seja o que for que o Fara decida, no tem
qualquer chance de vencer.
- De onde vem essa certeza?
-Tenho certeza de que a fora hitita dar o seu mximo. Cada
hora que passa o coloca mais prximo do poder supremo. No seria
conveniente aproveitar este perfodo para desenvolver a sua rede de
amizades nas diversas administraes?
- O maldito Ameni tem olhos por todo lado...  Preciso
prudncia.
-Encara uma soluo... radical?
-  cedo demais, Meba. A clera do meu irmo seria terrfvel.
294 RAMSS
-No esquea o meu conselho: as semanas vo correr depressa
e voc precisa estar pronto para reinar, com a concordncia dos nossos
amigos hititas.
- H muito tempo que espero por esse momento... Fique
descansado, estarei preparado.
Desorientada, Dolente seguira o mago Ofir. A morte horrvel da
loura Lita, a guarda do fara, aquela fuga precipitada... Deixara de
ter capacidade para raciocinar, no sabia para onde ir. Quando Ofir
lhe pedira para se apresentar como sua esposa e continuar a luta para
restaurar a religio de Aton, o deus nico, Dolente aceitara com
entusiasmo.
Os dois evitaram o porto de Mnfis, patrulhado pela guarda, e
compraram um burro. Vestidos como camponeses, Ofir, que cortara
a barba, e a irm de Ramss, sem qualquer maquiagem, haviam
tomado a direo sul. O espio sabia que seria procurado no norte
de Mnfis e para os lados da fronteira, e que tinham poucas chances
de escapar das barreiras montadas nas estradas ou da guarda fluvial,
a menos que se comportassem de forma imprevisvel.
Achou ser conveniente pedir asilo aos fervorosos partidrios de
Akhenaton, o rei hertico, a maior parte dos quais tinham se reagru-
pado no Mdio Egito, perto da sua capital, a cidade do sol,* deixada
ao abandono. Ofir no lamentava ter representado uma comdia que,
de momento, se revelava muito til. Fazendo Dolente acreditar que
a sua razo de viver era o amor ao deus nico, Ofir mantinha uma
aliada incondicional e se beneficiaria de um abrigo seguro no meio
de um crculo de iluminados, at que os hititas invadissem o Egito.
Por sorte, antes de escaparem s pressas, Ofir recebera uma
mensagem fundamental, cujo contedo transmitira a Meba: o plano
concebido por Muwattali estava em vias de execuo. Bastava apenas
aguardar o confronto final.
Logo que fosse anunciada a morte de Ramses, Chenar afastaria
Nefertari e Touya, e depois subiria ao trono para receber condigna-
* Akhet-Aton, "O pas luminoso lo lisco solar',
A Batalba de Kades 295
#
mente os hititas. O que Chenar no sabia era que Muwattali no tnha
o hbito de dividir o poder O irmo mais velho de Ramss no teria
mais do que um reinado passageiro, e as Duas Terras se transforma-
riam no celeiro de trigo dos hititas.
Descontrado, Ofir saboreou a beleza tranqila do campo egpcio.
Levando em considerao a sua posio e a sua qualidade, Acha
no fora encarcerado numa das masmorras escuras e midas da cidade
baixa, onde a durao mdia de vida no ultrapassava um ano, mas
sim num calabouo de pedra talhada da cidade alta, reservado aos
prisioneiros de elite. A alimentao era pssima e o leito medocre
,
mas o jovem diplomata suportava-os e mantinha sua boa condio
fsica por meio de algumas sries de exerccios cotidianos.
No fora submetido a nenhum interrogatrio desde que fora
preso, mas sua deteno podia terminar com uma execuo sumria.
Finalmente a porta da cela abru-se.
- Como est passando? - perguntou Raia.
- Bem.
- Os deuses lhe foram desfavorves, Acha; sem mim, teria
escapado.
- No estava fugindo.
-  difcil negar os fatos!
-A aparncia  por vezes enganadora.
- Voc  Acha, o amigo de infncia de Ramss! Vivos, em
Mnfis e em Pi-Ramss, e cheguei mesmo a vender alguns vasos
raros  sua famlia. O rei lhe confiou uma misso de espiona-
gem particularmente audaciosa e no lhe faltou coragem nem
habilidade.
- Engana-se num ponto essencial. Ramss confiou-me efeti-
vamente essa misso, mas sirvo a outro senhor Seria a ele e no a
Ramss que eu teria transmitido os verdadeiros resultados das minhas
investigaes.
- A quem est querendo se referir?
- Ao irmo mais velho de Ramss, Chenar, o futuro fara do
Egito.
296 RAMSS
Raia coou a barbcha, pondo em desalnho a perfeta ordem
dos plos que o barbeiro cortara com arte. Portanto, Acha seria aliado
dos htitas. . . No, um detalhe decisivo desmentia as suas afirmaes.
- Nesse caso, por que estava usando roupas de oleiro?
O jovem diplomata sorriu.
- Como se voc no soubesse!
- Explique-se.
-  verdade que  Muwattali quem reina, mas em que tco
se apia e qual  o tamanho real de seu poder? O filho e o irmo
brigam entre si, ou a guerra de sucesso j est decidida?
- Cale-se!
- Eis as perguntas essenciais s quais eu devia responder...
Compreende agora a razo do meu anonimato? A propsito... No
poderia voc fornecer-me as respostas?
Perturbado, Raia saiu, batendo a porta da cela.
Talvez Acha tivesse feito mal em provocar o srio, mas, ao revelar
o seu segredo, esperava estar salvo.
Em traje de gala, o imperador Muwattali saiu do seu palcio sob
a proteo de uma escolta que o ocultava da vista dos que passavam
e o punha ao abrigo de algum arqueiro emboscado no telhado de um
edifco. Graas aos preges dos arautos, todos sabiam que o senhor
do Hatti devia deslocar-se ao grande templo da cidade baixa para
implorar os favores do deus da tempestade.
No havia forma mais solene de colocar o Hatti em estado de
guerra e mobilizar as suas energias para um triunfo final.
Da sua cela, Acha ouviu os clamores que saudavam a passagem
do imperador. Tambm compreendeu que tinha sido tomada uma
deciso capital.
O conjunto das divindades hititas estava colocado sob a autori-
dade do deus da tempestade. Os sacerdotes lavaram as esttuas, de
forma a evitar a clera do cu. Mais nenhum hitita deveria formular
qualquer dvida ou crtica; chegara o momento da ao.
A sacerdotisa Putuhepa pronunciou as palavras que transforma-
vam as deusas da fecundidade em temveis guerreiras. A seguir,
#
A Batalha de Kadesh 297
espetou num porco sete pregos de ferro, sete de bronze e sete de
cobre, a fim de que o futuro realizasse os votos do imperador.
Durante a recitao das litanias, o olhar de Muwattali deteve-se
no filho, Llri-Techup, com capacete e couraa, louco de alegria com
a idia de guerrear e massacrar o adversrio. Hattusil permanecia
calmo e enigmtico.
Os dois tinham pouco a pouco eliminado os seus concorrentes,
e formavam, com Putuhepa, o pequeno crculo prximo do impera-
dor. Mas Llri-Techup detestava Hattusil e Putuhepa, que lhe pagavam
na mesma moeda.
A guerra contra o Egito permitiria a Muwattali resolver os con-
llitos internos, expandir o seu territrio e afirmar sua soberania sobre
o Oriente e a sia, antes de pensar em outras regies - no era ele
que gozava dos favores celestes?
Terminada a cerimnia, o imperador convidou generais e oficiais
superiores para um banquete, que comeou com a oferenda de quatro
pores de alimento; o copeiro do palcio depositou a primeira no
trono real, a segunda perto da lareira, a terceira sobre a mesa de honra
e a quarta na soleira da sala de refeies. Depois, os convivas empan-
turraram-se e embebedaram-se como se aquela fosse a sua ltima
refeio.
Quando Muwattali se levantou, cessaram os risos e as conversas.
At os mais exaltados compuseram um ar de dignidade.
Apenas um acontecimento, um s, podia ainda atrasar o conffito.
O imperador e seu squito saram da capital por uma das portas
da cidade alta - a das Esfinges -, e dirigiram-se para uma colina
rochosa, em cujo topo subiram Muwattali, LIri-Techup e Putuhepa.
Permaneceram imveis, com os olhos fixos nas nuvens.
- Ei-los! - exclamou LIri-Techup.
O filho do imperador retesou o seu arco e fez pontaria para um
dos abutres que sobrevoavam a capital. A flecha trespassou em cheio
o pescoo da ave.
LIm oficial trouxe a ave ao general-chefe, que lhe abriu o peito
com uma faca e, com as duas mos, retirou as entranhas fumegantes.
- Decifre-as - pediu Muwattali a Putuhepa - e nos diga se
o destino nos  favorvel.
298 RAMSS
Apesar de incomodada pelo cheiro, a sacerdotisa cumpriu o seu
ofcio ao examinar a disposio das entranhas do abutre.
- Favorvel.
O grito de guerra de Llri-Techup fez tremer todas as montanhas
da Anatlia.
49
O grande conselho do Fara, ao ual tinham sido
q
associadas numerosas personalidades da corte, anunciava-se agitado.
Os ministros estavam mal-humorados, os altos funcionrios lamen-
tavam a ausncia de diretivas claras, os ugures previam um desastre
militar. A barreira formada por Ameni e pelos seus servios j no
bastava para proteger Ramss, de quem todos esperavam explicaes.
Quando o fara se sentou no trono, a sala de audincias estava
repleta. Competia ao decano dos dignitrios levantar as questes que
tinha coligido, a fim de que no se desencadeasse nenhum burburinho
e que a dignidade milenar da instituio faranica fosse preservada.
Os brbaros discutiam, gritavam e cortavam-se mutuamente a palavra;
pelo contrrio, na corte do Egito, cada um tomava a palavra na sua
vez e ouviam-se uns aos outros.
-Majestade -delarou o decano -o pas est inquieto e quer
saber se a guerra com os hititas est iminente.
- Est - respondeu Ramss.
LIm longo silncio sucedeu-se  breve e aterradora revelao.
-  inevitvel2
- Inevitvel.
- O nosso exrcito est preparado para combater?
- Os artesos trabalharam com entusiasmo e continuam os
seus esforos; alguns meses suplementares teriam sido convenientes,
mas no dispomos deles.
- Por que, Majestade?
- Porque o nosso exrcito tem de partir para o Norte o mais
#
rpido possvel. O confronto acontecer longe do Egito; como os
300 RAMSS
nossos protetorados de Cana e Amurru foram pacificados, vamos
atravess-los sem perigo.
-A quem nomear general-chefe?
-Eu prprio assumirei o comando. Durante a minha ausncia,
a grande esposa real Nefertari gavernar as Duas Terras, assistida pela
minha me, a rainha Touya.
O decano no continuou com outras perguntas; no havia mais
qualquer interesse nelas.
Homero fumava folhas de salva comprimidas na grande concha
de caracol que lhe servia de fornilho de cachimbo. Sentado embaixo
de um limoeiro, saboreava o sol primaveril, cujo calor aliviava o seu
reumatismo. A longa barba branca, perfumada pelo barbeiro, eno-
brecia-lhe o rosto burilado e cheio de rugas. Sobre os joelhos do
poeta, Heitor, o gato preto rajado de branco, ronronava.
- Esperava v-lo antes da sua partida, Majestade;  a grande
guerra, no  verdade?
- Est em jogo a sobrevivncia do Egito, Hmero.
- Graas aos cuidados dos homens - escrevi eu - pode ver-se
crescer, mesmo num Iocal solitrio, uma magn ica oliveira cheia de seiva regada
por gua em abundncia e que os ventos fazem cavar, uma rvore que se cobre
de, flores brancas. Mas, de repente, sopra um tornado que a desenraza e a deixa
cada no solo.
- E se a rvore conseguisse resistir  tempestade?
Homero ofereceu ao rei uma taa de vinho tinto, com anis e
coentros, e ele prprio bebeu um longo gole.
- Escreverei a sua epopia, Ramss.
-A sua obra vai lhe deixar algum tempo para isso?
-Dedico-me a cantar a guerra, as viagens e o gosto dos heris.
vencedor, vou torn-lo imortal.
- E se eu for vencdo?
- Imagine os hititas invadindo o meu jardim, cortando o meu
limoeiro, quebrando a minha escrivaninha, assustando Heitor? Os
deuses no poderiam tolerar tal desastre. Onde travar a batalha
decisiva?

A Batalha de Kadesh 301
-  segredo militar, mas a voc posso confi-lo: ser em
Kadesh.
-A batalha de Kadesh. . .  um bom ttulo. Muitas outras obras
desaparecero, pode crer, mas esta sobreviver na memria da huma-
nidade. Nela colocarei toda a minha arte. m detalhe apenas, Majes-
tade: gostaria de ver um final feliz.
- Tentarei no desiludi-lo.
Ameni sentia-se desamparado. Tinha mil perguntas a fazer a
Ramss, cem pastas para lhe mostrar, dez casos de conscincia a
submeter  sua apreciao. . . E s o Fara podia decidir Plido, com
a respirao acelerada e as mos trmulas, o secretrio particular
parecia no limite de suas foras.
- Devia descansar - aconselhou o rei.
- Mas. . . voc vai partir! E durante quanto tempo? Estou me
arriscando a cometer erros e a enraquecer o reino.
-Tenho inteira confiana em voc, Ameni, e a rainha o ajudar
a tomar as decises corretas.
-Diga-me a verdade, Majestade: tem alguma chance, s uma,
de vencer os hititas?
- Conduziria os meus homens para o combate se j estivesse
derrotado antes da luta?
-Consta que esses brbaros so invencveis.
-Quando o inimigo  identificado, torna-se possvel venc-lo.
Tome bem conta do nosso pas, Amen.
Chenar saboreava costeletas de cabrito grelhadas, temperadas
com salsa e aipo; considerando o sabor pouco estimulante, espalhou
especiarias sobre a carne. O vinho tinto, de boa qualidade, pareceu-
Ihe medocre. Chenar chamou o mordomo, mas foi um hspede
inesperado que entrou na sala de refeies.
- Ramss! Quer partilhar da minha refeio?
- Sinceramente, no.
302 RAMSS
A secura do tom de voz cortou o apetite de Chenar, que achou
prefervel sair da mesa.
- Vamos para o abrigo da parreira?
- Como quiser
Sentindo uma ligeira indigesto, Chenar sentou-se numa pol-
trona do jardim. Ramss, em p, contemplava o Nilo.
- Parece irritado, Majestade. . . E a iminncia do conflito?
-Tenho outros motivos para estar descontente.
- E eles me dizem respeito?
- Sim, Chenar
- Tem algum motivo de queixa sobre o meu trabalho no
ministrio?
- Sempre me detestou, no  verdade?
- Ramss! Existiram motivos de discrdia entre ns, mas esse
perodo j passou.
-Acha mesmo?
- Pode ter certeza!
- O seu nico objetivo, Chenar,  apoderar-se do poder,
mesmo  custa da mais vil das traies.
Chenar sentiu-se como se tivesse recebido um soco no estmago.
- Quem me caluniou?
-No dou ouvidos a mexericos. A minha opinio baseia-se em
fatos.
-  impossvell
-Numa moradia de Mnfis, Serramanna descobriu dois cad-
veres de mulher e o laboratrio do mago que tentou enfeitiar a
rainha.
- E por que haveria de ser eu o implicado nesses abominveis
drdmas?
- Porque essa moradia lhe pertence, embora tenha tomado a
precauo de coloc-la em nome da nossa irm. Os servios de cadas-
tro so positivos.
- Tenho tantas casas, sobretudo em Mnfis, que nem sequer
sei-lhes o nmero exato! Como posso saber o que se passa em cada
uma delas?
- LIm de seus amigos no era um mercador srio chamado Raia?
A Batalha de Kadesh 303


-No se tratava de um amigo, mas de um fornecedor de vasos
exticos.
- Na realidade, um espio a servio dos hititas.
- . ..  terrvel! Mas como eu podia saber? Ele convivia com
centenas de personalidades!
-O seu sistema de defesa  hbil, mas sei que a sua desmedida
ambio o levou a trair o seu pas e a colaborar com os nossos inimi-
gos. Os hititas precisavam de cmplices dentro do nosso territrio e
o principal aliado deles foi voc, o meu prprio irmo.
- Mas que loucuralhe atravessa a mente, Ramss? S um ser
abjeto poderia comportar-se dessa forma!
- Voc  esse ser abjeto, Chenar
- Sente prazer em injuriar-me sem razo.
- Cometeu um erro fatal, Chenar, em pensar que todos so
corruptveis. No hesitou em abordar os que me rodeiam e os meus
amigos de infncia, mas ignorava que uma amizade pode ser to slida
como o granito. Foi por isso que caiu na armadilha que eu lhe
preparei.
O olhar de Chenar vacilou.
-Acha no me traiu, Chenar, e nunca trabalhou para voc.
O irmo mais velho do rei agarrou-se aos braos da poltrona.
- O meu amigo Acha manteve-me a par dos seus projetos e do
seu procedimento - continuou Ramss. - Voc  uma pessoa
inteiramente m, Chenar, e no mudar.
- Eu. . . Eu tenho direito a um julgamento!
-  claro; voc ser julgado e condenado  morte por alta traio.
Como estamos em tempo de guerra, ficar na priso de Mnfis e depois
no degredo de Khargeh, aguardando o processo. De acordo com a lei,
o Fara deve julgar os inimigos internos antes de partir para a frente de
batalha.
Llma contrao deformou a boca de Chenar
- No se atrever a matar-me porque sou seu irmo... Os
hititas o vencero. Quando estiver morto, ser a mim que entregaro
o poder!
- salutar para um rei ter-se defrontado com o mal e conhecer
o seu rosto. Graas a voc, Chenar, serei o melhor guerreiro.
50
A camponesa hitita contara a Ramss as peripcias
vividas em companhia de Acha e a sua viagem para o Egito, onde,
graas  mensagem do diplomata, havia sido bem acolhida e rapida-
mente conduzida  presena do fara.
De acordo com as promessas de Acha, Ramss deu  hitita um
alojamento em Pi-Ramss e uma renda vitalcia que lhe permitiria
alimentar-se, vestr-se e pagar os servios de uma criada. Louca de
reconhecimento, a camponesa teria gostado de poder informar ao
monarca sobre o destino de Acha, mas no sabia o que lhe acontecera.
Ramss rendeu-se  evidncia: o seu amigo fora preso e, com
certeza, executado.  certo que Acha poderia utilizar a sua ltima
cartada: fazer crer que trabalhava para Chenar e, portanto, para os
hititas. Mas ter-lhe-iam dado oportunidade de se exprimir e de
convenc-los?
Qualquer que fosse a sua sorte, Acha cumprira da melhor forma
a sua misso. A sua breve mensagem continha apenas trs palavras,
mas que levaram  deciso de Ramss entrar em guerra:
Kadesh. Depressa. I'eriflo.
Acha no escrevera mais nada, com medo de que a mensagem
fosse interceptada; tambm no se abrira com a camponesa, com
medo de ser trado. Mas as trs palavras diziam o suficiente.
Quando Meba foi convocado pelo grande conselho, precipitou-se
para sua casa de banho e vomitou. Teve que recorrer aos perfumes mais
intensos,  base de rosa da sia, para disfarar o mau hlito. Desde a
306 RAMSS
priso de Chenar, que deixara a corte em estado de choque, o adjunto
do ex-ministro dos Negcios Estrangeiros esperava serjogado na priso.
Fugir teria sido a prova de sua cumplicidade com Chenar, e Meba nem
sequer podia avisar Ofir, que andava fugido.
A caminho do palcio, Meba tentou relletir. E se Ramss no
suspeitasse dele? Sabia-se que no era considerado amigo de Chenar,
pois este lhe roubara o lugar de ministro, mantivera-o durante muito
tempo afastado e o chamara para seu lado com a nica e evidente


inteno de humilh-lo. Essa era a opinio da corte e talvez fosse
tambm a do rei. Meba no surgia como uma vtima  qual o destino
fazia justia castigando o seu perseguidor, Chenar?
Meba devia adotar um comportamento discreto e no reclamar
o posto que ficara vago. A atitude correta consistia em manter a sua
dignidade de alto funcionrio, fazer com que o esquecessem e esperar
o momento em que o destino se pronunciasse em favor de Ramss. . .
ou dos hititas. Neste ltimo caso, saberia tirar proveito da situao.
A totalidade dos generais e dos oficiais superiores estava presen-
te no grande conselho. O Fara e a grande esposa real tomaram seus
lugares no trono, lado a lado.
- De acordo com as informaes que nos chegaram -
afirmou Ramss - o Egito est declarando guerra ao Hatti. Sob o
meu comando, as nossas tropas tomaro o caminho do Norte amanh
de manh. Acabamos de enviar ao imperador Muwattali uma comu-
nicao para lhe anunciar a abertura oficial das hostilidades. Que
consigamos vencer as trevas e manter a presena da Regra de Mat na
nossa terra.
O grande conselho, sempre mais rpido desde o incio do
reinado de Ramss, no foi seguido de qualquer debate. Cortesos e
militares dispersaram-se em silncio.
Serramanna passou por Meba sem v-lo.
De regresso ao seu gabinete, o diplomata bebeu um jarro cheio
de vinho branco dos osis.
A Batalha de Kadesh 307
J
Ramss beijou os fllhos, Kha e Meritamon, que se lanaram
numa louca correria acompanhados pelo co do monarca, Vigilante.
Sob a orientao de Nedjem, o jardineiro h-ansformado em ministro
da Agricultura, ambos aperfeioavam-se na prtica dos hierglifos e
instruram-se no jogo da serpente, onde era preciso evitar as casas
das trevas para conseguir atingir o pas da luz. Para o menino e para
a menina, aquele dia seria semelhante aos outros; alegres, seguiram
o meigo Nedjem, que se veria obrigado a ler-lhes uma histria.
Sentados sobre a relva, Ramss e Nefertari saborearam um
momento de intimidade, contemplando as accias, as romzeiras, as
tamargueiras, os salgueiros e asjujubeiras que dominavam os cantei-
ros de acianos, lrios e esporas-bravas. O sol da primavera ressuscitava
as energias ocultas da terra. O rei envergava apenas um saiote, e a
rainha, um vestido curto de alas, deixando os seios  mostra.
- Como est suportando a traio do seu irmo?
-A sua lealdade  que me teria espantado. Espero ter cortado
a cabea do monstro, graas  coragem e percia de Acha, mas ainda
h zonas de sombras. No encontramos o mago, e  provvel que
Chenar tenha outros aliados, egfpeios ou estrangeiros. Seja muito
prudente, Nefertari.
-Pensarei no reino e no em mim mesma, enquanto voc por
em perigo a sua prpria existncia para defend-lo.
- Ordenei a Serramanna para permanecer em Pi-Ramss e
garantir a sua proteo. Ele, que tanto desejava massacrar hititas, est
furioso.
Nefertari pousou a cabea no ombro de Ramss, e seus cabelos
soltos acariciaram os braos do rei.
- Mal saio do abismo e  a sua vez de se expor ao perigo. .
Algum dia viveremos anos de paz e de felicidade, como o seu pai e a
sua me 
-Talvez, desde que eu vena os hititas; no travar este combate
conduziria o Egito ao desaparecimento. Se eu no regressar, Nefertari,
torne-se rainha do Egito, governe e resista  adversidade. Muwattali
308 RAMSS
transformou em escravos os povos que venceu. Que os habitantes das
Duas Terras nunca sejam reduzidos a semelhante condio.
- Seja qual for o nosso destino, conhecemos a felicidade, essa
felicidade que  criada a cada instante, voltil como o perfume ou o
murmrio do vento nas folhas de uma rvore. Sou sua, Ramss, como
uma onda no mar, como uma flor desabrochada num campo banhado
de sol.
A ala esquerda do vestido de Nefertari escorregou-lhe do
ombro. Os lbios do rei beijaram a pele quente e perfumada, enquan-
to ia acabando de desnudar lentamente o corpo abandonado da


rainha.
LIm bando de patos selvagens sobrevoou o jardim do palcio de
Pi-Ramss, enquanto Ramss e Nefertari uniam-se no fogo do desejo.
Pouco antes da madrugada, Ramss trajou-se no "lugar puro"
do templo de Amon e sacralizou os almentos lquidos e slidos que
seriam utilizados durante a celebrao dos rituais. Depois, o fara saiu
do lugar puro e contemplou o nascimento do sol, seu protetor, que
a deusa do cu havia engolido ao poente para faz-lo renascer no
levante, depois de um duro combate contra as foras das trevas. No
era o mesmo tpo de combate que o filho de Sethi se preparava para
travar contra as hordas hititasl O astro ressuscitado surgiu entre as
duas colinas do horizonte, sobre as quais, segundo as antigas lendas,
cresciam duas imensas rvores de turquesa, que a seguir se afastavam
para deixar passar a luz.
Ramss pronunciou a orao que cada um dos seus predecesso-
res havia pronunciado:
- Eu a sado, luz que nasce das guas primordiais, que aparece
no dorso da terra, que ilumina as Duas Terras com a sua beleza;  a
alma viva que chega  existncia por si prpria, sem que ningum
conhea a sua origem. Atravessa o cu sob a forma de um falco de
plumagem matizada e afasta o mal. A barca da noite est  sua direita,
a barca do dia  sua esquerda, a tripulao da barca de luz est
exultante.
A Batalha de Kadesh 309
Talvez Ramss nunca mais transmitisse semelhante mensagem,
se a morte o esperasse em Kadesh; mas outra voz lhe sucederia, e as
palavras de luz no se perderiam.
Nas quatro casernas da capital procediam-se s ltimas verifi-
caes antes da partida. Graas  presena permanente do monarca
durante as semanas precedentes, o moral era elevado, apesar da pre-
visvel violncia do confronto. A qualidade e a quantidade do arma-
mento tambm davam confiana aos mais inquietos.
Enquanto as tropas saam das casernas em direo  porta
principal da capital, Ramss conduziu seu carro do templo de Amon
ao de Seth, construdo na parte mais antiga da cidade onde haviam
se instalado, muitos sculos antes, os invasores hicsos. Para exorcizar
a desgraa, os faras mantiveram ali um santurio dedicado  fora
mais poderosa do universo. Sethi, o homem do deus Seth, conseguira
domin-la e transmitira o sgredo ao filho.
Nesse dia Ramss no vinha enfrentar o deus Seth, mas sim
cumprir um ato de magia que consistia em identific-lo com o deus
da tempestade srio e hitita, a fim de se apoderar da energia do raio
e com ela ferir os seus inimigos. '
O confronto foi rpido e intenso.
O olhar de Ramss fixou-se nos olhos vermelhos da esttua
configurando um homem de p, cuja cabea era representada por
uma espcie de candeo de focinho comprido e grandes orelhas.
A base tremeu, e as pernas do deus pareceram avanar
- Seth, vs que sois a potncia, associai-me ao vosso ha, e
dai-me a vossa fora.
A luz que iluminava os olhos vermelhos serenou. Seth aceitara
o pedido do Fara.
O sacerdote de Madi e a filha estavam inquietos. Moiss, que
levara o principal rebanho de carneiros da tribo para pastar, devia
estar de regresso h dois dias. Solitrio e orgulhoso, o genro do ancio
meditava na montanha, evocava por vezes estranhas vises, mas recu-
sava-se a responder s perguntas que a esposa lhe fazia e nem se
lembrava de brincar com o filho, a quem dera o nome de "Exilado".
310 RAMSS
O sacerdote sabia que Moiss pensava constantemente no Egito,
o prodigioso pas onde nascera e onde desempenhara importantes
funes.
- Voltar para l? - perguntou-lhe a filha, preocupada.
- No creio.
- Por que se refugiou em Madi?
-No sei e quero continuar no sabendo. Moiss  um homem
honesto e trabalhador; o que mais posso exigir?
- O meu marido parece-me to distante, to secreto. . .
- Aceite-o assim, minha filha, e ser feliz.
- Se ele voltar, meu pai.


- Confie e ocupe-se da criana.
Moiss regressou, mas seu rosto mudara. Estava sulcado de
rugas, e os cabelos haviam embranquecido.
A mulher saltou-lhe ao pescoo.
- O que aconteceu, Moiss?
- Vi uma chama brotar de uma moita. Estava em brasa, mas
no se consumia. Deus chamou-me do interior da moita. Revelou-me
o Seu nome e confiou-me uma misso. Deus  Aquele que  e devo
obedecer-Lhe.
-Obedecer-lhe. . . Isso significa que vai nos deixar, a mim e ao
seu filho?
-Cumprirei a minha misso, pois ningum deve desobedecer
a Deus. Os Seus mandamentos ultrapassam-nos, a voc e a mim;
quem somos ns, seno instrumentos a servio da Sua vontade?
- Que misso  essa, Moiss?
- Saber quando chegar o momento.
O hebreu isolou-se na sua tenda, rememorou o encontro com
o anjo de Jeov, o deus de Abrao, de Isaac e de Jac.
Gritos perturbaram a sua meditao. LIm homem a cavalo
acabava de irromper no acampamento e contava precipitadamente
que um imenso exrcito, comandado pelo Fara em pessoa, partia
para o Norte a fim de enfrentar os hititas.
Moiss pensou em Ramss, o seu amigo de infncia, e na formi-
dvel energia que o animava. Naquele momento, desejou a sua vitria.
51
O exrcito hitita entrou em formao defronte s
muralhas da capital. Do alto de uma das torres de vigia, a sacerdotisa
Putuhepa viu alinharem-se os carros, depois os arqueiros e os solda-
dos de inantaria. Com pereita disciplina, encarnavam a invencvel
fora do imprio, graas  qual o Egito de Ramss seria em breve uma
provncia dominada.
Como era de se esperar, Muwattali respondera  declarao de
guerra de Ramss com uma carta semelhante, redigida em termos
protocolares.
Putuhepa teria preerido manter o marido a seu lado, mas o
imperador exigira que Hattusil, o seu principal conselheiro, estivesse
presente no campo de batalh;a.
O general-chefe Llri-Techup avanou para os seus soldados com
uma tocha na mo. Acendeu uma grande fogueira e aproxmou do
fogo um carro que nunca fora usado. Com uma maa, desmontou-o
e queimou-lhe os pedaos.
-Assim ser destrudo qualquer soldado que recuar perante o
inimigo; assim o deus da tempestade o aniquilar pelo fogo!
Com esta cerimnia mgica, Llri-Techup dava s suas tropas uma
coeso que nenhum confronto, por mais violento que fosse, conse-
guiria enfraquecer
O filho do imperador estendeu a sua espada para Muwattali, em
sinal de submisso.
O carro imperial tomou a direo de Kadesh, que seria o
cemitrio do exrcito egpcio.
312 RAMSS
"Vitria em Tebas" e "A deusa Mut est satisfeita", os dois
soberbos cavalos de Ramss, puxavam o carro real,  frente de um
exrcito que englobava quatro divises, cada uma com cinco mil
homens colocados sob a proteo dos deuses Amon, Ra, Ptah e Seth.
Os generais dos referidos deuses dessas divises tinham sob as suas
ordens chefes de grupo, tenentes e porta-estandartes. Quanto aos
quinhentos carros, estavam divididos em cinco regimentos. As fardas
dos soldados eram constitudas por tnicas, camisas, couraas, grevas
de couro trabalhado, capacetes, pequenos machados de fio duplo,
sem contar com as numerosas armas, cuja distribuio, no momento
certo, seria garantida pelos escribas da administrao.
O escudero de Ramss, Menna, era um soldado experiente que
conhecia bem a Sria; no lhe agradava nada a presena de Matador,
o enorme leo da Nbia, que avanava ao lado do carro do monarca
com a juba ao sabor do vento.
Apesar dos avisos de Ramss, Setaou e Ltus haviam insistido
em drigr a undade mdca, mesmo no auge da batalha. Como no
conheciam a regio de Kadesh, esperavam descobrir l algumas ser-
pentes inslitas.


' O exrcito deixara a capital no fim do ms de abril do quinto
ano do reindo de Ramss. O tempo mostrara-se clemente, e nenhum
; ncidente atrasara seu avano. Depois de ter passado a fronteira em
Sil, Ramss seguira o caminho da costa, balizado com pontos de gua
protegidos por fortins, e atravessara depois Cana e Amurru.
' No lugar denominado "A morada do vale dos cedros", perto de
Biblos, o rei ordenara a trs ml homens, ali estacionados para fechar
o acesso aos protetorados, que continuassem para o norte, at a zona
de Kadesh, e chegassem ao local do combate por nordeste. Os gene-
rais haviam-se oposto a essa estratgia, argumentando que o exrcito
auxlar depararia com uma forte resistnca e ficara bloqueado na
costa, mas Ramss no lhes dera ouvidos.
! O itinerrio que o rei escolhera para atingir Kadesh atravessava
a plancie de Bekaa, depresso entre as cordilheiras do Lbano e do
A Batalha de Kadesh 313
Anti-Lfbano, cuja paisagem inquietante e rude impressionou os
soldados egpcios. Alguns sabiam que os cursos d'gua lodosos pulu-
lavam de crocodilos e que as montanhas cobertas de densas florestas
eram o covil de ursos, hienas, gatos selvagens e lobos.
A folhagem dos ciprestes, pinheiros e cedros era to densa que,
durante a travessia de uma zona arborizada, os soldados deixaram de
ver o sol e assustaram-se. Interveio um general para deter o pnico
nascente e convencer os soldados de que no iriam morrer sufocados.
A diviso de Amon seguia na frente, vindo logo atrs as de Ra e
de Ptah; a diviso de Seth fechava a marcha. LIm ms depois da
partida, as tropas egpeias aproximaram-se da colossal fortaleza de
Kadesh, construda na margem esquerda do Oronte, onde ia desem-
bocar a plancie de Bekaa. A praa forte marcava a fronteira do
imprio hitita e servia de base aos comandos encarregados de deses-
tabilizar as provncias de Amurru e Cana.
O fim do ms de maio tornou-se chuvoso, e os soldados
queixaram-se da umidade. Como a alimentao era abundante e de
O
O
r
FORTALEZA SEGNDO VALI
DE KADESH
` PRIMEIRO VALI
FLORESTA DE LABWI
EXRCITO EGPCIO
314 RAMSS
boa qualidade, os estmagos cheios fizeram-nos esquecer esse per-
calo.
A alguns quilmetros de Kadesh, logo antes da espessa e sombria
floresta de Labwi, Ramss mandou parar o seu exrcito. O lugar
revelava-se propcio a uma emboscada, os carros ficariam imobiliza-
dos e a infantaria no poderia movimentar-se. Com a mensagem de
Acha constantemente no esprito, "Kadesh. Depressa. Perigo", o rei
evitou ceder  precipitao.
I, Autorizando apenas um acampamento provisrio, sob a prote-
o de uma primeira linha de carros e de arqueiros, reuniu o seu
conselho de guerra, ao qual assistiu Setaou, muito querido entre os
soldados, que os curava das suas mil e uma pequenas enfermidades,
com a ajuda de Ltus.
Ramss chamou o escudeiro Menna.
- Abra o grande mapa.
- Estamos aqui - explicou Ramss - na orla da lloresta de
Labwi, na margem leste do Oronte.  sada do bosque, existe um
,.,
;', primeiro vau que nos permitir atravessar o rio, fora do alcance dos
arqueiros hititas colocados nas torres da fortaleza. O segundo vau,
i.
mais ao norte, fica demasiado prximo. Passaremos a boa distncia
i da praa forte e faremos nosso acampamento a nordeste para atac-los
pela retaguarda. Este plano os agrada
Os generais no emitiram qualquer opinio.
; Os olhos do rei faiscaram.
- Ficaram mudos?
- Aquela floresta  um tanto perturbadora - adiantou o
general da diviso Amon.


- Que bela perspiccial Ento vocs acham que os hititas vo
nos deixar passar o vau tranqilamente, parar em frente da fortaleza
e instalar o nosso acampamento? Este  o plano que vocs, generais,
querem me entregar, apenas esquecendo um detalhe: a presena do
exrcito hitita!
- Ele ficaria preso na fortaleza, ao abrigo das suas muralhas -
objetou o general da diviso de Ptah.
- Se Muwattali fosse um guerreiro medocre,  claro que seria
assim que agiria. Mas trata-se do imperador do Hatti! Ele nos atacaria
A Batalha de Kadesh 315
simultaneamente na floresta, no vau e diante da praa forte, isolaria
os nossos destacamentos do exrcito e nos impediria de retaliar. Os
hititas jamais cometero o erro de ficar em posio defensiva; justa-
mente eles, bloquearem o seu potencial ofensivo numa fortaleza?
Admitam que, realmente, essa deciso seria aberrantel
-A escolha do terreno  decisiva -argumentou o general da
diviso de Seth. - O combate na floresta no  de forma alguma a
nossa especialidade; um local plano e descoberto nos conviria melhor.
Atravessemos o Oronte antes do bosque de Labwi.
-  impossfvel. No existe nenhum vau daquele lado.
- Pois bem, incendiemos ento essa maldita floresta!
- No daria certo, e por dois motivos: os ventos poderiam
voltar-se contra ns, e os troncos calcinados no meio do caminho
impediriam o nosso avano.
- Teria sido prefervel seguirmos pela costa - considerou o
general da diviso de Ra, no hesitando em se contradizer -e atacar
Kadesh pelo norte.
-Que estupidez! -exclamou o colega da diviso de Ptah. -
Com o devido respeito a Vossa Majestade, o exrcito auxiliar no tem
qualquer chance de realizar a sua juno conosco. Os hititas so
desconfiados e devem ter colocado muitos soldados no desembocar
do caminho da costa para repelir um eventual ataque. A melhor es-
tratgia , na realidade, aquela que adotamos.
- Com certeza! - ironizou o general da diviso de Seth. -
Mas no temos possibilidade de avanarl Proponho que enviemos mil
soldados pela floresta de Labwi e observemos a reao dos hititas.
- O que nos ensinaro mil soldados mortos? - perguntou
Ramss.
O general da diviso de Ra estava abatido.
- Ento teremos de recuar antes de combater? Os hititas riro
de ns, e o prestgio de Vossa Majestade ser gravemente atingido.
- E o que acontecer ao meu bom nome se conduzir o meu
exrcito para a destruio?  o Egito que precisamos salvar, no a
minha prpria glria.
- O que decide, ento, Majestade?
Setaou, que ainda no falara, pediu a palavra.
316
- Como encantador de serpentes, gosto de atuar sozinho ou
com a minha companheira. Se eu comeasse a passear na companhia
de um monte de soldados, no veria uma nica cobra.
-U aos fatos -exigiu o general da diviso de Seth.
- Enviemos um pequeno grupo a essa floresta - props
Setaou. - Se conseguirmos atravess-la, determinaremos a posio
das foras inimigas. Ficaremos ento sabendo como atac-los.
O prprio Setaou encabeou um comando formado por uma
dezena de soldados jovens e bem treinados, armados com fisgas, arccs
e punhais. Todos sabiam locomover-se sem fazer rudo.
Logo que penetraram na fforesta de Labwi, onde reinava a sombra
em pleno dia, dispersaram-se, levantando vrias vezes os olhos para o
topo das rvores para detectar eventuais arqueiros posicionados nos
ramos mais altos.
Com os sentidos em alerta, Setaou no captou qualquer presen-
a hostil. Foi o primeiro a sair da floresta e a acocorar-se na densa
vegetao, vindo os companheiros juntar-se a ele em seguida, sur-
preendidos por terem efetuado um passeio calmo.
O primeiro vau estava  vista.
Nenhum soldado hitita nas imediaes.
Ao longe, a fortaleza de Kadesh, construfda sobre uma elevao.
Em &ente da praa forte, uma plancie deserta. Os egpcios entreo-
lharam-se, estupefatos.


Incrdulos, permaneceram imveis por mais de uma hora,
sendo obrigados a render-se  evidncia: o exrcito hitita no se
encontrava em Kadesh.
-Ali! -exclamou Setaou, apontando trs castanheiros pr-
ximos do vau. - Algum se mexeu!
Os membros do comando realizaram um rpido cerco. m
deles ficou de vig'ia; se os seus camaradas cafssem numa armadilha,
bateria em retirada para prevenir Ramss. Mas a operao decorreu
sem problemas, e os egpcios capturaram dois homens que, de acordo
com seu aspecto, eram chefes de cl bedufnos.
52
Os dois prisioneiros estavam aterrorizados.
LIm era alto e magro; o outro, de estatura mdia, calvo e bar-
budo. Nem um nem outro ousava eruer os olhos para o fara do
Egito.
- Seus nomes?
-- Eu sou Amos - respondeu o calvo. ---- O meu amigo
chama-se Baduch.
- Quem so vocs?
- Chefes de tribos bedufnas.
- Como explica a sua presena nesta zona?
- Devamos encontrar-nos com um dignitrio hitita em Kadesh.
- Por que razo?
Amos mordeu os lbios, e Baduch baixou ainda mais a cabea.
- Responda! - exigiu Ramss.
- Os hititas nos propuseram uma aliana contra o Egito, no
Sinai, para atacar as caravanas.
- E aceitaram?
- No, queramos discutir o assunto!
- Qual foi o resultado das negociaes?
- No houve negociaes, Majestade, porque no h nenhum
dignitrio hitita em Kadesh. Na fortaleza s h srios.
- Onde est o exrcito hitita?
- Abandonou Kadesh h mais de quinze dias. Segundo o co-
mandante da praa forte, estacionaram em fi-ente da cidade de Alep,
a mais de cento e cinqenta quilmetros daqui, para poderem ma-
3  g RAMSS
nobrar as suas centenas de carros novos. O meu camarada e eu
hesitamos em iruciar essa viagem.
- Os hititas no nos esperavam aqui em Kadesh?
- Esperavam, sim, Majestade... Mas outros nmades como
ns informamos-lhes da enormidade de suas tropas. No tinham
previsto que Vossa Majestade dispusesse de uma fora to imponente
e preferiram enfrent-lo num terreno mais propcio.
- Voc e outros bedunos anunciaram ento a nossa chegada!
- Imploramos o seu perdo, Majestade! Como tantos outros,
eu acreditava na superioridade hitita. . . E bem sabe que esses brbaros
no nos deixam escolha: ou lhes obedecemos ou nos massacram.
- Quantos homens h na fortaleza?
- Pelo menos mil srios, convencidos de que Kadesh  incon-
uistvel.
q
Foi reunido o conselho de guerra. Aos olhos dos generais, Setaou
tornara-se um personagem respeitvel, digno de uma condecorao.
 - O exrcito dos hititas recuou - declarou orgulhosamente
o general da diviso de Ra. -No  uma vitria, Majestade?
- LIma vantagem muito pequena. Levanta-se, porm, uma
questo: devemos cercar Kadesh?
l,
As opinies dividiram-se, mas a maioria defendeu um avano
rpido na direo de Alep.
- Se os hititas desistiram de nos enfrentar aqui -considerou
Setaou - foi para nos atrarem para o seu terreno. No seria mais
prudente nos apoderarmos desta praa forte e fazer dela a nossa base
recuada, em vez de lanarmos todas as nossas divises na batalha e
entrarmos assim no jogo do adversrio
- Arriscamo-nos a perder um tempo precioso - objetou o
general da diviso de Amon.
- No  essa a minha opinio; sabemos que o exrcito hitita
no defende Kadesh, ento vamos apoderar-nos dela rapidamente.


Talvez consigamos convencer os srios a render-se, e em troca lhes
pouparemos a vida.
A Batalha de Kadesh 319
- Est decidido: cercaremos e tomaremos Kadesh. A partir de
agora, esta regio ficar sob a autoridade do Fara.
Conduzida pelo rei, a diviso de Amon atravessou a floresta de
Labwi, passou o primeiro vau, avanou pela plancie, detendo-se a
noroeste da imponente fortaleza de muralhas ameadas e com cinco
torres ocupadas por srios, que viram a diviso de Ra instalar-se em
frente da praa forte. A diviso de Ptah acampou perto do vau e a de
Seth ficou na orla do bosque. No dia seguinte, depois de uma noite
e de uma manh de repouso, as tropas egpeias se juntariam antes de
cercar Kadesh e lanar o seu primeiro assalto.
Os homens da engenharia ergueram com rapidez o acampamen-
to do Fara. Depois de formarem um retngulo com escudos altos,
montaram a ampla tenda do soberano, que dispunha de um quarto,
um gabinete e uma sala de audincias. Grande nmero de outras
tendas, mais modestas, eram destinadas aos oficiais: os homens da
tropa dormiriam ao ar livre ou, em caso de chuva, sob abrigos de
pano.  entrada do acampamento, encontrava-se uma porta de
madeira, com um leo de cada lado, que dava acesso a uma alia
central, onde havia uma capela, na qual o rei prestaria culto ao deus
Amon.
Logo que um dos generais deu autorizao para descansarem as
armas, os soldados dedicaram-se s diversas ocupaes previstas, em
funo das sees a que pertenciam: trataram dos cavalos, dos burros
e dos bois, lavaram os trajes, consertaram as rodas estragadas pelo
solo irregular, afiaram os punhais e as lanas, distriburam as raes
e prepararam a refeio. O aroma da comida f-los esquecer Kadesh,
os hititas e a guerra; a seguir, divertiram-se, contando histrias e
apostando o soldo. Os mais eufricos organizaram um concurso de
luta livre.
O prprio Ramss alimentou seus cavalos e Matador, seu fiel
leo, cujo apetite continuava o mesmo. O acampamento adormeceu,
as estrelas brilharam no cu e o rei manteve os olhos fixos na enorme
praa forte que o pai considerara conveniente no anexar. Apoderar-
se dela desferiria um severo golpe no imprio hitita; instalando ali
320 RAMSS
uma guarnio de elite, Ramss protegeria o seu pas de uma possvel
invaso.
O rei estendeu-se em seu leito, cujos ps eram em forma de
patas de leo, e pousou a cabea numa almofada de tecido decorada
com papiros e ltus. A delicadeza da ornamentao f-lo sorrir; como
estava longe a doura das Duas Terrasl
Quando o rei fechou os olhos, surgiu o sublime rosto de Nefertari.
- De p, Chenar.
- Sabe com quem est falando, carcereiro?
; - Com um traidor que merece a morte.
- Sou o irmo mais velho do reil
- J no  nada, e o seu nome desaparecer para sempre.
Levante-se ou sentir a queimadura do meu basto.
i:' . - No tem o direito de maltratar um prisioneiro.
- m prisioneiro, no. . . Mas voc sim!
I
i,;I Levando a ameaa a srio, Chenar levantou-se.
Na grande priso de Mnfis no sofrera quaisquer sevcias. Ao
contrrio dos outros condenados, que executavam trabalhos nos campos
ou reparavam os diques, o irmo mais velho do rei fora encerrado numa
jj, cela e alimentado duas vezes por dia.
O carcereiro empurrou-o para um corredor. Chenar julgou que
seria levado num carro para os osis, mas os corpulentos guardas o
obrigaram a entrar num gabinete onde se encontrava o homem que
riba fiel o
ele mais odiava depois de Ramss e Acha: Amem, o esc ,
"' incorruptvel por excelncia!
- Escolheu o caminho errado, Ameni, o dos vencidos; o seu
triunfo ser apenas momentneo.
- Algum dia o dio abandonar seu corao?
- No antes de ter cravado um punhal no seu! Os hititas ani-
quilaro Ramss e me libertaro.


,.
.-- Estar preso fez voc perder a razo, mas no a memria.
i;
Chenar contraiu-se.
- O que quer de mim, Ameni?
- Com certeza voc tinha cmplices.
A Batalha de Kadesh 321
-Cmplices. . . Sim, tenho, e muitos! Toda a corte  cmplice,
o pas inteiro  cmplice! Quando eu subir ao trono, todos se pros-
traro a meus ps e castigarei os meus inimigos.
- Diga-me o nome dos seus cmplices, Chenar.
-Voc  curioso, escribazinho, muito curioso... No acredita
que eu fosse suficientemente forte para agir sozinho?
- Voc foi manipulado, Chenar, e os seus amigos o abando-
naram.
- Engana-se, Ameni; Ramss vive os seus ltimos dias.
- Se falar, Chenar, as condies de sua priso sero menos
severas.
- No ficarei prisioneiro durante muito tempo. Em seu lugar,
escribazinho, eu fugiria! A minha vingana no poupar ningum,
principalmente vocl
- Pela ltima vez, Chenar, concorda em revelar o nome dos
seus cmplices?
-Que os demnios do inferno dilacerem o seu rosto e rasguem
o seu ventrel
- Os trabalhos forados soltaro a sua lngua.
- Rastejar a meus ps, Ameni.
- Levem-no.
Os guardas empurraram Chenar para uma carroa puxada por
dois bois; um outro guarda segurava as rdeas. Quatro guardas a cavalo
o acompanhariam at o degredo.
Chenar ia sentado em uma tbua e sentia cada solavanco do
caminho. Mas a dor e o desconforto eram-lhe indiferentes; ter estado
to perto do poder supremo e cair to baixo estimulavam o seu ntimo
a um insacivel desejo de vingana.
Na metade do trajeto, Chenar adormeceu, sonhando com ama-
nhs triunfantes.
Gros de areia aoitaram-lhe o rosto. Espantado, ajoelhou-se e
olhou para fora.
Llma imensa e espessa nuvem ocre de poeira ocultava o cu e
encobria o deserto. A tempestade desencadeava-se com uma incrvel
rapidez.
322 RAMSS
Assustados, dois dos cavalos fizeram cair os seus cavaleiros;
enquanto os dois outros guardas tentavam socorrer os colegas, Chenar
agrediu o condutor do carro, atirou-o para o cho, tomou o seu lugar
e avanou direto para o turbilho de areia.
53
A manh estava enevoada, e a fortaleza de Kadesh
ainda no safra do nevoeiro. A sua estrutura mponente continuava
desafiando o exrcito egpcio; simultaneamente protegida pelo Oron-
te e pelas colinas arborizadas, a estrutura parecia inexpugnvel. Do
ponto em que o rei e a diviso de Amon haviam tomado posio,
Ramss via a diviso de Ra na plancie que se estendia diante da praa
forte, e a de Ptah entre a floresta de Labwi e o primeiro vau. Em breve
o ultrapassaria, seguido pela diviso de Seth, e s ento os quatro
corpos do exrcito lanariam um assalto vitorioso contra a fortaleza.
Os soldados verificaram as armas - adagas, lanas, espadas,
sabres curvos, maas, machados e arcos, cujo contato queimavam-
lhes os dedos. Os cavalos estavam nervosos com a aproximao do
combate. Por ordem do escriba da administrao, fez-se a limpeza do
acampamento, e os utensios de cozinha foram lavados com gua
corrente. Os oficiais passaram as tropas em revista e mandaram ao
barbeiro os que estavam mal barbeados. Tambm no toleraram
aparncias menos cuidadas e aplicaram vrios dias de trabalhos
suplementares aos infratores.
Pouco antes do meio-dia, sob um sol finalmente quente e
brilhante, Ramss ordenou, por sinal acstico, que se pusesse em
movimento a diviso de Ptah, que rapidamente arrancou e comeou
a atravessar o vau. Prevenida por um mensageiro, a de Seth logo


avanaria pela floresta de Labvvi.
De repente, a trovoada.
Ramss ergueu os olhos para o cu, mas no viu nenhuma
nuvem.
324 RAMSS
Terrfveis bramidos subiram da plancie. Incrdulo, o fara des-
cobriu a verdadeira causa do rudo aterrador que enchia a zona de
Kadesh.
LIma leva incrvel de carros hititas acabava de atravessar o
segundo vau prximo da fortaleza e lanava-se sobre o flanco da
diviso de Ra; outra leva, rpida e gigantesca, atacava a diviso de Ptah.
Atrs dos carros corriam milhares de soldados de infantaria, cobrindo
os montes e o vale como uma nuvem de gafanhotos.
Este imenso exrcito escondera-se na floresta, a leste e a oeste
da praa forte, e agora lanava-se sobre as tropas egpeias no momen-
tos em que elas estavam mais vulnerveis.
O nmero de inimigos espantou Ramss. Quando surgiu Mu-
wattali, o fara compreendeu.
Ao redor do imperador do Hatti, que estava de p em seu carro,
encontravam-se os prncipes da Sfria, de Mitanni, de Alep, de LIgarit,
de Karkemish, de Arzawa e ainda os chefes de vrios pequenos prin-
cipados, que Hattusil, por ordem do imperador, convencera a junta-
rem-se aos hititas para esmagarem o exrcito egpcio.
LIma coligao... Muwattali reunira, na mais vasta aliana que
alguma vez existira, todos os pases brbaros at a beira-mar, ofere-
cendo-lhes enormes quantidades de ouro e prata.
Quarenta mil homens e trs mil e quinhentos carros caram
sobre as foras egpeias, mal colocadas e dominadas pelo espanto.
Centenas de soldados de infantaria da diviso de Ptah tombaram
sob as flechas inimigas, cujos carros voltaram e obstruram o vau. Os
sobreviventes correram para a floresta de Labwi para ali se refugiarem,
impedindo assim qualquer interveno da diviso de Seth. Esta frao
do exrcito egpcio no podia participar do combate, sob pena de se
tornar uma presa fcil para os arqueiros da coligao.
A quase-totalidade dos carros da diviso de Ptah estava destru-
da, enquanto os da diviso de Seth permaneciam como que pregados
ao cho. Na plancie, a situao tornava-se catastrfica. Cortada ao
meio, a diviso de Ra fora reduzida  impotncia, e os seus homens
debandavam. Os coligados massacravam os egpcios, o ferro de suas
armas quebrava-lhes os ossos e trespassava-lhes as carnes, as lanas
mergulhando-lhes nos flancos, os punhais perfurando-lhes os ventres.
A Batalha de Kadesh 325
J
Os prfncipes coligados aclamaram Muwattali.
A estratgia do imperador revelava-se de uma eficcia perfeita.
Quem poderia supor que o arrogante exrcito de Ramss fosse assim
exterminado sem sequer ter combatido? Os sobreviventes fugiam
como lebres assustadas e s estavam vivos devido  rapidez da sua
corrida.
S faltava desferir o golpe final.
A diviso de Amon e o acampamento do fara, ainda intactos,
no resistiriam muito tempo s hordas ululantes que se precipitavam
para eles. A vitria de Muwattali seria ento total; com a morte de
Ramss, o Egito dos faras curvaria finalmente a cabea e se tornaria
escravo do Hatti.
Ao contrrio do pai, Ramss cara na armadilha de Kadesh e
pagaria com a vida esse erro.
LIm guerreiro desgrenhado empurrou dois prncipes e enfren-
tou o imperador.
- O que se passa, meu pai? - perguntou Llri-Techup. - Por
que no fui avisado da hora da ofensiva, eu, o general-chefe do nosso
exrcito?
- Confiei-lhe um papel preciso: a defesa de Kadesh com os
nossos batalhes de reserva.
-Mas a fortaleza no est em perigo!
- So as minhas ordens, LIri-Techup, e voc est esquecendo
um fator essencial: nolhe confiei o comando do exrcito coligado.
- Mas ento quem. . .
- Quem, seno o meu irmo Hattusil, podia desempenhar essa
difcil funo? Foi ele quem travou longas e pacientes negociaes


para convencer os nossos coligados a aceitarem um esforo de guerra
excepeional e, portanto, era a ele que pertencia a honra de comandar
a coligao.
LIri-Techup lanou um olhar cheio de dio a Hattusil e levou a
mo ao cabo da espada.
326 RAMSS
- Regresse ao seu posto, LIri-Techup - ordenou secamente
Muwattali.
Os cavaleiros hititas derrubaram a muralha de escudos que
protegia o acampamento do Fara. Os poucos soldados egpcios que
tentaram resistir tombaram com o corpo trespassado por Ianas. LIm
tenente de cavalaria berrou, incentivando os fugitivos a resistir; a
flecha de um arqueiro hitita entrou-lhe pela boca, e o oficial morreu
mordendo inutilmente a haste que lhe tirava a vida.
Mais de dois mil carros preparavam-se para destruir a tenda real.
- Meu senhor - exclamou o escudeiro Menna - vs que
protegeis o Egto no da do combate, vs que sois o senhor da valentia,
olhai! Em breve estaremos ss no meio de milhares de inimigos! No
permaneamos aqui... Fujamos!
Ramss olhou com desprezo para o escudeiro.
- Estou vendo que a covardia se apoderou do seu corao, por
isso desaparea da minha frente!
- Majestade, suplico-vos! Isso no  coragem, mas loucura.
Salvai a vossa vida, o pas tem necessidade de vs.
- O Egto no tem necessidade de um derrotado. Eu comba-
terei, Menna.
Ramss colocou a coroa azul e envergou uma couraa curta,
combinando com um saiote e um colete recoberto de pequenas placas
de metal. Nos pulsos, pulseiras de ouro cujos fechos representavam
patos em lpis-lazli com cauda de ouro.
Tranqilo, como se o dia se anunciasse sereno, o monarca couraou
os seus dois cavalos com coberturas de algodo em vermelho, azul e
verde. A cabea de "Vitria em Tebas", o macho, e a de "A deusa Mut
est satisfeita", a fmea, estavam adornadas com um magnfico penacho
de plumas vermelhas com ponta azul.
Ramss subiu em seu carro de madeira revestida de ouro de dois
metros de comprimento, cuja caixa apoiava-se num eixo e num leme.
As peas haviam sido dobradas ao fogo, cobertas com folha de ouro
e presas com cavilhas. As partes expostas  frico estavam protegidas
A Batalha de Kadesh 327
por couro. A armao da caixa, aberta atrs, era feita de tbuas
revestidas de ouro, e o fundo com tiras entrelaadas.
Nas laterais do carro, figuras de asiticos e nbios ajoelhados e
submissos. O sonho de um reinado prestes a fracassar, a ltima
afirmao simblica do poderio do Egito, do seu domnio sobre o
Norte e o Sul.
O carro estava equipado com duas aljavas -uma para as flechas
e a outra para os arcos e as espadas. Com essas armas irrisrias, o
Fara preparava-se para combater um exrcito inteiro.
Ramss atou as rdeas ao redor da cintura para ter as mos livres;
os dois cavalos eram inteligentes e corajosos, e avanariam direto
sobre a horda inimiga. m rugido grave reconfortou o rei: Matador,
o seu leo, permanecia-lhe fiel e bater-se-ia com ele at a morte.
LIm leo e uma parelha de cavalos: eis os trs ltimos aliados do
rei do Egito. Os carros e os soldados da diviso de Amon dispersa-
vam-se perante o inimigo.
"Se cometer um erro", dissera-lhe Sethi, "no acuse outro seno
voc mesmo e retifique o seu erro. Lute como um touro, um leo e um
falco, seja fulgurante como o raio. Caso conti-rio, ser derrotado."
Com um rudo ensurdecedor, levantando uma nuvem de poeira,
os carros dos coligados subiram ao assalto da colina sobre a qual
imperava o fara do Egito, de p em seu carro.
LIm profundo sentimento de injustia invadira Ramss. Por que
o destino lhe era to desfavorvel? Por que devia o Egito perecer sob
os golpes dos brbaros?
Na plancie, nada restava da diviso de Ra, cujos sobreviventes
haviam fugido para o sul. As foras sobreviventes das divises de Ptah
e de Seth estavam bloqueadas na margem leste do Oronte. Quanto 
diviso de Amon, que englobava, nas suas fileiras, a elite da cavala-
ria, comportara-se com uma covardia repugnante. Desmembrara-se


quando do primeiro ataque dos coligados. No havia mais nenhum
oficial superior, nenhum portador de escudo, nenhum arqueiro
pronto para combater Qualquer que fosse o posto, os soldados
tinham pensado apenas em salvar a vida, esquecendo o Egito. Menna,
o escudeiro do rei, estava de joelhos, com a cabea entre as mos,
para no ver o inimigo cair sobre ele.
328 RAMSS
Cinco anos de reinado, cinco anos durante os quais Ramss
tentara ser fiel ao esprito de Sethi e assim continuar a edificao de
um pas rico e feliz; cinco anos que terminariam num desastre, pre-
ldio da invaso das Duas Terras e da escravizao do povo egpcio.
Nefertari e Touya apenas ofereceriam uma breve resistncia  nuvem
de predadores que cairiam sobre o Delta e depois devastariam o Uale
do Nilo.
Como se entendessem os pensamentos do seu dono, os cavalos
lacrimejaram.
Ento Ramss revoltou-se.
Erguendo os olhos para o sol, dirigiu-se a Amon, o deus oculto
na luz, cuja verdadeira forma nenhum ser jamais conheceria.
-A ti apelo, meu pai Amon! Pode um pai esquecer o seu filho
sozinho, no meio de uma multido de adversrios? O que est
acontecendo para que te comportes assim? Desobedeci-te uma s
vez? Todos os pafses estrangeiros se aliaram contra mim; os meus
soldados, que eram numerosos, fugiram e eis-me s, sem auxMio. Mas
quem so esses brbaros seno seres cruis que no praticam a Regra
de Mat? Para ti, meu pai, constru templos, para ti fiz erguer oferen-
das todos os dias. Saboreaste as essncias das flores mais delicadas,
erigi para ti grandes colunas, ergui mastros com auriflamas para anun-
ciar a tua presena nos santurios, fiz extrair das pedreiras de Elefan-
tina obeliscos que foram erguidos para a tua glria. A ti apelo, meu
pai Amon, porque estou s6, absolutamente s. Agi por ti com um
corao apaixonado; neste momento de desgraa, age por aquele que
agiu. Amon valer mais para mim do que milhes de soldados e
centenas de milhares de carros. A coragem de uma multido 
irrisria para ti, Amon, porque s mais eficaz do que um exrcito.
A paliada que protegia o acesso ao centro do acampamento
cedeu, deixando o caminho livre para o ataque dos carros. Em menos
de um minuto, Ramss teria deixado de existir.
- Meu pai - clamou o Fara - por que me abandonaste?
54
Muwattali, Hattusil e os prncipes coligados admi-
raram a atitude do fara.
- Morrer como um guerreiro - disse o imperador. - LIm
soberano desta tmpera deveria ter nascido hitita. A nossa vitria 
,
antes de tudo, a sua, Hattusil.
- O dois bedunos representaram o seu papel com perfeio.
Foram as suas mentiras que convenceram Ramss de que as nossas
tropas estavam longe de Kadesh.
- Ltri-Techup fez mal em opor-se ao seu plano e preconizar
uma batalha defronte a praa forte. Levarei em considerao o seu
erro.
- O essencial no  ver triunfar a aliana? A conquista do Egito
vai nos proporcionar prosperidade durante vrios sculos.
- Assistamos ao fim de Ramss, trado pelas suas prprias
tropas.
Subitamente o sol redobrou de intensidade, ofuscando os hittas
e seus coligados. No cu azul, os troves ribombavam.
Todos se julgaram vtimas de uma alucinao. . . No brotava do
azul uma voz profunda como o cosmos? Llma voz de quem apenas
Ramss compreendeu a mensagem: "Sou o teu pai Amon, a minha
mo est na tua; sou o teu pai, eu, o senhor da vitria."
Um raio de luz envolveu o fara, tornando o seu corpo reful-
gente como ouro iluminado pelo sol. Ramss, filho de Ra, adquiriu
a fora do astro do dia e lanou-se sobre a massa inimiga, estupefata.
No era um chefe vencido e solitrio que travava o seu ltimo
combate, mas um rei de fora sem igual e brao infatigvel, uma
330 RAMSS
chama devastadora, uma estrela cintilante, um vento violento, um
touro selvagem de chifres afiados, um falco que dilacerava com as


suas garras a quem lhe opusesse. Ramss lanava flecha sobre flecha,
matando os condutores dos carros hititas. Sem ter quem os contro-
lasse, os cavalos empinavam e caam uns sobre os outros; os carros
voltaram-se, formando um amontoado confuso.
Matador, o leo nbio, fez um massacre. Lanando os seus
trezentos quilos na batalha, destroou todos os seus adversrios rnm
as unhas e cravou nos pescoos e crnios os longos caninos de dez
centmetros. A sua soberba juba flamejava, e as patas feriam com
violenta preciso.
Ramss e Matador quebraram o impulso adversrio e furaram
as linhas inimigas. O chefe dos soldados hititas brandiu a sua lana,
mas no teve tempo de us-la: a flecha do Fara penetrou-lhe o olho
esquerdo. Ao mesmo tempo, as mandbulas do leo fecharam-se
sobre o rosto aterrorizado do chefe da cavalaria inimiga.
Apesar do maior nmero, os coligados bateram em retirada
,
descendo pela colina em direo  plancie.
Muwattali empalideceu.
- No  um homem - exclamou - mas o deus Seth em
pessoa, um ser nico que possui o poder de vencer milhares de
guerreiros! Esto vendo que, quando pretendemos atac-lo, a mo
torna-se fraca, o corpo paralisa e no sabemos mais manejar a lana
e o arco.
O prprio Hattusil, de imperturbvel sangue-frio, estava estu-
pefato. Quase poderia jurar que brotava de Ramss um fogo que
queimava quem tentasse ating'i-lo.
LIm colosso hitita conseguiu agarrar-lhe a borda da caixa do
carro e brandir uma adaga, mas a sua cota de malha pareceu ficar em
brasa e morreu aos gritos, com o corpo em chamas. Nem Ramss
nem o leo abrandavam a velocidade com que awanavam; o Fara
sentia que a mo de Amon guiava a sua, que o deus das vitrias se
mantinha exatamente atrs dele e lhe dava mais fora do que a um
exrcito inteiro. Semelhante a uma tempestade, o rei do Egito
derrubava os seus adversrios como se fossem bonecos de palha.
-  preciso impedi-lo de continuarl - berrou Hattusil.
A Batalha de Kadesh 331
- O pnico dominou os nossos homens - respondeu o
prncipe de Alep.
- Controle-os! - ordenou Muwattali.
- Ramss  um deus. . .
- No passa de um homem, mesmo que a sua coragem parea
sobre-humana. Atue, prncipe, restitua a confiana aos nossos solda-
dos, e esta batalha estar terminada.
Hesitante, o prncipe de Alep esporeou o cavalo e desceu do
promontrio sobre o qual se encontrava o estado-maior coligado.
Estava decidido a pr fim  louca corrida de Ramss e do seu leo.
Hattusil olhou as colinas a oeste. Aquilo que julgou ver
petrificou-o.
- Majestade, alm, eu diria que. . . Carros egpcios a toda ve-
locidadel
- De onde vm?
- Devem ter seguido o caminho da costa.
- Mas como foraram a passagem?
- LIri-Techup recusou-se a bloquear aquele acesso, sob o
pretexto de que nenhum egpcio se arriscaria a vir por ali.
O exrcito de socorro devorou o espao livre e, sem encontrar
qualquer oposio, espalhou-se por toda a extenso da plancie, pe-
netrando pela brecha aberta por Ramss.
- No fujam! - berrou o prncipe de Alep. - Matem
Ramssl
Alguns soldados obedeceram; mas no tinham nem dado meia-
volta, quando as garras do leo lhes rasgaram o rosto e o peito.
Quando o prncipe de Alep viu o carro de ouro de Ramss
avanar para ele, esbugalhou os grandes olhos assustados e fugiu por
sua vez ao combate. O seu cavalo pisoteou os seus aliados hititas para
tentar escapar do rei egpcio. Em pnico, o prncipe largou as rdeas,
o animal tomou o freio nos dentes e lanou-se no Oronte, onde
inmeros carros j haviam afundado, empilhando-se uns sobre os
outros antes de desaparecerem embaixo d'gua ou serem arrastados
pela correnteza. Havia soldados sufocando na lama, uns afogando-se,


outros tentando nadar; todos preferiam mergulhar no rio a ter de
enfrentar a terrvel divindade semelhante ao fogo celeste.
332 RAMSS
O exrcito de socorro completou a obra de Ramss, extermi-
nando grande nmero de inimigos e obrigando os fugitivos a se
lanarem no Oronte. LIm tenente de cavalaria ergueu pelos ps o
prncipe de Alep, que cuspiu a gua que acabava de engolir
O carro de Ramss aproximou-se da elevao ocupada pelo
estado-maior inimigo.
- Recuemos - aconselhou Hattusil ao imperador.
- Restam-nos as foras da margem oeste.
- Sero insuficientes. . . Ramss  capaz de desobstruir o vau
e libertar as divises de Ptah e de Seth.
Com as costas da mo, o imperador limpou a testa.
- O que se passa, Hattusil?... LIm nico homem  capaz de
aniquilar um exrcito inteiro?
- Se esse homem  o Fara, se  Ramss. . .
-A unidade que domina a multiplicidade.. . Isso no passa de
um mito e ns estamos num campo de batalha!
- Estamos vencidos, Majestade, temos que recuar.
- LIm hitita no recua.
- Pensemos em preservar a sua existncia e continuar o
combate de outra forma.
- O que prope?
- Que nos refugiemos no interior da fortaleza.
-Ali ficaremos presos numa ratoeira!
- No temos opo - considerou Hattusil. - Se fugirmos
para o norte, Ramss e as suas tropas nos perseguiro.
- Faamos votos para que Kadesh seja realmente inconquistvel.
- No  uma fortaleza como as outras, Majestade; o prprio
Sethi desistiu de apoderar-se dela.
- Mas com o filho  diferente!
-Apressemo-nos, Majestade!
De m vontade, Muwattali ergueu a mo direita e manteve essa
postura durante interminveis segundos, ordenando assim a retirada.
Mordendo os lbios at sangrarem, Llri-Techup assistiu, impoten-
te,  derrocada do seu exrcito. O batalho que bloqueava o acesso ao
primeiro vau, na margem leste do Oronte, recuou at o segundo. Os
sobreviventes da diviso de Ptah no se atreveram a persegui-lo, temendo
A Batalha de Kadesh 333
cair em nova cilada; o general preferiu garantir a sua retaguarda enviando
um mensageiro  diviso de Seth, para inform-lo de que o caminho
estava livre e que podia atravessar a floresta de Labwi.
O prncipe de Alep, voltando a si, livrou-se do soldado que o
salvara, atravessou o rio a nado e juntou-se aos seus coligados em
marcha para Kadesh. Os arqueiros do exrcito de socorro egpcio
abateram fugitivos s centenas.
Os egpcios avanavam sobre os cadveres e cortavam a mo de
cada um para proceder a uma estatstica macabra cujo resultado
figuraria nos arquivos oficiais.
Ningum se atrevia a aproximar-se do fara; Matador deitara-se
em posio de esfinge na frente dos cavalos. Sujo de sangue, Ramss
desceu do carro dourado, acariciou longamente o leo e os cavalos,
e no dirigiu um nico olhar aos soldados, os quais se imobilizaram,
aguardando a reao do monarca.
Menna foi o primeiro a aproximar-se do rei. O escudeiro tremia
e no conseguia colocar um p  frente do outro.
Para alm do segundo vau, o exrcito hitita e seus coligados
sobreviventes dirigiam-se apressadamente para a grande porta da
fortaleza de Kadesh; os egpcios j no dispunham de tempo para
impedir Muwattali e seus soldados restantes de ficarem a salvo.
-Majestade -disse Menna com voz tmida. -Majestade...
Somos os vencedores
Com o olhar fixc na fortaleza de Kadesh, Ramss parecia uma
esttua de granito.
- O grande chefe hitita cedeu perante Vossa Maestade -
continuou Menna -e fugiu; Vossa Majestade, sozinho, deu cabo de
milhares de soldados inimigos! Quem poder cantar a sua glria?
Ramss voltou-se para o escudeiro.
Assustado, Menna prostrou-se, receando ser fulminado pela


fora que emanava do soberano.
-  voc, Menna?
- Sim, Majestade, sou eu, o seu escudeiro, o seu fiel servidor!
Perdoe-me, perdoe o seu exrcito; a vitria no far esquecer os
nossos erros?
- LIm fara no perdoa, meu fiel servidor; ele governa e age.
55
As divises de Amon e de Ra haviam sido dizimadas,
a de Ptah estava enfraquecida, e a de Seth, intacta. Milhares de
egpcios estavam mortos, porm um nmero bem maior de hititas e
coligados havia perdido a vida; agora, uma nica realidade se impu-
nha: Ramss ganhara a batalha de Kadesh.
 verdade que Muwattali, Hattusil, LIri-Techup e alguns dos seus
coligados, como o prncipe de Alep, estavam vivos e reclusos na
fortaleza; mas o mito da invencibilidade hitita fora aniquilado. Muitos
prncipes, alistados ao lado do imperador do Hatti, haviam morrido
afogados ou trespassados por flechas. Agora os principados, grandes
ou pequenos, saberiam que o escudo de Muwattali no bastava para
proteg-los da clera de Ramss.
O fara convocara para a sua tenda a totalidade dos oficiais
sobrevive'ntes, entre os quais os generais das divises de Ptah e de
Seth.
Apesar da alegria da vitria, ningum sorria. No seu trono de
madeira dourada, o rosto de Ramss parecia com o de um falco
enraivecido. Sentiam-no pronto para saltar sobre suas presas.
-Todos aqui -declarou ele -tinham a responsabilidade de
um comando. Todos se aproveitaram do seu posto. Todos se compor-
taram como covardes! Bem alimentados, bem alojados, isentos de
impostos, respeitados e invejados, vocs, os chefes do meu exrcito,
esquivaram-se no momento do combate, unidos por uma covardia
semelhante.
O general da diviso de Seth deu um passo  frente.
- Majestade. . .
336 RAMSS
- Quer contradizer-me?
O general voltou para o seu lugar.
- No posso mais confiar em vocs. Amanh, fugiro de novo
e se espantaro  primeira aproximao do perigo. Por isso os demito
de suas funes. Considerem-se felizes por continuarem no exrcito
como soldados, por poderem servir ao seu pas, por receberem um
soldo e se beneficiarem de uma reforma.
Ningum protestou. A maior parte receava um castigo mais
severo.
No mesmo dia, o rei nomeou novos oficiais, escolhidos entre os
homens do exrcito de socorro.
A partir do dia seguinte  vitria, Ramss lanou o primeiro
assalto contra a fortaleza de Kadesh. No alto das torres flutuavam os
estandartes hititas.
O disparo dos arqueiros egpcios foi ineficaz; as flechas quebra-
vam-se de encontro s ameias atrs das quais se abrigavam os sitiados.
Ao contrrio das outras fortalezas srias, o topo das torres de Kadesh
estava fora de alcance.
Desejosos de provar a sua coragem, uma tropa de soldados
escalou o promontrio rochoso sobre o qual estava construda a praa
forte, colocando escadas de madeira junto aos muros; os arqueiros
hititas dizimaram grande parte, e os sobreviventes foram obrigados a
desistir. Mais trs tentativas e mais trs fracassos.
Nos dois dias seguintes, alguns, mais audaciosos, conseguiram
escalar at a metade do muro, mas uma chuva de pedras causou-lhes
a morte.
Kadesh parecia inexpugnvel.
Carrancudo, Ramss reunira o seu novo conselho de guerra,
cujos membros rivalizavam no entusiasmo para brilharem aos olhos
do rei. Farto de suas conversas, mandara-os embora, conservando
consigo apenas Setaou.
A Batalha de Kadesh 337
- Ltus e eu salvaremos dezenas de vidas - afirmou o
encantador de serpentes - desde que ns mesmos no morramos
de exausto. Ao ritmo em que trabalhamos, em breve estaremos com
falta de remdios.


- No se esconda atrs das palavras.
- Regressemos ao Egito, Ramss.
- Esquecendo a fortaleza de Kadesh?
-A vitria est conquistada.
-Enquanto Kadesh no for egpeia, a ameaa hitita continuar.
- Esta conquista exigiria mais esforos e mais mortes; re-
gressemos ao Egito para tratar dos feridos e reconstituir as nossas
foras.
- Esta fortaleza deve cair como as outras.
- E se estivesse teimando erradamente?
-A natureza que nos rodeia  de grande riqueza; Ltus e voc
encontraro aqui as substncias necessrias para prepararem seus
remdios.
- E se Acha estivesse preso nesta praa forte?
- Mais uma razo para me apoderar dela e libert-lo.
O escudeiro Menna chegou correndo e prostrou-se.
- Majestade! Majestade! Foi atirada uma lana do alto das
ameias... H uma mensagem atada  sua ponta metlica!
- Quero v-lal
Ramss decifrou o texto.
A Ramss, o farad do Egito, da parte do seu irmo Muwattali, imperador
do Hatti.
Antes de continuarmos a enfrentar-nos, no seria conveniente encontrar-
mo-nos e parlamentar? Que seja erguida uma tenda na plancie, a meia
distncia entre seu exrcito e o fortaleza.
Irei para l s, o meu irmo ir s, amanh, quando o sol estiver no seu
apoaeu.
Na tenda, havia dois tronos, um de frente para o outro. Entre
as cadeiras, uma mesa baixa sobre a qual tinham sido colocadas duas
taas e um pequeno jarro com gua fresca.
338 RAMSS
Os dois soberanos sentaram-se simultaneamente, sem se des-
viarem os olhares. Apesar do calor, Muwattali estava vestido com um
longo manto de l vermelha e preta.
- Sinto-me feliz por reencontrar o meu irmo, o fara do
Egito, cuja glria aumenta constantemente.
- A reputao do imperador do Hatti espalha o assombro em
numerosos pases.
- Nesse campo, o meu irmo Ramss nada tem a invejar-me.
Formei uma aliana invencvel, e voc a derrotou. De que proteo
divina se beneficiou?
- Da do meu pai Amon, cujo brao substituiu o meu.
- Nunca pude acreditar que semelhante fora habitasse um
homem, mesmo sendo ele um Fara.
- Mas no hesitou em usar a mentira e a astcia.
- So armas de guerra como quaisquer outras! E o teriam
vencido se no estivesse animado por uma fora sobrenatural. Foi a
alma do seu pai Sethi que alimentou a sua coragem insensata, foi ela
que o fez esquecer o medo e a derrota.
- Est pronto para render-se, meu irmo Muwattali?
- Ser hbito do meu irmo Ramss mostrar-se assim to
brutal?
! - Milhares de homens morreram por causa da poltica expan-
sionista do Hatti; portanto, no so horas para conversas fteis.
Repito: est pronto para render-se?
- Sabe o meu irmo quem eu sou?
;' - O imperador do Hatti, preso numa ratoeira chamada Kadesh.
- A meu lado esto o meu irmo Hattusil, o meu filho
LIri-Techup, os meus vassalos e os meus aliados. Render-nos seria
decapitar o imprio.
- LIm vencido deve sofrer as conseqncias da sua derrota.
- Venceu a batalha de Kadesh,  verdade, mas a fortaleza
permanece intacta.
- Mais cedo ou mais tarde, ela cair.
- Os seus primeiros assaltos foram ineficazes; se continuar
assim, perder muitos homens sem sequer arranhar os muros de
Kadesh.
A Batalha de Kadesh 339
- Foi por isso que decidi adotar outra estratgia.
- J que estamos entre irmos, poderia revel-la?


-Ainda no adivinhou? Ser com base na pacincia. Vocs so
numerosos no interior da praa forte; esperaremos que se acabem os
suprimentos. LIma rendio imediata no seria prefervel a longos
perodos de sofrimento?
- O meu irmo Ramss conhece mal esta fortaleza. Os seus
imensos armazns contm grande quantidade de alimentos, o que nos
permitir suportar o cerco durante vrios meses. Seremos beneficia-
dos por condies at mais favorveis do que as do prprio exrcito
,
egipeio.
- Est blefando!
- No, meu irmo, no estou no! Vocs, egpcios, esto a
grande distncia de suas bases e tero dias cada vez mais difceis.
Sabemos que detesta permanecer longe do seu pas e que o Egito no
gosta nada de estar muito tempo privado do seu fara. Vir o outono
,
depois o inverno, com o frio e as doenas. Surgiro tambm o
desencanto e o cansao. Pode ter certeza, meu irmo Ramss: ns
seremos privilegiados em relao a vocs. E no conte com a falta de
gua: as cisternas de Kadesh esto bem cheias e temos um poo cavado
no centro da praa fortE:.
Ramss bebeu um gole de gua, no porque sentisse sede, mas
para interromper a conversa e refletir. Os argumentos de Muwattali
no deixavam de fazer sentido.
- O meu irmo deseja matar a sede?
- No, suporto bem o calor - respondeu o soberano hitita.
- Receia o veneno, tantas vezes utilizado na corte do Hatti?
- Esse hbito no mais existe, mas prefiro que o meu copeiro
prove os pratos com minhas refeies. O meu irmo Ramss deve
saber que um dos seus amigos de infncia, o jovem e brilhante
diplomata Acha, foi detido quando desempenhava uma misso de
espionagem disfarado de mercador. Se eu tivesse aplicado as nossas
leis, estaria morto; mas logo imaginei que voc ficaria satisfeito por
salvar um ente querido.
- Engana-se, Muwattali; em mim, o rei devorou o homem.
- Acha no apenas  seu amigo, mas tambm o verdadeiro

340 RAMSS
chefe da diplomacia egpeia e o melhor conhecedor da sia. Se o
homem permanece insensvel, o monarca no sacrificar uma das
peas fundamentais do seu jogo.
- O que prope?
- A paz, mesmo que temporria, no ser melhor do que um
combate desastrosoi
-A paz... Impossvel!
-Reflita, meu irmo Ramss: no utilizei a totalidade do exr-
cito hitita nesta batalha. No tardaro a vir em meu socorro foras de
reserva, o que o obrigar a travar outros combates, ao mesmo tempo
que mantm o cerco. Semelhantes esforos ultrapassam as suas pos-
sibilidades em homens e armamento, e a sua vitria lamentavelmente
se transformar em desastre.
- Perdeu a batalha de Kadesh, Muwattali, e atreve-se a pedir a
paz?
-Estou pronto para reconhecer a minha derrota redigindo um
documento oficial. Quando este estiver em suas mos, voc levantar
o cerco, e a fronteira do meu imprio ficar definitivamente fixada
em Kadesh. O meu exrcito nunca mais tentar se apoderar do Egito.
56
A porta da cela de Acha abriu-se.
Apesar do sangue-frio, o jovem diplomata sobressaltou-se; o
rosto carrancudo dos dois guardas no pressagiava nada de bom.
Desde que fora encarcerado, Acha esperava todos os dias que o exe-
cutassem. Os hititas no manifestavam qualquer indulgncia para com
os espies.
LIsariam o machado, o punhal ou o forariam a saltar do alto de
uma falsia? O egpcio preferia que sua morte fosse brutal e rpida
,
sem ser motivo para uma cruel encenao.
Acha foi introduzido numa sala fria e austera, decorada com
escudos e lanas. Como sempre, no Hatti, a guerra impunha a sua


presena.
-Como tem passado? -perguntou a sacerdotisa Putuhepa.
-Sinto falta de exerccio e no gosto da sua comida, mas ainda
estou vivo. No  um milagre?
- De certa forma, sim.
- Tenho a sensao de que a minha reserva de sorte est se
esgotando. No entanto, a sua presena me tranqiliza: seria uma
mulher assim to implacvel?
- No conte com a fraqueza de uma hitita.
- O meu encanto ser inoperante?
A raiva inllamou o rosto da sacerdotisa.
- Est bem consciente da sua situao?
- LIm diplomata egpcio sabe morrer com um sorriso, mesmo
que todos os seus membros tremam.
342 RAMSS
Acha pensou na clera de Ramss, que lhe censuraria, mesmo
no outro mundo, por no ter conseguido sair do Hatti paralhe
descrever a enorme coligao feita pelo imperador hitita. Teria a
camponesa transmitido a sua breve mensagem de trs palavras? J no
acreditava nisso, mas, se tal tivesse acontecido, o fara seria suficien-
temente intuitivo para compreender o seu significado.
Sem informaes, imaginava o exrcito egpcio sendo destrudo
em Kadesh e Chenar subindo ao trono do Egito. S de pensar, mais
valia morrer do que sofrer a tirania de semelhante dspota.
- No traiu Ramss - disse Putuhepa - e nunca esteve do
lado de Chenar.
-A voc compete julgar.
-A batalha de Kadesh realizou-se -revelou a sacerdotisa. -
Ramss venceu as tropas coligadas.
Acha sentiu-se como se estivesse embriagado.
- Est caoando de mim. . .
- No estou com disposio para brincadeiras.
- Venceu as tropas coligadas. . . - repetiu Acha, estupefato.
-O nosso imperador est vivo e livre -acrescentou Putuhepa
- e a fortaleza de Kadesh permanece intacta.
A alegria do diplomata tornou-se sombria.
- O que vai fazer comigo?
- De boa vontade eu o teria mandado queimar como espio,
mas voc se transformou num dos trunfos das negociaes.
O exrcito egpcio estava acampado em frente  fortaleza, cujos
muros permaneciam cinzentos, apesar do implacvel sol do comeo
de junho. Aps a entrevista de Ramss com Muwattali, os soldados
do Fara no haviam tentado mais nenhuma investida contra Kadesh.
Do alto das ameias, Llri-Techup e os arqueiros hititas observavam os
seus adversrios, entregues a pacficas ocupaes: cuidavam dos ca-
valos, burros e bois, exercitavam-se em jogos coletivos, organizavam
campeonatos de luta livre e comiam grande variedade de pratos que
os cozinheiros dos regimentos preparavam, apostrofando-se uns aos
outros.
A Batalha de Kadesh 343
Ramss dera apenas uma ordem aos oficiais superiores: fazer-se
respeitar a disciplina. Nenhum deles conseguira obter a mnima
confidncia sobre o pacto estabelecido com Muwattali.
O novo general da diviso de Seth arriscou-se a confidenciar ao
monarca:
- Majestade, estamos desconcertados.
- Termos conseguido uma grande vitria no o enche de
satisfao?
- Estamos conscientes de que  o nico vencedor de Kadesh,
Majestade, en;o por que no atacarmos essa fortaleza?
-Porque no temos qualquer chance de tom-la. Teramos que
sacrificar pelo menos metade das nossas tropas sem termos a certeza
de que teramos xito.
- Durante quanto tempo teremos que permanecer parados
olhando para esta mal dita fortaleza?
-Estabeleci um acordo com Muwattali.
- Quer dizer. . . a paz?
-Foram impostas condies; se no forem satisfeitas, retoma-
remos os combates.
- Qual o prazo que lhe concedeu, Majestade?


- Expira no fim desta semana; saberei ento se a palavra do
imperador tem algum valor.
Ao longe, na estrada que vinha do norte, surgiu uma nuvem de
poeira. Aproximavam-se de Kadesh vrios carros hititas, carros que
talvez formassem a vanguarda de um exrcito de socorro, vindo para
libertar Muwattali e os seus.
Ramss acalmou a inquietao que se apoderava do seu acam-
pamento. Subindo em seu carro, atrelado a "Vitria em Tebas" e a "A
deusa Mut est satisfeita", o rei, acompanhado pelo seu leo, foi ao
encontro do batalho hitita.
Os arqueiros hititas permaneceram segurando as rdeas. A
reputao de Ramss e de Matador j se espalhara por todo o Hatti.
LIm homem desceu de um dos carros e avanou na direo do
fra.
344 RAMSS
Elegante, de andar leve, rosto esguio, um bigode fino e bem
cuidado, Acha esqueceu o protocolo e correu para Ramss.
O rei e o amigo abraaram-se, emocionados.
-A minha mensagem foi til, Majestade?
- Sim e no. No consegui atinar no devido tempo a sua
advertncia, mas a magia do destino funcionou a favor do Egito. E,
graas a voc, atinei rapidamente. Foi Amon que obteve a vitria.
-Julguei nunca mais ver o Egito; as prises hititas so sinistras.
Tentei convencer o adversrio que era cmplice de Chenar, o que deve
ter salvo a minha vida. Depois, os acontecimentos se precipitaram.
Ter morrido l teria sido uma indesculpvel falta de gosto.
- Devemos decidir pela trgua ou pela continuao das hosti-
lidades; a sua opinio me ser muito til.
Na tenda, Ramss mostrou a Acha o documento que o impera-
dor hitita lhe enviara.
Eu, Muwattali, sou o seu servidor, Ramss, e reconheo-o como o Filho
da Luz, dela sado, realmente dela sado. Omeu pas  seu servidor e est a
seus ps. Mas no abuse do seu poder!
' A sua autoridade  implacvel e provou-a conseauindo uma grande
vitria. Mas por que h6 de continuar exterminando o povo do seu servidor, por
que o dio o anima?
Visto que  vitorioso, admita que a paz  melhor do que a guerra e d aos
hititas o sopro da vida.
- LIm belo estilo diplomtico - apreciou Acha.
- A mensagem parece suficientemente explcita para o con-
junto dos pases da regio?
- LIma verdadeira obra-primal Que um soberano hitita seja
vencido em combate  inacreditvel, mas que reconhea a sua derrota
 um milagre novo a averbar em sua honra.
- No consegui apoderar-me de Kadesh.
- O que interessa esta praa forte? Venceu uma batalha deci-
siva. Muwattali, o invencvel, considera-se atualmente como seu
vassalo, pelo menos em palavras. .. Este ataque de humildade forada
servir ao seu prestgio com extraordinria eficcia.
A Batalha de Kadesh 345
Muwattali mantivera a sua palavra, redigindo um texto aceitvel
e libertando Acha. Ramss deu ordem, ento, ao seu exrcito para
levantar acampamento e tomar o caminho de volta para o Egito.
Antes de deixar o local onde tantos dos seus compatriotas
haviam perdido a vida, Ramss voltou-se para a fortaleza de onde
sairiam, livres e inclumes, Muwattali, o irmo e o filho. O fara no
conseguira destruir este smbolo do poder hitita, mas o que restaria
deste poder depois da clara derrota dos inimigos? Muwattali, de-
clarando-se servidor de Ramss... Quem teria ousado imaginar
semelhante vitria? O rei nunca esqueceria que s o auxiio do pai
celeste, a quem clamara em seu socorro, lhe permitira transformar
uma derrota em triunfo.
- No resta um nico egfpeio na plancie de Kadesh - disse
o chefe dos vigias.
- Mande batedores para o sul, leste e oeste - ordenou
Muwattali a seu filho, LIri-Techup. -Talvez Ramss tenha decorado
a lio e camuflado as suas tropas no bosque para nos atacar logo que
saiamos da fortalea.
- Durante quanto tempo continuaremos a fugir?
- Devemos regressar a Hattusa - respondeu Hattusil. - L


reconstituiremos as nossas tropas e reconsideraremos a nossa estra-
tgia.
- No  a um general derrotado que me dirijo- inflamou-se
Llri-Techup - e sim ao imperador dos hititas.
-Acalme-se, meu filho -interveio Muwattali. -Considero
que o general-chefe do nosso exrcito no desmereceu. Todos ns
subestimamos o poder pessoal de Ramss.
- Se me tivesse deixado agir, teramos vencidol
- Engana-se. O armamento egfpeio  de excelente qualidade,
e os carros do Fara so to bons quanto os nossos. O choque frontal
na plancie, que voc preconizou, ter-se-ia voltado contra ns, e as
nossas tropas sofreriam muito mais baixas.
- E voc se contentou com essa humilhante derrota. . .
346 RAMSS
- Conservaremos esta fortaleza, o Hatti no ser invadido e a
guerra contra o Egito continuar.
- Como poder continuar, depois do documento infamante
que assinou?
- No  um tratado de paz - precisou Hattusil - mas uma
simples carta de um monarca para outro. O fato de Ramss se
satisfazer com ela demonstra a sua inexperincia.
- Muwattali declara abertamente que se considera como vas-
salo do Fara.
Hattusil sorriu.
- Quando um vassalo dispe das tropas necessrias, nada o
impede de se revoltar.
Llri Techup enfrentou Muwattali com o olhar fixo no dele.
- No d mais ouvidos a esse incapaz, meu pai, e d-me os
plenos poderes militares! As manobras diplomticas e a astcia no
conduziro a nada. Eu, e s eu, sou capaz de esmagar Ramss.
- Regressemos a Hattusa - cortou o imperador. - O ar das
nossas montanhas ser propcio s nossas reflexes.
5
Com um potente salto, Ramss mergulhou no la o
g
onde Nefertari se banhava. O rei nadou por baixo d'gua e agarrou a
esposa pela cintura. Fingindo surpresa, ela deixou-se puxar para o
fundo e lentamente voltaram  superfcie, abraados. Vigilante, o co
amarelo-dourado, comeou a latir em torno do lago; j Matador
dormia  sombra de um sicmoro, com o pescoo adornado por uma
fina corrente de ouro que recebera em recompensa pela sua coragem.
Ramss no podia contemplar Nefertari sem se sentir enfeitia-
do pela sua beleza. Para alm da atrao dos sentidos e da comunho
dos corpos, um lao misterioso os unia, mais forte do que o tempo e
a morte. O suave sol de outono banhava-lhes o rosto com a sua luz
benfazeja, enquanto deslizavam na gua verde-azulada do lago. Quan-
do saram, Vigilante parou de latir e lambeu-lhes as pernas. O co do
monarca detestava gua e no compreendia a razo de o seu senhor
ter prazer em molhar-se daquela maneira. Depois de ser acariciado
pelo casal real, Vigilante aninhou-se entre as patas do enorme leo e
saboreou um bem merecido repouso.
Nefertari estava to desejvel que as mos de Ramss tornaram-
se ardentes, percorrendo o corpo perfeito da jovem rainha com o
entusiasmo de um explorador penetrando numa terra desconhecida.
A princpio, passiva, feliz por ser conquistada, e em instantes corres-
pondendo s provocaes do esposo amante.
Em todo o pas, Ramss tornara-se Ramss o Grande. Quando
regressou a Pi-Ramss, uma enorme multido aclamou o vencedor
348 RAMSS
da batalha de Kadesh, o fara que conseguira derrotar os hititas,
repelindo-os para o seu territrio. Urias semanas de festejos, tanto
nas aldeias quanto nas cidades, haviam permitido celebrar condigna-
mente essa formidvel vitria; dissipado o espectro de uma invaso,
o Egito entregava-se  sua instintiva alegria de viver, coroada por uma
cheia excelente, promessa futura de abundantes colheitas.
O quinto ano do reinado do filho de Sethi terminava com um
triunfo. A nova hierarquia militar era-lhe totalmente devotada, e a
corte, subjugada, inclinava-se perante o monarca. A juventude de
Ramss terminava; o homem de vinte e oito anos que governava as
Duas Terras possua a envergadura dos maiores soberanos e marcata


j a sua poca com um carimbo indelvel.
Apoiando-se em uma bengala, Homero foi ao encontro de Ramss.
-Terminei, Majestade.
- Deseja apoiar-se no meu brao e caminhar um pouco, ou
prefere sentar-se sob o seu limoeiro?
- Andemos um pouco. A minha cabea e a minha mo
trabalharam muito nestes ltimos tempos; agora  a vez das minhas
pernas.
- Esse novo trabalho Oobrigou a interromper a redao da
Ilada.
-  verdade, mas me proporcionou um magnfico tema!
- Como o abordou?
- Respeitando a verdade, Majestade, pois no ocultei nem a
covardia do seu exrcito, nem o seu combate solitrio e desesperado
,
nem o apelo ao seu divino pai. As circunstncias desta extraordinria
vitria inflamaram-me como se eu fosse um jovem poeta escrevendo
a sua primeira obra! Os versos cantavam nos meus lbios, e as cenas
ordenavam-se por si prprias. O seu amigo Ameni auxiliou-me muito
corrigindo alguns erros de gramtica; a lngua egpeia no  uma tarefa
fcil, mas a sua graciosidade e preciso so uma felicidade para um
poeta.
- A narrativa da batalha de Kadesh ser gravada na parede
externa sul da grande sala de colunas do templo de Karnak -revelou
Ramss - nas paredes externas do ptio do templo de Luxor e na
fachada da sua coluna principal, bem como nos muros externos do
A Batalha de Kadesh 349
templo de Abidos e no futuro ptio de entrada do meu templo de
milhes de anos.
- Ento, a pedra da eternidade guardar para sempre a recor-
dao da batalha de Kadesh.
-  ao deus oculto que assim pretendo honrar, Homero, e 
vitria da ordem sobre a desordem, a capacidade de a Regra dominar
o caos.
- Espanta-me, Majestade, e o seu pas tambm me espanta
todos os dias um pouco mais; no acreditava que a sua famosa Regra
o ajudasse a vencer um inimigo decidido a destru-lo.
- Se o amor de Mat deixasse de animar o meu pensamento e
a minha vontade, o meu reinado no tardaria a terminar, e o Egito
encontraria um novo rei.
Apesar da grande quantidade de alimentos que ingeria, Ameni
no engordava. Sempre magro, plido e com ar doentio, o secretrio
particular do rei j no saa do seu gabinete e, com uma equipe
restrita, ocupava-se de um impressionante volume de pastas. Dialo-
gando de forma muito direta com o vizir e os ministros, Ameni estava
ciente de tudo o que se passava no pas e por isso velava para que cada
um dos altos funcionrios desempenhasse de forma impecvel a tarefa
que lhe fora confiada. Para o amigo de infncia de Ramss, uma
perfeita administrao resumia-se num preceito simples: quanto mais
elevado era o posto, maiores seriam suas responsabilidades e mais
severo o castigo em caso de erro ou negligncia. Do ministro ao chefe
de servios, todos assumiam as faltas dos seus subordinados e paga-
vam por elas. Os ministros demitidos e os funcionrios despromovi-
dos haviam comprovado, eles mesmos, o rigor de Ameni.
Quando estava em Pi-Ramss, o soberano encontrava-se com
ele todos os dias. Quando o monarca partia para Tebas ou para Mnfis,
Ameni preparava relatrios pormenorizados que o rei lia com grande
ateno. Era ele quem resolvia e tomava todas as decises.
O escriba acabava de expor ao rei o seu plano de reforo dos diques
para o ano seguinte, quando Serramanna foi autorizado a entrar no
350
		gabinete de prateleiras cmregadas com papiros catalogados com extremo
		cuidado. O gigante sardo inclinou-se diante do soberano.
			-Ainda est zangado comigo? -perguntou Ramss.
	'		- Eu no teria abandonado Vossa Majestade no meio da
		confuso.
	i'...
			- Velar pela minha esposa e pela minha me era uma misso
da maior importncia.
- No discordo, mas teria gostado de estar ao seu lado e


massacrar hititas. A arrogncia desses indivduos exaspera-me; quan-
do algum pretende representar a elite dos guerreiros, no se refugia
numa fortaleza!
-O nosso tempo  precioso -interrompeu Ameni. -Quais
so os resultados das suas investigaes?
- Nenhum - respondeu Serramanna.
- Nenhum sinal?
I - Descobri a carroa e os cadveres dos guardas egfpeios, mas
no o de Chenar De acordo com o testemunho de mercadores que
se refugiaram numa cabana de pedra, a tempestade de areia foi muito
violenta e de longa durao. Fui at o osis de Khargeh e posso lhe
garantir que eu e os meus homens vasculhamos o deserto palmo a
palmo.
-Avanando s cegas - considerou Ameni. - Chenar pode
ter cado no leito de um osis seco, e o seu corpo ter ficado sepultado
sob uma tonelada de areia.
-  a opinio geral - concordou Serramanna.
- Mas no a minha - declarou Ramss.
- No havia qualquer possibilidade de sair daquele inferno,
Majestade; abandonando a rota principal, ele perdeu-se e no pode
ter lutado durante muito tempo contra a tempestade, a areia e a sede.
- O seu dio  to forte que lhe ter servido de bebida e de
alimento. Chenar no est morto.
O rei recolheu-se perante a esttua de Thot,  entrada do
Ministrio dos Negcios Estrangeiros, depois de ter colocado um
ramo de lrios e de papiros no altar das oferendas. Encarnado na
A Batalha de Kadesh 351
esttua de um babuno sentado com o crescente lunar sobre a cabea,
o deus do conhecimento mantinha o olhar erguido para o cu, para
alm das contingncias humanas.
 passagem de Ramss, os funcionrios do ministrio ergueram-
se e inclinaram-se. Acha, o novo ministro, veio abrir ele prprio a
porta do seu gabinete; o rei e o amigo, transformados em heris aos
olhos da corte, abraaram-se. A vinda do soberano era a evidente
demonstrao de estima que confortava Acha no seu papel de chefe
da diplomacia egpeia.
O seu gabinete era muito diferente do de Ameni. Ramos de rosas
importadas da Sfria, composies florais associando narcisos e mara-
vilhas, vasos de alabastro de formatos elegantes colocados sobre
mesinhas, lmpadas de p alto, arcas de madeira de accia e tapearias
coloridas formavam uma decorao requintada e cheia de cor, o que
se levava a compar-lo mais aos apartamentos privados de uma
suntuosa villo do que a um local de trabalho.
Com os olhos brilhantes de inteligncia, elegante, com uma
peruca leve e perfumada, Acha parecia o convidado de um banquete,
frvolo, mundano e um tanto desdenhoso. Quem poderia supor que
esse personagem da melhor sociedade fosse capaz de se transformar
num espio, disfarado sob as roupas de mercador, e percorrer os
caminhos hostis do pas hitita? Nenhuma acumulao de pastas
perturbara a atmosfera luxuosa do novo ministro, que preferia con-
servar as informaes essenciais na sua prodigiosa memria.
- Creio que vou ser obrigado a demitir-me, Majestade.
- Que falta grave cometeu?
- Ineficcia. Os meus servios no pouparam esforos, mas
Moiss continua impossfvel de se encontrar. E curioso. . . Geralmente
as lnguas se soltam. Em minha opinio, s h uma explicao: a de
que se refugiou num local perdido e no se mexeu de l. Se mudou
de nome e se integrou numa famlia de bedunos, ser muito difcil
identific-lo, acho mesmo que impossvel.
-Continue com as investigaes. E a rede de espionagem hitita
instalada no nosso territrio?
- O corpo da jovem loura foi inumado sem ter sido identifi-
cado; quanto ao mago, desapareceu. Com certeza conseguiu sair do
352 RAMSS
Egito. Tambm nesse caso no se ouve uma palavra;  como se os
membros da rede tivessem evaporado como por encanto. Escapamos
de um terrvel perigo, Ramss.
-Tero evaporado mesmo?
- Afirm-lo seria presuno - reconheceu Acha.
- No abrande a sua vigilncia.


- Interrogo-me sobre a capacidade de reao dos hititas -
confessou Acha. - A derrota humilhou-os, e as suas divergncias
internas so profundas. No se acomodaro na paz, mas precisaro
de vrios meses, talvez at anos, para retomarem o flego.
- Como tem se portado Meba?
- O meu augusto predecessor  um adjunto zeloso, que sabe
manter-se em seu lugar.
- Desconfie dele; como antigo ministro, no pode deixar de
lhe ter cimes. Que observaes esto fazendo os nossos chefes de
guarnies da Sria do Sul?
- Est tudo calmo, mas tenho uma confiana limitada na
lucidez deles.  por isso que parto amanh para a provncia de
Amurru.  l que devemos organizar uma fora de interveno
imediata destinada a impedir qualquer invaso.
58
Para acalmar a sua fria, a sacerdotisa Putuhe a
P
fechou-se no local mais sagrado da capital hitita, a cmara subterrnea
da cidade alta, escavada na rocha, perto da acrpole sobre a ual se
q
erguia a residencia do imperador. Muwattali, depois da derrota de
Kadesh, decidira manter  mesma distncia o irmo e o filho, e
reforava o seu poder pessoal, aFrmando-se como o nico capaz de
manter o equilbrio entre as faces rivais.
O teto da cmara subterrnea era abobadado, e as paredes,
ornadas de relevos, representando o imperador como guerreiro e
como sacerdote, tendo por cima um sol alado. Putuhepa dirigiu-se
para o altar dos Infernos, onde estava pousada uma espada manchada
de sangue.
Era ali que vinha procurar a inspirao necessria para salvaguar-
dar o marido da fria de Muwattali e permitir-lhe reconquistar as suas
boas graas. Por seu lado, LIri-Techup, que se mantinha ligado  casta
militar mais belicosa, no permaneceria inativo e tentaria eliminar
Hattusil ou at mesmo o pai, Muwattali.
Putuhepa meditou at a meia-noite, pensando apenas no marido.
O deus dos Infernos deu-lhe, ento, a resposta.
Reunindo o imperador Muwattali, seu filho Llri-Techup e o irmo
Hattusil, o conselho secreto foi palco de uma violenta discusso.
-Hattusil  o nico responsvel pela nossa derrota -afirmou
Llri-Techup. - Se eu tivesse comandado as tropas de coligao,
teramos esmagado o exrcito egpcio.
354 RAMSS
- Ns os esmagamos - lembrou Hattusil - mas quem
poderia prever a interveno de Ramss?
- Eu o venceria!
-No se gabe -interveio o imperador. -Ningum poderia
ter controlado a fora que o animava no dia da batalha. Quando os
deuses falam,  necessrio saber ouvir a sua voz.
A declarao de Muwattali impedia Llri-Techup de continuar no
caminho que escolhera; por isso o filho lanou uma ofensiva em outro
terreno.
- Qual a sua previso para o futuro, meu pai?
- Estou refletindo sobre isso.
-Esse no  o momento para reflexo! Fomos ridicularizados em
Kadesh e  necessrio reagir o mais rapidamente possvel. Confie-me o
comando do que resta das tropas coligadas e invadirei o Egito.
- Absurdo! - considerou Hattusil. - A nossa primeira
preocupao  conservar as nossas alianas. Os nossos coligados
perderam muitos homens, e o trono de diversos prncipes pode
vacilar se no os apoiarmos financeiramente.
- Conversa de velho! - retorquiu LIri-Techup. - Hattusil
procura ganhar tempo para disfarar a sua covardia e mediocridade.
- Modere a sua linguagem - exigiu Muwattali. - Seus
insultos so inteis.
-Basta de hesitaes, meu pai: exijo plenos poderes.
- Sou eu o imperador, ri-Techup, e voc no tem autoridade
para me ditar qual conduta a seguir.
-Fique com o seu mau conselheiro, se assim o desejar; quanto
a mim, retiro-me para os meus aposentos at que me d ordem para
conduzir nossas tropas  vitria.


Com passos nervosos, Llri-Techup saiu da sala de audincias.
-Ele no est completamente errado -reconheceu Hattusil.
- O que quer dizer?
- Putuhepa consultou as divindades dos Infernos.
- Qual foi a resposta delas?
- Devemos apagar o fracasso de Kadesh.
-Tem algum plano?
- Apresenta riscos que eu prprio assumirei.
A Batalha de Kadesh 355
-Voc  meu irmo, Hattusil, e a sua vida  preciosa para mim.
- No creio ter cometido qualquer erro em Kadesh, e a
grandeza do imprio  a minha mais ardente aspirao. Cumprirei
aquilo que os deuses dos Infernos exigem.
Nedjem, o jardineiro transformado em ministro da Agricultura
de Ramss o Grande, era tambm o preceptor de seu filho Kha;
fascinado com os dons da criana para a escrita e a leitura, permiti-
ra-lhe satisfazer o seu gosto pelo estudo e a pesquisa.
O ministro e o filho do rei entendiam-se perfeitamente, e
Ramss felicitava-se por esse mtodo de educao. Mas, pela primeira
vez, o calmo Nedjem sentia-se obrigado a contrariar uma ordem de
Ramss, sabendo que essa falta de respeito provocaria a sua demisso.
- Majestade. . .
- Estou ouvindo-o, meu bom Nedjem.
-Trata-se do filho de Vossa Majestade.
- Est pronto?
- Sim, mas. . .
- Estar doentel
- No, Majestade, mas. . .
- Ento, que venha imediatamente.
-Com o devido respeito, Majestade, no estou convencido de
que uma criana to jovem seja capaz de enfrentar o perigo ao qual
deseja exp-lo.
- Deixe que seja eu quem decida, Nedjem.
- O perigo. . . O perigo  considervel.
-Kha deve ir ao encontro do seu destino, seja ele qual for No
 uma criana como as outras.
O ministro compreendeu que era intil insistir
-s vezes lamento-o, Majestade.
O nortada soprava sobre o Delta, mas no conseguia expulsar as
pesadas nuvens negras carregadas de chuva. Sentado atrs do pai, que
montava um soberbo cavalo cinzento, o pequeno Kha tiritava.
356 RAMSS
- Estou com frio, pai; no podemos ir mais devagar?
- Estamos com pressa.
- Aonde est me levando?
- Para ver a morte.
-A bela deusa do Ocidente, de sorriso to doce?
- No, essa  a morte dos justos e voc ainda no  um deles.
- Mas quero tornar-me!
- Pois bem, ultrapasse a primeira etapa.
Kha cerrou os dentes. Nunca decepeionaria o pai.
Ramss deteve-se perto de um canal cuja ligao com um brao
do Nilo era assinalada por um pequeno santurio de granito. O local
parecia tranqilo.
- A morte est aqui?
- Est no interior deste monumento; se tem medo, no v l.
Kha saltou do cavalo e rememorou as frmulas mgicas apren-
didas nos contos, as quais eram destinadas a conjurar os perigos.
Uoltou-se para o pai, mas Ramss permaneceu imvel. Kha com-
preendeu que no teria qualquer auxlio da parte do Fara; ir ao
santurio era a sua nica alternativa.
LIma nuvem ocultou o sol, e o cu escureceu. A criana avanou,
hesitante, e estacou na metade do seu objetivo. Na entrada, uma cobra
negra, com a cabea larga e mais de um metro de comprimento,
parecia decidida a atac-lo.
Petrificada, a criana no se atreveu a fugir
A cobra avanou para ela.
Em breve o rptil a atacaria. Murmurando as velhas frmulas,
tropeando nas palavras, o menino fechou os olhos no momento em
que o rptil preparava o bote.


Llma vara bifurcada prendeu-a no cho.
- Esta morte no era para voc - declarou Setaou. - U ao
encontro de seu pai, pequeno.
Kha fitou Ramss direto nos olhos.
- Foi por ter recitado as frmulas certas que a cobra no me
mordeu... Hei de tornar-me um justo, no  verdade?
A Batalha de Kodesh 357
J
Instalada numa confortvel poltrona e saboreando o doce calor
do sol de inverno que nimbava de ouro as rvores do seu jardim
particular, Touya conversava com uma volumosa mulher morena
quando Ramss veio visitar a me.
- Dolente! - exclamou o rei, reconhecendo a irm.
- No seja severo - recomendou Touya. - Ela tem muita
coisa para lhe dizer.
De rosto fatigado, desfalecida, plida, Dolente atirou-se aos ps
de Ramss.
- Perdoe-me, suplico-lhe!
- Sente-se culpada, Dolente?
-Aquele maldito mago enfeitiou-me. . . Tinha acreditado que
fosse um homem de bem.
- E quem ?
- LIm lfbio, perito em feitiaria. Seqestrou-me numa casa de
Mnfis e forou-me a segui-lo quando fugiu. Se no obedecesse,
cortava-me o pescoo.
- Por que tanta brutalidade?
- Porque. . . Porque. . .
Dolente rebentou em soluos; Ramss ergueu-a e ajudou-a a
sentar-se.
- Explique-se.
- O mago... O mago matou uma criada e uma jovem loura
que lhe servia de mdium. Eliminou-as porque se recusavam a obe-
decer-lhe e a ajud-lo.
-Assistiu ao crime?
- No, estava trancada. . . Mas vi os cadveres quando samos
da casa.
- Por que esse mago a mantinha prisioneira?
- Acreditava nas minhas qualidades de mdium e tencionava
servir-se de mim contra voc, meu irmo! Drogava-me e fazia-me
perguntas sobre os seus hbitos... Mas fui incapaz de responder.
358 RAMSS
Quando se dirigiu para a Lbia, libertou-me. Vivi momentos terrveis,
Ramss; estava convencida de que ele no me pouparial
- Concorda que foi imprudente?
- Lamento, meu irmo, se soubesse como lamento!
- No abandone a corte de Pi-Ramss
59
Acha conhecia bem Benteshina, o prncipe da pro-
vncia de Amurru. Pouco sensvel  palavra dos deuses, preferia o
ouro, as mulheres e o vinho. No passava de um homem corrupto e
venal, apenas preocupado com o seu bem-estar e os prazeres.
Como Amurru fora escolhida para desempenhar um papel
estratgico de primeiro plano, o chefe da diplomacia egpeia no
poupara recursos para garantir a ativa colaborao de Benteshina. Em
primeiro lugar, o prprio Acha se deslocava, em nome do Fara, para
assim testemunhar a estima que o rei dedicava ao prncipe; depois,
trazia-lhe uma aprecivel quantidade de mercadorias valiosas, espe-
cialmente tecidos de luxo, jarros com vnhos de qualidade, loua de
alabastro, armas de grande aparato e mveis dignos da corte imperial.
A maior parte dos soldados egpcios acantonados em Amurru
tinha sido recrutada do exrcito de socorro, cuja interveno se
revelara decisiva em Kadesh; de regresso ao Egito, gozavam de longas
frias antes de retornarem ao servio. Acha comandava, por esse
motivo, um destacamento de cinqenta oficiais instrutores encarre-
gados de treinar as tropas locais antes da chegada de um efetivo de
mil soldados de infantaria e de arqueiros de Pi-Ramss, que fariam
de Amurru uma slida base militar
Acha embarcara em Peluse e tomara o rumo norte; ventos
favorveis e um mar calmo haviam tornado a viagem agradvel. A
presena a bordo de uma jovem sfria aumentara o encanto da viagem.


Quando o barco egpcio entrou no porto de Beirute, o prncipe
Benteshina, rodeado por seus cortesos, esperava-o no cais. Qn-
quagenrio jovial e volumoso, exibindo um bigode negro e luzidio,
360 RAMSS
beijou Acha nas faces e multiplicou-se em louvores sobre a prodigiosa
vitria de Ramss o Grande sobre Kadesh, modificando de forma
radical o equilbrio do mundo.
- Que carreira soberba, meu caro Acha! 'Io jovem, e j
ministro dos Negcios Estrangeiros do poderoso Egito. . . Curvo-me
perante voc.
- No  necessrio; vim como amigo.
- Ficar no meu palcio, e todos os seus desejos sero reali-
zados.
O olhar de Benteshina iluminou-se.
-Deseja. . . uma jovem virgem?
- Quem seria suficientemente louco para desdenhar das ma-
ravilhas da natureza? Veja estes modestos presentes, Benteshina, e
diga-me se lhe agradam.
Os marinheiros descarregaram os objetos que traziam.
Benteshina, volvel, no ocultou a sua satisfao; a viso de um
leito de notvel delicadeza arrancou-lhe uma exclamao prxima da
beatitude.
- Vocs, egpcios, conhecem bem a arte de viver! Estou vido
para experimentar esta maravilha. . . E no ser sozinho!
Como o prncipe estava com excelente disposio, Acha apro-
veitou o momento para lhe apresentar os oficiais instrutores.
-Como fiel aliado do Egito, dever ajudar-nos a construir uma
frente defensiva que proteger Amurru e dissuadir os hititas de
atac-lo.
-  s o que eu quero - afirmou Benteshina. - Estou
cansado de conflitos, pois prejudicam muito o comrcio. O meu povo
quer ser protegido.
-Dentro de algumas semanas, Ramss lhe enviar um exrcito;
daqui at l estes instrutores formaro os seus prprios soldados.
- Excelente, excelente. . . O Hatti sofreu uma pesada derrota,
e Muwattali est enfrentando uma luta interna com o filho, LIri-Te-
chup, e o irmo, Hattusil.
- Para quem pendem as preferncias da casta dos guerreiros?
- Ela tambm parece dividida; tanto um quanto Ooutro tm
os seus partidrios. Por ora, o imperador mantm uma aparente
A Batalho de Kadesh 361
coeso, mas no se pode excluir a possibilidade de um golpe de
Estado. E, depois, alguns membros da coligao de Kadesh lamentarn
terem sido arrastados para uma aventura desastrosa, cara em homens
e em material. . . Alguns procuram um novo senhor, que bem poderia
ser o Fara.
- Soberbas perspectivas.
- E, para voc, prometo-lhe uma noite inesquecvel!
Ajovem libanesa, de seios fartos e quadris largos, deitou-se sobre
Acha e massageou-o suavemente, com movimentos do corpo para
frente e para trs. Todos os pontos de sua pele eram perfumados, e a
floresta do seu sexo louro exibia uma paisagem encantadora.
Embora j tivesse travado vrios combates vitoriosos, Acha no
ficou passivo. Logo que a massagem da jovem libanesa produziu o
efeito desejado, f-la rolar de lado. Encontrando de imediato O
delicioso caminho da sua intimidade, dividiu com ela um novo
momento de intenso prazer. H muito que a jovem no era virgem
,
mas a cincia de suas carcias supria com vantagem esse irremedivel
detalhe. Nem ele nem ela haviam pronunciado uma s palavra.
- Deixe-me - disse ele. - Tenho sono.
A jovem ergueu-se e saiu do amplo quarto que dava para um
jardim. Acha j a esquecera, pensando nas revelaes de Benteshina
a respeito da coligao formada por Muwattal, e que parecia prestes
a desfazer-se. Manipular bem seria difcil, mas excitante.
Para que outra grande potncia se voltariarri os dissidentes, se
perdessem a confiana no imperador do Hatti? Para o Egito tinha
certeza que no. O pas dos faras ficava demasiado longe, e a sua
mentalidade era muito diferente da dos pequenos principados da
sia, belicosos e instveis. Uma idia surgiu na mente do diplomata,


uma idia to inquietante que lhe deu vontade de consultar imedia-
tamente um mapa da regio.
A porta do quarto abriu-se.
Entrou um homem baixinho, franzino, com os cabelos presos
por uma Ftta, um discreto colar de prata no pescoo e uma pulseira
362 RAMSS
no cotovelo esquerdo; estava vestido num traje de tecido multicor
quelhe deixava os ombros nus.
- O meu nome  Hattusil e sou o irmo de Muwattali, o
imperador do Hatti.
Acha ficou por momentos desconcertado. A fadiga da viagem e
da luta amorosa estaria lhe provocando uma alucinao?
- No est sonhando, Acha; sinto-me feliz por travar conheci-
mento com o chefe da diplomacia egpeia e um amigo muito prximo
de Ramss o Grande.
- Voc, em Amurru. . .
- Voc  meu prisioneiro, Acha. Qualquer tentativa de fuga 
impossvel. Os meus homens capturaram seus oficiais, sua tripulao
e seu barco. O Hatti  de novo o senhor da provncia de Amurru.
Ramss fez mal em subestimar a nossa capacidade de reao; como
chefe da coligao derrotada em Kadesh, sofri uma humilhao
insuportvel. Sem a espantosa clera de Ramss e a sua coragem
insensata, eu teria exterminado o exrcito egpcio.  por isso que
tenho de provar o mais rapidamente possvel o meu verdadeiro valor,
e intervir com eficcia enquanto vocs repousam sobre os louros da
vitria.
- O prncipe de Amurru traiu-nos mais uma vez.
- Benteshina vende-se a quem mais lhe oferece; est no seu
sangue. Esta provncia nunca mais ficar sob o domnio do Egito.
- Est esquecendo a fria de Ramssl
- Pelo contrrio, temo-a;  por isso que evitarei provoc-la.
- Logo que ele souber que as foras hititas ocupam Amurru,
intervir. E estou convencido de que ainda no tiveram tempo de
recompor um exrcito capaz de lhe resistir.
Hattusil sorriu.
-A sua perspiccia  terrvel, mas ser intil, porque, quando
Ramss vier a saber a verdade, ser tarde demais.
- O meu silncio ser eloqente.
- Engano seu, Acha, pois ir escrever a Ramss uma carta
tranqilizadora, explicando-lhe que sua misso diplomtica se efetua
como estava previsto e que os seus instrutores esto realizando um
bom trabalho.
A Batalha de Kadesh 363
-Em outras palavras, o nosso exrcito avanar confiante para
Amurru e cair numa emboscada.
- Esta  uma parte do meu plano.
Acha tentou ler o pensamento de Hattusil. Ele sabia de todas as
qualidades e defeitos dos povos da regio, das suas aspiraes e dos
seus dios. O egpcio vislumbrou, ento, a verdade.
-Mais uma srdida aliana com os bedunos!
- No h melhor soluo - aprovou Hattusil.
-Mas so ladres e assassinos...
- Eu sei; mas me sero teis para espalhar a confuso entre os
aliados do Egito.
- No acha imprudente confiar-me semelhantes segredos?
- Em breve deixaro de ser segredos para passarem a ser
realidades. Vista-se, Acha, e siga-me; tenho uma carta a lhe ditar
- E se eu recusar escrev-la?
- Morrer.
- Estou preparado.
-No, no est. LIm homem que ama as mulheres como voc
no est preparado para renunciar aos prazeres da vida por uma causa
j perdida. Escrever essa carta, Acha, porque deseja viver.
O egpcio hesitou.
- E se eu obedecer?
- Ficar numa priso que, espero, seja confortvel, e sobrevi-
ver.
- Por que no me mata logo?
- No mbito de uma negociao pontual, o chefe da diploma-
cia egpeia ser uma boa moeda de troca. O mesmo que aconteceu


em Kadesh, no  verdade?
- Est me pedindo para trair Ramss.
-Agir obrigado. . . no considero verdadeiramente uma traio.
-A vida salva. . . No  uma promessa demasiado generosa?
- Tem a minha palavra, perante os deuses do Hatti, em nome
do imperador.
- Escreverei a carta, Hattusil.
As sete filhas do sacerdote de Madi, inclusive a
esposa de Moiss, tiravam gua do poo e enchiam os bebedouros
para saciarem a sede do rebanho do pai, quando uma dezena de
bedunos a cavalo irrompeu no osis. Barbudos, armados com arcos
e punhais, pareciam anmados das piores intenes.
O rebanho dispersou-se, e as sete moas correram para o abrigo
de suas tendas; o velho apoiou-se  sua bengala e en&entou os recm-
chegados.
-  o chefe desta comunidade?
- Sou.
- Quantos homens vlidos h aqui?
- Eu e um pastor de carneiros.
-Cana vai revoltar-se contra o Fara, com o apoio dos hititas;
graas a eles, disporemos de uma terra. Todas as tribos devem aju-
dar-nos a combater os egpcios.
- No somos uma tribo, mas uma famMia que reside aqui, em
paz, h vrias geraes.
- Chame o seu pastor
- Est na montanha.
Os bedunos falaram entre si.
- Voltaremos - declarou o chefe do grupo. - Nesse dia
vamos lev-lo conosrn e ele combater. Caso contrrio, soterraremos
o seu poo e queimaremos suas tendas.
366 RAMSS
J
Moiss entrou em sua tenda ao cair da noite. A esposa e o sogro
levantaram-se.
- Onde estava? - perguntou ela.
- Na montanha santa, onde o Deus dos nossos pais revela a
Sua presena. Falou-me da misria dos hebreus no Egito, do meu
povo subjugado  autoridade do Fara, dos meus irmos que se
lamentam e desejam libertar-se da opresso.
- H coisas mais graves - revelou o sacerdote de Madi. -
Chegaram aqui bedunos e querem alist-lo para que participe da
revolta de Cana contra o Fara, assim como todos os homens vlidos
da regio.
- Isso  loucura. Ramss esmagar essa revolta.
- Mesmo estando os hititas ao lado dos revoltosos?
- No foram derrotados em Kadesh?
- Foi o que contou o pessoal das caravanas - reconheceu o
sacerdote - mas. . . poderemos confiar neles? Tem de esconder-se,
Moiss.
- Os bedunos o ameaaram?
- Se no combater com eles, vo nos matar a todos.
Zpora, a esposa de Moiss, agarrou-se ao marido.
-Uai partir, no  verdade?
- Deus ordenou-me que regressasse ao Egito.
- L, ser julgado e condenado! - lembrou-lhe o velho
sacerdote.
- Irei com voc - decidiu Zpora - e levaremos o nosso filho.
-A viagem pode ser perigosa.
- No quero saber disso. Voc  o meu marido e eu sou a sua
mulher.
O velho sacerdote tornou a sentar-se, acabrunhado.
-Descanse -predisse Moiss. -Deus velar pelo seu osis.
Os bedunos no voltaro.
- Que me importam os bedunos, se nunca mais voltarei a ver
voc, a minha filha e o meu neto?
A Batalha de Kadesh 367
-Est dizendo a verdade. D-nos o beijo do adeus e confiemos
nossas almas ao Senhor.
Em Pi-Ramss, os templos preparavam as festas do corao do
inverno, durante as quais a energia secreta do universo regeneraria as


esttuas e os objetos utilizados durante os rituais. Estando esgotada a
fora que os animava, o casal real devia se comunicar com a luz e em
seguida fazer subir as otrendas para Mat, a coerncia do niverso.
A vitria de Kadesh tranqilizara os egpcios. Ningum mais
consideraria o exrcito hitita invencvel, e todos sabiam que Ramss
era capaz de repelir o inimigo e preservar a felicidade cotidiana.
A capital embelezava-se. Os principais templos - de Amon,
Ptah, Ra e Seth - cresciam ao ritmo dos malhos e dos cinzis dos
talhadores de pedra, as villas dos nobres e dos altos funcionrios
rivalizavam em beleza com as de Tebas e de Mnfis, a atividade do
porto era incessante, os armazns regurgitavam de riquezas, e a oficina
especializada produzia mosaicos azuis envernizados para o adorno das
fachadas das casas de Pi-Ramss, justificando assim a sua re uta o
de "cidade de turquesa".
Llma das diverses favoritas dos habitantes da capital consistia
em percorrer de barco os canais ricos em peixe e pescar com linha;
trincando suculentas mas provenientes de um dos pomares dos
luxuriantes arredores, os pescadores deixavam-se ir ao sabor da
corrente, admirando os jardins floridos na orla do canal, os vos dos
bis, dos flamingos rosados e dos pelicanos, e muitas vezes esquecen-
do-se do peixe que mordia o anzol.
Manejando ele prprio os remos, Ramss levara a filha Merita-
mon para passear, e tambm o filho Kha, que no deixara de contar
 irm o seu encontro com a cobra. O jovem exprimira-se em termos
comedidos, sem exageros. Depois daquelas horas de descontrao,
Ramss tencionava reencontrar-se com Nefertari e Iset a Bela, a quem
a grande esposa real convidara para jantar.
Ameni aguardava-o no desembarcadouro.
Para que o escriba se afastasse do seu gabinete, o motivo teria
que ser muito grave.
368 RAMSS
- Llma carta de Acha.
- Inquietante?
- Leia voc mesmo.
Ramss confiou os filhos a Nedjem, sempre receoso dos incidentes
durante asviagens de barco, e mesmo durante os passeios fora dosjardins
do palcio; o ministro da Agricultura segurou as crianas pela mo,
enquanto Ramss desenrolava o papiro que Ameni lhe estendia.
Ao fara do ESito, da parte de Acha, ministro dos Negcios Estranaeiros.
De acordo com as ordens de Sua Majestade, encontrei-me com o prncipe de
Amurru, &nteshina, que me reservou o melhor acolhimento. Os nossos ciais
instrutores, tendo  frente um escribo real educodo, como voc e eu, na universidade
de Tebas, comearam a, formar o exrcito libans. Tal como supnhamos, os hititas
retiraram-se mais para o norte depois da sua derrota de Kadesh. No entanto, no
devemos abrandar a vigilncia. As foras locais no sero suficientes se, no futuro,
houver uma tentativa de invaso. Toma-se, portanto, indispensvel enviar, sem
demora, um regimento bem armado a fim de implantar uma base defensiva que
Saranta uma paz duradourct e a seaurana do nosso pas.
Possa a sade do Fara permanecer excelente.
O rei enrolou o documento.
-  a letra de Acha.
- Concordo, mas. . .
- Foi Acha quem escreveu este texto, mas forado.
-Tambm  a minha opinio -confirmou Ameni. -Ele nunca
teria escrito que vocs dois fizeram os estudos na universidade de Tebas!
- Concordo, visto que foram em Mnfis. E Acha tem uma
excelente memria.
- O que significa este erro?
- Que est prisioneiro em Amurru.
- O prncipe Benteshina ter enlouquecido?
- No, ele tambm age obrigado, certamente depois de ter
negociado o seu apoio.
- Devemos entender. . .
- O contra-ataque dos hititas foi fulgurante - considerou
Ramss. - Apoderaram-se de Amurru e estendem-nos uma nova
A Batalha de Kadesh 369
armadilha. Sem a inteligncia de Acha, Muwattali teria conseguido
vingar-se.
- Imagina que Acha ainda esteja vivo?
-No sei, Ameni. Com o auxMio de Serramanna, vou preparar


imediatamente o envio de um comando de elite. Se o nosso amigo
estiver prisioneiro, ns o libertaremos.
Quando o Fara deu ordem ao contramestre principal da fun-
dio para retomar a produo intensiva de armas de ataque e defesa,
a informao espalhou-se, em algumas horas, pela capital e, em
poucos dias, por todo o Egito.
Para que velar a face? A vitria de Kadesh no bastara para quebrar
o mpeto de conquista dos hititas. As quatro casernas de Pi-Ramss
foram colocadas em estado de alerta, e os soldados compreenderam que
no tardariam em tornar a partir rumo ao norte para novos combates.
Durante um dia e uma noite Ramss permaneceu s, fechado
em seu gabinete. De madrugada, subiu ao terrao do palcio para
contemplar o seu astro protetor, que renascia depois dos encarnia-
dos combates contra o drago das trevas.
No ngulo oriental do terrao, sentada no parapeito, estava
Nefertari, pura e bela na claridade rosada do amanhecer.
Ramss apertou-a contra si.
-Julgava que a vitria de Kadesh havia aberto uma era de paz
,
mas foi exagero da minha parte. H sombras girando ao nosso redor:
de Muwattali, de Chenar, que talvez esteja vivo, desse mago lbio que
fugiu, de Moiss, cujo paradeiro no consigo descobrir, e de Acha
risioneiro ou morto em Amurru. . . Seremos suficientemente fortes
P ,
para resistir  tempestadet
- O seu papel consiste em segurar o leme do barco, seja qual
for a fora do vento. No tem tempo nem direito de duvidar Se a
corrente for contrria, voc a enfrentar, ns a enfrentaremos.
Erguendo-se no horizonte, o sol iluminou, com os seus primei-
ros raios, as figuras da grande esposa real e de Ramss, o Filho da Luz.
fim do Yolume 3
Impresso no Brasil pelo
Sistema Cameron da Diviso Grfica da
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 585-2000

